2009 abril | Balaio do Kotscho
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Arquivo de abril, 2009

30/04/2009 - 08:29

Filhos das excelências nas escolas públicas

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Atualizado às 13h40 do dia 1º/5

Só agora, começo da tarde de sábado, encontrei uma lan house no Café Maringá, em Bocaina de Minas, para liberar os comentários. Onde estou hospedado, em Visconde de Mauá, no meio do mato, não pega nem celular. Por isso, a demora.

Mas valeu a pena ler os mais de 100 comentários que chegaram para o post com o artigo do senador Cristovam Buarque publicado aí abaixo _ no mais rico e qualificado debate desde que o Balaio entrou no ar em setembro do ano passado.

Depoimentos de professores, de pais de alunos e ex-estudantes de escola pública fornecem material para uma alentada discussão sobre os rumos do ensino no país. A maioria apóia a idéia de Cristovam, mas é cética quanto à sua aprovação pelos atuais parlamentares.

Pela primeira vez, não tive que excluir nenhum comentário, o que me deixa muito feliz e prova que a internet pode ser um belo fórum para o debate de idéias que não têm espaço na grande mídia. 

Um dos leitores do Rio de Janeiro, Renan Doyle (aqui quase todos mandam seus comentários com seus nomes verdadeiros e completos), das 11H50 de hoje, resumiu no final do seu comentário o sentimento geral:

“Povo culto é povo questionador, e isto nenhum político quer, pois não se elegeriam e a mamata acabaria”. 

Aos leitores:

viajo hoje, sexta-feira, para ir a um casamento em Visconde de Mauá, no Rio, e só volto no domingo. Não sei se lá será possível conectar a internet.

Por isso, não sei quando conseguirei fazer a moderação de comentários. Pretendo descansar um pouco, depois de passar várias semanas, incluindo fins de semana, direto no computador, que fica ligado das 9 da manhã às 11 da noite, e também precisa de uma folga.

Bom feriadão a todos. Deixo com vocês um instigante artigo do Cristovam Buarque que vale a pena ler.

Todo ano, tão certo como acontece no Carnaval, na Páscoa e no Natal, as manchetes sobre os resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) se repetem:

Folha: “Enem expõe desigualdade entre públicas e privadas _ Entre as 20 instituições mais bem colocadas no exame, 15 são particulares”.

O Globo: “Enem mostra a falência das escolas públicas nos Estados”.

Como mudar este quadro?

O senador-professor Cristovam Buarque, aquele eterno sonhador que sonha de olhos abertos, tem uma proposta: obrigar suas excelências, os políticos eleitos pelo povo, a matricular seus filhos em colégios públicos.

Ah, mas eles não vão querer, dirá o leitor mais cético ou realista, como queiram, com toda razão. Mas, que a idéia é muito boa, não tem dúvida. Se este projeto por milagre fosse aprovado, eles certamente se preocupariam mais em oferecer nas escolas públicas um ensino de qualidade para seus filhos.

Educação pública passaria a ser, de uma hora para outra, prioridade nacional.

Como não custa nada sonhar com um futuro melhor para o país, o Balaio publica abaixo com exclusividade este artigo escrito pelo meu amigo Cristovam Buarque. 

O leitor vai encontrar nele bons argumentos para defender sua proposta de colocar os filhos dos eleitos nas escolas públicas onde estudam os filhos dos seus eleitores. Quem sabe, desta forma, um dia possam mudar as manchetes de todo ano sobre o Enem.

O que os amigos do Balaio pensam deste projeto? Tem alguma chance de ser aprovado? Se os leitores/eleitores se manifestarem, talvez suas excelências possam se tocar para, pelo menos, colocar em discussão a escola pública. Nunca é demais sonhar _ e fazer alguma coisa para mudar a realidade.

Artigo para Blog do Kotscho

 

Cristovam Buarque

 

 

Meu pai e minha mãe não eram católicos praticantes, mas meu irmão e eu estudamos em colégios religiosos: maristas.

Além da proximidade da escola em relação a nossa casa, a principal justificativa é de que as vagas nas poucas escolas públicas já estavam preenchidas com os filhos das pessoas influentes, especialmente os deputados, senadores, vereadores, seus apadrinhados, ricos e bem conectados.  

Ainda mais: as escolas religiosas eram baratas, os professores, missionários sem família nem salário. Não pagavam aluguel, nem impostos; os equipamentos eram apenas quadro negro e um simples laboratório de química e física.

Hoje, quando se propõe que os eleitos deveriam colocar seus filhos na escola pública, onde estudam os eleitores, a idéia é considerada demagógica.

Em 40 ou 50 anos, desde que a população pobre migrou à cidade e colocou seus filhos na escola pública, a parcela rica, inclusive os parlamentares, migraram para a escola privada.

A partir daí, a escola pública foi abandonada, entregue aos municípios.

Em pouco tempo, consolidou-se a ideia de que a apartação era legítima: ricos que podem pagar têm o direito de estudar em escolas particulares de qualidade; pobres, que não podem pagar, ficam em escolas ruins, precárias, sem equipamento, com professores mal pagos e desestimulados.

Quando se considera demagógica a ideia de fazer com que filhos de pobres e ricos, de eleitores e de eleitos, estudem na mesma escola, é porque se considera essa apartação legítima. Isso lembra o discurso de quem era contra a Abolição da escravatura, há 300 anos.

Quando, depois de 300 anos, surgiu a idéia da Abolição, ela foi vista como demagógica, impossível, injustificável.

Os argumentos então eram muitos. Primeiro, como considerar negros com direitos iguais aos brancos? Como fazer funcionar a economia sem escravos? Como tirar dos senhores o direito à propriedade que eles tinham comprado?

Pouco a pouco, a idéia virou realidade, ficou aceita e possível. Terminou acontecendo. Os proprietários foram desapropriados; os negros tiveram, é certo que apenas na lei, os mesmos direitos; e a economia não parou, ao contrário, adquiriu uma nova dinâmica.

O mesmo vai acontecer com a idéia da escola igual para filhos de eleitores e de eleitos. Terminará aceita, e trará um inegável impacto positivo na educação pública e, a partir daí, na democracia social ainda incompleta no Brasil.

Além disto, é uma maneira de comemorar os 120 anos da República: não é uma República plena aquela que tem uma escola para os eleitos diferente da escola dos seus eleitores.

 

 

                                     Brasília-DF, 29 de abril de 2009

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/04/2009 - 10:34

Para Ibope, doença de Dilma nada altera

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Aos leitores:

esta matéria foi originalmente publicada em “off”. Agora, às 14h40, foi atualizada em “on”.

Os pesquisadores do Ibope só irão a campo daqui a uns dez dias para saber o que muda no quadro da sucessão presidencial após a revelação da doença da ministra Dilma Roussef, provável candidata do governo.

“Não muda nada”, assegurou-me ontem à noite Carlos Augusto Montenegro, o homem do Ibope, um dos mais antigos e respeitados analistas de pesquisas políticas do país. Em meia hora de conversa, ele me deu o seguinte cenário, mesmo antes de ter em mãos os números desta nova pesquisa.

* Dilma deve, num primeiro momento, manter os mesmos índices anteriores. A transferência de votos do presidente Lula para ela chegará mais adiante a um patamar de 15%. A partir daí, será difícil conquistar cada ponto a mais.

* O mesmo vale para qualquer outro candidato do governo na lista que será pesquisada para saber quem teria mais chances na eleição, caso Dilma seja obrigada a desistir da campanha, e Lula tenha que buscar outro nome. Tarso, Ciro, Palocci, Patrus, Haddad, qualquer um deles receberia o mesmo índice de transferência de votos e teria a mesma dificuldade para crescer a partir daí.

* A campanha de 2010 deverá mesmo ficar polarizada entre o candidato do governo e o candidato da oposição. Sem candidato, mais uma vez, o PMDB se dividiria meio a meio entre os dois lados da disputa. Ciro Gomes só seria candidato, em caso de desistência de Dilma, se for apoiado por Lula. Heloísa Helena e Cristovam Buarque desta vez não teriam espaço para suas candidaturas.

* O candidato da oposição será o tucano José Serra, do PSDB, que mantém seu amplo favoritismo na corrida presidencial e tem chances de vencer já no primeiro turno. As prévias do PSDB cobradas por Aécio Neves devem mesmo ficar para fevereiro, quando as pesquisas já devem apontar uma clara definição no quadro sucessário.

* A análise é a mesma feita antes das eleições municipais de 2008: assim como em 2002 era “a vez de Lula”, em 2010 será “a vez do Serra”, segundo Montenegro, e nada indica uma mudança brusca no cenário.

* Para ele, a “Era do PT” acabou no episódio do mensalão, que engoliu suas principais lideranças, embora o presidente Lula tenha mantido e até ampliado seu prestígio de lá para cá. Por isso, acredita que em 2010 não haverá nenhum nome do partido capaz de impedir a vitória de José Serra. Confrontado com os números das pesquisas em fevereiro de 2010, Aécio poderia escolher entre ser seu vice ou se candidatar ao Senado por Minas.

* Qualquer que seja o resultado da eleição e o efeito da crise econômica mundial no país, ele acredita que Lula deixará o Palácio do Planalto pela porta da frente, festejado pela população. “Ele já entrou para a História como um dos nossos três maiores presidentes da República, ao lado de Getúlio e Juscelino. Ninguém tem uma história igual à dele e a vida da maioria da população melhorou no governo do Lula, o país mudou”.

É bom deixar bem claro, antes que os leitores comecem a me chamar de tucano, que o cenário desenhado acima pelo homem do Ibope não reflete desejos ou torcidas, nem da parte dele nem da minha, mas apenas uma análise realista do processo sucessário.

Ao contrário, como se trata de uma disputa com final bastante previsível, meu interlocutor acredita que terá poucas encomendas de pesquisas no próximo ano _ o que seria ruim para seu próprio negócio.

Enfim, eles se tocaram

Não é nada, não é nada, não chega a ser nenhuma maravilha de moralização, mas dois fatos ocorridos ontem mostram que finalmente eles se tocaram que aquela farra com o dinheiro público não poderia continuar.

Na mesma segunda-feira, sob o comando de Michel Temer, a Câmara limitou o uso das cotas de passagens aéreas e Luciana Cardoso pediu demissão do seu cargo no Senado.

Mas ninguém pediu desculpas pelo que aconteceu antes, muito menos se falou em punições ou em devolver o dinheiro aos cofres públicos. Ao contrário, ambos procuraram justificar seus atos como a coisa mais normal do mundo.

Para anistiar o passado das maracutaias a granel, o presidente da Câmara teve a coragem de dizer:

“Em primeiro lugar, nunca houve farra. Existia um sistema normativo anterior e agora vamos minimizar o noticiário”.

Então tá bom, não se fala mais no assunto…

Luciana Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que desde 2003 trabalhava sem sair de sua casa como secretária parlamentar do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), explicou que pediu demissão para “evitar constrangimentos” ao seu chefe. “Não quero que pairem dúvidas sobre seus propósitos nem sobre minha conduta”, escreveu ela na carta entregue ao senador.

Há controvérsias… Para explicar porque nunca aparecia no gabinete do seu chefe no Senado, Luciana afirmou em entrevista à Folha que “o Senado era uma bagunça” e sua função era “cuidar das coisas pessoais do senador”, o que poderia fazer em casa.

O problema é que o Ministério Público pediu ao Tribunal de Contas da União para investigar se ela era funcionária-fantasma e o processo pede a devolução do dinheiro que recebeu durante estes cinco anos. Não era pouco: R$ 7.600 por mês, fora os benefícios.

Depois de tanto barulho, alguma coisa se move. Resta saber em que direção.

 

 

 

 

   

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/04/2009 - 12:15

O Caso Folha-Dilma e o que ameaça os jornais

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Frase do leitor Francisco, em comentário enviado às 13:37 de terça-feira sobre o post publicado abaixo:

“Para a sobrevida dos jornais, o problema não é a internet, é a credibilidade”.

Qual o futuro da “velha” imprensa?, indaga meu bom colega Caio Blinder, correspondente do iG, em sua coluna de hoje, direto de Nova York.

Muitos jornalistas e leitores se fazem hoje esta pergunta. Pegando como gancho o filme “State of Play”, que aqui será “Intrigas de Estado”, segundo Blinder, “uma sessão-nostalgia para jornalistas para lá da meia idade, como eu”, ele escreve:

“A sessão-nostalgia do filme tem o ápice justamente quando rolam os créditos e vemos o processo de impressão e distribuição do papel-jornal. A cena é de doer, pois não dá para visualizar um happy-end para os jornais impressos. Aqui nos EUA é uma sucessão de más notícias, com jornais fechando, ameaçando fechar ou em regime de concordata. Como disse acidamente o comediante Stephen Colbert:

“Onde será impresso o obituário da indústria de jornais?”

Quem está ameaçando o futuro dos jornais? O primeiro suspeito é sempre a internet, o jornalismo online que é oferecido de graça o tempo todo e já chega às telas de 60 milhões de brasileiros.

Será mesmo só a internet a culpada pela debacle inexorável da imprensa de papel em nosso país? Há controvérsias…

Ao comentar este emblemático Caso Folha-Dilma, em que o jornal de maior circulação do Brasil se afunda cada vez mais ao tentar justificar uma inacreditável “reportagem” publicada no dia 5 de abril, o leitor Antonio Lúcio Rodrigues de Assiz escreve hoje no site Comunique-se:

“São essas práticas que ameaçam o futuro do jornalismo. Não são as novas tecnologias(…)”

Na própria Folha, uma solitária carta de leitor trata hoje do tema que o jornal gostaria certamente de esquecer. Escreve para o jornal Valmir de Costa, de Curitiba, Paraná:

“Em relação à reportagem `Autenticidade de ficha de Dilma não é provada´(Brasil, 25/4), a certa altura o texto diz que `o jornal cometeu um erro técnico: incluiu a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome `Arquivo de SP, quando era originalmente de e-mail enviado à repórter por uma fonte´.

Errado. O erro não é técnico, é ético. O texto tinha visivelmente a intenção de manchar a imagem de Dilma, qualificando-a como terrorista. Isso é erro técnico? Onde?”. 

Desde o começo, todo o enredo desta história em que a Folha se enreda, é um clássico do antijornalismo que daria um outro filme, talvez mais emocionante do que o “State Of Play” do Caio Blinder. Se não, vejamos:

* Como o próprio nome indica, a sede da Folha fica em São Paulo, onde vive o principal personagem da matéria, jornalista Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária. Mas a entrevista com ele foi feita por telefone, num total de três horas, pela repórter Fernanda Odilla, da Sucursal de Brasília. Não sairia mais barato escalar um repórter da sede para entrevistá-lo? Ou mesmo pagar uma passagem para Odilla conversar com ele pessoalmente sobre assunto tão delicado? Pelo menos, o jornal não erraria na grafia do nome dele e na sua qualificação profissional.

* Baseada na entrevista com Espinosa, cujos termos depois ele desmentiu em carta ao jornal, que só publicou dela um breve resumo muitos dias depois, a Folha deu a manchete de capa: “Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim”.

* Dilma, que também foi ouvida por telefone (não sei por que a Folha adora um telefone…), e teve uma entrevista de página inteira publicada na mesma edição, também mandou uma carta ao ombudsman, contestando o jornal:

“Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30 de março (…) a matéria publicada tinha por título de capa `Grupo de Dilma planejou sequestrou de Delfim´. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de `factóide´, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu”.

* O grande “furo de reportagem” estampado na primeira página, sobre um sequestro que não houve, foi a reprodução de um documento com o carimbo “capturado”, suposta ficha policial de Dilma que a repórter teria obtido no Dops paulista, em que ela é acusada dos mais variados crimes, para o jornal poder provar, como queria, sua condição de perigosa “terrorista”, “assaltante” e “assassina”.

* Dilma denunciou também na carta a falsidade deste documento e o jornal pediu um tempo para provar, mobilizando sua equipe de “reportagem”, a autenticidade da dita cuja. Com sua habitual agilidade para apurar seus erros, a Folha publicaria 20 dias depois, no último sábado, sem chamada de capa, uma estranhíssima matéria sob o título “Autenticidade da ficha de Dilma não é provada”. 

* Mais estranho ainda é que, desta vez, a matéria tem por procedência a Sucursal do Rio, e não a de Brasília, menos ainda a da sede, que, com sua competente equipe de repórter especiais, deveria estar mais do que interessada em esclarecer o caso.

* Sem conseguir provar a autenticidade da tal ficha policial, o jornal admite ter cometido dois erros. Só dois? Sim, a Folha reconhece que o documento não foi capturado nos arquivos do Dops, mas chegou à redação por e-mail, de fonte não revelada. Diz o jornal: “O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada _ bem como não pode ser descartada”.

* Como assim? Em carta enviada ao ombudsman (e até hoje não publicada pelo jornal), no mesmo dia da publicação da segunda matéria, desmentindo a primeira, embora de forma bastante constrangida e enviezada, Antonio Roberto Espinosa vai direto ao ponto:

“A ficha citada, na verdade, foi produzida recentemente por quadros que, na época da ditadura, eram subalternos, faziam o trabalho sujo dos porões. Hoje já estão aposentados, mas se sentem como os heróis do regime de terror e preparam armadilhas com o objetivo de desestabilizar uma virtual candidatura presidencial da atual ministra Dilma. Eu e alguns amigos fizemos uma pesquisa amadora na internet e descobrimos que o primeiro a divulgar a ficha falsa, e seu provável autor, é o hoje coronel reformado (na época major) Lício Augusto Ribeiro Maciel, o Dr. Asdrúbal, torturador e assassino de dezenas de pessoas em Xambioá. A seguir foi reproduzida por dois dos mais conhecidos blogs da direita mais reacionária, também alimentado por quadros subalternos do regime militar, o Ternuma, do notório coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, e o A verdade sufocada _ As histórias que a esquerda não quer contar, também mantido por sargentos e oficiais de baixo escalão dos porões”.

* Estas acusações contra Dilma pela internet, a que se refere Espinosa, circulam em forma de spam desde o ano passado, junto com aquela falsa ficha policial da primeira página da Folha e serve de base para os milhões de comentários anônimos com ofensas, agressões e acusações à ministra que infestam blogs e sites. Mas a culpa pelos erros da Folha não pode ser atribuída à internet: ninguém com um mínimo de responsabilidade publica este lixo sem checar a sua origem.

* No final da sua carta, Espinosa repete um desafio ao jornal, que bem poderia aceitá-lo para que os leitores possam tirar suas próprias conclusões:

“Da mesma forma que a repórter Fernanda Odilla, em resposta à minha carta, em 8/4/2009, agora a Sucursal do Rio também garante que a Folha dispõe das gravações de minhas entrevistas. Essas entrevistas por acaso são secretas? Constituem um segredo jornalístico, inexpugnável e à prova dos leitores? Por que a Folha insiste em dizer que tem, mas não publica as entrevistas? Eu já estou cansado de desafiar o jornal a fazê-lo. Na sua coluna de 12/4/2009, V.Sa. (o ombudsman) também informou ter sugerido à Redação que as publicasse, ainda que na Folhaonline, e reiterou sua sugestão. Além dos arquivos secretos da ditadura, temos agora também as entrevistas secretas da Folha de S. Paulo, que são uma arma da redação contra suas fontes, os leitores e a verdade?”  

   

  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/04/2009 - 10:37

A madrugada trágica das Diretas, há 25 anos

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Faz tanto tempo, e tanta coisa aconteceu de lá para cá, que nem me lembrei de escrever no domingo sobre os 25 anos da derrota da Emenda Dante de Oliveira _ o nome de um então jovem deputado do Mato Grosso, que já morreu, como tantos outros líderes daquela memorável campanha das Diretas Já. 

Naquela madrugada trágica de 26 de abril de 1984, faltaram apenas 22 votos para que o Brasil voltasse a ter eleições diretas para presidente da República. Ninguém gosta de lembrar das derrotas, mas neste caso não dá para esquecer: foi lançada ali a semente da democracia em que hoje vivemos.

Ainda bem que guardei tudo escrito. Se fosse depender da minha fraca memória, estaria perdido. Ao me lembrar do fato só hoje, bastou ir até a estante e pegar meu livro “Explode Um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas” (Editora Brasiliense, 1984).

Lançado apenas alguns dias após aquela triste madrugada, pelo editor Caio Graco Prado, meu velho e bom amigo também já falecido, no saguão da Folha, com a presença dos líderes do movimento _ entre eles, o velho Ulysses Guimarães, o maior de todos da épica jornada _ o único exemplar que achei tem uma dedicatória para Carolina, minha filha caçula, hoje roteirista de cinema.

Daria um filme aquilo que aconteceu 25 anos atrás no plenário do Congresso Nacional, hoje tão vilipendiado justamente por aqueles que elegemos para nos representar na jovem democracia duramente conquistada.

Por isso, é bom lembrar o que aconteceu um quarto de século atrás para que todos possam dar mais valor ao regime de plenas liberdades públicas em que hoje vivemos _ e lutem para preservá-lo.

À página 123 do livro, lê-se o texto originalmente publicado na edição do dia 27 de abril de 1984 da Folha de S. Paulo, o jornal para o qual trabalhava na época e fiz a cobertura de toda a campanha:

Galerias explodem

e não deixam a luta terminar

Alguns deputados choravam, outros se prostravam em silêncio. Ao ser anunciado o resultado da votação da Emenda Dante de Oliveira, pouco depois das duas horas da manhã de ontem, a grande festa que todo o povo brasileiro esperava corria o risco de se transformar num imenso velório.

Mais uma vez, porém, este povo reagiu. Em vez de ficarem lamentando os 22 votos que faltaram para que o Brasil voltasse a ser uma democracia, os homens e as mulheres que lotavam as galerias bradaram seu grito de guerra: “um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos eleger o presidente do Brasil”. 

As mesmas galerias que se comportaram como se estivessem no parlamento britânico, durante as 17 horas de discussão e votação da Emenda, agora explodiam sua revolta. De repente, os políticos pareciam estar novamente nas fantásticas mobilizações que nos últimos cinco meses sacudiram o gigante adormecido.

“O povo, unido, jamais será vencido”. “O povo quer votar, diretas já”.  “A luta continua” _ esta gente não aceitava a derrota que uma covarde minoria de parlamentares lhe acabara de impor. Os refrões da grande cruzada democrática voltavam a ecoar no Congresso Nacional e ganhavam um novo grito de guerra: “O povo não esquece, acabou o PDS”.

[ PDS era a sigla herdeira da Arena, o partido criado pelos militares, então liderado por José Sarney, mais tarde presidente da República e hoje presidente do Senado. Parlamentares que integravam o PDS naquela época estão hoje espalhados por vários partidos, em sua maioria no DEM ].

Sem banda, nem regente, lá vinham eles de novo, cantando o Hino Nacional. Lá embaixo, no plenário, os parlamentares também se deram as mãos, braços erguidos, e se refazia a corrente, todos cantando juntos. As tropas do general Newton Cruz, o “Nini” [ então comandante militar do Planalto, que colocou o Exército nas ruas de Brasília], haviam conseguido o que queriam: a rejeição da emenda das diretas que todos queriam.

Mas ainda não era o bastante. Vários parlamentares, tendo à frente os deputados Airton Soares (PT-SP) e João Hermann Neto (PMDB-SP) tiveram de participar de intermináveis negociações com os homens do general “Nini” para permitir que cerca de mil pessoas, sem sua maioria jovens, pudessem ir embora sem maiores riscos, já que tropas continuavam acantonadas na Esplanada dos Ministérios.

Afinal, foi feito um acordo e, junto com os parlamentares, eles começaram a subir pela contramão da Esplanada. Dali a pouco, veio uma contra-ordem do general e eles tiveram de mudar de rumo. Mais adiante, o cortejo foi novamente barrado. Quer dizer, a certa altura, não podiam mais ir em  frente, nem para trás, nem para os lados.

Aí as tropas do general “Nini”, já que estavam ali mesmo, resolveram jogar algumas bombas de gás lacrimogêneo e atiçar seus cães em cima dos inimigos vencidos.

Uma hora depois, os dois esbaforridos parlamentares conseguiram chegar ao restaurante Piantela, o mais badalado de Brasília, onde outros notáveis da sociedade civil refaziam-se das agruras da longa  jornada. O alarido era o mesmo de outros dias e, se algum forasteiro menos atento baixasse ali naquele momento, teria a impressão de que a emenda das diretas havia sido aprovada.

Só uma mulher, a atriz Christiane Torloni, musa das diretas, dava bandeira de que havia chorado _ e não foi pouco. “Eu aguentei até chegar perto do Ulysses. Aí não aguentei mais, dei um abraço no velho e chorei que nem criança”. Não só ela: Gílson de Barros, um deputado do PMDB de Mato Grosso, dois metros de altura por quase isso de largura, conhecido como o “Hulk” da Câmara”, desabou num choro sentido. Nem se pode dizer que fosse choro de tristreza. Era choro de quem tem vergonha na cara, algo que jamais poderia acontecer com os parlamentares do PDS que fugiram da votação.

Se o Brasil chorava de vergonha, na mais sombria madrugada de que consigo me lembrar, um homem se regozijava: claro, ele, o general Newton Cruz, que , às três e meia da madrugada mandou a tropa se perfilar diante do Ministério do Exército, onde funciona seu QG do Comando Militar do Planalto. Depois de cumprimentar os rapazes pelo belo trabalho, ordenou seis “hip-hip-hurra!” para festejar a vitória.

Outros foram mais discretos. Calim Eid e Heitor de Aquino, os marechais malufistas na guerra antidiretas, limitaram-se a acender charutos e a gozar em generosas baforadas a humilhação do povo brasileiro. Pleno de satisfação, o malufista Edson Lobão, vice-líder do PDS [ hoje ministro de Minas e Energia do governo Lula], foi mais discreto ainda: assim que o sistema de som do Congresso anunciou o resultado, ele, que fugira do plenário na hora da votação, deixou seu gabinete e escafedeu-se lampeiro pelos subterrâneos do parlamento, a caminho da glória.

Para que a humilhação fosse compelta, os “Nini” e seus braços políticos não tinham limites. Na mesma noite em que o Congresso se preparava para decidir sobre os destinos do povo brasileiro, a PM de Brasília, subordinada ao general Newton Cruz para executar as medidas de emergência, invadia uma escola na cidade-satélite de Taguatinga, o Centro Educacional Ave Branca.

Alguns alunos haviam vaiado duas viaturas da PM, gritando refrões pelas diretas. Foi o que bastou para que 60 homens da tropa de choque avançassem sobre professores e estudantes, empunhando cassetetes de madeira, chutando e batendo. Outra vitória das tropas de emergência: vários feridos, dois estudantes presos, mulheres grávidas desmaiadas.

O inimigo, quer dizer, o povo, não desistia. Ainda se ouviam buzinas tocando quando o dia amanheceu em Brasília, como a anunciar que uma derrota não significa silêncio. Mesmo sem a rendição incondicional dos inimigos, o general de divisão Newton Araújo de Oliveira e Cruz, comandante do CMP e executor das medidas de emergência, mandava anunciar ao povo brasileiro, por meio de uma resolução (nº 02/ME/84) e um comunicado (nº 05/ME/84), que, como os objetivos foram atingidos, os inimigos poderiam relaxar um pouco.

A resolução suspendia a censura nas telecomunicações _ instaurada para impedir que todo o país soubesse, ao vivo, quais eram seus traidores _ e o comunicado informava que foram liberados os 35 presos, suspenso o controle dos acessos à Universidade de Brasília e retirados os bloqueios nas entradas da cidade.

O inimigo Dante de Oliveira, aquele que deu nome à emenda vitoriosa e rejeitada, no entanto, não se rendia. “A rejeição da Emenda e o fim da sessão do Congresso só fizeram mostrar a desmoralização total do governo e do seu partido”, repetia ele, ontem à tarde, no Congresso, mais disposto do que nunca a prosseguir na luta.

Perto dele, a deputada e atriz Beth Mendes (PT-S), que, de manhã, chorava ao ler o editorial da primeira página da Folha _ “Cai a Emenda, não nós” _ procurava animar quem encontrasse pela frente. “Ontem, foi fogo segurar aquela barra. Mas, hoje, já está tudo bem de novo. Nós não perdemos, nós ganhamos, você vai ver”. 

De fato, nem as nuvens escuras e a chuva do fim de tarde em Brasília, depois destes dias de sol, foram capazes de apagar a chama. Num apartamento da W-3, ainda resistia, apesar de tudo, uma faixa em que se podia ler, simplesmente: BRASIL. 

Em tempo:

Leitores deste Balaio me surpreendem, positivamente, a cada dia.

Neste domingo, às 19:48, foi a vez do leitor Gilberto José Muniz (aqui eles dão nome e sobrenome), 60 anos, que enviou um comovente relato sobre o que é possível fazer para sairmos deste baixo astral, tema do blog no fim de semana.

Muniz conta como criou por conta própria uma biblioteca comunitária em Campo Grande, no Rio de Janeiro, que começou com 200 livros tirados da sua estante e hoje, com a ajuda de muita gente, já conta com mais de 60 mil obras.

Vale a pena ler o depoimento dele na área de comentários do post “Caso Maria Júlia: o que podemos fazer?”.  

Em tempo 2:

Mal acabei de escrever (não confudam com escrever mal, por favor…) o post acima, fui liberar os comentários e encontrei um texto primoroso do estudante Alvaro Castro (11:03), da Universidade FUMEC, de Belo Horizonte.

“Tive que fazer um trabalho de faculdade para combater este texto”, escreveu-me ele, referindo-se a um post do Balaio de dias atrás _ “Por que tanta gente quer ser jornalista?”

O jovem contesta ponto por ponto meu texto, com bons argumentos e um texto de tirar o chapéu, tanto na forma como no conteúdo.

E não é que ele tem razão em muitas coisas que escreveu? Por isso, recomendo a quem se interessar pelo assunto que leia o comentário de Álvaro Castro.

Estes leitores do Balaio estão ficando cada dia melhores… 

Em tempo 3:

Por falar em bons leitores, estou devendo há dias uma satisfação a um dos mais antigos deste Balaio, o Simei de Almeida, do Acre, que ultimamente anda meio sumido.

Ele se queixou que, ao falar pelos lugares por onde o Balaio passou nestes sete meses no ar, esqueci de mencionar no Acre. Fiz apenas de memória referência a algumas regiões do Brasil de onde enviei textos para o blog, mas não me lembro de ter passado pelo Acre neste período. O Brasil é muito grande…

Em todo caso, aproveito para reiterar ao Simei e a todos os amigos de lá que considero Rio Branco uma das cidades mais bonitas e bem cuidadas do país, como já escrevi várias vezes em diferentes sítios e publicações. 

 

     

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/04/2009 - 18:22

Na tarde corintiana, Trovadores Mirins

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O Corinthians acabou me prestando um grande favor ao eliminar o São Paulo do Paulistão no domingo passado. Com meu time desclassificado, pude tranquilamente ir com a família ver a apresentação dos Trovadores Mirins, no auditório da Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim, que eu ainda não conhecia.

Enquanto meus amigos corintianos colocavam a mão na taça, ao meter 3 a 1 no Santos em plena Vila Belmiro, assisti ao belíssimo e comovente espetáculo deste grupo de crianças e adolescentes de 4 a 16 anos dirigido por Lucila Novaes, competente cantora e regente.

Formado há três anos pelos Trovadores Urbanos, seresteiros que já estão faz muito tempo na estrada,  os Mirins vestidos a caráter, em roupas de época como seus inspiradores, cantaram durante uma hora, só com Lucila ao piano, algumas das mais belas canções da música popular brasileira.

De Braguinha a Roberto Carlos, de Edu Lobo a Milton Nascimento, deu para esquecer da vida durante uma hora, com uma platéia encantada, que lotou o auditório e entrou no ritmo batendo palmas.

Gente de pé e sentada no chão foi premiada com cantigas de roda e clássicos da nossa música, enquanto do lado de fora alguns pais iam conferir no celular a quantas andava o primeiro jogo da decisão do Paulistão.

Fico muito agradecido ao casal Vanira e Audálio Dantas, nossos velhos amigos, que nos mandaram o convite e, ao final, estavam felizes como mãe de miss ao receber os cumprimentos pela apresentação da sua filha caçula, a querida Mariana, uma das estrelas do grupo dos Trovadores Mirins.

O São Paulo ficou de fora da grande festa das finais, mas eu ganhei esta tarde de domingo, ao descobrir que tem tem muita coisa para se curtir nesta cidade fora do futebol e longe da política.

Para quem quiser entrar com contato com os seresteiros dos Trovadores Urbanos adultos ou Mirins:

www.trovadoresurbanos.com.br

Em tempo

Por falar em boa arte, que pintura o segundo gol do Ronaldo! Com um leve toque de mestre, deixou o zagueiro do Santos na saudade, procurando a bola e, com a precisão de um campeão de bilhar, bateu por cobertura no ângulo esquerdo de Fábio Costa, que ficou apenas olhando.

Só consegui ver a metade final do segundo tempo, mas com Felipe pegando tudo no gol e Ronaldo voltando a ser Fenômeno, ninguém tira este título do Corinthians.

Coisas da vida: acabou de ser campeão da Segunda Divisão do Brasileirão e já está a um passo de ser novamente campeão paulista da Primeira Divisão…

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/04/2009 - 10:54

Caso Maria Júlia: o que podemos fazer?

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Diante da farra de deputados e senadores com o dinheiro público e a dificuldade encontrada pelos mais pobres para se inscrever nos programas de financiamento da casa própria (o Caso Maria Júlia, ver mais abaixo), muitos leitores do Balaio perguntaram-se nos últimos dias o que cada um pode fazer para mudar esta situação.

Este é o fato novo de uma semana dominada pelo baixo astral, com a baixaria protagonizada por dois ministros do STF e tudo, em meio à enxurrada de comentários indignados com o que acontece em nosso país.

Não dá para ficarmos o resto da vida, os leitores e eu, apenas constatando e criticando os desmandos dos parlamentares. É preciso encontrar uma saída, e não é fechando o Congresso Nacional, como muitos pregam, que iremos aprimorar a democracia brasileira e muito menos melhorar a vida de quem não tem onde morar.

Em seguida ao levantamento dos assuntos mais comentados da semana no Balaio, na Folha e na Veja, que publico todos os domingos, falo da proposta do jovem leitor Giuliano de Matos, que propõe uma campanha de ação positiva para quebrar este clima de fim de feira das instituições, que só gera desalento e desesperança.

Os números:

Balaio

Congresso: 357

Gesto de nobreza: 77

Ciclos da vida: 73

Folha

Abusos no Congresso: 319

Bate-boca no STF: 104

Governo Lula: 38

Veja

Michel Temer: 66

Farra aérea dos políticos: 38

MST: 25

A crescente necessidade dos leitores da velha mídia de papel e da nova mídia eletrônica de participarem das discussões, e não apenas consumirem passivamente o prato feito das informações divulgadas, já está provocando mudanças nos veículos.

Neste domingo, por exemplo, diante do grande número de mensagens recebidas, a Folha já abriu mais meia página no primeiro caderno para publicar cartas de leitores, em sua maioria tratando da “Revolta contra o Congresso”.

Nenhuma delas, curiosamente, trata do desmentido publicado na edição de sábado sobre as acusações feitas semanas atrás pela Folha contra a ministra Dilma Roussef, baseadas em documento falso que circulava pela internet e numa entrevista contestada pelo principal personagem da “denúncia”. Mas já é um avanço.

No Balaio, onde os leitores só não têm seus comentários publicados quando contêm ofensas, acusações e denúncias sem provas, o analista de sistemas Giuliano de Matos, que trabalha com informática e e está preparando seu TCC na Pós-Graduação em Gestão Pública, escreveu:

“Realmente, não podemos só ficar reclamando. Pensando no assunto, e no pouco que posso fazer (sei que esse pouco, multiplicado por muitas pessoas, pode virar um muito), tentei bolar uma idéia para fazer algo que, mesmo que pareça pouco, mostre um pequeno resultado a curto prazo”.

Giuliano propõe: “Ao invés de só reclamar, vamos conclamar os balaieiros, ainda que poucos, a tomar uma ação, mesmo que pequena, e descrever esta ação aqui no Balaio. Coloquemos um prazo: 31 de maio. Neste dia, contaríamos o que cada um conseguiu fazer”.

Para quem quiser participar, Giuliano sugere que os leitores enviem ao blog suas iniciativas para gerar alguma ação positiva: “Plantar uma árvore, doar remédios em um hospital, doar sangue, ajudar alguém que precise”.

Outro leitor, F.B., que prefere ficar anônimo, já tinha feito isso durante a semana, o que motivou Giuliano a pensar na sua campanha da ação positiva.

Ao ler o relato do leitor Everaldo Alencar, de Aparecida de Goiânia, mostrando as dificuldades da faxineira Maria Júlia, viúva de um pedreiro, em se inscrever no programa “Minha Casa, Minha vida”, recentemente lançado pelo governo federal, no mesmo dia ele tomou a decisão de doar um terreno de sua propriedade, de 360 metros quadrados, onde poderão ser construídas quatro moradias populares.

Enviei o texto sobre Maria Júlia para o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef e no dia seguinte o chefe de gabinete da PR, Gilberto Carvalho, me informou que o governo federal já está tomando providências para sanar o problema denunciado por Alencar.

Só assim, se cada cidadão, o conjunto da sociedade civil, os nossos representantes nos parlamentos e os governos cumprirem a sua parte, em lugar de ficarmos só uns xingando e colocando culpas nos outros, poderemos sair deste marasmo cada vez mais sufocante de vermos a cada semana sempre o mesmo filme de horror.

Uma coisa não elimina a outra: devemos continuar denunciando e cobrando, sim, mas se cada um fizer alguma coisa como propõe o Giuliano, ao menos vamos ter alguma esperança novamente.

É como ele diz: “Tudo isso que a gente vê acaba desanimando mesmo, até o mais otimista dos brasileiros! Mas vamos em frente, amanhã vai ser melhor do que hoje!”.

Está lançada a campanha. Participem!

Em tempo:

Brilhante a capa da revista Veja desta semana. Resume o que penso. Sob uma caixa de descarga com uma urna eletrônica grudada nela e uma cordinha pendendo ao lado, o texto:

“Puxe para se livrar deles. A falta de honestidade, pudor, decoro, compostura e espírito público desmoraliza o Congresso. Só o voto pode banir os maus políticos sem ameaçar a democracia”.

Eu acrescentaria: o voto e a participação de todos nós na vida política do país _ não apenas no dia das eleições, mas permanentemente.

E a internet é hoje o mais democrático instrumento que temos para tornar isto possível, sem precisar de passagem de avião (epa!opa!) para irmos a Brasília dizer o que pensamos sobre o que eles estão fazendo.

Repito o apelo feito ao final do meu texto acima: participem!

Em tempo 2:

Esta semana muitos leitores mais antigos do Balaio contaram que estavam enviando pela primeira vez seus comentários. Isto é muito bom.

Lembrei-me disso ao ler agora há pouco o comentário do leitor Robson de Oliveira (11h59) em que ele trata exatamente desta necessidade de participar das discussões:

“Eu sei, Ricardo, que muitos leitores e leitoras vêm aqui, mas não se manifestam. Não apresentam seus argumentos. Talvez por medo ou vergonha (…)

Por isso, meus amigos leitores, que ainda não se manifestam, venham participar com a gente aqui. Escreva alguma coisa… não precisa ter vergonha”.

                

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
25/04/2009 - 22:25

“Dilma não tem mais nada, não muda nada”

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Texto atualizado às 22h55.

Passei o dia fora de casa sem celular e só à noite soube dos problemas de saúde enfrentados pela ministra Dilma Roussef.

Liguei para sua casa em Brasília por volta das 22 horas, mas um assessor me informou que ela já estava descansando. Em conversas com ex-colegas de governo e médicos que acompanharam o caso de perto esta semana, posso informar aos leitores que:

* Depois de diagnosticado o câncer linfático em procedimento de rotina, faz um mês, os exames foram enviados aos Estados Unidos e lá os médicos confirmaram a necessidade de cirurgia imediata para a retirada de um linfoma na axila na axila esquerda, o que foi feito há três semanas.

* Dilma pediu aos médicos que ninguém fosse informado sobre o problema, nem o presidente Lula, para não preocupar sua filha e sua mãe.

* Novos exames garantiram o sucesso da cirurgia: “Ela não tem mais nada agora. Está curada. Tiraram tudo. O tratamento de quimioterapia é necessário apenas para que o problema não volte daqui a 10, 15 anos”. 

* Depois que a informação sobre a cirurgia começou a vazar no começo da última semana, com o surgimento de boatos que falavam de um problema muito mais grave, o presidente Lula conversou com Dilma e, junto com o ministro Franklin Martins, eles decidiram que a ministra  deveria conceder  entrevista coletiva relatando os problemas de saúde que está enfrentando.

* Dilma tem todas as condições de seguir levando uma vida normal. “Não muda nada nem para ela nem para o governo”. A partir de segunda-feira, ela já retoma as viagens com o presidente Lula para cuidar do PAC. Nos próximos quatro meses, ela terá que interromper suas atividades apenas para fazer sessões de quimioterapia a cada vinte dias.

Pelo que conheço da minha amiga Dilma, que já enfrentou situações tão ou mais difíceis na vida, ela vai querer trabalhar ainda mais do que antes e não se deixará abalar por mais esta cilada do destino.

Deve ter sofrido mais com as falsas acusações que lhe fizeram nas últimas semanas e depois desmentiram.

Vida que segue.   

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
24/04/2009 - 12:38

Um gesto de nobreza em meio ao pântano

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Em tempo: acabo de ser informado agora pelo chefe de gabinete do presidente Lula, meu velho amigo Gilberto Carvalho, que o governo já está ciente e tomando providências em relação à situação relatada pelo leitor Everaldo Santos de Alencar sobre as dificuldades encontradas por dona Maria Júlia para se inscrever no programa “Minha Casa, Minha Vida”, tema do post abaixo.

É raro, mas acontece. Em meio a este pântano que virou o noticiário político e institucional, fui alegremente surpreendido na noite desta quinta-feira pelo comentário que me foi enviado por um leitor, às 20:04.

Sensibilizado com o drama em busca da casa própria da faxineira Maria Júlia, relatada por outro leitor, Everaldo Santos de Alencar, de Aparecida de Goiânia, Goiás, no post que escrevi ontem _ Será que vão colocar ordem nesta suruba? _ sobre o Congresso Nacional, F.B. resolveu doar um terreno de sua propriedade para resolver o problema.

O leitor, que hoje me pediu para seu gesto de nobreza ficar no anonimato, escreveu:

“Quero participar da solução de moradia para esta viúva de pedreiro, construtor de inúmeras residências e que, no entanto, não conseguiu uma casa própria para sua família. Possuo um lote de 360 m2, escriturado, situado na rua (vou omitir o endereço), no município de Aparecida de Goiânia, Goiás. Paguei o IPTU de 2009 no valor de R$ 119,00. Estou disposto a doá-lo para dona Maria Júlia para que ela possa construir nele a sua morada”.

Ao final, pede para que Everaldo entre em contato com ele e, junto com o construtor entrevistado na matéria, e outras pessoas dispostas a ajudar, possam erguer uma casa para a faxineira e sua família.

Só por isso já valeu a pena ter criado este blog em setembro do ano passado. Não é objetivo do Balaio resolver problemas sociais que os poderes públicos não conseguem, mas dá uma felicidade enorme quando isto acontece, partindo da iniciativa dos próprios leitores.

Por coincidência, meu colega e compadre Clóvis Rossi comenta algo parecido em sua coluna de hoje na Folha _ A coalizão “do bem” _ ao falar dos leitores que lhe escrevem perguntando o que cada um pode fazer para tentar mudar a situação, em vez de ficar só xingando os políticos.

Ao tratar da “catarata de escândalos que os jornais denunciam dia sim, outro também”, Rossi termina seu texto dizendo: (…) não pode servir de desculpa para que cada um deixe de dar a sua contribuição, como puder, para formar, manter e renovar as maioriais “do bem”. Difícil? Sim. Mas há outro caminho?”

Depois de ler a coluna dele, fui liberar os comentários e encontrei um belo texto do leitor Flávio Santos (11:05 de hoje) sobre o caso Maria Júlia e o gesto de F.B., na mesma linha. Cita uma fábula sobre estrelas do mar que um homem recolhia na areia e jovava de volta à água para não morrerem. Eram muitas, nunca conseguiria salvar todas, mas estava fazendo a sua parte.

No final do comentário, escreve Flávio: “Enquanto não nos responsabilizarmos pelos problemas sociais, por achar que não são nossos, essa e outras situações narradas no presente artigo continuarão para sempre”.

Se cidadãos como F.B. conseguirem sensibilizar com seu gesto de solidariedade outros brasileiros, e não deixarmos tudo só por conta do governo, certamente muitas outras brasileiras além de Maria Júlia conseguirão a sua casa própria. Se o governo fizer a sua parte, e a burocracia e a ganância dos “gericados” deixarem, será mais rápido.

Não adianta ficar só reclamando e xingando.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
23/04/2009 - 11:03

Será que vão colocar ordem nesta suruba?

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Confesso que fiquei meio zonzo ao terminar de ler o jornal e o noticiário de hoje na internet.
Nem sei o que pensar e escrever, tantas são as declarações e as histórias inacreditáveis que aparecem a cada dia nesta verdadeira suruba institucional em que se transformou o nosso Congresso. 
Mas parece que, finalmente, eles começaram a prestar atenção no que o povo está achando de tudo isso. Perceberam que a paciência acabou, a raiva é grande e alguma coisa precisava ser feita.
Num clima de barata voa, os líderes partidários resolveram tomar algumas providências “moralizadoras” para estancar a sangria do nosso dinheiro e da credibilidade da instituição a que deveriam servir e não se servir.
São muito nebulosas estas medidas, sem prazos e métodos definidos, e ainda dependem da aprovação dos próprios interessados para a manutenção ou não destes privilégios indecentes.
Não dá para dizer que a farra acabou e que agora vão tentar pelo menos organizar a orgia com o dinheiro público, tratado este tempo todo como “coisa deles” e, portanto, sem precisar dar qualquer satisfação ao distinto eleitrado que paga a conta.
Pelas novas revelações feitas por colegas do “Congresso em Foco”, o site que desnudou esta farra, não escapou quase ninguém, nenhum partido, nem os autodenominados integrantes do chamado “grupo ético” do Congresso.
Virou tudo uma geléia só. Basta ver a foto de Roberto Stuckert Filho, da Agência O Globo, publicada no alto da página A4 da Folha sob a rubrica “Os Intocáveis”, mostrando a chegada ao Congresso dos parlamentares de quatro partidos, depois de intermináveis discussões sobre medidas de prevenção de incêndios numa casa pegando fogo.
As expressões assustadas de Michel Temer (PMDB-SP), presidente da Câmara, ladeado por Inocêncio Oliveira (PR-PE), Fernando Gabeira (PV-RJ), de óculos escuros (para não ser reconhecido?), e Nelson Marquezelli (PTB-SP) são emblemáticas da perplexidade geral.
Há um fato novo nesta história dos descalabros, que não são de agora, mas nunca ficaram tão evidentes.
Desta vez, não houve nenhuma manifestação de rua, nada de caras pintadas nem mulheres batendo panelas, discursos de militares, invasores furiosos depredando as instalações do Congresso, como acontecia em outras épocas.
Deu-se uma revolta popular silenciosa e invisível, que só era possível notar lendo o que os leitores/eleitores escreviam na internet _ e, certamente, enviavam também para os correios eletrônicos de suas excelências.
Vai ver que atenderam à minha sugestão de domingo no post “Congresso: povo bravo está perdendo a paciência”, e resolveram pedir a alguns dos seus milhares de assessores para dar uma olhada no que o povo estava pensando de tudo isso.  
Agora falam em restringir cotas de viagens, limitando-as aos próprios parlamentares dentro do território nacional e a serviço só do mandato, e divulgar pela internet os gastos efetuados com as muitas verbas que recebem além do salário, que nos custam no mínimo R$ 102,5 mil por deputado.
Admitem até acabar com a tal verba indenizatória de R$ 15 mil por mês, uma espécie de salário extra sem desconto de imposto de renda, mas que ninguém se iluda.
Lá no meio da matéria sobre as “medidas moralizadoras” leio que “por ora, deputados e senadores decidiram adiar o aumento em seus salários de R$ 16,5 mil para R$ 24,5 mil. Este reajuste será debatido nas próximas semanas se houver consenso a respeito da boa repercussão das medidas de ontem”.
Ou seja, estão só dando um tempo para ver como a distinta platéia vai reagir para deixar tudo como está, mudando apenas a embalagem, ou melhor o embrulho.
Quem ainda acredita neles? Como acreditar numa turma que torrou R$ 4,7 milhões em 1.885 vôos internacionais entre janeiro de 2007 e outubro de 2008?
Uma turma que tem um deputado chamado Dagoberto Noronha (PDT-MS) que pagou 40 vôos internacionais, 22 deles com parentes acompanhando, num total de R$ 92,6 mil que sairam do nosso bolso?
Corregedor da Câmara, eleito para o lugar daquele deputado do castelo, o deputado ACM Neto (DEM-BA), mais conhecido por Grampinho, em vez de tomar alguma providência contra estes parlamentares, tem a coragem de dizer que “a imprensa quer fechar o Congresso”.
Não é a imprensa, não, meu jovem parlamentar. A imprensa, reconheço, tem muitos defeitos, mas desta vez não tem nada com isso. Quem está desmoralizando o Congresso Nacional são vocês.
São os deputados e senadores que não se dão ao respeito e achincalham a instituição. Piores que seus atos, são suas torpes justificativas para cometer todas as barbaridades, alegando que não fazem nada proibido porque não sabem o que podem e o que não podem fazer, ninguém lhes diz o que é certo e o que é errado.  
Acham normal pegar passagens pagas pela Câmara com o nosso dinheiro, juntar a família e dar várias voltas pelo mundo, por que não?
Se o regimento do Congresso permite, se as regras não são claras, a reação popular vai se encarregar de lhes mostrar os limites. Eles vão acabar descobrindo, mais dia, menos dia, a nova democracia realmente participativa, e não apenas representativa, que está se alastrando na internet. Já são quase 60 milhões de brasileiros ligados à rede, ou seja, metade do eleitorado.  
 
O Brasil de Maria Júlia
Enquanto isso, segue a vida no Brasil real, longe dos gabinetes de Brasília, lá onde vivem os eleitores, onde o dinheiro não é contado e torrado em milhões e é preciso batalhar muito para ganhar a vida.
É o que nos mostra o relato abaixo enviado pelo leitor Everaldo Santos de Alencar, 61 anos, engenheiro civil formado na UnB, paraibano de Itaporanga, que mora em Aparecida de Goiania, Goiás.
Everaldo, fiel leitor do Balaio desde o começo, acompanhou o drama de uma brasileira chamada Maria Júlia, faxineira, viúva, em busca da casa própria prometida pelo governo.  
Se fosse um pouco mais jovem, e não tivesse a mesma idade que eu, eu sugeriria a Everaldo seguir a carreira de repórter.
Vejam se alguém no Congresso Nacional, parlamentar ou jornalista, está a esta altura do campeonato interessado nos fatos da vida real que ele nos conta no seu texto que publico abaixo.
 MINHA CASA, MINHA VIDA???
- Moço, esta é a quinta vez , nestes últimos vinte anos, que eu entro em uma fila para me inscrever, procurando conseguir uma casa.
Com estas palavras, aquela senhora me tirou das divagações que eu estava fazendo sobre uma pesquisa de uns neurologistas a respeito do esquecimento humano.

Na calçada em frente à minha casa se estendia uma longa fila de gente, para fazer a tal inscrição para a casa própria.

_ Pior é que, depois de andar mais de tres quilômetros, com estas duas crianças naquela bicicleta, e de chegar aqui às cinco horas da manhã, não vou poder fazer esta inscrição, pois não tenho seis reais e cinquenta centavos para reconhecer firma de uma declaração de rendimentos, que tenho que fazer, por não ter carteira assinada…
E começou a chorar. Só aí, é que me dei conta que estava diante de um grave problema social e humano.
Chamei-a para dentro de minha sala, onde ela me contou sua história, sua via crucis, em busca de uma casinha.

Dona Maria Júlia, faxineira de mãos calejadas, esposa do falecido pedreiro Sr. Manoel, que durante a vida construiu centenas de residências, e morreu sem ter construído aquela que daria abrigo e dignidade à sua família, me fez dedicar este fim de semana de feriado a tentar entender porque ela e outras milhares de faxineiras têm tanta dificuldade para conseguir a casa própria.

Por coincidência, naquela tarde, estaria aqui em nossa cidade o Gerente Regional da Caixa, a fim de assinar com o nosso prefeito os termos de adesão de nosso município ao tão badalado programa Minha Casa, Minha Vida.

Elaborei então a seguinte pergunta para fazer a cada autoridade presente: “No entendimento do senhor, qual o principal obstáculo para a concretização deste programa Minha Casa, Minha Vida?”

À tarde, fui para a reunião, onde estavam presentes: o prefeito municipal, o gerente regional da Caixa, um deputado federal, três deputados estaduais do município, o presidente do Sinduscom estadual, etc. etc.

Nem precisei fazer a pergunta que elaborara, pois, em seus discursos, eles me deram  as respostas.

O gerente regional da caixa disse que o programa dependia fundamentalmente da participação da prefeitura, doando os lotes e simplificando a burocracia, e das construtoras, ao assumirem os empreendimentos.

O prefeito disse que faria tudo para ver as casas construídas, mas não tinha áreas disponíveis para doar. Ia ver o que poderia fazer.

O presidente do Sinduscon, representante das construtoras, que não chegou a discursar, me disse em particular que as mesmas dependiam de receber do prefeito os lotes urbanizados, pois o lucro a ser obtido com imóveis daquele preço era muito pequeno para lhes despertar interesse em aplicar seus capitais.

Fiquei chocado, pois este círculo vicioso de dependências eliminava toda possibilidade de dona Maria Júlia, mesmo inscrita, conseguir a sua casa.

Na volta para minha residência, já consciente de que não seria construída nenhuma moradia para esta faixa salarial (de zero a três salarios mínimos) em nosso municipio, vi próximo à uma rua onde passava, um conjunto de casinhas, já meio antigas, construídas por um certo engenheiro para a população mais pobre. Resolvi então procurá-lo no dia seguinte para batermos um papo sobre este assunto.

Logo pela manhã, fui à casa do referido engenheiro. Sem nem mesmo ter-lhe dirigido a pergunta que ia fazer, ele já começou a me dar respostas.

- Meu amigo, este programa é o melhor programa já disponibilizado por qualquer governo para atender às camadas mais carentes de nossa população, porém será mais uma grande frustração para estes pobres coitados, e para o próprio governo. Tudo por uma simples razão. Os parceiros com os quais pensa contar o presidente Lula não estão nem aí para o referido programa. Nem aí mesmo. Vejamos lá: 
A Caixa? Esta instituição bancária há muito tempo não se  interessa em prestar este tipo de serviço aos pobres. Alguém já viu banco se interessar por pobres ? Basta ver a quantidade deles que não têm onde morar. Já tentei várias vezes encaminhar processos, apresentar projetos alternativos e nunca obtive uma opinião favorável. Um grande construtor deixa aplicado seus milhões e, depois, pega emprestado o que quiser, pagando juros menores do que os que recebe.
As prefeituras? Até que podem ter um pouco de interesse, pois este programa não repassa dinheiro para elas, e os prefeitos, na maioria curruptos, não tendo como embolsar nada, que interessse eles terão nisto ? Alguns que ainda demonstram interesse, como é o caso do nosso, não dispõem de lotes para doar.
As construtoras? Estas precisam ser “gericadas”. Vou repetir para que você guarde bem esta sigla. Precisam ter o GERIC, que é uma classificação de risco absurda, pois os empreendimentos financiados se auto-garantem. É cartelizadora, emitida pela Caixa, para que ela, a construtora, possa gerir recursos daquela instituição. Te afirmo que é mais fácil um desses nossos senadores entrar no céu do que se conseguir esta tal de GERIC. E, o que é pior: quando a grande construtora consegue o GERIC, foje de pobre igual o diabo foge da cruz. Só um “gericado” com espírito de jerico, se interessa em construir casas para pobre.
Basta ver que, nos últimos vinte anos, estas construtoras “gericadas” construiram aqui em nossa cidade vários condomínios fechados, vários prédios, mas lhe dou mil reais para cada casinha popular que você me mostrar feita por elas. As que você encontrar por aí foram feitas por nós, os “jericos”.
Boquiaberto fiquei, ao ver que a opinião do engenheiro, batia integralmente com a que eu já havia formado. Só não sabia desta história de GERIC. Mas ainda lhe perguntei:
Qual solução o senhor veria para resolver este impasse ?

- Meu amigo, só há uma, não há outra. Para levar casas para pessoas com renda de até três salarios mínimos nas grande cidades, o governo precisa ampliar o leque de parceiros. Precisa incluir os pequenos construtores, como eu e milhares de outros, pois só a nós interessa a lucratividade obtida com os preços estabelecidos neste programa. Temos baixos custos administrativos e operacionais, mais flexibilidade, pois podemos construir em lotes individuais espalhados pela cidade. Mas, para isto, precisaríamos contar com recursos da Caixa, inviabilizado por causa desta tal de GERIC. Com as exigências estabelecidas, não há uma microconstrutora que consiga esta classificação. Se estes microempreendedores estivessem efetivamente inseridos no programa, já teríamos unidades em execução.
Quando não havia esta porcaria de GERIC, eu, como profissional autônomo, reunia um grupo de pretensos mutuários, encaminhava na Caixa as documentações, e construía para eles os seus imóveis. Fica bem mais barato. Com a mesmo quantidade  de recursos, se constrói muito mais residências. Aquele conjuntinho que você viu, foi feito assim, além outros que já fiz.
Da maneira como foi proposto, com os parâmetros estabelecidos, e com aquelas parcerias, posso lhe dizer o seguinte: sou capaz de comer um prato de bosta, dos fundos e bem cheio, se daqui a um ano, dois, ou dez, alguém me mostrar uma dona Maria Júlia em sua casinha construída por este programa. É uma pena, pois o presidente Lula quer realmente que ela tenha sua casa, mas aqueles que normatizam o programa não deixam.
O cartel das construtoras “gericadas” espera que o governo aumente o preço. Aí, sim, elas entram, só que não precisava ser desse jeito, pois há alternativas. O problema de nosso país, meu jovem, é que os homens que tomam as decisões são incapazes de “pensar micro”, só “pensam macro”. Soluções simples são totalmente descartadas por não estarem em seus currículos de pós-graduados, ou não beneficiam seu círculo de amigos endinheirados. É isto, meu jovem.
Agradeci, despedi-me, e saí da casa daquele senhor. Triste, quando devia estar alegre, por conhecer, para mim, mais uma verdade.

Ah! Sim! As palavras finais do engenheiro me fizeram lembrar das divagações que eu estava fazendo, quando dona Maria Júlia me abordou. Era sobre uma pesquisa de uns neurologistas, na qual descobriram, que o cérebro da maioria dos humanos faz questão de esquecer as coisas negativas, os momentos ruins do passado.

Talvez seja este o motivo.
A maioria de nossos políticos e doutores, ao chegarem aos palácios do poder, se esquecem que nos lugares de onde vieram ainda há gente vivendo os sofrimentos que eles talvez tenham vivido e, por causa desta inata preguiça cerebral, tenham de tudo esquecido.

É, dona Maria Júlia, tudo conspira contra a senhora. Poderiam, pelo menos, ser menos perversos, não fazê-la entrar em tantas filas e derramar, inutilmente, tantas lágrimas.



Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/04/2009 - 09:07

Obrigado, leitores, por mais 2 anos

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Hoje tenho uma notícia boa.

Quer dizer, boa para quem gosta deste Balaio de todos os dias, em que a vida segue sem ter que pedir licença.

Acabo de assinar a renovação do meu contrato com o portal iG por mais dois anos e quero dividir com os leitores e meus colegas de redação esta conquista do Balaio. 

 

Comecei meu trabalho no IG há um ano, escrevendo inicialmente matérias e fazendo entrevistas para o Último Segundo, antes de ser convidado pelo Caio Túlio Costa a entrar no mundo dos blogueiros. 

 

Em pouco mais de sete meses ( o blog foi para o ar pela primeira vez em 11 de setembro do ano passado), tratamos aqui de tudo quanto é assunto de interesse dos brasileiros e a cada dia fomos ganhando audiência e novos leitores.

 

Mais do que apenas consumidores/receptores de um blog jornalístico, os leitores aqui são comentaristas/emissores que participam ativamente dos debates. 

 

Mantenho tudo o que escrevi na minha carta de apresentação publicada no dia da estréia, que republico abaixo para os leitores que chegaram depois.

 

De tudo o que me propus fazer para garantir um espaço livre e democrático a todos os leitores, só não consegui manter a publicação online de comentários sem moderação prévia.

 

Com a invasão do blog por pessoas que não queriam discutir idéias mas apenas ofender os outros, a partir do início deste ano, em comum acordo com o diretor de conteúdo do iG, Caique Santana Severo, passei a ler cada comentário antes de ser publicado, o que dificultou o diálogo ao vivo entre os leitores. 

 

Esta providência, que se fez necessária em determinado momento, deixou muitos leitores chateados, afastou outros, mas acabou por qualificar mais o debate.

 

De outro lado,  teve um efeito positivo, que me deixou muito feliz: um grupo de leitores criou o Boteco do Balaio, uma espécie de filial deste blog, que permite o livre bate-papo entre eles sobre qualquer assunto.

 

“Este Boteco foi aberto pelos leitores assíduos do Balaio do Kotscho (http://colunistas.ig.com.br). Nos encontramos lá, nos conhecemos e assim foi nascendo uma amizade virtual muito gostosa que não quer acabar(…) Embora carregue o nome de boteco, é um ambiente limpinho, saudável, amigo e aconchegante, e essa proposta será respeitada, tenho certeza! Pode se “achegar” e abrir a primeira garrafa”, escreveu a leitora Aliz, na apresentação do novo espaço.

Acho que se trata de algo inédito neste mundo da web. Abrigado nos “Grupos do Google”, o Boteco já registrou 28.100 participações, quase o mesmo número de citações do Balaio do Kotscho (30.300). Ao mesmo tempo, foram criados 12.400 links de blogs de todo o país para o Balaio.

 

O número de comentários postados a cada novo post também não parou de crescer, já tendo ultrapassado, sucessivamente, 500, 1000 e 2.000 (eleição do “mala do ano”) para um único assunto, mantendo-se com frequência acima de três dígitos. 

 

Desde o início, publico todos os domingos, no balanço da semana, um levantamento dos três assuntos mais comentados no Balaio, na Folha e na Veja, o maior jornal e a maior revista em circulação no país.

 

A interatividade proporcionada pela internet mostra que o Balaio leva larga vantagem em participação de leitores na comparação com os veículos impressos (ver, por exemplo, o post “Congresso: povo bravo perde a paciência”), com os números da última semana.

 

Assim de memória me lembro de algumas entrevistas exclusivas que tiveram grande repercussão aqui no Balaio: presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidenciáveis Aécio Neves, Ciro Gomes e Dilma Roussef.

 

Tratamos aqui do drama vivido pelo cantor e compositor sertanejo Tinoco (da antiga dupla com Tonico), da ressurreirção do pianista e agora também maestro João Carlos Martins, da vida de rei na Itália do jogador Kaká, da dura batalha do médico Aziz Miguel Filho, que paga para atender os doentes em Barra do Ribeira.

 

Matérias foram postadas neste breve espaço de tempo de diferentes regiões do país, de Boa Vista, em Roraima, a Foz do Iguaçu, no Paraná, passando por Limoeiro do Norte, no Ceará, entre muitas outras. 

 

Neste meio tempo, em 2008, entre um post e outro, ganhei o principal prêmio da minha carreira profissional: fui um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Imprensa ONU – 60 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

Por enquanto, é isso. Nos próximos dois anos, teremos muito tempo pela frente para tratar de outros assuntos e novos personagens em qualquer lugar onde tiver um brasileiro para contar a sua história. 

 

Muito obrigado a todos os leitores do Balaio e colegas do iG. Se vocês tiverem alguma crítica ou sugestão para melhorar este trabalho, por favor, fiquem à vontade.

 

Em tempo: assim que for implantado pela direção do iG o novo sistema de cadastramento de leitores, poderei deixar de fazer a moderação prévia, o que me dará mais tempo para apurar e escrever as matérias deste blog.

 

Abaixo, segue o texto em que apresentei a proposta do Balaio do Kotscho no dia da estréia:  

 

 

MEUS CAROS LEITORES,

MINHAS CARAS LEITORAS

 

Pensaram que eu estava brincando?

Pois, como vocês podem ver, finalmente está entrando no ar nesta quinta-feira, 11 de setembro de 2008, o meu blog aqui no iG, o tal do “Balaio do Kotscho”, com desenho do Paulo Caruso na capa e tudo.

Espero que vocês usem este espaço aberto para tratar de qualquer assunto da vida _ e não só para ler as histórias deste velho repórter, que há 44 anos vive rodando pelo Brasil e pelo mundo em busca de novidades para contar.

Sei que tem blog demais no planeta e daqui a pouco vai ter mais gente escrevendo do que lendo, até porque ninguém consegue ler tanta notícia, como já cantava o grande Caetano no século passado.

Mas, já que os editores do iG me deram esta oportunidade, vamos aproveitar para nos divertir um pouco.

 Quero dividir a responsabilidade pelo “BK”, vamos chamá-lo assim, com os leitores. Aqui todo mundo vai ser emissor e receptor de informações.

Não farei, portanto, qualquer espécie de moderação no blog, como já não fazia nos comentários das minhas colunas no Último Segundo.

Além de ser humanamente impossível acompanhar os comentários full-time com a vida que levo, faço assim porque sempre fui um radical defensor da liberdade de expressão para todos _ e não só para mim.

Por isso, peço que todos se identifiquem com nome e endereço verdadeiros para permitir a troca de idéias e experiências, como fazem os grupos de ex-colegas de colégio.

Outra coisa que não pretendo fazer é polemizar com os leitores ou colegas de ofício.

Detesto esse negócio de fazer do blog uma guerra a favor ou contra quem quer que seja, dividindo o mundo entre os amigos que concordam comigo e os inimigos que discordam.

Repórter, simplesmente, não pode brigar com os fatos e não é do meu feitio ficar batendo palmas pra ver louco dançar. Sou apenas um contador das histórias que vi e ouvi. Quem quiser que conte outra.

De vez em quando, posso entrar no espaço de comentários apenas para esclarecer dúvidas ou corrigir informações erradas apontadas pelos leitores nos meus posts.

Boa sorte pra todos nós _ e seja o que Deus quiser!

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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