Arquivo de março, 2009
31/03/2009 - 09:12
Atualização às 11h40:
Em tempo:
peço desculpas aos leitores pela demora na moderação de comentários. Estava escrevendo uma reportagem grande sobre o maestro João Carlos Martins, que precisava entregar hoje à revista Brasileiros.
Vários leitores me chamaram a atenção por ter falado só do caso da faxineira do deputado Alberto Fraga (DEM-DF) e não da secretária parlamentar Luciana Cardoso, filha do ex-presidente FHC, que ganha R$ 7.500 para “cuidar dos arquivos” na casa do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), noticiado na semana passada. Peço desculpas pela falha, já tinha me esquecido.
Segundo ela mesma declarou à Folha (coluna da Mônica Bergamo), Luciana Cardoso não vai ao Senado, onde é funcionária, “porque lá é uma bagunça”.
E se todos os outros funcionários do Senado resolverem fazer o mesmo, alegando o mesmo motivo? Teremos uma legião de trabalhadores domésticos pagos com o dinheiro público?
“Mas vamos lá, vamos lá, eu gosto desse jogo”, desafiou o cabra macho Alberto Fraga (DEM-DF) ao ser procurado pelos repórteres Leonardo Souza e Maria Clara Cabral, da Folha, para esclarecer o caso da secretária parlamentar Izolda da Silva Lima, flagrada trabalhando como faxineira na casa do nobre parlamentar, que ocupa uma área de 1.875 metros quadrados, às margens do lago Paranoá.
Quando li essa notícia no jornal, imaginei logo quem iria perder esse jogo. Adivinhem quem? Não deu outra: Izolda foi exonerada ontem mesmo após pressão da Mesa Diretora da Câmara, pelo suplente de Fraga, Osório Adiano, depois de todas as bravatas do deputado, que está licenciado, atual Secretário de Transportes do Distrito Federal.
Izolda, de 30 anos, que segundo ela mesma trabalhava há quatro ou cinco anos na casa do deputado, foi promovida no mês passado de secretária parlamentar 05 para 06, com salário de R$480,86, mas com as gratificações seus vencimentos chegavam a R$ 1.080, um bom salário para faxineira. Não vai ser fácil arrumar outro emprego com este salário em Brasília.
Pior do que manter uma secretária particular trabalhando como empregada doméstica em sua mansão, foi a reação do deputado ao ser flagrado. Primeiro tentou negar o fato, depois tentou justificá-lo, dizendo não ver nenhum problema nenhum em usar dinheiro da Câmara dos Deputados para fins privados. Disse aos repórteres que teria dinheiro para pagá-la, mas não o usa porque “não quer”.
Deputado do baixo clero que saiu do anonimato ao liderar a “bancada da bala” contra a proibição do comércio de armas no país, em 2005, Alberto Fraga resolveu partir para o ataque, desafiando os repórteres que descobriram o caso.
“Vocês não têm mais um castelo, agora querem uma doméstica fabricada. Mas vamos lá, vamos lá eu gosto desse jogo”.
“Eu pedi, evidentemente, se ele (o suplente Osório) pudesse segurar ela (como funcionária do gabinete). Se for o caso, se for para satisfazer o ego de vocês, eu volto amanhã para a Câmara e ela (Izolda) continua (contratada pelo gabinete). Não tenho tenhum tipo de receio de vocês, não”.
“Desculpa, não tenho que ficar dando este tipo de satisfação (sobre o tipo de serviço prestado por Izolda). Ela vai ao banco, esse tipo de coisa”.
Ontem, depois que o caso estourou, Fraga manteve a mesma linha de ataque:
“Não vou pedir para exonerá-la. Vocês que são os donos do mundo que peçam. Em minha vida pública sempre cumpri a lei e vou continuar cumprindo”.
A que tipo de lei Fraga estaria se referindo? A lei do comigo-ninguém-pode ou do você-sabe-com-quem-está-falando?
Entre tantas coisas ilícitas, ilegais ou imorais quase todos os dias denunciadas na rotina do Congresso Nacional, usar dinheiro público para levar uma secretária parlamentar a trabalhar como empregada doméstica, pode até ser algo irrelevante a esta altura do campeonato.
O que choca é a certeza da impunidade, é o desprezo pelo trabalho da imprensa e pela opinião pública, já que a única prejudicada nesta história toda foi a pobre faxineira recentemente promovida, certamente por bons serviços prestados.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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29/03/2009 - 10:28
Mais uma vez tivemos uma semana agitada pelas prisões de gente poderosa pela Polícia Federal _ e mais uma vez terminamos a semana com todos os bacanas colocados em liberdade por decisão da Justiça.
Sem entrar no mérito das prisões e das libertações, já que não sou juiz nem promotor, o certo é que este prende-e-solta, que já virou rotina, causa um grande mal estar na população.
As pessoas comuns, que não estudaram o Código Penal, simplesmente não conseguem entender como a mesma lei é usada para prender ou soltar.
Há hoje uma sensação generalizada, a julgar pelos comentários enviados para este Balaio, de que a Justiça não é igual para todos e basta ter um bom advogado para escapar da punição nas instâncias superiores.
Por variadas razões saí esta semana da minha rotina aqui no Balaio. Passei por Porangaba, Rio de Janeiro e Itu, onde tratei de outros assuntos mais próximos da vida real, falando com e escevendo sobre pessoas que não estão na mídia, deixando de lado os personagens de sempre do noticiário político e policial, cada vez mais próximo um do outro.
No sábado, na festa de aniversário do poceiro (homem que abre poços), compositor e cantador Ico do Violão, que fez 74 anos, neto bastardo do ex-presidente Wenceslau Brás, conforme ele me confidenciou, tive mais uma prova de que nós, jornalistas, e nossos leitores vivemos em mundos diferentes. As pautas não batem.
Chega uma hora em que é bom virar o disco porque os temas se repetem em todos os espaços de todas as mídias naquilo que chamei num dos posts da semana de pauta única _ em geral, tratando de coisas negativas que não fazem bem à alma e não têm relação direta com o dia a dia dos leitores.
Sei que muitos comentaristas aqui do Balaio sentem falta de temas mais polêmicos, querem ver sangue, como um deles escreveu, para alimentar o que Clóvis Rossi chama hoje na Folha de “dueto monocórdico”, a eterna disputa entre petistas e tucanos.
Qualquer que seja o tema tratado, estabelece-se um clima de Fla-Flu em que um não quer nem saber as razões do outro, mas apenas reafirmar suas próprias convicções.
Há uma certa hipocrisia de todos nós nesta história, como comentei numa palestra no final dos anos 1990 quando dirigi o departamento de jornalismo de duas redes de televisão.
Discutia-se num debate promovido pela Revista Imprensa, no Rio, o baixo nível da nossa televisão, que procuraria apenas atender ao apetite da audiência sem se preocupar em utilizar o meio como instrumento para divulgar mais programas culturais e educativos.
Em qualquer pesquisa que se fizer, de fato, a maioria das pessoas vai criticar a baixaria da programação da televisão e pedir mais qualidade. Vai elogiar a TV Cultura e meter o pau no programa do Ratinho, que na época ainda estava na CNT, onde eu trabalhava.
Como explicar então que a TV Cultura de São Paulo tivesse tão baixa audiência, enquanto o meu amigo Ratinho a cada dia aumentava seus índices, que o levaram logo da CNT à Record e depois ao SBT, ganhando salários cada vez maiores?, perguntei à platéia.
A mais baixa audiência do CNT Jornal, que eu dirigia, foi registrada quando dediquei a maior parte do tempo a um especial que mostrava a vida e a obra de Darcy Ribeiro, o grande educador brasileiro falecido naquele dia.
Tempos depois, bati meu recorde de audiência pessoal já em outra emissora, o Canal 21, da Rede Bandeirantes, ao passar horas ao vivo transmitindo tudo sobre a morte do cantor Leandro, da dupla Leandro e Leonardo.
O Brasil ainda se comove mais com a morte de um cantor sertanejo do que com a de um educador _ esta é a nossa realidade e somos todos hipócritas ao querer negá-la em nome do politicamente correto.
Mas isso não quer dizer que devamos nos render a esta realidade, aderindo à pauta única e desistindo de querer modificá-la, abrindo o leque para outros assuntos e outros personagens que não estão nas manchetes.
Podemos perder em audiência, mas certamente ficaremos mais gratificados com o nosso trabalho, dando a ele um sentido não apenas imediatista e comercial.
Senti isso quando li os comentários enviados para o post que conta a história do lavrador Zé Telles, o homem honesto que ficou doente com a desonestidade alheia.
A reação da maioria dos leitores, solidarizando-se com ele e lembrando que o Brasil é feito de milhões de Zé Telles, que não se conformam com a realidade do leve-vantagem-em-tudo, me anima a continuar dedicando a maior parte do meu tempo a este Balaio e a procurar boas histórias para contar.
Os números da semana
Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento sobre os três assuntos mais comentados na semana em que o Balaio procurou sair da pauta única.
Balaio
Um homem honesto: 147
Jornal das crianças: 70
Futebol: 54
Folha
Senado: 75
Lula: 64
Educação: 45
Veja
Pedofilia: 53
Lya Luft: 19
Clodovil Hernandes: 17
Em tempo 1:
recomendo aos leitores o comentário enviado por Samuel Sajob, às 14h09, um belíssimo texto inspirado na morte de um canário em meio ao incêndio.
Serve ao mesmo tempo de alerta e de estímulo para aprendermos a separar aquilo que é realmente valoroso nas nossas vidas, que nem sempre percebemos, daquilo que é descartável, mas damos uma importância imensa.
Bom final de domingo.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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28/03/2009 - 19:09
Placar do Morumbi: São Paulo 1, Palmeiras 0.
O Palmeiras pode até ser campeão paulista de novo, já que o meu São Paulo não dá muita importância para esses campeonatos regionais, mas invicto é que não vai mais ser.
Não tem jeito. Desde o meu tempo de menino em que o Palmeiras era chamado pelos antigos de Palestra Itália, podia ficar invicto um tempão, como agora, liderando o campeonato com folga, como agora, mas quando chega a hora de enfrentar a camisa tricolor, eles pipocam.
Perdão, leitores, pela falta de isenção, imparcialidade, essas coisas, mas só de ver o desespero do Vanderley Luxemburgo, soltando todos os palavrões do mundo, esgoelando-se à beira do campo, vendo seu time dominar a maior parte do jogo, ter mais oportunidades de gol e não conseguir fazer nenhum, já me dá uma alegria imensa.
Ganhar do Palmeiras não tem preço, como diz aquela propaganda. O nosso time tem um goleiro chamado Rogério Ceni e um técnico marrento de nome Muricy Ramalho, que valem por meio time. O resto a sorte ajuda.
Com aquele gol do velho Washington velho de guerra logo aos 2 minutos, a ajuda da trave e da sorte o tempo todo, nosso time de funcionários aplicados, mas sem muito brilho, acabou com o papo da porcada inteira _ e é isso que vale, o resto é comentário de analista esportivo independente, o que não é o meu caso.
Explico: metade da minha pequena família é palmeirense. O São Paulo pode perder de todo mundo, menos do Palestra do meu genro, o boa praça Fernando Ansarah, que levou dois dos meus três netos para o lado dele, mas deixou escapar a do meio que não tira a camisa do tricolor por nada.
Dá-lhe Tricolor! Chora Palestra!
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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27/03/2009 - 16:56
Nove da manhã. Termino de fazer a moderação dos comentários da noite e penso no que vou escrever hoje.
Leitores me pedem para comentar notícias que estão nas capas dos jornais e dos portais: a condenação e prisão da dona da Daslu, a Operação Castelo de Areia, que pegou em flagrante a empreiteira Camargo Corrêa e vários partidos políticos, a interminável novela da Operação Satiagraha e seu delegado Protógenes Queiróz, que flutua entre o papel de herói e de vilão, e por aí vai…
Escrever o quê, além de tudo o que já foi publicado? Tenho alguma coisa inédita a dizer ou vou dar apenas mais uma opinião sobre assuntos que mobilizam a imprensa, a Polícia Federal e a Justiça em busca da verdade? O que posso acrescentar ao leitor, se não sei a verdade?
Desde o primeiro dia, o Balaio tem procurado outros assuntos que não estão na capa dos jornais para que ninguém pense em dar um tiro na cabeça depois de ler o noticiário.
Por isso, para mim quem tem razão é a leitora Blenda, das 22h58 de quinta-feira, que escreveu ao final do seu comentário:
“Acho legal que aqui surjam assuntos amenos. Na mídia toda é sempre a mesma coisa. Parece até que foi o mesmo profissional que escreveu…”.
Tenho a mesma impressão e o mesmo desencanto ao final da leitura que faço do noticiário todas as manhãs. Além do pensamento único, agora temos a pauta única que mobiliza todos os jornalistas a escrever as mesmas coisas do mesmo jeito.
Dez da manhã. Tive que dar um tempo no que estava escrevendo aí acima para dar uma entrevista a um grupo de crianças de uma biblioteca municipal, que vieram me encontrar no Café Santo Grão, aqui na frente prédio onde moro, onde sempre marco meus compromissos.
As nuvens pretas do noticiário desapareceram num instante quando comecei a conversar com Beatris, Bruna, Clara, Cosmo, Matheus e Thalita, crianças animadas como se estivessem chegando a um parque de diversões.
Antes que elas me fizessem a primeira pergunta, quem as começou a entrevistar fui eu, curioso por saber de onde eram, o que faziam e o que as levou a procurar este velho repórter.
Estou habituado a dar entrevistas para estudantes de jornalismo, mas é a primeira vez que me vejo diante de alunos do primeiro grau que querem ser repórteres e estão curiosos em saber como é este trabalho.
Fiquei alegremente surpreso com a história que ouvi e, mais ainda, com o que me mostraram: a coleção do “Jornal da Hora”, uma publicação mensal de quatro páginas, que as próprias crianças escrevem desde abril do ano passado.
Mas a história deste jornal infantil é muito mais antiga, tem mais de 70 anos. Começou quando o grande Mário de Andrade, primeiro secretário municipal de Cultura de São Paulo, criou a primeira biblioteca infantil do país, a Monteiro Lobato, na Vila Buarque, região central da cidade.
“A biblioteca tem que ter um jornalzinho”, anunciou Mário de Andrade, e assim surgiu a “Voz da Infância”, cuja publicação só seria interrompida já nos anos 90 do século passado. Um dos primeiros colaboradores do jornal, quando ele tinha 11 anos, foi o consagrado compositor e cientista Paulo Vanzolini.
Em 2006, quando a Biblioteca Municipal Infantil Monteiro Lobato comemorou 70 anos, a socióloga Vera Alves, responsável pela área de ação cultural, juntou algumas crianças para produzir uma edição especial da “Voz da Infância”.
A turma gostou tanto da experiência que continuou fazendo o jornal todo mês, e editou 15 números, até julho de 2007, quando ele fechou de vez por falta de recursos.
Na mesma época, Vera, que era funcionária municipal concursada, aposentou-se e criou a ONG Instituto Brasil Arterial _ Comunicação e Artes, que hoje trabalha com 1.200 alunos, junto a quatro escolas da Prefeitura.
Uma das principais atividades da entidade é justamente o “Jornal da Hora” que veio fazer uma entrevista comigo. Com circulação de dois mil exemplares, distribuídos na biblioteca, nas escolas e outras instituições, o jornal é todo feito por 18 crianças, entre 7 e 15 anos.
No primeiro número, o aluno Gabriel Rodrigues, de 11 anos, definiu o espírito do jornal:
“Fazer o jornal é expor minhas opiniões, então não faço jornal por obrigação, mas para expor minhas idéias. O que eu mais gosto é escrever textos”.
É mais ou menos o que acontece comigo aqui no Balaio e eu procurei explicar aos pequenos jornalistas nas 15 bem formuladas perguntas que me fizeram, como se fosse um jogral de entrevistadores, cada um fazendo a sua marcada no roteiro que prepararam com a ajuda das coordenadoras Vera Alves e Valéria Silva.
Beatris Duraes, de 11 anos, que sentou a meu lado com o gravador, já estava impaciente para começar a fazer as perguntas. Mas antes de falar ainda fiquei sabendo que a sobrevivência do jornal está garantida pelo menos até julho. O “Jornal da Hora” ganhou no final do ano passado os R$ 18 mil do Premio Ludicidade- Pontinho de Cultura, promovido pelo Ministério da Cultura.
Foi a mais gratificante das entrevistas que concedi este ano a estudantes. Ao contrário dos universitários, que só costumam ler as perguntas e ficam olhando para o gravador, estas crianças prestavam uma atenção danada ao que eu falava _ retrucavam, reagiam, perguntavam de novo, como costumavam fazer os bons repórteres de antigamente.
Na volta ao computador, vou olhar novamente os comentários, vício de todo blogueiro, imagino, e encontro a boa notícia de que o nosso leitor Brasil de Abreu, um policial militar aposentado, freguês aqui do Balaio, conseguiu fazer a cirurgia de que necessitava e está passando bem.
Às 11h51, ele enviou um comentário agradecendo à leitora Norma, que lhe indicou a Faculdade de Medicina de Santo André, onde ele conseguiu finalmente ser atendido, depois de passar um tempão tentando, em vão, fazer o tratamento no Hospital da Polícia Militar.
Depois de agradecer a solidariedade que recebeu de outros leitores, ele escreveu ao final do seu comentário:
“A todos meus amigos anuncio a volta ao Balaio”.
Desta forma, hoje ganhei o dia, só lidando com coisa boa. Os leitores que me perdoem, mas quem espera ler sobre coisa ruim ou baixarias neste Balaio ainda vai ter que esperar mais um pouco.
Sei que estas histórias de superação, de gente que faz acontecer, de pessoas decentes que ficam doentes com a desonestidade, de jovens animados como os do “Jornal da Hora” rendem menos audiência e comentários do que futricas e escatologias, mas me sinto mais feliz assim.
Estou muito velho para mudar minha forma de ser jornalista.
Em tempo: se alguém duvidar do que estou falando é só dar uma olhada na felicidade na foto aí abaixo em que aparecem as crianças do “Jornal da Hora” e suas coordenadoras (Vera, a mãe do projeto, está à direita).
Para entrar em contato com esta turma:
jdhora@yahoo.com.br

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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26/03/2009 - 13:53
Poucas vezes na minha carreira me senti tão feliz com a profissão como ontem, quarta-feira, ao fazer a reportagem sobre um dia na vida do maestro e pianista João Carlos Martins e sua Orquestra Filarmonica Bachiana (a titular e a formada por jovens), que será publicada na edição de abril da revista Brasileiros.
Aos 68 anos, depois de passar por nove cirurgias para poder voltar a tocar piano, sem as mordomias dos grandes artistas de seu porte, Martins embarcou num ônibus, saindo do centro de São Paulo, às 8h30 da manhã.
Junto com seus músicos, seguiu rumo ao Rio de Janeiro, onde fariam uma apresentação à noite em comemoração aos 10 anos do IBDD (Instituto de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiências).
Parecia contente como menino que vai fazer uma excursão com seu time de futebol de colégio. João Carlos martins tinha chegado em casa à meia noite, depois de uma apresentação da Orquestra Jovem, em Valinhos, no interior de São Paulo, na quarta-feira.
Às oito de quinta, já estava a mil, depois de dormir apenas três horas e subir e descer os 16 degraus que ligam os dois pisos do seu apartamento nos Jardins, como faz todos os dias.
Brincando com cada um, foi-me apresentando alguns dos 31 músicos, entre profissionais e jovens, que pela primeira vez se apresentariam juntos num concerto, e se emocionou ao ser festejado por um morador de rua que o reconheceu e lhe deu um beijo na testa.
“É o senhor mesmo? É o maestro? Nem acredito…”. Ao longo do dia, isto se repetiria várias outras vezes em diferentes lugares da viagem, e Martins, um velho chorão assumido, ficava com os olhos marejados.
Sua história de vida, feita de superação e fé no taco, repetidas vezes contada em programas de televisão, no Faustão e no Jô, ainda o emociona e emociona os outros.
Ícone da música clássica no Brasil, pianista consagrado que já gravou toda a obra de Bach, aplaudido nos maiores auditórios do mundo, agora virou pop star reconhecido por onde passa.
Foi assim também depois que liguei o gravador e ele me contou, entre lágrimas e gargalhadas, como virou maestro e, mais tarde, se arriscou a tocar piano novamente, com alguns poucos dedos, dependendo do dia.
Falou sem parar como foi criar duas orquestras, a partir do zero, para ter a quem reger, sem nenhum recurso público, apenas com patrocinadores privados, até pararmos para o almoço em Queluz, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro, onde também foi reconhecido ao ser servir no bandejão.
De volta ao ônibus, contou sua desastrada passagem pela política como arrecadador de fundos de campanha de Paulo Maluf aquele rumoroso caso que ficou conhecido como Pau Brasil, e quase destruiu sua carreira.
Foram sete horas de viagem até o ônibus encostar num hotel modesto junto ao Largo da Carioca, no centro do Rio. Cansados, os músicos não fizeram a algazarra habitual no ônibus. A maioria passou a viagem dormindo ou ouvindo música com fone de ouvido.
Todos subiram rapidamente para seus quartos, com pouco tempo para esticar as pernas. Às 18h15, já deveriam estar no saguão do hotel para pegar o ônibus de novo, em direção á Universidade Estadual do Rio de Janeiro, perto do Maracanã.
O único ensaio para este concerto começou uma hora antes do previsto para o início do programa: 20 horas. Como tinha feito nova aplicação de botox nas mãos, no começo da semana, Martins logo percebeu que seus dedos ainda estavam rígidos e alterou algumas peças do programa que não conseguia executar.
Na hora marcada, havia poucas cadeiras ocupadas no Teatro Odylo Costa, filho, com capacidade para 1.100 espectadores. Logo chegaram meus amigos Tereza e Márcio Amaral, que criaram dirigem o IBDD, para explicar o motivo do atraso ao maestro.
A entidade havia doado um elevador para cadeirantes à universidade, que só terminou de ser instalado no mesmo dia do concerto _ e não estava funcionando.
Por isso, o espetáculo começou com quase uma hora e meia de atraso, um recorde na história da orquestra de Martins, mas ele de nada reclamou. Era um espetáculo fechado, sem bilheteria, patrocinado pela Petróleo Ipiranga.
Sem poder fazer nada, aproveitou para tirar um cochilo, enquanto os músicos se espalhavam pela coxia, afinando seus instrumentos.
Com o mesmo entusiasmo demonstrado semana passada numa Sala São Paulo lotada, na abertura da temporada da Orquestra Filarmonica Bachiana, regeu na primeira parte seis peças que contam a história da dança na música.
Na segunda, arriscou tocar três músicas ao piano, encerrando com o Hino Nacional executado em diferentes ritmos brasileiros. Foi aplaudido de pé e, ao receber os agradecimentos dos organizadores, chorou de novo.
Antes das 11 da noite, o ônibus da orquestra encostou na porta do teatro e recolheu o maestro pianista e sua tropa para a viagem de volta a São Paulo, onde deveriam chegar entre 5 e 6 da manhã desta quinta-feira.
Poucas horas depois, às cinco da tarde, eles já subiriam ao palco de novo para um concerto no auditório do Tribunal Regional do Trabalho, na Barra Funda.
Hélio Campos Mello, meu amigo fotógrafo e também dono da revista, e eu, que não temos todo este pique, ficamos na cidade para voltar de avião no dia seguinte. Valeu a viagem.
Em tempo
Aos leitores que estranharam minha ausência aqui no Balaio, a explicação está dada aí acima: não sei fazer direito duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, atualizar o blog e fazer reportagem.
Aproveito para agradecer aos leitores que continuaram mandando muitos comentários, em sua grande maioria da melhor qualidade, para o post que conta o drama do meu amigo Zé Telles, o brasileiro que ficou doente com a desonestidade.
Agora vou começar a escrever a reportagem completa sobre João Carlos Martins, que poderá ser acessada no site da Brasileiros, aqui mesmo no iG, na primeira semana de abril.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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23/03/2009 - 11:01
Para os leitores que estão ficando cada vez mais bravos ou desanimando de vez diante de tanta notícia ruim, desgraças, safadezas e maracutaias em geral, vou contar uma história hoje para mostrar como no Brasil ainda convivem os habitantes de dois países distintos sob o mesmo teto.
Zé Telles, 64 anos, lavrador aposentado , viúvo, pai de cinco filhos, um bando de netos e uma bisneta, é um desses milhões de brasileiros que não estão na mídia e vivem distantes das notícias de Brasília.
Vivem em outro mundo, nos interiores do Brasilzão velho de guerra, onde os jornais não chegam, com seus próprios valores, preocupações, sonhos, que nada têm a ver com os assuntos que costumamos tratar neste Balaio.
Zé Telles vive até hoje na roça, no mesmo lugar onde nasceu, às margens do rio Bonito, entre Porangaba e Bofete, a 160 quilômetros de São Paulo. Só sai de lá uma vez por ano para pegar o ônibus dos romeiros que vão a Aparecida rezar pela padroeira.
Seu Zé trabalha comigo há 30 anos, desde que comprei o Sítio Ferino em Porangaba. Pegou a terra nua, um deserto na época sem água e sem luz, e foi mudando a paisagem com as próprias mãos. Plantou milhares de árvores, criou bosques e animais, tinha um orgulho danado da sua obra.
Embora franzino, frágil mesmo, nenhum serviço ou contratempo na vida era capaz de derrubá-lo. De sol a sol, lá estava ele para cima e para baixo, tocando o gadinho, roçando, dando comida para a criação, cuidando dos seus afazeres.
Na semana passada, Zé Telles entregou os pontos. Há dias sem comer e sem dormir, sem conseguir trabalhar, desorientado, pela primeira vez na vida foi parar num hospital.
Diagnóstico: depressão profunda causada por um abalo moral que agrediu seus valores, segundo a neurologista, doutora Filomena, que cuidou muito bem dele no hospital público de Conchas, uma cidade vizinha.
Cerca de um mes atrás, ele começou a perceber que algumas coisas estavam sumindo do sítio, como uma velha seringa de vacinar o gado, um aparelho de rádio da minha filha caçula, essas coisas tão pequenas diante do que a gente lê todos os dias nos jornais.
O pior para ele foi descobrir quem era o autor destes furtos. Lourival, o caçula de Zé, que trabalha com ele, pegou em flagrante dentro da casa do caseiro o filho de um vizinho, adolescente muito estimado pela família.
Para ele, foi como se tivesse levado uma punhalada pelas costas porque aquele menino foi criado junto com seus filhos _ simplesmente, não se conformava, não conseguia entender o que aconteceu. Logo ele?
As relações de trabalho, vizinhança e compadrio, baseadas na lealdade e na solidariedade, são sagradas nestes sítios em que a palavra ainda vale mais do que os contratos, uma paisagem humana magistralmente descrita por mestre Antonio Cândido em seu clássico “Os Parceiros do Rio Bonito”, escrito há mais de meio século.
Tiraram o chão sob os pés onde ele pisou a vida toda e Zé Telles entrou em pânico. Achou que era o culpado pelo prejuízo, por não ter cuidado direito do sítio, começou a ter pesadelos de que seria mandado embora, sentia-se humilhado por não ter mais fôrças para seguir sua rotina de trabalho.
Ao encontrá-lo no sábado, na casa do filho, que também é nosso vizinho, só fazia chorar e balançar a cabeça. Ficava olhando para mim como quem espera uma explicação para o que estava acontecendo com ele. Os remédios de tarja preta, que nunca havia tomado na vida, o deixaram prostrado.
Zé Telles sempre foi um homem daqueles que se pode chamar de honesto, direito, probo, lhano, como se dizia antigamente, desses a quem você pode confiar a carteira ou os filhos para tomar conta.
Não estava preparado para os novos tempos e outros valores que estão chegando junto com o “progresso” a este Brasil real ainda habitado por muitos brasileiros como ele, cidadãos que ficam doentes quando vêem as coisas erradas.
Em tempo
Como não atualizei o blog nos últimos dois dias, em razão dos problemas relatados acima, publico abaixo, como costumo fazer todos os domingos, o levantamento dos três assuntos mais comentados na última semana no Balaio, na Folha e na Veja:
Balaio
Pesquisa/Governo Lula: 186
Esqueletos do Senado: 173
Debate religioso: 111
Folha
Congresso: 71
Artigo de Drauzio Varella: 46
Educação: 42
Veja
Dom José C. Sobrinho: 238
Netbooks: 80
O poder do PMDB: 32
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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20/03/2009 - 10:41
Atenção leitores:
post atualizado às 18h30 com nova pesquisa CNI/Ibope e a morte de Victor Siaulys.
E aí? Não vai escrever agora sobre a queda da aprovação a Lula na nova pesquisa Datafolha? Calma, pessoal, o dia mal começou e, antes de escrever, preciso primeiro me informar direito sobre o que dizem os números da pesquisa.
O índice de ótimo e bom do governo Lula, que vinha crescendo mesmo após o início da crise, para espanto da mídia e da oposição, caiu agora de 70 para 65%. Ainda não dá para cravar a manchete “Aprovação a Lula despenca” como muitos já sonhavam.
Uma hora era certo que a queda na aprovação iria acontecer, na medida em que caem a atividade econômica e o nível de emprego, na esteira da maior crise econômica mundial desde 1929.
Desde que a crise começou em setembro, com a quebra de bancos nos Estados Unidos, o PIB vem caindo e Brasil já perdeu quase 800 mil empregos com carteira assinada.
Diante desta realidade, seria irracional imaginar que os índices de aprovação pudessem subir novamente ou mesmo que se mantivessem no mesmo patamar.
Lula volta agora ao mesmo nível de aprovação que tinha antes do início da crise (eram 64% no Datafolha do início de setembro).
Ou seja, continua com a melhor avaliação de um presidente da República desde a redemocratização do país. O segundo colocado, segundo o mesmo Datafolha, Fernando Henrique Cardoso, alcançou um máximo de 47% no primeiro mandato e de 31 no segundo.
O que diz a Folha:
“Ainda predomina, porém, a opinião de que o país será pouco prejudicado pela crise, embora essa taxa tenha se reduzido de 58% para 55%”.
“Apesar disso, a queda na aprovação a Lula não é proporcional á gravidade da crise. Esse descolamento parcial entre a piora no cenário econômico e a avaliação do governo federal já tinha ficado evidente na pesquisa de novembro _ quando a redução da atividade econômica já provocava um recuo de 7,2% na produção industrial somente naquele mes”.
“Isso acontece porque a avaliação do presidente Lula diante da crise continua positiva, ainda que em um grau menor do que antes”.
Apesar da avalanche de noticiário negativo que dominou a imprensa nos últimos seis meses, o brasileiro ainda não entrou em desespero.
Ao contrário, dois em cada três trabalhadores (65%) acham que não correm o risco de ser demitidos, embora 59% dos pesquisados acreditem que o desemprego vai aumentar.
Para 71% dos brasileiros, a situação econômica do país vai melhorar ou ficar como está e só 24% acreditam que vai piorar (4% não sabem).
Diante do quadro mundial, os números da pesquisa Datafolha são para mim bastante animadores, tanto na percepção da crise por parte da população como na aprovação do governo.
Se esta mesma pesquisa fosse aplicada em qualquer outro grande país, acho muito difícil apresentar hoje números tão favoráveis quanto ao futuro imediato. Ainda não chegou a vez dos urubulogistas poderem bater no peito: “Eu não disse?!”
Senado afunda mais
As últimas notícias que chegam de Brasília sobre o Senado Federal, de outro lado, são cada vez mais desanimadoras. Mais do que isso, são revoltantes, como se pode sentir nos comentários enviados pelos leitores ao Balaio.
Inconformado com os R$ 7 bilhões destinados este ano “para administrar a atuação política de 81 senadores”, o leitor Everaldo, das 7h40, enviou seu desabafo em forma de versos (ver no post que escrevi sobre a homenagem a Reali Jr.), resumindo toda a ira dos eleitores que já estão perdendo a paciência.
Enquanto isso, as “medidas moralizadoras” anunciadas pela direção da Casa, após a enxurrada de denúncias desta semana, são um verdadeiro deboche.
Após o país ficar sabendo que o Senado tem 181 diretores na sua administração, o primeiro-secretário Heráclito Fortes (DEM-PI) veio a público para anunciar que serão cortados 50 destes cargos.
Por que exatamente e só 50? Fortes, que está há séculos no Senado e ficou assustado com o número de diretorias, explicou candidamente que o número foi escolhido de forma aleatória por ser “expressivo”.
Que maravilha! Quer dizer que vamos continuar pagando os altos salários (R$ 16 mil, mais gratificações) aos 131 diretores que restaram para cuidar de 81 senadores?
Na mesma página, o jornal nos informa que “senado inclui em reforma cela para quem cometer crimes dentro da Casa”.
Pode estar aí uma esperança, mas acho que a área destinada à obra é muito pequena: apenas 8,97 metros quadrados. O diretor da polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo, justificou assim os R$ 8 mil destinados à construção da cela:
“Aqui nós temos que funcionar efetivamente como uma delegacia”.
Em tempo 1
Passei a tarde fora de casa (ver nota abaixo) e, ao voltar, encontrei na capa do iG nova pesquisa de avaliação do governo Lula. Desta vez, foi o CNI/Ibope, que registrou uma queda de 9 pontos _ de 73 para 64 _ entre setembro, quando a crise começou, e março.
Não muda o que escrevi acima, já que apenas um ponto de ótimo e bom separa uma pesquisa da outra: 65% no Datafolha e agora 64% no CNI/Ibope.
Em tempo 2
Cheguei agora do velório do amigo Victor Siaulys, que partiu nesta madrugada, aos 73 anos, depois de enfrentar uma longa e sofrida batalha pela vida.
Os leitores mais antigos deste Balaio puderam acompanhar o drama do empresário Siaulys, que os amigos chamavam de Vitão, em posts publicados no ano passado relatando como ele vinha derrotando a leucemia com muita garra e coragem.
Fundador do Aché, o maior laboratório farmaceutico brasileiro, Vitão dedicou boa parte da sua vida e dos seus recursos a projetos sociais _ o maior deles, o Laramara, cuidava de deficientes visuais.
Muitos deles estavam hoje no velório no Hospital Albert Einstein onde o amigo passou os últimos dias da sua vida.
Cada um que chegava encontrava sobre uma pequena mesa mudas de árvores para levar de lembrança junto com um poema em que Victor Siaulys deixou suas últimas palavras escritas:
EPITÁFIO
Neste Santuário não vou morrer
Vou adormecer como minha labrador, a Vanila
Acordarei neste Jardim do Éden coberto de flores
Com a algazarra matinal das araras
Com os louros pedindo atenção e uma palavra amiga
Sendo acariciado pelo vento do lago e
Beijado pelas borboletas das capuchinhas
Rodeado de amigos fiéis de quatro patas
Avisar ao Chico Prego que continuo aqui
Continuar a soltar todos os pássaros
Ser embalado pelo corrupião Pavarotti
Pedir notícias aos cisnes sobre seus filhotes
Cavalgar a Blinis, minha Vênus platina…
Por isso não vou morrer
Na natureza nada morre,
Tudo apenas se transforma
Nossa vida nunca acaba, ela apenas se transforma
Quero continuar ajudando o grande jardineiro
Que um dia plantou tudo isto aqui neste Santuário
Quero ajudá-lo a cuidar de seus animais
Preservar cada uma das árvores que ele plantou
Serei uma folha, caída no chão
Que morre para adubar novas plantas
Ou uma semente
Quanta promessa de vida dentro dela!
Por isso não posso morrer
Seria injusto abandonar tantos amigos.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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19/03/2009 - 17:00
Atualização às 23h55:
no final deste post, os leitores encontrarão a íntegra do discurso de Reali Jr. ao agradecer a homenagem que recebeu nesta quinta-feira, 19 de março.
Com 16 anos, ele foi caçar trabalho porque queria se casar. Sem antecedentes na família, padrinhos nem vocação precoce para o jornalismo, pediu ajuda a um amigo chamado Bauru que trabalhava na Rádio Panamericana, hoje Jovem Pan. Nunca havia entrado antes num estúdio de rádio. Fez o teste, passou.
Isto faz mais de 50 anos. Começou como locutor, virou repórter e nunca mais quis fazer outra coisa na vida. Trabalha até hoje na mesma emissora, depois de passar também por alguns dos maiores veículos de comunicação do país.
Casou-se com Amelinha, sua namorada de toda a vida e tiveram quatro belas filhas. No auge da ditadura militar, foi trabalhar como correspondente da Jovem Pan e do Estadão em Paris, onde virou o nosso embaixador de fato, faz 36 anos.
Hoje de manhã, Elpídio Reali Jr. colheu, aos 68 anos e com a saúde bastante abalada, o que plantou durante toda a vida. No lotado auditório Nelson Carneiro, do campus da FMU na Liberdade, cercado de amigos, professores e estudantes, ele recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” das mãos do presidente da instituição, Edvaldo Alves da Silva.
Assim Reali Jr. virou um doutor repórter sem ter se graduado em jornalismo, como tantos outros profissionais da sua geração. Testemunha ocular da história, lema do antigo Repórter Esso, Reali Jr. dedicou sua vida a prestar informações corretas à sociedade, no rádio, em jornais e na televisão, e a ajudar os outros.
É um tipo raro de jornalista que consegue reunir três qualidades ao mesmo tempo: tem um enorme talento, é um pé de boi para trabalhar e não abre mão dos seus princípios. Reali Jr. é um jornalista de caráter.
Logo cedo, quando falei para o motorista de táxi onde queria ir, ele me perguntou: “Ah, o senhor vai naquela homenagem ao Reali Jr.?”. Como tantos outros paulistanos, o taxista habituou-se com a voz dele todas as manhãs, falando diretamente de Paris, e tinha acabado de ouvir o noticiário sobre a entrega do título.
Em seu velho e acanhado apartamento-redação na rua Ranelag em Paris, recebia todo mundo do mesmo jeito simples e fraterno _ de ex a futuros presidentes da República, grandes empresários e pequenos livreiros, jovens correspondentes ou velhos exilados, ministros, estudantes, autoridades e anônimos em geral.
Foi lá que acertei minha volta ao Brasil, quando era correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, para trabalhar na IstoÉ pioneira do Mino Carta, uma trama da qual ele participou junto com outros amigos, no final dos anos 1970.
Não houve nestas quase quatro décadas correspondente brasileiro na Europa que não tenha recorrido ao Reali nos momentos de aperto durante as coberturas.
Com ele não tinha esta coisa de concorrência entre colegas, buscar o furo a qualquer preço, embora sempre procurasse fazer o seu trabalho o mais completo e melhor possível, e geralmente conseguia.
Quando saíamos para jantar juntos, as filhas dele tomavam conta das minhas. Enquanto ele vivia com a casa cheia de gente para discutir os rumos da política brasileira, a incansável Amelinha cuidava para que ninguém passasse fome nem sêde. Por ironia do destino, ele vive hoje sob uma dieta rigorosa.
Desde que chegou ao Brasil para passar férias, faz um mes, ele já foi internado três vezes no Hospital Oswaldo Cruz, de onde só saiu para receber a homenagem e para onde volta hoje, à espera de um transplante de fígado.
Mestre do improviso, que os longos anos de rádio lhe ensinaram, desta vez ele preferiu ler o texto de agradecimento que preparou para não ser traído pela emoção que marcou a cerimonia, em especial quando falaram Joseval Peixoto e José Carlos Pereira, seus velhos companheiros de Jovem Pan.
Para os muitos amigos e ouvintes de Elpídio Reali Júnior, meu velho amigo
Realinho, que não puderam estar presentes, pedi a ele que me mandasse o texto do seu discurso para reproduzí-lo aqui no Balaio:
Agradecer, agradecer, agradecer.
Essa é a tribuna sonhada por alguém que pretende manifestar gratidão a todos os que o ajudaram a chegar ao epílogo da carreira de um simples repórter.
Jamais pude imaginar, jamais passou pela minha cabeça, que um dia receberia um título geralmente reservado a professores eméritos, intelectuais que têm marcado suas vidas pelo saber.
Estou aqui para agradecer a todos os que de uma forma ou outra participaram da materialização desse título.
Em primeiro lugar, aos veículos onde trabalhei durante décadas e que me permitiram estar aqui hoje : a Jovem Pan e O Estado de São Paulo.
Ambos me ofereceram a liberdade de expressão, jamais cerceada, mesmo nos momentos mais difíceis.
Gostaria de citar o exemplo de mestres como Cláudio Abramo, Mino Carta, Fernando Pedreira, Nabor Cayres de Brito, Mauro Guimarães, Fernando Vieira de Mello, nomes do rádio, da televisão e dos jornais.
Agradeço ao Complexo Educacional FMU, FIAMFAAM e FISP e a seu conselho, principalmente ao Professor Edevaldo Alves da Silva, que tive a honra de conhecer e admirar desde o início de sua atividade.
Lembro-me muito bem do Edevaldo, ainda muito jovem, integrando a equipe de investigação do professor Francisco Petrarca Ielo, um nome inesquecível para nós dois, tanto assim que foi padrinho do meu casamento e do dele.
Vi Edevaldo crescer profissionalmente, uma carreira construída pedra sobre pedra, base de um edifício difícil de destruir, ao contrário de outras carreiras de sucesso vertiginoso, mas momentâneo.
Ambos, Ielo e Edevaldo, me fazem lembrar de meu pai, Elpídio Reali, a quem dedico esta homenagem – um homem simples, cuja dignidade sempre foi realçada, e que após chegar a ocupar a mais alta função de sua carreira, a de Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, afastou-se discretamente, abrindo espaço para os seus próximos, vibrando com seu êxito, mas sempre presente para orientá-los e, se fosse o caso, advertí-los com uma palavra de atenção.
Esse pai sempre se comportou como um irmão mais velho. Ele me faz falta, muita falta nos momentos mais difíceis da minha vida.
Sua presença continua sendo insubstituível. Foi quem preparou meu caminho profissional, foi e ainda é meu modelo de dignidade, razão pela qual lhe sou imensamente grato pelo carinho e por seus puxões de orelha.
O carinho que nos uniu não desapareceu com a sua ausência.
Meu caro professor Edevaldo, tudo farei para ser digno dessa distinção.
Tenha certeza de que minha humildade é autêntica e verdadeira.
Consagrei toda minha vida, desde os 16 anos, à “profissão repórter”. Desde o início, sempre procurei o mesmo objetivo – a informação mais correta e não manipulada.
Posso ter cometido falhas e enganos _ não propositais, mas causados pela minha própria incapacidade, como correspondente, no exterior, de “O Estado” e da “Rádio Panamericana”.
Passei também, aqui no Brasil, por redações de outros órgãos de imprensa – TV Bandeirantes, O Globo, TV Globo, TV Record e ESPN.
Em todos esses órgãos privilegiei a ética jornalística, na busca e publicação da informação, procurando fazer dela o exemplo de dignidade da profissão.
Lembro-me da forma como, há algumas décadas, alguns patrões encaravam seus repórteres.
Pude assistir à evolução da profissão e como certos colegas hoje se destacam, com um comportamento profissional que nada tem a ver com o passado. A eles também quero agradecer.
A nova geração que começa a se destacar traz consigo, em sua forte maioria, esse respeito ético, mesmo sabendo que o caminho ainda será longo.
Dirijo ainda meus agradecimentos a um homem que também me orientou desde meus primeiros passos como jornalista, também ligado à Comunicação e às letras jurídicas.
Seria ingratidão não citá-lo. Trata-se do desembargador Edgard de Moura Bittencourt, meu sogro, que me confiou uma das mais nobres tarefas de toda a minha vida _ a de receber sua beca de volta no Tribunal de Justiça e entregar um único processo que aguardava sua decisão, no dia em que sua missão foi brutalmente interrompida pelos militares, quando foi cassado, nos primeiros dias do mês de abril de 1964.
Moura Bittencourt também exerceu sobre mim uma importante influência profissional .
Todos eles me ajudaram a ser um bom repórter , ao lado de uma disposição para trabalhar,ainda um adolescente.
Toda a minha vida foi consagrada ao meu trabalho de repórter. Não tive a pretensão de ser um grande articulista, que através da palavra escrita se impõe, mas sim um apurador de notícias, um obstinado na busca da informação que caracteriza a “profissão repórter”.
Antes de tudo a informação pura, real, e só depois a análise mais profunda e suas conseqüências.
Não me apresento como um observador ou comentarista dos fatos, nem como um professor de jornalismo, mas como um repórter que buscou exemplos dentro e fora de suas atividades, para construir sua carreira profissional.
Mas nada mais fiz do que o meu dever.
Na minha vida tive sucessos e enfrentei alguns fracassos, como todos os homens, mas sempre procurei deixar a meus descendentes um legado de ética e honradez.
Eu gostaria também de felicitar outros agraciados neste ciclo de conferências da FMU.
Como puderam ver, estou aqui para dividir com todos os presentes esse bom momento de minha vida, momento de generosidade da FMU dedicado a mim.
Mesmo afastado do Brasil há quase 40 anos, durante todo este tempo sonhei em ver meu país mais equilibrado, com melhor distribuição de renda e mais próximo de seus objetivos sociais.
Procurei buscar lá fora exemplos positivos, que pudessem ajudá-lo nesse caminho. Apesar dos pesares, esses exemplos ainda existem.
Também quero agradecer à generosidade e ao carinho dos meus ouvintes e leitores de São Paulo, cidade que sempre me recebeu como um filho.
Por tudo isso, espero ser digno da distinção, que aceito com muita humildade.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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18/03/2009 - 09:24
Eles já não assustam mais ninguém, de tão familiares que se tornaram de todos nós nas últimas semanas, mas agora é o próprio presidente do Senado, José Sarney, quem se surpreende com a quantidade:
“Não sei por que agora resolveram tirar todos os esqueletos do armário…’, desabafou ele ao receber ontem o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, segundo relato de Renata Lo Prete, na coluna Painel, da Folha.
Diante do circo de horrores protagonizado pela Casa para a qual foi reeleito pela terceira vez, Sarney resolveu adotar uma medida radical: afastou de uma penada só os 136 diretores do Senado.
Como é mesmo? São 136 diretores para apenas 81 senadores desta nossa pobre República, ganhando cada um R$ 16 mil por mes, fora as gratificações pela função?
Dá mais de um diretor e meio por senador, comandando uma tropa de 6.500 funcionários, ou seja, mais de 80 por gabinete! Deve ser a maior concentração de diretores e funcionários por metro quadrado do mundo.
Qualquer empresa com esta relação custo/benefício de mão-de-obra já teria fechado as portas há muito tempo _ o que é exatamente, aliás, o que muitos leitores deste Balaio vêm proponto desde que começou esta nova safra de denúncias contra o Senado.
O que deve ter de armários naqueles ambientes sem janelas, muitos ainda não abertos, é assustador. Boa parte destes esqueletos foi colocada ali pelo próprio Sarney em suas duas passagens anteriores pelo comando da Casa, todos devidamente apadrinhados pelos seus pares que o elegeram.
Ficariam lá guardados em sossego eternamente, se estes preclaros diretores não tivessem exagerado na dose e dado muita bandeira.
O trem fantasma do Senado começou a sair dos trilhos quando apareceu na imprensa a monumental mansão de Agaciel Maia, indicado faz 15 anos por Sarney para diretor-geral do Senado. Avaliada em módicos R$ 5 milhões, Agaciel esqueceu-se de registrá-la em cartório. Foi o primeiro a dançar.
Não demorou muito, pegaram seu substituto interino, João Carlos Zoghbi, diretor de recursos humanos, também morador de uma bela mansão, que cedeu seu apartamento funcional a parentes.
O grande deboche com a cara dos eleitores que mandaram os nobres senadores para lá viria com outra revelação feita pela Folha: em pleno recesso de janeiro, com os gabinetes, plenários e corredores às moscas, o Senado mandou pagar R$ 6,2 milhões em horas extras a 3,8 mil funcionários.
Para Sarney, no entanto, a gota d´água foi a denúncia feita esta semana de que sua filha, a também senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), pagou a viagem de amigos do Maranhão com a sua cota de passagens e os levou para se hospedar na residência oficial da presidência do Senado.
Mandou os 136 diretores colocarem seus cargos à disposição e chamou a Fundação Getúlio Vargas para apresentar uma proposta de reforma administrativa do Senado.
Como o país poderá sobreviver se, ao final da reforma, eles forem todos definitivamente mandados para casa, juntamente com algumas levas de servidores que dirigiam?
A FGV só não poderá fazer nada com quem os indicou, quer dizer, os 81 senadores eleitos, embora grande parte hoje seja constituída de suplentes que não tiveram nenhum voto.
Pelo jeito, não andam muito preocupados. Com tantos esqueletos saindo do armário, o inefável Mão Santa (PMDB-PI) ainda encontrou tempo para fazer graça.
“Há muita inveja. Mas representamos o que há de melhor neste país, virtuosos, os pais desta pátria!”.
Em tempo: alertado pelo leitor Gelson Galvão, acrescento mais uma no balaio de denúncias sobre abusos praticados no Senado. Segundo o noticiário de hoje, o senador Tião Viana, do PT do Acre, cedeu um celular do Senado, que é pago por nós, para sua filha usar durante uma viagem a passeio ao México.
Em tempo 2: escrevo sobre tantos assuntos aqui que acabo esquecendo do mais importante. Não percam esta noite, a partir das onze e meia da noite, o SBT Repórter com uma reportagem inédita da minha filha Mariana Kotscho.
Tema: qual o segredo da felicidade a dois?
Para descobrir as respostas, ela ouviu casados e separados de todas as idades, conta os bastidores de um casamento gay no interior de São Paulo, mostra como um casal vive feliz há mais de cinco décadas e revela a incrível história de uma esposa que flagrou o marido com outra.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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17/03/2009 - 12:32
Vocês devem estar acompanhando pela imprensa o drama do americano David Goldman, que disputa a guarda do filho de oito anos, orfão de mãe, com o padrasto, o brasileiro João Paulo Lins e Silva.
No domingo passado, 300 pessoas sairam às ruas do Rio de Janeiro em passeata, com bandeiras, faixas e cartazes, para pedir a permanência do menino no Brasil.
Pois um outro drama, em sentido inverso, é vivido neste momento por um pai brasileiro, há um ano sem poder ver as filhas, levadas para os Estados Unidos pela mãe norte-americana, com autorização da Justiça do nosso país.
Mas ninguém até hoje saiu às ruas em defesa dos direitos de Thales Leite, um amigo baiano que conheci em Brasília quando lá trabalhei. Ex-assessor parlamentar, montou uma agência de palestras que ia muito bem até o dia em que se separou da mulher, com quem tem três filhas.
De lá para cá, Thales não tem feito outra coisa a não ser lutar na Justiça pelo direito de ver as meninas. Sem condições de tocar seu trabalho, já não tem recursos para pagar integralmente a pensão alimentícia determinada pelo juiz e vive ameaçado de ir para a prisão.
Tenho acompanhado seu sofrimento e me lembrei dele quando vi o noticiário sobre o caso do filho de David Goldman, que provocou até a intervenção do governo americano junto às autoridades brasileiras.
Thales e David vivem o mesmo drama e têm um objetivo comum, que é poder novamente conviver com seus filhos, mas as semelhanças terminam aí.
A mesma Justiça brasileira que garantiu até agora a permanência do filho de David com a família do padrasto, no Rio de Janeiro, autorizou a ex-mulher de Thales a levar os filhos embora com ela para outro país.
David tem o apoio do governo e da sociedade norte-americanas; Thales luta sozinho pelos seus direitos, sem a ajuda de ninguém.
Agora há pouco, como acontece regularmente, recebi dele mais uma breve mensagem, que reproduzo abaixo, me contando como está a sua situação.
Faz tempo já deveria ter escrito aqui no Balaio sobre o caso do Thales Leite, mas só agora, com todo o barulho em torno do filho de David Goldman, me dei conta de que, muitas vezes, a notícia mais importante está na nossa cara e nós não percebemos.
“Estou há um ano sem poder ver minhas filhas gêmeas, com dez anos, e a caçula, com oito. A mãe as levou para seu país de origem, depois de morarmos juntos nove anos em Brasília.
O Juiz da Infância autorizou a saída delas sem me comunicar, suprimindo meu direito de convivência acordado meses antes por outra juíza. A Justiça se diz da Infância, mas as maiores prejudicadas foram as meninas, que queriam conviver, também, comigo.
Essa situção é a realidade de muitos pais brasileiros que encontram essa má vontade por parte de juízes e promotores, que insistem em conceder a guarda, em 97% das separações, às mães.
Resultado: elas usam as crianças como instrumento de chantagem para machucar ou exigir compensações financeiras de seus ex-maridos, desestruturando e dividindo a personalidade das crianças.
Ainda há um entendimento, por parte de juízes e promotores, de que crianças “precisam de rotina e apego às casas”.
Esta realidade parece explicar, mas não justificam as agressões às crianças, as que mais sofrem dentro dos lares, vítimas das próprias genitoras.
Crianças, ao contrário, se apegam às pessoas e, em meu caso, eram muito apegadas a mim. Se as mulheres reclamam tão frequentemente dos homens, quem foram os responsáveis pela educação deles?
Se a juíza me tivesse dado a guarda compartilhada, eu não estaria passando por esse sofrimento, nem tão pouco minhas filhas. E eu pedi para ficar com as meninas aqui e a alertei de que a mãe sairia do país com elas.
Sou, por isso, solidário ao David Goldman, não por ser estadunidense – minhas filhas também são - mas por ser o pai biológico do menino.
Quem dera a Lei de Guarda Compartilhada fosse aplicada com tanto rigor, assiduidade e propaganda, como o é a Lei Maria da Penha, criada em proteção das mulheres. Certamente, reduziria os conflitos nas relações entre pais separados e seus filhos”.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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