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Arquivo de fevereiro, 2009

28/02/2009 - 18:58

Música brasileira perde o Pica-Pau

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Walter Silva, o meu velho amigo Pica-Pau, morreu na sexta-feira e foi sepultado hoje. Com a sua partida, aos 75 anos, Brasil perdeu um dos maiores conhecedores, produtores e animadores da nossa música popular.

Sempre a mil por hora com seu trabalho, como se estivesse no começo da carreira, o Pica-Pau era um apaixonado por tudo o que fazia. Seu último trabalho foi na Radio Cultura que o dispensou este ano.

Recebi neste sábado, e reproduzo abaixo, a mensagem de sua filha Celina Silva, também jornalista, falando sobre a vida, a obra e a morte do pai _ um texto breve e comovente de quem tinha em casa o seu maior ídolo.

Tem Pica-Pau no céu do Brasil

Comunico a todos o falecimento de meu querido pai Walter Silva, conhecido no Brasil inteiro como Pica-Pau. Um homem bom, dedicado ao amor, aos filhos, à mulher, à música. À boa música brasileira.

Foi ele o responsável pela divulgação, produção de shows e discos de artistas como Elis Regina, João Gilberto, Chico Buarque, Maysa, entre tantos outros.

Seu trabalho é reconhecido pelos mais humildes, somente pelos mais humildes, e somente por isto é, com muita certeza agora, reconhecido por Deus, pela Luz que nos ilumina.

Desejo a todos que o tocaram para fora de seus quadros funcionais, a todos que o sacanearam, a todos que não tiveram a coragem e a grandeza de dar a ele o sossego e a paz tão merecidos, que aprendam a conviver, que aprendam a amar, que aprendam, principalmente, a respeitar quem tem competência.

Desencarnou às 12h05 de hoje, sexta-feira, dia 27 de fevereiro de 2009. Mesmo dia do aniversário de sua avó Mariana, que o criou e tanto o amou.
Junta-se ele agora a Elis e a Tom Jobim, levado por ele ao Carnegie Hall para mostrar aos Sinatras do mundo que a melhor música do planeta se faz aqui nesta terra.
E que ele, por obra e graça divinas, por puro talento, aprendeu a conhecer profundamente e a divulgá-la com maestria e competência única no programa de maior audiência que a rádio brasileira já teve: o Pick-Up do Pica-Pau.
Está lá no Céu agora, acima dos aviões, dos condores, das crenças e dos preconceitos. Nos braços da Paz. No colinho de Deus.
 
Celina Marya Pereza da Silva, filha de Walter Silva, irmã de Waltinho, Carlos Eduardo e Rodrigo, marido de Déa.
 
 
 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/02/2009 - 11:58

O legado de Gancia: arrogância e preconceito

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Atualizado às 22:20. Favor ver notas “Em tempo” no final deste post.

Os leitores do Balaio são testemunhas de que que evito polemizar com outros blogueiros e colegas jornalistas neste espaço, mas não poderia ficar calado depois de ler a coluna de Barbara Gancia na Folha desta quarta-feira.

Sob o título “O legado de dona Marisa Letícia”, esta senhora de tradicional família paulistana investe contra a primeira-dama do país com toda a arrogância e preconceito que sua posição social lhe permite.

É sempre assim: quando não se tem mais nada para falar contra o presidente Lula, ataca-se a sua família.

Colunistas mundanos e seus leitores adoram falar da mulher e dos filhos do presidente, sempre com o nariz empinado, olhando de cima para baixo, como se estivessem dando um pito ou um conselho.

A internet está infestada de injúrias, falsas denuncias e baixarias contra membros da família Silva _ pelo simples e bom motivo de que uma pequena parcela de membros da elite brasileira, e alguns pobres coitados de espírito, simplesmente não se conformam com o fato de Lula e Marisa habitarem, faz mais de seis anos, o Palácio da Alvorada.

Desta vez, o gancho para Barbara Gancia liberar seus instintos menos nobres foi a primeira-dama ter se divertido com o marido no Sambódromo do Rio. Qual é o problema? A mulher do presidente da República deveria ter ficado em casa lavando louça e cuidando dos netos?

Sou amigo de Marisa faz mais de trinta anos, desde os tempos em que Lula era apenas um líder sindical despontando na resistência ao regime militar. Ela sempre foi uma pessoa que gosta de Carnaval, festas juninas, reunir os amigos para um churrasco, como qualquer outra mulher de metalúrgico, que dedica sua vida a cuidar da família.

Nunca quis mais do que isso, além de dar conselhos ao hoje presidente da República e acompanhá-lo sempre, nos bons e maus momentos da vida, companheira de todas as horas, sempre preocupada com todos à sua volta.

Depois de um longo trololó sobre o seu “relacionamento assaz conturbado com o Carnaval” e seu “refúgio da folia no campo argentino”, Barbara Gancia pontifica:

“Ela não se manifesta sobre qualquer assunto, mesmo quando está escalada para falar a prefeitos (…)”.

Escalada por quem? Ela não foi eleita, não ocupa qualquer cargo público, por que tem que se manifestar “sobre qualquer assunto?”

Muito compreensiva, escreve em seguida:

“Insisto: não há nada na liturgia do cargo que diga que a mulher do presidente não deva participar do Carnaval. Pode e deve. Uma “primeira-família” que se comporta como gente normal tem mais probabilidade de ser normal, não é mesmo?”

Aí, no antepenúltimo parágrafo, a colunista não se aguenta, e manda ver:

“Mas eu não queria ter voltado da Argentina para descobrir que dona Marisa deu “um trabalhão” à sua segurança particular no desfile da Sapucaí. Não queria tomar conhecimento de que ela “deu goles em copos de cerveja, cercada por amigos para que não fosse fotografada”. Não queria ter visto as fotos em que ela aparece descabelada e suada. Escracho não tem nada a ver com informalidade”.

É mesmo? Não queria mesmo? Que coisa absurda, não é mesmo, dona Barbara?… Melhor mesmo seria ter ficado na Argentina com seus amigos que não suam nem se descabelam e não tomam cerveja no Carnaval.

E dá a sentença:

“Dona Marisa Letícia não foi à Sapucaí na qualidade de cidadã particular e não tem o direito de se esbaldar publicamente como se não ouvesse amanhã numa época em que o brasileiro comum vê seu emprego ameaçado pela crise”.

De onde se conclui, que para Barbara todos deveriam ter ficado em casa ou ido para o campo argentino esperando a crise passar. 

A maldade fica para o último parágrafo, em que procura dar conselhos e fazer uma comparação ridícula com outra primeira-dama, de outro tempo e outro perfil, numa época em que os generais mandavam no país.

“Alô, dona Marisa Letícia! A senhora se lembra de Dulce Figueiredo? A ex-primeira dama também gostava de se divertir levando a alegria na base da inconsequência. E olhe só o legado que ela deixou. O de uma figura um tanto patética e deslumbrada que usava a posição do marido para se bacanar”.

Acho que ela queria escrever bacanear, mas não importa. Ainda não tinha lido num grande jornal nada parecido com isso, bem na linha do que ouço bastante nos lugares por onde ando aqui nos Jardins, onde moro, e leio nos lixos da internet. Ainda bem que Lula e Marisa não lêem Barbara Gancia. Fazem muito bem.   

Em tempo:

fiquei sabendo agora, mais de dez da noite, que Barbara Gancia não gostou, claro, do que escrevi no post acima sobre a sua coluna na Folha e me deu uma esculhambada em seu blog. Tudo bem, é do jogo.

Em vez de responder a ela, para não alimentar esta polêmica e refrescar a sua memória e a dos seus poucos e raivosos leitores, reproduzo abaixo o que a própria Barbara Gancia escreveu a meu respeito em seu blog, no dia 16 de outubro de 2008, sob o título “Sobrou até para o Kotscho”:

“Por ter  dito o que todo mundo pensa, o colega Ricardo Kotscho deve ter ultrapassado, a esta altura, o meu blogueiro predileto, Reinaldo Azevedo, em matéria de insultos recebidos.

Tenho grande admiração por Kotscho, que foi secretário de Imprensa de Lula. Além de ser um gigante como repórter, ele se destaca, sobretudo, pela integridade.

Já fui muito hostilizada dentro das Redações em que trabalhei por não comungar com o pensamento dominante de esquerda. Pois Kotscho, sendo quem é, sempre foi cordial e respeitoso no trato comigo.

Com ele não tem essa coisa de estrelismo, não. A maioria dos jornalistas de “grife” que conheço não se digna a conversar com comuns mortais. Com Kotscho não tem disso. No trato diário, ele dá a mesma atenção a todos, fala o que pensa e conta seus causos com a empolgação de quem acabou de ingressar na profissão.

Anteontem, ele criticou em seu blog a desastrada estratégia de campanha de Marta Favre, de cutucar a vida pessoal de Gilberto Kassab. E foi massacrado pelos internautas.”

Em tempo 2: alertado por Barbara, aproveito para fazer uma correção em meu texto. Onde se lê “senhora da tradicional família paulistana”, leia-se “senhora da fina flor da sociedade paulistana”. Dei-me conta de que, por uma diferença de quatro anos, minha família é mais tradicional do que a dela… 

Como chegaram mais de 270 comentários para este post, deixarei para responder aos leitores no balanço semanal do Balaio que faço aos domingos.

Bom fim de semana.

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/02/2009 - 09:56

Futebol caipira tira emoção do Paulistão

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Nem o grande goleiro Rogério Ceni, de volta ao São Paulo, depois de passar 20 dias de molho só assistindo aos jogos, estava aguentando ver aquela pasmaceira no Morumbi vazio na noite de quinta-feira.

No intervalo do jogo, com cara de sono, mandou ver: “O Oeste está atrás, nosso time não é veloz, e o jogo está chato”, desabafou para os repórteres.

Como não podia ir dormir, Rogério voltou para o segundo tempo, e assistiu à vitória por 3 a 0 contra o Oeste, de Itápolis, um timinho que veio ao Morumbi só para perder de pouco.

Para ser justo com o goleiro, ele ainda faria uma grande defesa, que evitou o pior, no começo do segundo tempo, quando o São Paulo estava se arrastando em campo para segurar o 1 a 0.

O que está acontecendo com nossos times do interior, que antes davam um sufoco danado nos grandes, chegavam às finais _ e, algumas vezes, ao título _ e todo ano revelavam jogadores que logo iriam parar na seleção brasileira ou na Europa?

Este ano, o futebol caipira está uma tristeza só. Antes da metade do Paulistão, os três grandes do chamado “trio de ferro” _ Palmeiras, Corinthians e São Paulo _ dispararam na ponta, e a disputa agora se limita a saber quem vai ficar com a última vaga do G4, se Santos ou Portuguesa. Palmeiras e Corinthians ainda estão invictos, depois de dez rodadas.

O time do interior mais bem colocado é a Ponte Preta, que está em sétimo lugar, dez pontos atrás do Palmeiras, disparado o time que vem jogando o melhor futebol no Paulistão, e apresentou a única grande estrela do campeonato até agora, o artilheiro Keirisson.

O outro time de Campinas, o Guarani, eterno rival da Ponte Preta, está entre os quatro que seriam rebaixados se o campeonato terminasse agora. Pior ainda que o Guarani está o Botafogo, de Ribeirão Preto, com apenas duas vitórias em dez jogos, também forte candidato ao rebaixamento.

Abaixo do Guarani, vem outro ex-grande time do futebol caipira, o Mogi Mirim, que revelou Rivaldo e Mauro Silva, entre outros campeões mundiais. Rivaldo comprou o time, mas já está arrependido.

“O Paulista está com nível mais baixo do que na minha época”, constata ele, no comunicado em que promete entregar o clube a quem se interessar, como a Folha revela em sua edição desta sexta-feira.

Não é fácil ver estes jogos em que só um time ataca, dando chuveirinhos na área, e outro só se defende, dando chutão pra frente. Na metade do segundo tempo, quando André Dias marcou o segundo gol do meu tricolor, joguei a toalha, desliguei a televisão, e fui dormir.

Tenho certeza que, se pudesse, Rogério Ceni faria o mesmo…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/02/2009 - 09:32

Balaio recomenda o Blog do Sakamoto

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Pretendia escrever hoje sobre as declarações feitas na segunda-feira pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, em que condena as invasões de terra, pede que o governo federal suspenda o financiamento público ao MST e exige providências do Ministério Público.

A nova ofensiva do presidente do STF contra o governo e os movimentos sociais está nas primeiras páginas dos jornais de hoje, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como isso se fizesse parte das suas atribuições.

Já tinha tomado algumas notas a respeito do assunto e ia começar a escrever, quando vi na capa do iG a chamada para o Blog do Sakamoto: “Mendes, MST e dinheiro público”.

Tudo o que eu queria escrever está lá em poucas e lúcidas palavras, mostrando os dois pesos e duas medidas do supremo comandante do nosso Judiciário quando se trata de financiamento público para  os sem terra, de um lado, e os latifundiários, de outro.

Para não repetir o que o colega já escreveu, recomendo aos caros leitores do Balaio ir direto ao Blog do Sakamoto, que trata de “trabalho decente, meio ambiente, questão agrária e direitos humanos”.

Não conheço Leonardo Sakamoto pessoalmente, mas é sempre bom saber que jovens jornalistas mantêm a capacidade de se indignar diante do arbítrio e da injustiça no trato das questões sociais que persiste em nosso país.    

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
25/02/2009 - 12:27

Milhões nas ruas, nenhuma desgraça

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Para quem gosta de notícia ruim, o Carnaval brasileiro deste ano foi um grande fracasso.

Milhões de pessoas pularam, dançaram e se esbaldaram durante quatro dias e quatro noites nas ruas e nas praças deste imenso país, e não aconteceu nenhuma tragédia, nenhuma desgraça, nada que rendesse uma manchete negativa, tão ao gosto dos nossos editores.

Depois de ler os principais jornais nacionais e percorrer o notíciário da internet, em busca de algum assunto que rendesse matéria para o Balaio nesta Quarta Feira de Cinzas, fiquei decepcionado.

Cheguei à conclusão de que a grande notícia foi exatamente a anti-notícia, a falta de notícias que dominou o Carnaval, tirando, é claro, as futricas e fofocas dos camarotes dos bacanas.

E acho isto muito bom, uma coisa fantástica, uma benção que se renova a cada ano, a demonstrar que, apesar de todas as crises e desgraças do noticiário do dia a dia, reais ou imaginárias, o brasileiro continua tendo esta capacidade de se divertir sem medo de ser feliz.

Claro que sempre vai ter gente que não gosta, vai reclamar que o Brasil tem feriados demais. Imagina ficar pulando Carnaval deste jeito, em plena crise mundial?!…

Basta ler as cartas dos leitores de O Globo, reclamando da sujeira e do barulho provocados pelos blocos que se multiplicam pelas ruas do Rio de Janeiro ou dos trios elétricos em Salvador, e até da presença do presidente Lula no Sambódromo.

Eu mesmo faz tempo que não ligo mais para Carnaval, depois de passar anos fazendo a cobertura dos desfiles das escolas de samba em São Paulo, para o Estadão e depois para a Folha, seguindo cada uma delas pela antiga pista da avenida Prestes Maia, trabalho que me deixou meio surdo até hoje.

Mais tarde, ainda peguei um tempo bom do Carnaval de rua e no salão paroquial de Porangaba, em que minhas filhas e suas amigas de São Paulo saiam na Escola de Samba Verde e Branco, bons tempos em que todo mundo ainda se conhecia naquela pacata cidade e colocava cadeiras nas calçadas para ver o desfile.

Mas eu não vou ficar agora blasfemando contra esta grande festa popular brasileira, única no mundo, que atrai gente e divisas de todos cantos, com o desfile das escolas do Rio sendo transmitido para mais de 100 países. Aproveito para colocar minhas leituras em dia e fico na minha, não invejo quem tem folego e disposição para pular quatro dias sem parar.  

Ao contrário, fico feliz em ver as pessoas se divertindo sem culpa, inventando suas fantasias, brincando com o destino, dando a volta por cima nas mazelas do cotidiano, nas mil e uma manifestações da mais genuína cultura popular nas diferentes regiões do país.

Morei por algum tempo na Alemanha, onde era correspondente do antigo Jornal do Brasil, e lá também fiz cobertura de Carnaval, se é que aquela festa cheia de ritos, formalidades e não-me-toques, sem graça e sem pecado, pode ter este nome _ e morria de saudades do Brasil.

Sou filho de imigrantes europeus que para cá vieram depois da Segunda Guerra, e foram eles que me ensinaram a amar este povo e este chão, com todos os seus problemas economicos e imensas desigualdades sociais, porque nunca foram tão felizes em nenhum outro dos muitos lugares em que viveram antes.

Já no final da vida, sem nenhuma vontade de voltar para a Europa, nem a passeio, minha mãe, filha de alemães nascida na antiga Checoslováquia, não perdia um desfile de escola de samba. Passava o Carnaval inteiro com a televisão ligada e um sorriso no rosto.


Foliões curtem o carnaval de Salvador/ Foto: A Tarde

    

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
23/02/2009 - 19:13

Folia paulistana ao som de violoncelo

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Cheguei agora há pouco do interior, lá pelas cinco da tarde, um calor danado em São Paulo, e fui direto tomar um sorvete que só tem por aqui.

Ao contrário do que acontece em outros blogs, onde os leitores comentam o que o autor escreve, fiquei tentado a comentar o comentário que o Bento Bravo mandou de manhã para o Balaio, contando que, depois de andar a pé por uma hora e meia, e atravessar a avenida Paulista de ponta a ponta, não viu nenhum sinal de carnaval na cidade.

O sexagenário calouro da USP (tema de matéria que publiquei aqui no começo do mês) pensou até que era feriado de Semana Santa. Pois foi a mesma coisa que notei ao andar pelas ruas desertas e sem trânsito, cruzando vários bairros, até chegar em casa. Ao colocar o pé na rua, dei de cara com o próprio Bento Bravo _ ele, a caminho do supermercado (parece até coisa de cidade do interior…), e eu da sorveteria.

“Tá vendo? Não falei? Não se vê um confete no chão, nenhum pedaço de serpentina…”, foi logo dizendo, para confirmar o que tinha escrito.

Mas, logo adiante, vi coisa muito melhor _ um belo retrato do Carnaval paulistano fora do confinamento do Sambódromo e dos clubes.

Vocês podem não acreditar, mas vi e ouvi na rua dois jovens tocando “Garota de Ipanema” no violoncelo, tirando um som da maior qualidade, como se tocassem numa orquestra. Em seguida, começaram a executar músicas clássicas a pedido de um raro transeunte. Bonito demais. Me senti até nas ruas de Paris.

Começou a chover e quase não havia movimento algum na rua. Não era uma rua qualquer: Boaz de Oliveira Silva (à esquerda na foto), de 23 anos, e Felipe de Luna, de 18, moradores de Perus e Francisco Morato, respectivamente, estavam tocando na Oscar Freire, duas vezes eleita a oitava mais bonita rua comercial do mundo, quase na esquina com a rua Augusta.

O palco deles era uma mureta da joalheria H.Stern, fechada por causa do Carnaval. E os dois tocam mesmo numa orquestra, a Orquestra Jovem do Pão de Açucar (rede de supermercados), além de darem aulas, participarem de gravações e se apresentarem em festas de casamento.

Pela segunda vez, eles arriscaram tocar na rua para defender mais algum, parcas contribuições espontâneas colocadas numa caixa de sapatos, mais moedas do que cédulas.

Era tão insólito aquele flagrante da folia paulistana em plena segunda-feira de Carnaval, que comentei com minha mulher: “Precisamos fazer uma foto para provar que é verdade”.

Por coincidência, dias atrás tive de trocar o meu celular que não funcionava mais e me deram um novo que tira até fotografias, mas não me explicaram como faz, nem eu tive tempo de ler o manual de instruções.

Minha mulher, sempre mais expedita e ousada, resolveu arriscar, e deu certo. Olhei no visor, lá estava a foto dos dois. Beleza. Mas como é que eu iria tirar a fotografia do celular e publicá-la no Blog? Não tinha a menor idéia do longo caminho a percorrer.

Mara, a minha mulher e fotógrafa predileta, arriscou de novo, sugerindo que a gente comprasse um cabo para conectar o celular no computador. Ao sair da sorveteria, deparei com uma loja da Nokia, exatamente a marca do meu celular.

Expliquei meu problema ao atendente André, que me deu uma paciente aula sobre como proceder nestes casos, e mais do que isso: já aproveitou para enviar a foto direto do celular, sem cabo nem nada, para o iG. 

Para quem entende do assunto, tudo isso que estou contando pode parecer imensa bobagem, coisa de analfabeto tecnológico, o que, de fato, sou, mas vocês não podem imaginar minha alegria ao ser informado pelo editor Vinicius, ao entrar em casa, que a foto tinha chegado aos computadores do portal.

Isto é o que se pode chamar de um verdadeiro trabalho de equipe. Minha primeira fotografia própria publicada no Balaio só foi possível com a participação da Mara, do André e do Vinicius, que fez o favor de colocá-la no blog, outra coisa que ainda não aprendi.

Com a foto de Boaz e Felipe aí em cima, ninguém mais vai poder duvidar desta história que parece mesmo inverossímel, mostrando ao vivo e a cores um dos momentos mais bonitos e emocionantes do Carnaval paulistano. Só ficou faltando o áudio, mas também não dá para aprender tudo de uma vez.

Se alguém estiver interessado em contratar a dupla de violoncelistas, o e-mail deles é:

justoliver@ig.com

Feliz final de Carnaval a todos. Eu já ganhei o dia. 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
22/02/2009 - 13:05

A espantosa balada dos jovens da Vejinha

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Tinha programado voltar ao Balaio só na terça-feira, mas uma reportagem de capa _ “As baladas milionárias” _, que acabei de ler na Vejinha, me levou a abrir o computador antes do Carnaval acabar. Além disso, habituei-me a fazer todo domingo o balanço da semana com os três assuntos mais comentados (ver levantamento no final deste post).

A Vejona chamou de “espantosa” a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, que na edição anterior denunciara corrupção a granel em seu próprio partido, o PMDB, onde está há 43 anos, e no governo federal. Pois eu fiquei muito espantado foi com a matéria da Vejinha.

A começar pelo título, “Só para quem pode”, o belo trabalho de Alvaro Leme, Fabrio Wright e Filipe Vilicic mostra dados sobre o “apartheid” sócio-econômico brasileiro que não se via desde o final dos anos 1940, quando o grande repórter sergipano Joel Silveira, já falecido, fez uma antológica reportagem sobre a vida dos grã-finos de São Paulo.

Os três repórteres se limitam a relatar o que viram e ouviram nas baladas dos jovens endinheirados de São Paulo, sem fazer qualquer crítica, análise política e sociológica ou juízo de valor, como se tudo fosse a coisa mais natural do mundo, ao contrário do que a Vejona fez com a entrevista de Jarbas Vasconcelos, que a deixou espantada.

Para muita gente que lê e escreve as revistas da Editora Abril, pode tudo mesmo parecer um simples dado da realidade, como o relato de uma balada em moto contínuo, sem dia para começar ou acabar, onde se torram rios de dinheiro numa noite em garrafas de champanhe que podem chegar a custar 6 mil reais, ou algo como 15 salários mínimos ou umas 50 bolsas-família, tão criticadas pelo senador Vasconcelos.

Podem me dizer que ninguém tem nada com isso, cada um gasta o que pode e quem não pode se sacode na barba do bode, como se dizia nos tempos de Joel Silveira. Não conheço estes jovens perfilados na matéria, não sei de onde vieram, como e do que eles vivem, mas confesso que fiquei chocado com o que li desde a abertura do texto, que conta como foi a festa de aniversário de 22 anos do jovem Rodrigo Vieira na casa noturna Pink Elephant, no Itaim Bibi.

Ao custo de 485 reais cada, pediu logo 22 garrafas de champanhe Veuve Clicquot _ “Uma para cada ano de vida”, explicou aos repórteres. Nem todas foram servidas para seus amigos. Meia dúzia de garrafas foram utilizadas para lhe dar um banho na hora do parabens. O total da conta da festa ficou em R$ 20 mil, mas ele não reclamou. “A atenção da mulherada se voltou para mim”.

Não era para menos. Em outro reduto das baladas milionárias, o Museum, Flávia Lemos, de 25 anos, que se apresenta como representante comercial, lhe dá toda razão: “Sempre vejo caras interessantes por aqui”. Para se ter uma idéia dos seus interesses, ela conta qual é seu grande sonho:

“Ter o Brad Pitt apaixonado por mim, deitado numa Ferrari, sendo banhado em uma cachoeira de uísque Blue Label”.

E vai por aí. Recomendo a leitura desta reveladora reportagem para entender o que o Elio Gaspari quer dizer quando se refere ao andar de cima e ao andar de baixo da nossa sociedade neste limiar do terceiro milênio.

As mais comentadas

A discussão na Câmara Federal sobre aumentos de salário para deputados federais e ministros do STF foi o assunto que recebeu mais comentários dos leitores do Balaio esta semana. Em segundo lugar, dois assuntos ficaram empatados: um texto que escrevi no dia seguinte sobre a reação destes mesmos leitores, que se dividiram entre a revolta, a imensa maioria, e o conformismo e a impotência diante da situação; e uma análise sobre outro tema político, a antecipação da campanha sucessória de 2010.   

Abaixo, os números do Balaio e das duas maiores publicações impressas do país, que também publicam este tipo de levantamernto sobre os assuntos mais comentados da semana:

Balaio

Câmara e STF: 240

Reação dos leitores: 97

Campanha de 2010: 97

Folha

Ditadura: 105

Paula Oliveira: 85

Jarbas Vasconcelos: 57

Veja

Jarbas Vasconcelos: 649

Adolescentes: 46

Paula Oliveira: 21 

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
20/02/2009 - 10:57

Carnaval deixa tudo para depois

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A partir de hoje, não tem jeito: todos os outros assuntos vão ter que esperar até a Quarta-Feira de Cinzas para ganhar alguma atenção dos leitores.

Por todo o país, o movimento já é grande nas estradas em direção ao Carnaval, que abre hoje à noite em São Paulo, com o desfile das principais escolas no Sambódromo do Anhembi.

Sempre foi assim, sei que não estou contando nenhuma grande novidade. Já nos habituamos a dizer que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval.

Com crise ou sem crise, planos e projetos pessoais ou empresariais, tudo fica congelado até sairem os últimos blocos em Salvador e Olinda, fechando os quatro dias de Carnaval, que já viraram seis, ou seja, desta sexta até a próxima quarta-feira.

Todas as notícias enguiçadas, da precoce campanha sucessória ao drama da moça brasileira na Suiça, das tramas jurídicas às legislativas, dos índices de desemprego à estréia de Ronaldo no Coríntianas, vão ficar paradas na oficina esperando a volta dos mecânicos e da freguesia.

Como faz muito tempo que deixei de ser um folião, e do Carnaval só quero distância e sossego, não terei novidades a contar para vocês sobre o único assunto que vai dominar o noticiário nestes dias, a não ser que aconteça alguma imensa tragédia, claro.

Assim, para o bem de todos, vou dar um descanso para o meu computador, enquanto o Brasil cai na folia, que ninguém é de ferro. Volto ao Balaio na terça-feira, ou a qualquer momento em edição extraordinária, caso os fatos me obrigarem a isso, o que espero não ser necessário. 

Amanhã, sábado, assim que terminar de fazer uma entrevista, para a revista Brasileiros, com o médico paulistano que, por sua conta e risco, dá assistência á população carente da região da Juréia, no litoral sul, pego o carro, que quase não uso, e vou-me embora.

Vou para Porangaba, onde não sou amigo do rei, que lá não tem, mas me sinto como se fosse o dono do mundo, ou melhor do tempo, que é o bem maior a conquistar a esta altura da vida.  

Bom Carnaval para todos.

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
19/02/2009 - 16:16

Leitores: entre a revolta e o conformismo

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Até o momento em que comecei a escrever este post, foram 220 os comentários enviados por leitores para a matéria “Câmara e STF, um show de hipocrisia”, publicada ontem aqui no Balaio _ o maior número desde que comecei a fazer a moderação prévia, não contando os que me vi obrigado a excluir.

Depois de ler todos, notei que os comentários se dividem em dois blocos:

* O dos revoltados com a situação descrita pela matéria, que defendem o voto nulo ou facultativo, chamam de volta os caras pintadas ou os militares, propõem que o povo vá as ruas e promova manifestações, falam em pegar em armas e até há quem ameace colocar fogo em tudo.

* O dos conformados, perplexos diante dos fatos narrados sobre aumento de vencimentos de parlamentares e ministros do STF, que confessam sua impotência para dar uma guinada nos rumos do país.

Mensagem enviada pelo leitor Jorge Luiz, às 21h50 de quarta-feira, resume bem o sentimento dos leitores deste segundo bloco:

“Vocês acham que eles estão ligando para os nossos comentários?”

“Vocês”, no caso, são os leitores e, “eles”, as autoridades constituídas.     

Respondo a Jorge Luiz: acho que em nenhum outro momento da nossa vida política leitores e eleitores foram tão ouvidos, tanto pelos homens do poder constituído como pela própria mídia. 

O responsável por isso chama-se internet, que permite a cada cidadão falar o que pensa sobre o que lê, no momento seguinte, ao contrário do que acontecia antes, quando os monólogos dominavam as vozes tanto das autoridades como dos jornalistas.

Às vezes até me assustam os termos empregados nos desabafos dos leitores que enviam comentários para este Balaio, mostrando duas coisas: o andar de baixo está com muita raiva, já não aceita passivamente os abusos praticados pelo andar de cima, e perdeu o medo de falar o que pensa.

Ofensas e exageros à parte, que me vejo na obrigação de não publicar para manter o nível do debate, há um sentimento generalizado de “nós”, o povo, descontente com “eles”, os políticos que nós elegemos.

Nem os ministros do STF, antes intocáveis e acima do bem e do mal, que não foram eleitos por ninguém, mas decidem o destino de todos, escapam.

Temos hoje um sentimento generalizado de descrédito nas instituições, confundindo, como escrevi num comentário publicado ontem, o que é permanente _ os três poderes em que se alicerça a democracia _ daquilo que é transitório _ ou seja, as pessoas que ocupam temporariamente determinados cargos.

Num clima desses, eu sei que pode até parecer ingênuo repetir como sempre escrevo que numa democracia só se pode mudar esta situação pelo voto e que o próximo encontro marcado com as urnas está marcado para outubro de 2010.

Mas, como eu sempre fui contra qualquer ato de violência para resolver nossos problemas mais imediatos, só me resta insistir em lutar com as palavras para defender meus princípios e ideais, palavras tão antigas, e é o que procuro fazer todos os dias aqui no Balaio.

Agora, com este fantástico instrumento da internet que nos permite um debate online, ao contrário do que pensa o desencatado leitor Jorge Luiz, acho que pelo menos somos ouvidos e, de alguma forma, podemos interferir no resultado do jogo, cada um de acordo e até o limite das nossas fôrças.

No mínimo, podemos dizer que estamos de olho e não concordamos mais em aceitar o prato feito de desmandos, prepotência e arbítrio que nos é oferecido todos os dias por autoridades de todas as latitudes e tamanhos.

Em 2010, com a internet se espalhando por todos os cantos do país, a cada com mais gente tendo acesso à rede, tenho certeza de que pela primeira vez os brasileiros todos poderemos ter uma participação decisiva no processo, e não somente políticos e jornalistas, e não apenas no dia da eleição.

Entre a revolta e o conformismo, prefiro ficar com uma esperança realista de que dias melhores virão, não apenas torcendo, mas trabalhando para isso acontecer logo.    

 

  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
18/02/2009 - 10:27

Câmara e STF, um show de hipocrisia

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Passei o dia ontem em Brasília e não desconfiei de nada. Esconderam de mim, ninguém me falou nada, não me consultaram. Devo ser uma besta mesmo, como já desconfiam alguns amáveis leitores. 

Por mais que eu não queira falar de política, dedicando o espaço do Balaio para outros assuntos menos polêmicos, que me dão mais prazer, e tenho certeza que aos leitores também, não tem jeito.

Ao abrir o computador hoje, dou de cara com a manchete do iG : “Deputados tramam aumento dos próprios salários”. Dá para ficar calado? 

Na surdina, a pretexto de discutir o aumento dos salários dos ministros do Supremo Federal, que já ganham R$ 24.500 por mês, o novo (?) presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), criou na tarde desta terça-feira um grupo de trabalho para tratar de “temas de interesse do Judiciário” _ entre eles, o pedido de aumento salarial.

Muito bom, muito bonito ver esta harmonia entre os poderes. Acontece que por trás desta generosidade dos senhores deputados está um velho projeto dos parlamentares de equiparar seus salários com os dos senhores ministros do STF, que já ganham o maior salário do país no serviço público, o dobro do que recebe o presidente da República.

Claro que ao dar a informação para os colegas do Congresso em Foco, o vice-líder do governo no Congresso, deputado Ricardo Barros (PP-PR), já foi logo desmentindo que uma coisa tenha a ver com outra: “Não está em discussão, são assuntos diferentes”.

Pode não ser para já, como admitiu candidamente o deputado Milton Monti (PR-SP): “Temos que caminhar para isso acontecer a longo prazo, porque agora é um momento de crise”.

Mas alguém tem dúvidas de que mais dia, menos dia, depois de conceder o aumento aos ministros do STF, que passariam a receber R$ 25.725, a Câmara não vai querer a equiparação, se são os próprios deputados que decidem sobre os seus salários?

O caminho está aberto e muitos parlamentares já defendem abertamente a equiparação. Luciano Castro(ex-lider do PR), por exemplo, há tempos reivindica a equiparação salarial entre Judiciário e Legislativo.

O show de hipocrisia não acaba aí.

Ainda no rescaldo da “bombástica” entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) à Veja, em que o ex-governador pernambucano, depois de 43 anos de militância, agora descobriu corrupção no seu próprio partido, e aproveitou para baixar a lenha no governo Lula, como de costume, ninguém se lembrou de lhe fazer uma singela pergunta sobre o seu suplente, o ex-deputado Roberto Freire, presidente do PPS.

Jarbas denunciou o seu PMDB, entre outras mazelas, de só querer cargos no governo, mas não foi perguntado sobre as boquinhas que o recifense Freire, que mora em Brasília, descolou na Prefeitura de São Paulo, como denunciou na semana passada o vereador José Américo, do PT.

Mesmo sem nunca ter morado em São Paulo, o ex-candidato comunista à Presidência da República foi nomeado por Gilberto Kassab para dois conselhos: a Emurb (Empresa Municipal de Urbanismo) e a SPTurismo, responsável pela organização de eventos como o Carnaval.

Para participar de uma reunião por mês, Roberto Freire recebe módicos R$ 6 mil _ de cada conselho. Como se ignoram os conhecimentos especializados de Freire nestes dois campos da administração municipal paulistana, só há uma explicação: nas últimas eleições, seu PPS apoiou o DEM tucano de Kassab.

Em troca, o partido ganhou a suprefeitura da Lapa, entregue à ex-vereadora e ex-petista Soninha. Será que o bom Jarbas e o repórter que o entrevistou não sabiam de nada disso?

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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