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26/03/2009 - 13:53

No ônibus com a orquestra de Martins

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Poucas vezes na minha carreira me senti tão feliz com a profissão como ontem, quarta-feira, ao fazer a reportagem sobre um dia na vida do maestro e pianista João Carlos Martins e sua Orquestra Filarmonica Bachiana (a titular e a formada por jovens), que será publicada na edição de abril da revista Brasileiros.

Aos 68 anos, depois de passar por nove cirurgias para poder voltar a tocar piano, sem as mordomias dos grandes artistas de seu porte, Martins embarcou num ônibus, saindo do centro de São Paulo, às 8h30 da manhã.

Junto com seus músicos, seguiu rumo ao Rio de Janeiro, onde fariam uma apresentação à noite em comemoração aos 10 anos do IBDD (Instituto de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiências).

Parecia contente como menino que vai fazer uma excursão com seu time de futebol de colégio. João Carlos martins tinha chegado em casa à meia noite, depois de uma apresentação da Orquestra Jovem, em Valinhos, no interior de São Paulo, na quarta-feira. 

Às oito de quinta, já estava a mil, depois de dormir apenas três horas e subir e descer os 16 degraus que ligam os dois pisos do seu apartamento nos Jardins, como faz todos os dias. 

Brincando com cada um, foi-me apresentando alguns dos 31 músicos, entre profissionais e jovens, que pela primeira vez se apresentariam juntos num concerto, e se emocionou ao ser festejado por um morador de rua que o reconheceu e lhe deu um beijo na testa.

“É o senhor mesmo? É o maestro? Nem acredito…”. Ao longo do dia, isto se repetiria várias outras vezes em diferentes lugares da viagem, e Martins, um velho chorão assumido, ficava com os olhos marejados.

Sua história de vida, feita de superação e fé no taco, repetidas vezes contada em programas de televisão, no Faustão e no Jô, ainda o emociona e emociona os outros.

Ícone da música clássica no Brasil, pianista consagrado que já gravou toda a obra de Bach, aplaudido nos maiores auditórios do mundo, agora virou pop star reconhecido por onde passa. 

Foi assim também depois que liguei o gravador e ele me contou, entre lágrimas e gargalhadas, como virou maestro e, mais tarde, se arriscou a tocar piano novamente, com alguns poucos dedos, dependendo do dia.

Falou sem parar como foi criar duas orquestras, a partir do zero, para ter a quem reger, sem nenhum recurso público, apenas com patrocinadores privados, até pararmos para o almoço em Queluz, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro, onde também foi reconhecido ao ser servir no bandejão.

De volta ao ônibus, contou sua desastrada passagem pela política como arrecadador de fundos de campanha de Paulo Maluf aquele rumoroso caso que ficou conhecido como Pau Brasil, e quase destruiu sua carreira.

Foram sete horas de viagem até o ônibus encostar num hotel modesto junto ao Largo da Carioca, no centro do Rio. Cansados, os músicos não fizeram a algazarra habitual no ônibus. A maioria passou a viagem dormindo ou ouvindo música com fone de ouvido.

Todos subiram rapidamente para seus quartos, com pouco tempo para esticar as pernas. Às 18h15, já deveriam estar no saguão do hotel para pegar o ônibus de novo, em direção á Universidade Estadual do Rio de Janeiro, perto do Maracanã.  

O único ensaio para este concerto começou uma hora antes do previsto para o início do programa: 20 horas. Como tinha feito nova aplicação de botox nas mãos, no começo da semana, Martins logo percebeu que seus dedos ainda estavam rígidos e alterou algumas peças do programa que não conseguia executar.

Na hora marcada, havia poucas cadeiras ocupadas no Teatro Odylo Costa, filho, com capacidade para 1.100 espectadores. Logo chegaram meus amigos Tereza e Márcio Amaral, que criaram dirigem o IBDD, para explicar o motivo do atraso ao maestro.

A entidade havia doado um elevador para cadeirantes à universidade, que só terminou de ser instalado no mesmo dia do concerto _ e não estava funcionando.

Por isso, o espetáculo começou com quase uma hora e meia de atraso, um recorde na história da orquestra de Martins, mas ele de nada reclamou. Era um espetáculo fechado, sem bilheteria, patrocinado pela Petróleo Ipiranga.

Sem poder fazer nada, aproveitou para tirar um cochilo, enquanto os músicos se espalhavam pela coxia, afinando seus instrumentos. 

Com o mesmo entusiasmo demonstrado semana passada numa Sala São Paulo lotada, na abertura da temporada da Orquestra Filarmonica Bachiana, regeu na primeira parte seis peças que contam a história da dança na música.

Na segunda, arriscou tocar três músicas ao piano, encerrando com o Hino Nacional executado em diferentes ritmos brasileiros. Foi aplaudido de pé e, ao receber os agradecimentos dos organizadores, chorou de novo.

Antes das 11 da noite, o ônibus da orquestra encostou na porta do teatro e recolheu o maestro pianista e sua tropa para a viagem de volta a São Paulo, onde deveriam chegar entre 5 e 6 da manhã desta quinta-feira.

Poucas horas depois, às cinco da tarde, eles já subiriam ao palco de novo para um concerto no auditório do Tribunal Regional do Trabalho, na Barra Funda.

Hélio Campos Mello, meu amigo fotógrafo e também dono da revista, e eu, que não temos todo este pique, ficamos na cidade para voltar de avião no dia seguinte. Valeu a viagem. 

Em tempo

Aos leitores que estranharam minha ausência aqui no Balaio, a explicação está dada aí acima: não sei fazer direito duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, atualizar o blog e fazer reportagem.

Aproveito para agradecer aos leitores que continuaram mandando muitos comentários, em sua grande maioria da melhor qualidade, para o post que conta o drama do meu amigo Zé Telles, o brasileiro que ficou doente com a desonestidade.

Agora vou começar a escrever a reportagem completa sobre João Carlos Martins, que poderá ser acessada no site da Brasileiros, aqui mesmo no iG, na primeira semana de abril.  

 

  

 

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

Ver todas as notas

30 comentários para “No ônibus com a orquestra de Martins”

  1. Adriana disse:

    Professor Kotscho,

    Que exemplo de otimismo o pianista nos dá! É um refresco frente a tanta notícia de corrupção e violência.

    Parabéns pelo “POST”!

  2. JUCAPIRAMA disse:

    Tem pessoas que transcendem, amam o que fazem, tem tudo pra desistir, mas continuam pelo amor a atividade.

    O que é a historia de cada uma dessa pessoas?
    O que os joga pra frente?

    Vejamos muitos músicos não iriam simplesmente por ter que ir de ônibus.
    E olha que o “Ome” já tocou em tudo que é sala por esse mundo.

    Outros músicos ainda teriam desistido em cima da hora por alguma coisa não funcionar, exemplo, um elevador, ou ainda ter de voltar no mesmo dia de uma apresentação.

    Sobre alguns músicos dá pra escrever muito usando todas as linhas e folhas de um caderno.

    Outros, a gente traça um pequeno segmento de reta.
    Só isso?
    É
    A historia desses são todos os pontos contidos neste segmento.

    Simples e infinita.

  3. contraponto disse:

    Para fugir da avalanche de más notícias, nada como ler este post sobre o compositor João Carlos Martins. De´tragédias, já nos bastam os telejornais.

  4. Sou amante da música clássica, neo-clássica, etc…, principalmente se ela for bem interpretada por um (a) pianista. Concordo com você, pois estou com 68 janeiros nas costas e tendo que ouvir as “músicas” populares, na maioria das vezes sem querer. Parabéns por essa reportagem e prossiga…
    RF

  5. valdinéia disse:

    Olá, eu já tive o prazer de assistir a uma apresentação do maestro e pianista João Carlos Martins com a Orquestra Filarmonica de São Bernardo do Campo.
    Só posso disser que foi divino!!!
    O meu filho de 1ano e oito meses ficou quietinho e até dormui…
    Um beijo carinho e minha reverencia ao querido maestro.

  6. Paulo disse:

    Certamente deve de ter sido uma experiencia incrivel. Ha alguns anos, nao muitos tive o prazer de ve-lo tocar. Foi em Juiz de Fora no encontro anual de música classica colonial e barroca. O fato é que foi maravilhoso. Apos reger com a maestria que lhe é peculiar o João tocou duas “musicas”. Ele na ocasião falou sobre os problemas que ate então ja o havia forçado a se submeter a muitas cirurgias. É incrivel como a força de vontade e a determinaçao transpoe barreiras. Talvez se ele fosse um oportunista ele teria se aposentado por invalidez, ou ajudado a fundar um partido politico. Mas não, ele foi em frente imbuido pela paixão pela musica.
    Sem duvida alguma é um belo exemplo de vida digno de todo aplauso !

  7. Rosangela Anzzelotti disse:

    Sou leitora constante desse blog, mas toda a vez que vc fescreve sobre esse HOMEM que é uma lição de vida para todo mundo, meus olhos lacrimejam, portanto, gostaria de que, se possível, me fosse informada a programação em SP do maestro, pois sempre fico sabendo aqui de algum evento que ele se apresentou, e nunca de algum em que ele irá se apresentar.
    Agradeço o prazer de poder ler suas ideias e compartilhar da maioria delas.

  8. Aliz disse:

    Assisiti a uma bonita reportagem sobre esse grande artista no programa da Ana Maria Braga, durante minhas férias. Parece que eles são grandes amigos.
    Eu fiquei contente ao conhecer essa história e esse exemplo, no entanto, tive uma triste surpresa no outro dia, pela internet, quando li em algum lugar sobre supostos “podres” do maestro em relação a política. Fiquei meio assim, distante, porque todo mundo sabe apontar o dedo, mas ninguém mostra a mesma disposição para ouvir o lado acusado, ainda mais quando se trata de política. Preferi ignorar esse veneno espalhado por algum irresponsável, que só conta uma versão, e me deliciar com a trajetória do artista e sua luta. Com certeza ele cometeu um erro se metendo na política (talvez ideologia demais, quem sabe?), mas creio que a lição foi aprendida. É melhor ele se manter no que o faz feliz, e isso acrescenta muito a todos nós. Sua arte, unida à sua força de vontade, são contagiantes, e é disso que nós precisamos. Ele nos dá bons exemplos, passa energia positiva e faz o bem oa mostrar a paixão que tem por sua arte, e como luta bravamente por ela. Bom pra nós!

  9. marcelo disse:

    meu caro amigo sei que não tem nada a ver com o seu post, mas quero ve-lo falando sobre a preisão da senhora DASLÚ? SABE PQ? tenho certeza que de nada vai adiantar esta prisão e esta condenação se logo ela estara em liberdade, aí ti perg, esta é a justiça nossa? precisa começar e meu presidente LULA deu um gde passo a colocar no fundo da prisão quem deve ir realmente.
    se ela deve que pague pelo seus atos, abrigado meu amigo até mais.

  10. everaldo disse:

    Surpreenda-se.
    Para quem gosta, vai minha indicação

    http://arquivossonoros.blogspot.com/

  11. Renato disse:

    Um programa desses é um verdadeiro privilégio para a alma!

    Obrigado por dividir conosco!

  12. ENQUANTO ISSO…

    BAIXAS NO PAC

    O Secretário-Executivo do Ministério da Integração Nacional confirma, até o final do mês, a dispensa de servidores concursados, com contratos vigentes até janeiro de 2011, podendo acarretar paralisação nas obras do PAC. Diversas obras, já em andamento, são supervisionadas por esses profissionais, responsáveis pelo acompanhamento e fiscalização da execução física de aproximadamente 12 obras, estimadas em mais de 1 bilhão de reais. Notícia nada boa para a Ministra Dilma Russef (a Mãe do PAC) no momento em que tenta decolar a sua candidatura à Presidência da República.

    Servidores do Ministério da Integração Nacional.
    (servidoresintegracao@gmail.com)

  13. Mauricio Juvenal disse:

    Há pontos que aproximam muito as histórias de vida de Zé Telles e João Carlos Martins, muitos mais do que pensamos. Há grandezas em ambos que são raras nos homens dos dias atuais. João certamente balançou com as tantas decepções no campo político, mas recuperou-se a tempo. E agora, José? Telles também se reerguirá.

  14. cornelio da silva disse:

    Hoje um viva para o bife do maestro ao piano
    MAS A DECLARÃO MAIS GENIAL DO GOVERNO DO SEU QUERIDO AMIGO PRESIDENTE LULA FOI HOJE … GENIAL ;
    A CULPA DA CRISE É DOS BRANCOS DE OLHOS AZUIS E CARECAS
    DISSE O LULA “NUNCA VI BANQUEIRO PRETO NEM INDIO ”
    GENIAL O LULA HOJE DIRIA QUE “MATO OS ALEMAO” COM DISSE DIDI O FOLHA SECA NA FINAL DE 58 CONTRA A SUÉCIA
    NADA MAIS CORRETO , O EUROPEU É A PORCARIA DA HMANIDADE DESTRUI U O PLANETA … A INDIA A AFRICA A S AMERICAS SE SALVAM SUAS MULHERES QUE SAO LINDAS GRAÇAS AOS CÉUS

    AQUI PARA O LULA UM POEMA
    OS 5 QUE DANÇARAM

    ONTEM LEVANTEI UMA FERA ERA DIA DAS FERAS EU SAI PRA BRIGAR
    FIQUIE MEIA HORA DEITADO SONHADO ACORDADO O QUE EU IA FAZER
    ENTREI NA SUA SALA SO PRA TI FALAR
    DOS 5 QUE DANÇARAM PRA TI DEFENDER
    MAS VC NAO ME VE
    BABY VEJA TC VEJA AS LUTAS NO ABC
    OS HOMENS JA SABEM PARA PRA SE DEFENDER
    VOCE QUE É JOVEM E LINDA E ANDA NA ULTIMA MODA PENSA MUITO NA SEU CABELO
    E NO CARRO QUE QUER AGORA
    NADA EXISTE DE ERRADO
    VENHA TE SENTAR AO MEU LADO
    MAS EXISTE UM OUTRO LADO
    LIBERDADE PRAS BORBOLETAS
    BABY VEJA A TV
    VEJA AS LUTAS NO ABC
    OS HOMENS JA SABEM PARAR
    PRA SE DEFENDER

    ROCK N ROLL de 1978 POR OCASIAO DA PRISAO DOS 5 ENTR ELES O RETUMBANTE e ESCULHAMBANTE LULA o qual acho que nao tem voz nenhuma assim com pelé tambem nao tem , nao recomendo AO LULA gravar nenhum LP BASTA FICAR NA CHURRASQUEIRA QUE TA BOM

  15. Maestro dos dedos de ouro. so tras grandes emoções

  16. Bruno Abud - São Paulo disse:

    Parabéns, Kotsho.
    Capricha na matéria, pois só o ‘post’ já foi demais, não arrisco dizer que foi o melhor do ‘balaio’, porque já tivemos muitos outros, mas digo sem medo que foi o mais gostoso de ser lido.

    Vida longa ao Martins.

    Bruno Abud

  17. Gabriel disse:

    Como é ingrato o mundo da música!

    Quem realmente tem talento, trabalha a boa música, tem uma vida dedicada a carreira inclusve com reconhecimento Internacional… anda de ônibus, dorme em hotéis michurucas, toca por uma micharia, geralmente é patrocinado pelo Poder Público ou já mendigou bastante na Iniciativa Privada para sobreviver da música. (Esses, tocam para os orelhas macias que conseguem distinguir o que é bom e que é bem feito).

    Outros, cantam desafinados baladas de porcaria, enrolam em alguns instrumentos bem mal tocados, pulam tanto que mal conseguem respirar nas apresentações. Os homens trajam roupas esfarrapadas, as mulheres mostram seios, coxas e tudo que não seja talento…. ganham uma grana preta, andam de jatinho particular, juntam verdadeira multidão nos seus shows, acumulam riqueza para a vida toda , faturando no Brasil ou só no seu Estado de origem. (Esses, tocam para os orelhas duras que abosorvem porcaria…também porque nunca provaram do que é bom, nunca foram incentivados na escola ou porque são insensíveis mesmo.

    Desculpem o desabafo, mas fico indignado com esta situação.

    grato.

  18. NELSON COIVO disse:

    CARO AMIGO RICARDO

    VOCE É UM PREVILEGIADO POR PODER PARTICIPAR AO LADO DESTE GRANDE MAESTRO
    ISSO DA INVEJA NA GENTE
    SOBRE O SR.ZE TELLES VAMOS PEDIR A DEUS QUE DE FORÇA A ELE PARA SUPERAR ESTE BAQUE.
    NOVAMENTE DIGO QUE VOCE É PREVILEGIADO DE PODER ESTAR AO LADO DE UM HOMEN INTEGRO COISA RARA HOJE EM DIA
    EM PORANGABA JA FOI CELEIRO DE VARIOS DESTES HOMENS
    INTEGROS
    ABRAÇOS

  19. jg disse:

    Kotscho.
    Vida longa ao Maestro.
    E parabéns à Petróleo Ipiranga …coisa bem feita.

    Em tempo:
    O caso da dona da Daslu, que desse jeito vai virar bispa.
    Digamos …SENTENÇA CHANELL.
    Coisa bem cara.

  20. Blenda disse:

    Oi, Ricardo, sentimos sua falta sim. Pelos comentários e pelo que vc escreveu já deu pra notar, né? Mas, embora vc tivesse se ausentado por uma nobre causa, houve uma senhora que se queixou por voce não falar do caso Satiagrapha e da prisão do delegado. Também deu uma bronca porque voce some e nem fala nada. Como voce disse que não sabe atualizar o blog e fazer reportagem, (os dois ao mesmo tempo) ah, tudo bem. Tá perdoado, é que as pessoas lhe querem bem. A leitura de seus textos é saborosa – até nas críticas. Acho legal que aqui surjam assuntos amenos. Na mídia toda é sempre a mesma coisa. Parece até que foi o mesmo profissional que escreveu…
    Eu gostaria que você comentasse, se tiver tempo, sobre o investimento do Pres.Lula na construção de casas populares.
    Bom voce estar de volta. Abraço.

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