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Arquivo de março, 2009

15/03/2009 - 12:20

Debate religioso domina a semana

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Pela segunda semana seguida, a discussão sobre a reação da Igreja Católica à tragédia da menina de nove anos estuprada que ficou grávida de gêmeos, em Pernambuco, monopolizou os leitores do Balaio e das principais publicações do país. Os três assuntos mais comentados da última semana:

Balaio

Igreja Católica: 496

Sucessão 2010: 216

A volta de Ronalducho: 178

Folha

Estupro e aborto em PE: 226

Ditadura: 98

Crise/PIB: 48

Veja

Espionagem de Protógenes Queiroz: 92

Diogo Mainardi: 53

Estupro e aborto em Penambuco: 41

Com o recuo da CNBB e do Vaticano ao criticar a decisão do arcepisto de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, de excomungar a mãe da menina, o Balaio encerra aqui a discussão sobre o tema, a não ser que surjam fatos novos nesta história.

Centenas de comentários publicados nos posts da semana anterior continuaram chegando, com a grande maioria criticando as palavras e ações do bispo, mas aumentou o número de leitores que o defenderam, em textos que utilizavam argumentos bastante semelhantes.

Aos leitores que me acusaram de desconhecer o Código de Direito Canônico, como se fosse algo sagrado e incontestável, acho que a melhor resposta foi dada pelo arcebispo Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, orgão oficial do Vaticano, que criticou a decisão de excomungar a mãe da menina:

“Antes de pensar em excomungar, era mais importante salvaguardar a vida inocente”.

Pois foi exatamente o que fizeram a mãe da menina e os médicos responsáveis pelo aborto: salvaram a sua vida.  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
14/03/2009 - 09:51

120 anos dos filhos de dona Beth

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Na velha redação do Estadão da rua Major Quedinho, no centro da cidade, final dos anos 1960, dona Beth era uma figura muito falada. Mal falada, diga-se logo, para começo de conversa.

Seus dois filhos trabalhavam lá, na editoria de esportes, então comandada por Ludembergue Góes, que já era um veterano na época, e ainda trampa pesado até hoje. Por qualquer divergência com os meninos, seu nome era invocado pelos colegas, que mandavam ver na reputação da distinta senhora, mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Mas jamais tiveram coragem de repetir na cara dela o que falavam na redação.

Dona Beth nasceu em Piels, na antiga Checoslováquia, era filha de alemães e, apesar dos seus muitos anos de Brasil, falava português com dificuldade, errando nas corcordâncias e invertendo gêneros, o que era motivo de chacotas quando ela telefonava para falar com seus filhos.

O seu mamãe ligaram“, avisavam os colegas.

Ela veio grávida para o Brasil após a Segunda Guerra e aqui nasceu seu primeiro filho que vingou, depois de ter perdido três outros. Conheceu o marido, Nikolaus, um engenheiro das tropas do general iugoslavo Tito, num hospital de refugiados de guerra, onde trabalhava como enfermeira voluntária.

Doze anos depois, ficou viúva. Foi trabalhar como operadora de telex na DKW-Vemag, uma fábrica brasileira de automóveis, mais tarde vendida junto com ela para a Volkswagen, onde trabalhou na diretoria até se aposentar.

Filha de mãe judia que se casou com um jornalista católico, e foi batizada nesta igreja, assim como suas duas irmãs, sofreu com a perseguição dos nazistas. Cuidou de dois sobrinhos e da mãe, refugiando-se de bunker em bunker, mas o pai dela, Matheus, que não tinha nada a ver com a história, acabou morrendo antes da guerra acabar, depois de ser proibido de trabalhar como jornalista.

Por isso, gostava tanto do Brasil. Não queria voltar para a Alemanha, onde ainda moravam muitos parentes e amigos, nem a passeio. Mesmo falando portugues errado, ensinou seus filhos a amar o país que a adotou e a dar valor à hospitalidade e à generosidade de seu povo.

Os dois se tornaram jornalistas contra a sua vontade porque ela não queria que sofressem o mesmo que seu pai. Mas não teve jeito.

O filho mais velho levou o mais novo para trabalhar com ele no Estadão, no tempo em que nepotismo não era uma coisa considerada tão feia como hoje. Era prática normal nas redações, até nas famílias dos donos. Pouco tempo depois, o caçula, que era chamado de Alemão, foi trabalhar na revista Placar, onde passou a maior parte da sua vida profissional e se tornou um fotógrafo muito respeitado, antes de ir para a ESPN, onde há dez anos é repórter e editor do programa “Histórias do Esporte”.

Já o primogenito rodou pelas principais redações do país antes e depois de se tornar assessor e mais tarde Secretário de Imprensa do presidente Lula, para tristeza e preocupação de dona Beth, que tinha verdadeiro pavor de qualquer coisa ligada à política.  

Teve cinco netos _ dois jornalistas, uma roteirista de cinema, um empresário e uma alta executiva do mercado financeiro que agora está se formando em medicina _ e se viva fosse teria 11 bisnetos. Nascida na Primeira Guerra e sobrevivente da Segunda, morreu de velhice em 2004, aos 87 anos, muito contra a sua vontade.

Hoje, seus dois filhos, Ricardo e Ronaldo, comemoram juntos 120 anos (61 de um e 59 de outro) com um almoço de comida alema em São Sebastião, onde ela gostava muito de ir, nem que fosse só para ver o mar.

Elisabeth Kotscho, a dona Beth, era nossa mãe. Quem merece os parabéns é ela.

 

 

 

 

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/03/2009 - 12:35

Carapau a dar com pau em Toque-Toque

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SÃO SEBASTIÃO (SP) _ Sexta-feira, 13. Não sei como está o dia aí aonde vocês estão lendo esta edição do Balaio, mas por aqui está uma beleza, um sol de rachar e céu muito azul com poucas nuvens.

Em meio às notícias enguiçadas sobre a crise que resistem nas capas dos jornais, nada como pegar a estrada para achar coisa boa, que também tem, para a gente poder mudar um pouco o disco. 

Tenho certeza que vocês não vão ler esta notícia abaixo em nenhum outro lugar.

“Este ano tem carapau a dar com pau!”, foram logo me contando os amigos quando cheguei a Toque-Toque Pequeno na noite de quinta-feira. Os pescadores estão em festa com a generosa safra 2009 deste peixe popular que se come assado na brasa, vendido limpo a seis reais o quilo.

É bom para quem compra e para quem vende, mas quis o destino que os cardumes de carapau este ano passassem direto pelo mar daqui de frente de casa e fossem aportar na praia vizinha, o Toque-Toque Grande. A vida é assim mesmo, conformam-se os pescadores do Toque-Toque Pequeno: tem ano que dá aqui, tem ano que dá lá.

Não adianta ficar se queixando da vida quando o nosso mar não está para peixe. Nas viradas das marés e da lua, a fortuna tem seus desígnios próprios, ninguém tem o dom de forçar a natureza a mudar seu rumo, a não ser que se queira destruí-la, como tanto o homem tem feito.

Para os velhos pescadores, está tudo escrito nas estrelas. Mesmo assim, eles arriscam a sorte todos os dias. Se não botar o barco no mar e jogar a rede, aí é que não tem jeito. Para eles tanto faz se as Bolsas subiram ou desceram ou se a Igreja recuou da excomunhão da mãe da garota que abortou no Recife. Pensando bem, que diferença isso vai fazer para eles e para ela?

O importante é que está dando peixe a dar com pau. Meus amigos já me convidaram para uma carapauzada na praia, uma bela idéia para comemorar esta sexta-feira 13 em que a internet completa 20 anos de vida, cada vez mais presente na vida das pessoas, como nos conta a colega Marina Morena Costa aqui na capa do iG

E é para lá que eu vou assim que conseguir colocar este post no ar. As conexões por aqui ainda são lentas, mas não posso reclamar, nada é perfeito. Antes da internet, não tinha como conversar com vocês todos os dias e saber o que os leitores pensam sobre o que escrevo.

Bom fim de semana a todos. 

 

 

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
12/03/2009 - 10:30

Internet faz até Papa mudar de ideia

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Excomunhão é mesmo uma lei de Deus que ninguém pode contestar?

Uma informação perdida no meio de um despacho da agência espanhola EFE mostra como a internet pode fazer até o Papa Bento 16 admitir que errou por ter revertido a excomunhão de quatro bispos ultraconservadores ordenados pelo arcebispo Marcel Lefèbvre, fundador da Sociedade São Pio 10º.

Se até o Papa, diante da reação da opinião pública manifestada pela internet, reconheceu falhas no processo de reversão da excomunhão de bispos radicais e mudou de ideia, por que o mesmo não pode acontecer, em sentido inverso, com o arcebispo José Cardoso Sobrinho, da Arquidiocese de Olinda e Recife, aquele que excomungou os médicos e a mãe da menina de 9 anos estuprada pelo padastro, grávida de gêmeos?

O Papa Bento 16 enviou carta manuscrita a todos os bispos católicos na qual cita erros na condução do caso e admite que a Igreja “não se deu conta” da forte reação às declarações do bispo Richard Williamson feitas pela internet, ao negar o Holocausto, que “se sobrepuseram de modo imprevisível à reabilitação dos prelados, causando um curto-circuito midiático que alterou o caso”.

Fundamental na recente campanha que elegeu Barack Obama para presidente dos Estados Unidos, a democratização do debate público pela internet finalmente chega à Igreja Católica, levando o Papa a admitir que a gestão do processo que revogou as excomunhões não foi “suficientemente explicada”.

Ainda está em tempo de dom Sobrinho se informar melhor sobre o que circula na internet brasileira a respeito das suas declarações sobre excomunhão, estupro e aborto no caso da menina de Alagoinha e, quem sabe, também rever sua decisão.

A noite mágica do maestro pianista

O concerto da noite de quarta-feira na Sala São Paulo, marcando a abertura da temporada 2009 da Orquestra Bachiana Finarmônica, regida por João Carlos Martins, vai ficar registrado para sempre na minha memória e, certamente, na de quantos puderam estar lá naquela noite mágica. 

O pungente esforço do pianista que se tornou maestro aos 64 anos, depois que perdeu os movimentos das mãos e dos braços, para voltar a fazer o que mais gosta na vida, foi recompensado pelos prolongados aplausos da platéia, de pé, ao final de cada uma das quatro peças executadas.

Na primeira parte do programa, Martins regeu a sinfonia Eroica, de Beethoven, por longos 48 minutos, sem partituras à sua frente, fazendo os gestos possíveis para se fazer entender pelos músicos na sua banqueta de maestro.

Mas as maiores emoções da noite ficaram para a segunda parte, quando ele foi para o piano executar clássicos de Mozart, Rachmaninoff, Paganini e Enio Morricone, o compositor da música tema de Cine Paradiso.

O filme é citado por João Carlos Martins na apresentação do programa em que fala do seu livro autobiográfico “A Saga das Maõs”:

“Ao reler este livro, antes de mandar a aprovação final para o editor, lembrei-me de uma cena de Cine Paradiso. Vi-me diante de uma tela, onde um velho projetor passava um filme desde a minha inf}ância até hoje. eomocionei-me, ri, chorei… Gostaria de ter mudado muitos fatos, mas esta foi a minha realidade”.

Martins ainda voltaria ao piano para executar o Hino Nacional nos diferentes ritmos que compõem o rico cardápio da nossa música popular. Quando os dedos já não ajudavam mais, tocava com os punhos fechados ou batendo os cotovelos no teclado.

Deve ter sido bem sofrido, mas ele deu, mais uma vez, a volta por cima, aos 68 anos, mais magro e com os cabelos grisalhos cada vez mais compridos. Foi um belo espetáculo de superação, uma noite para não se esquecer.

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/03/2009 - 12:35

Aos 68, a volta por cima do pianista Martins

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Domingo passado, foi Ronaldo Fenômeno que ressuscitou pela terceira vez ao marcar o gol de empate do Corithians contra o Palmeiras, que a televisão não parou ainda de reprisar.

E é hoje a aguardada noite da volta por cima de outro artista, meu amigo João Carlos Martins, o grande pianista brasileiro que virou maestro e já passou por nove cirurgias para poder tocar novamente _ esta é a sua sexta ressurreição.  

Aos 68 anos, empolgado como no dia da sua estréia, menino prodígio de 13, no momento em que subir ao palco da Sala São Paulo, às 21 horas, para a abertura da temporada 2009 da Orquestra Bachiana Firlarmônica, João Carlos Martins estará começando mais uma vida nova em sua acidentada carreira.

A vida deste artista aplaudido pelas platéias das maiores salas de concerto do mundo foi marcada pela superação de graves problemas físicos nas mãos e nos braços, que por cinco vezes o obrigaram a deixar o piano.

Para agradecer os ingressos que me enviou, falei com ele agora de manhã e fiquei contagiado com sua alegria por poder voltar a fazer o que mais gosta na vida _ a exemplo do que aconteceu no futebol com o Ronaldo Fenômeno apenas três dias atrás.

Fanático e raro torcedor da Portuguesa, Martins, como faz todos os dias, acordou às 5h30 da manhã. Me conta que fez duas horas de fisioterapia em sua casa para poder tocar com pelo menos dois dedos da mão direita e, em seguida, subiu e desceu quatro vezes as escadarias do prédio de 11 andares para fortalecer as pernas.  

Para reger a Orquestra Bachiana na Heróica, a sinfonia mais complexa e difícil de Beethoven, que dura 48 minutos, não basta ser artista.

Tem que ter fôlego de atleta e memória de elefante, pois, como não tem mais força muscular nos braços para poder virar as 10 mil páginas da partitura, ele teve que decorar tudo.

João Carlos Martins agora rege e toca de ouvido, como se dizia antigamente. Costuma perder nesta brincadeira uns dois quilos por apresentação, o mesmo que um jogador de futebol.

Martins lembra uma curiosidade desta sinfonia de Beethoven, que foi originalmente dedicada a Napoleão. “Quando percebeu que o Napoleão tinha virado um ditador, Beethoven rasgou as partituras com a dedicatória”.

Nas cirurgias, os médicos fizeram aplicações de botox para fortalecer mãos e braços do pianista, mas o procedimento tem prazo de validade limitado e o efeito pode acabar de uma hora para outra.

A grande prova para ele como pianista vai ser na hora de executar Rachmaninoff _ além dele e Beethoven, estão no programa também Mozart e Morricone.  

E se não conseguir, se as dores voltarem?

“Se sentir que está acabando o efeito do botox, eu simplesmente paro e explico ao público o que está acontecendo. Mas, do jeito que eu me conheço, isto não vai acontecer, vou até o fim”.

A primeira ressurreição de Martins aconteceu em 1967. Depois de um longo tempo parado, usou dedeiras de aço para a reestréia num concerto em Nova York. O problema voltou, teve que parar de novo e só em 1979 voltou a tocar. Aos 53 anos, nova parada, desta vez em consequência da LER, a sindrome dos movimentos repetitivos que deixou suas mãos paralisadas.

O pior momento para ele, no entanto, aconteceu durante um assalto que sofreu na Bulgária e deixou como sequela uma grave lesão cerebral. Sem poder mais tocar piano, recentemente Martins virou regente na sua quinta ressurreição. Pergunto como se sente no dia da sexta volta, agora como pianista e maestro.

“É a mesma sensação de quando subi ao palco pela primeira vez no início da minha carreira. Sinto o corpo mais quente, como um touro que vai para a arena e precisa liquidar o toureiro. Eu sempre torci para o touro…”

  

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
10/03/2009 - 09:25

Oposição joga Dilma nos braços de Lula

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O grande desafio dos estrategistas da candidatura de Dilma Roussef no momento, além de torná-la mais conhecida da população, é ligar seu nome ao do presidente Lula. É mostrar ao eleitorado que Dilma é a candidata de Lula à sua sucessão em 2010.

Até aí, não estou contando nenhuma grande novidade, eu sei. O que talvez nem todo mundo já tenha percebido é que quem mais está ajudando Lula e Dilma nesta tarefa, por incrível que possa parecer, são os líderes da oposição demo-tucana.

Com dois candidatos a candidato e o processo de escolha emperrado, sem nenhuma proposta concreta para ajudar o país a enfrentar a crise econômica do fim do mundo e sem apresentar até agora nenhum projeto para o Brasil pós-Lula, nas últimas semanas a oposição tem se limitado a fazer denúncias que só acabam ajudando a jogar Dilma no colo do presidente.

Quem ainda não sabia que ela é a candidata do presidente Lula à sua sucessão _ e não é de agora, mas desde 2005 _ ficou sabendo. Cada vez que a oposição apresenta uma nova denúncia contra os dois, como aconteceu com a representação ao TSE por campanha eletioral antecipada, mais associa um nome a outro.

Desta vez, foi o presidente nacional do DEM, o deputado carioca Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito blogueiro Cesar Maia, quem decidiu apresentar requerimento pedindo explicações sobre os vôos da ministra.

Quer saber se ela aproveitou as viagens oficiais para participação em encontros políticos, como se os encontros de quem chefia a Casa Civil não fossem sempre políticos pela própria natureza do cargo.

Segundo levantamento feito pelo jornal O Globo, publicado na matéria “Oposição quer explicações sobre vôos de Dilma”, a ministra fez 30 viagens para promover 40 obras do PAC.

O jornal foi ouvir Rodrigo Maia:

“Vou apresentar requerimento para saber quem está pagando as viagens e se ela está usando os vôos só para agenda oficial ou se há agenda política”.

Se a oposição continuar com esta mesma estratégia, quando a campanha oficial finalmente começar, lá para julho de 2010, prazo previsto pela lei, segundo os juristas também ouvidos por O Globo, o eleitorado já estará cansado de saber que Dilma é a candidata de Lula.

É tudo o que o governo quer para continuar mais quatro anos no poder. 

Padre critica bispo

Desde domingo, quando publiquei o texto sobre os católicos envergonhados com o caso da menina e do bispo do Recife, muitos leitores enviaram comentários me criticando por ter defendido os médicos que salvaram a vida da criança de nove anos, estuprada pelo padastro, grávida de gêmeos.

Segundo eles, um católico não pode criticar dogmas e decisões adotadas pela hierarquia da Igreja Católica, como a excomunhão da mãe da menina e dos médicos, anunciada semana passada pelo bispo José Cardoso Sobrinho. Mandaram-me procurar outra igreja, o que não está nos meus planos.

Se são tão rígidos com um simples fiel, penso no que dirão da nota publicada segunda-feira por Ancelmo Gois em sua coluna de O Globo em que relata, sob o título “Outra igreja é possível”, o que aconteceu domingo num templo carioca:

“A decisão do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina de nove anos que havia sido estuprada pelo padrasto, foi criticada ontem pelo Padre Evandro em duas missas na Igreja são Paulo Apóstolo, em Copacabana.

O padre reconheceu que a Igreja tem suas leis, mas ressaltou que há casos e casos. Ele manifestou seu constrangimento diante da posição do bispo de dizer que o aborto era mais grave do que o estupro.

O padre foi aplaudido de pé pelos fiéis”.

Faço minhas as palavras do padre e só espero que ele também não seja excomungado por dom Sobrinho.

O deboche do Senado

Tem gente que paga para trabalhar, como o médico Aziz Miguel Filho, como contei na semana passada aqui no Balaio na reportagem que fui fazer em Barra do Ribeira, no litoral sul paulista (“Um outro mundo, tão perto daqui”).

E tem gente que ganha fortunas em horas extras sem trabalhar. Onde? Ora, só poderia ser lá mesmo, no Senado Federal, que pagou R$6,2 milhões em horas extras para 3.883 funcionários em janeiro, durante o recesso parlamentar, ou seja, quando estava todo mundo de férias.

Só pode ser deboche. Dá quase 50 funcionários por senador para um ajudar o outro a não fazer nada. O Senado só voltou a funcionar dia 2 de fevereiro e a justificativa oficial para este acinte é que os funcionários precisavam preparar a sessão de reabertura.

Que maravilha!

Em tempo: como bem lembrou um leitor em seu comentário, quem autorizou esta patranha, e ainda concedeu um aumento de 11% no valor das horas extras, foi o senador Efraim Morais. De onde? Do DEM da Paraíba.

Para quem não se recorda, é o mesmo senador que comandou a ”CPI do Fim do Mundo”, apresentando denúncias a granel contra o governo do presidente Lula _ um homem probo, como se vê, dedicado a combater a corrupção e a impunidade.

Até agora ele não apareceu para justificar esta medida, que tomou apenas três dias antes de entregar o cargo de primeiro-secretário da Mesa do Senado.

  

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
08/03/2009 - 18:45

Aos 32, Ronalducho ressuscita de novo

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O homem é mesmo duro na queda. Três vezes dado como acabado para o futebol, ao sofrer contusões gravíssimas, o Ronaldinho menino prodígio, que virou Ronaldo Fenômeno, o melhor do mundo, e agora o Ronalducho, ele ressuscitou pela terceira vez neste domingo.

Em seu segundo jogo pelo Corintians, bastaram alguns minutos no segundo tempo para este raro talento de 32 anos dar novamente a volta por cima ao empatar com um gol de cabeça, na prorrogação, o jogo que seu time estava perdendo por um a zero para o Palmeiras, em Presidente Prudente.

Uma bola na trave, um drible como nos velhos tempos, um passe sob medida na cabeça de André Santos, e o gol no sufoco _ tudo a ver com a trejetória do menino pobre do subúrbio carioca, que conquistou o mundo e depois não soube mais o que fazer com a sua fortuna, e o time que lhe deu a camisa para voltar a ser feliz.

Mais do que o próprio gol, esta terceira ressurreição foi marcada pelo pique de moleque que ele deu, pulando alucinado as placas de propaganda, agarrando com força o alambrado, em direção à torcida do Corinthians, para comemorar junto com ela a sua volta ao futebol, sua alegria e razão de viver. 

Ainda anteontem, conversando com amigos num bar, um deles me perguntou o que levava Ronaldo, que não precisa mais disso, e já garantiu a sobrevivência até a terceira geração dos seus descendentes, a se sacrificar tanto para voltar a jogar bola, ralando nos treinos e tomando porrada de tudo quanto é lado pela vida que leva fora dos gramados.

Ao ver no final do jogo a sua cara feliz de quem voltou a fazer o que mais lhe dá prazer, a única que sabe fazer na vida e o diferencia do resto dos mortais, que é marcar gols, encontrei a resposta que meu amigo procurava.

Não é questão de vaidade nem dinheiro. O cidadão Ronaldo Nazário não precisa mais correr atrás de fama e fortuna, mas não consegue viver longe deste mundo do futebol, o único lugar onde ele é reconhecido e aplaudido sem ter que dar satisfações a ninguém.  

Basta ouvir o estádio gritando seu nome para ele voltar a ser o fenômeno menino, que encanta a torcida e se irmana com ela, ainda mais sendo esta torcida a do Corinthians.

Se alguém, como eu, ainda tinha alguma dúvida de que este cara nasceu para brilhar e voltaria a jogar bola, contrariando toda a lógica, este domingo foi o dia dele dar a resposta.

Ronaldo ressuscitou de novo e não importa quanto tempo dure o seu amor eterno com a torcida desta vez. No gramado, seu palco, mesmo para um são-paulino, foi bonito vê-lo novamente fazendo o que mais gosta e sabe, como se fosse a sua estréia no futebol.

O futebol brasileiro estava precisando viver um momento de superação como este para voltar a acreditar nele mesmo, como aconteceu com Ronaldo Nazário. Pelo menos, ele ajudou a melhorar a auto-estima dos gordos…  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
08/03/2009 - 11:26

Aborto e excomunhão: católicos envergonhados

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Os três assuntos mais comentados da última semana no Balaio, na Folha e na Veja:

Balaio

A menina e o bispo/Aborto e excomunhão: 1.783

Intolerância: 147

Médico da Juréia: 23

Folha

Estupro da menina em Pernambuco: 65

Collor em comissão do Senado: 52

Ditadura: 50

Veja

Pelé: 118

Cotas raciais: 82

André Petry: 54

Ufa! Nunca tinha visto nada parecido nestes seis meses de Balaio, que vamos completar na próxima quarta-feira, e nos meus quase 45 anos de carreira como jornalista.

Acabei agora de fazer a moderação dos comentários que chegaram até as 10h30 deste domingo, um trabalho que me fez ficar os últimos três dias na frente do computador.

Como sei que é bastante delicado e polêmico o caso da menina estuprada e do bispo excomungador do Recife, tive que ler com cuidado os quase 1.800 comentários publicados, fora os mais de 500 que fui obrigado a excluir por apenas conterem xingamentos sem argumentos.

Desde quinta-feira, quando publiquei o primeiro texto no Balaio (“Posso excomungar este bispo da minha Igreja”), a indignação dos leitores veio num crescendo, cada vez que dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Recife e Olinda, abria a boca para fazer novas declarações sobre o caso.

Ao excomungar a mãe da menina de nove anos violentada e grávida de gêmeos, e os médicos que a submeteram a aborto para salvar sua vida, ao mesmo tempo em que poupava o padrasto estuprador, alegando que o aborto é um crime mais grave do que o estupro, dom Sobrinho provocou a revolta de católicos e não-católicos, ateus e integrantes de todas as torcidas do país.

Na sexta-feira, quando o bispo recebeu a aprovação do Vaticano e da CNBB para suas palavras e atos, os leitores passaram a fazer pesados ataques à Igreja Católica, sua história, seus dogmas e sua hierarquia, com uma violência nunca vista antes nos tempos em que não havia internet.

A imensa maioria do universo de leitores que se manifestaram, condenou a posição do bispo e da Igreja Católica no caso, lembrando os crimes por ela praticados ao longo da história, desde a Idade Média, e cobrando a punição dos seus membros pedófilos recorrentemente denunciados em tempos mais recentes.

Os católicos se declararam envergonhados, muitos falaram em deixar a Igreja, alguns pediram para ser excomungados e houve até quem propusesse um movimento para se deixar de ir à missa e pagar o dízimo à Igreja.

O que mais me chamou a atenção é que a maioria dos leitores, ao contrário do que acontece em outros blogs, não usou o anonimato nem codinomes para expressar sua opinião, dando seus nomes completos, alguns até com fotografia, endereço e assinando em baixo.

Foi uma discussão em alto nível, com algumas exceções, claro, oferecendo material que daria um livro de bom tamanho sobre a religiosidade do brasileiro, suas angústias, suas crenças e sentimentos neste final da primeira década do terceiro milênio. Para quem tiver tempo, recomendo uma passada na área de comentários.

É de se destacar também a grande quantidade de mulheres que pela primeira vez entrou no Balaio para se manifestar. Muitas pediram para o bispo se colocar no lugar da menina estuprada.

Pode ter igual, mas duvido que exista uma área de comentários em outro lugar, com moderação prévia, mais democrática do que a do Balaio, que abriu espaço para todas as correntes de opinião. Tenho orgulho dos leitroes deste Balaio.

Entre aqueles da parte minoritária de leitores que condenou os médicos que fizeram o aborto, apoiou vigorosamente a excomunhão dos envolvidos no caso e defendeu os dogmas católicos, apoiando o bispo, a CNBB e o Vaticano,  o principal argumento é que esta Igreja não mudou suas leis ao longo de 2.000 anos e por isso sobrevive até hoje.

Talvez esteja exatamente aí o maior dilema colocado pelo caso do Recife tanto para a hierarquia como para os fiéis católicos: como conviver com a vida real num mundo que sofreu tantas e tão profundas transformações nestes últimos 2.000 anos?

Como ainda condenar e ameaçar de excomunhão os católicos que usam preservativos em tempos de Aids, proibir relações sexuais antes do casamento, mandar para o inferno os que se divorciam ou partem para um segundo casamento, temas defendidos pelo papa Bento 16 em sua recente visista ao Brasil?

Sem entrar no mérito do amplo debate travado no Balaio pelos antagonistas nesta questão, até porque já deixei claro o que penso no post de sexta-feira (“A menina e o bispo, a Igreja no limbo”), o caso do Recife levantou questões há muito latentes na sociedade sobre a religiosidade do brasileiro, que mereceriam um estudo mais aprofundadado dos que se dedicam a este tema nas universidades brasileiras.

Mais do que isso: apesar da caudalosa cobertura jornalística, depois que a tragédia de Alagoinha, no sertão pernambucano, ganhou os telejornais nacionais, não vi ninguém ir lá para tentar descobrir suas causas, saber como se chegou a esta barbaridade dos estupros que a menina sofreu do padastro ao longo de três anos, antes de engravidar.

O debate entre os leitores não se limitou às questões religiosas, ao estupro, ao aborto e à excomunhão, em si já bastante explosivas, mas levantou temas de toda ordem, como se pode notar pelos mais repetidos nas mais de 2.000 mensagens enviadas ao Balaio.

A lista é grande: controle de natalidade, famílias desestruturadas, Holocausto, sectarismo, dogmas falidos, doutrina, pedofilia, pederastia, celibato, intolerância, radicalismo, Inquisição, fogueiras, fundamentalismo, fanatismo, Idade Média, violência sexual contra crianças e mulheres.

O leitor Ronival, das 18:18 do sábado, foi quem melhor resumiu em poucas palavras o sentimento dos católicos envergonhados:

“A igreja Católica não está apenas cada vez mais distante do povo. Está cada vez mais distante de Deus”.

Por isso, certamente, muitos leitores anunciaram em suas mensagens que preferem falar diretamente com Deus, sem intermediários e sem frequentar templos de qualquer denominação religiosa.

Pela amostra que tivemos, com maior ou menor grau de indignação nas manifestações em prosa e verso, uma até em forma de cordel, do leitor Miguel Lucena Filho, encerro este balanço com os versos finais da mensagem que ele enviou ao Balaio:

Dom José excomungou

A equipe de plantão,

A família da menina

E o ministro Temporão.

Mas para o estuprador,

Que por certo perdoou,

O arcepispo recervou

A vaga de sacristão

Em tempo: aos leitores que se queixam da demora na liberação de comentários informo que isso se deve à grande quantidade enviada e também pelo fato de eu precisar comer, ver a família e dormir de vez em quando. Preciso arrumar alguém para me ajudar a fazer este trabalho para ter tempo de levantar novas histórias e escrever novas matérias.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
06/03/2009 - 10:47

O bispo e a menina, a Igreja no limbo

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Aos 75 anos, já aposentado e apenas esperando seu sucessor ser indicado pelo Vaticano, dom José Cardoso Sobrinho, faz quase 25 anos arcebispo metropolitano de Recife e Olinda, sucessor de dom Helder Câmara, conseguiu finalmente sair do anonimato e tornar-se de um dia para outro nacionalmente conhecido. Apareceu até no Jornal Nacional.

O motivo da sua fama repentina, no entanto, causou um enorme estrago à imagem da Igreja Católica, que ainda vinha sendo preservada no fogo cruzado de leitores cada vez mais indignados, que hoje atinge indistintamente membros dos três poderes, da mídia e de outras igrejas, especialmente as evangélicas.

Ao excomungar e abrir processo na Justiça contra a mãe da menina de nove anos estuprada pelo padastro, grávida de gêmeos, e os médicos que a submeterem a aborto para salvar sua vida, dom Sobrinho alcançou a quase unanimidade _ contra ele e a sua Igreja.

Basta ver o teor dos mais de 450 comentários enviados ao Balaio desde que entrou no ar, no meio da tarde desta quinta-feira, o texto que escrevi sob o título “Posso excomungar este bispo da minha Igreja?”.

De cada dez leitores, nove condenaram os atos e as declarações do bispo, fazendo pesadas críticas à Igreja Católica. Os comentários mais irados vieram justamente de leitores de Pernambuco, que acompanham de perto faz mais tempo os desmandos e destemperos de dom Sobrinho, mas chegaram mensagens carregadas de revolta e indignação de todas as partes do país e até do exterior.

Seria muito bom para ele e a hierarquia da Igreja Católica que tivessem um pouco de humildade para ler e refletir sobre o que os leitores escreveram. Jorgina Marques, aos 0:47 da madrugada, falou sobe a vergonha que sentia de ser católica neste momento. Yvens Rocha, às 7:28, escreveu uma carta dirigida diretamente ao bispo, que termina assim:

“Se o senhor e a Igreja não podem fazer nada para ajudar a esta mãe a esta criança, deixe-as em paz com o seu sofrimento”.

“Hipócrita” foi o termo mais gentil e mais usado pelos leitores para se referir ao papel de dom Sobrinho nesta trágica história.

O leitor Cláudio, à 1:56, resumiu o sentimento de muitos outros comentaristas do Balaio:

“Por estas e outras é que o número de católicos não praticantes e de ateus não para de subir no Brasil e no mundo”.

O caso da menina do Recife levou muitos leitores a cobrarem da Igreja um posicionamento sobre as recorrentes denúncias de pedofilia contra seus membros. Outros levantaram a questão da hipocrisia do celibato e indagaram por que o bispo ainda não excomungou o padrasto estuprador, que está preso em Pernambuco.

Fui obrigado a excluir grande número de comentários por conterem ofensas e injúrias contra dom Sobrinho e a Igreja, mas mesmo assim pode-se ter uma idéia do sentimento de revolta manifestado por pessoas de todas as religiões contra a sua atitude, com termos que não costumam ser empregados contra hierarcas da Igreja Católica.

Tive problemas de conexão com a internet ontem à noite e alguns comentários deixaram de ser publicados por engano. Por isso, peço aos leitores que os enviem novamente, desde que não contenham termos injuriosos.

Mais assustado fiquei, após terminar de ler os comentários, que me ocuparam muitas horas ontem e hoje para fazer a moderação, ao ler na Folha que dom José Cardoso Sobrinho insiste em defender sua posição no caso com argumentos cada vez mais patéticos.

Em entrevista a Renata Baptista, da Agência Folha, no Recife, ele teve a coragem de fazer as seguintes declarações:

Sobre o risco de vida que a menina corria: “O médico dizia que havia o risco, mas o fim não justifica os meios. A boa finalidade de salvar a vida dela não podia ter suprimido duas vidas. Vou dar um exemplo: eu gosto muito de dar alimentos aos pobres, mas para consegui-los não posso roubar um banco ou assaltar alguém. Dois inocentes morreram sem chance de se defender”.

Sobre o possível afastamento de fiéis da Igreja: “Se afastar os fiéis que não comungam os ensinamentos da Igreja, que seja. Hitler matou 6 milhões de judeus e o Holocausto é lembrado todos os anos. Também penso num holocausto silencioso, nos 50 milhões de abortos no mundo a cada ano”.

Depois de ler isso, não tenho mais o que dizer. Por piedade, algum amigo ou superior do Vaticano, deveria pedir a este bispo, que colocou a Igreja Católica no limbo, para ficar calado. De preferência, que seja indicado rapidamente o seu substituto, antes que cause mais estragos e indignação.  

  

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
05/03/2009 - 14:25

Posso excomungar este bispo da minha igreja?

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Só fui abrir os jornais hoje de manhã depois de terminar de escrever o texto do post anterior sobre minha viagem à Juréia (“Um outro mundo, tão perto daqui”) e não consigo me conformar com o que li a respeito deste inacreditável caso da menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, que estava grávida de gemeos.

Para salvar a vida da menina, os médicos da Maternidade Cisam, da Universidade de Pernambuco, no Recife, fizeram o que deveriam fazer: na quarta-feira, ela foi submetida a aborto para interromper a gravidez.

O diretor médico da maternidade, Sergio Cabral, que foi o responsável pelo procedimento, explicou com todas as letras:

“O risco maior seria a continuidade dessa gravidez. Uma criança de nove anos não tem ainda os orgãos formados. Se tudo correr bem, ela deve ter alta ainda esta semana”.

E não é que um advogado da Arquidiocese de Olinda e Recife, Márcio Miranda, anunciou que vai apresentar uma denúncia de homicídio contra a mãe da vítima por ter autorizado o aborto?

Dá para acreditar num absurdo destes? Como se estivesse falando em nome de Deus, o próprio, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, ainda veio a público justificar a ação do advogado:

“Nós, ministros da Igreja Católica, temos obrigação de proclamar a lei de Deus. Nesses casos, os fins não justificam os meios, e a lei humana contraria a lei de Deus, contra a morte”.

Nós, quem, cara pálida? Como católico praticante, batizado, crismado e formado em escola de padres, ex-membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, não posso concordar que este bispo fale em meu nome e no da minha Igreja.

Clama aos céus que o que está em jogo não são as leis, nem dos homens nem da Igreja, mas apenas a vida de uma menina indefesa, ainda mais num país em que a legislação autoriza o aborto em vítimas de estupro até a 20ª semana de gravidez, sem autorização judicial.

Como o bispo Sobrinho já excomungou a família toda e meio mundo nesta trágica história, eu pergunto: também não tenho o direito de excomungá-lo da minha igreja?

Quanto mais ele procura defender sua posição, mais o bispo me revolta com o que leio no jornal, chegando a duvidar que as palavras sejam dele mesmo:

“A menina engravidou de maneira totalmente injusta, mas devemos salvar vidas. A Igreja sempre condenou e vai continuar condenando o aborto”.

Engravidou de maneira totalmente injusta? O que é isso? Por acaso existe estupro justo?

Pois se o bispo está mesmo interessado em salvar vidas, deveria dar todo o apoio aos médicos da Maternidade Cisam e à mãe da menina e não ameaçá-los com um processo na Justiça dos homens.

Ou deveria ir conversar com Paula Viana, a coordenadora do Grupo Curumim, organização não-governamental de defesa da mulher, que poderia lhe explicar qual vida precisava ser salva:

“A cada dia que passava, o risco era maior, a menina se sentia mal e já apresentava outras complicações. Tinha que ser feita uma intervenção médica imediata”.

E pensar que esta mesma Arquidiocese de Olinda e Recife já foi ocupada por um homem como meu amigo dom Hélder Câmara, o bispo que nos tempos mais sombrios da ditadura militar, arriscava a própria vida para salvar a vida dos outros.

Tenho certeza de que esta Igreja que dom Sobrinho diz representar não é a minha Igreja e não é a Igreja de dom Hélder. Alguém está na Igreja errada.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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