iG

Publicidade

Publicidade

Arquivo de janeiro, 2009

19/01/2009 - 10:45

E a crise chegou: urubuzada em festa

Compartilhe: Twitter

Eu não falei? Não faz tempo que eu estou avisando? Viu como eu tinha razão?

Fico imaginando a alegria no poleiro dos urubus com o noticiário dos jornais de domingo, mostrando com fatos e números que a crise chegou, infelizmente, causando estragos por aqui: em dezembro, os trabalhadores da indústria paulista perderam entre 100 mil e 120 mil vagas com carteira assinada, segundo a pesquisa de nível de emprego da Fiesp.

Lembrei-me da figura de um velho sitiante em Porangaba, profeta de mau agouro, anunciando as desgraças enquanto pitava um cigarro de palha no alpendre da sua casa.

Vai cair um toró de derrubar galpão! Olha a nuvem preta chegando! Vai dar enchente, recolhe os animais!

Ou então, se o céu estava limpo:

Este ano vai dar uma seca brava! É melhor nem fazer lavoura! Vai queimar todo o pasto!

Bem, como ele sempre anunciava as mesmas coisas, de vez em quando acertava. Ou caia um temporal ou a estiagem se prolongava no inverno.

E ele não perdoava:

Eu não avisei?

É mais ou menos o que acontece quando surge uma crise no horizonte. O ritual segue sempre o mesmo roteiro. Primeiro o noticiário é dominado por previsões sombrias, antecipando e maximizando problemas que podem acontecer. Depois, líderes empresariais correm ao governo para pedir dinheiro barato e redução de taxas e impostos, enquanto propõem redução de salários aos trabalhadores, com suspensão temporária de direitos.

Não foi diferente desta vez. Claro que não se trata de singela marolinha como o presidente Lula gracejou diante dos primeiros sinais de uma grave crise economica derretendo os mercados, que teve epicentro nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. Mas também não chegou por aqui ainda o tsunami que abalou a economia dos países mais ricos, quebrando bancos e empresas.

De acordo com estudo feito pela OCDE em 35 países, o Brasil ainda é o país que melhor tem resistido à crise e onde os efeitos foram menos graves. O governo tomou uma série de medidas para desonerar a produção e hoje mesmo tem encontro marcado com as centrais sindicais para defender o mais importante: os empregos.

Enquanto em outros países mais desenvolvidos discute-se o tamanho da recessão, por aqui ninguém fala em crescimento negativo, mas qual deve ser a taxa de crescimento em 2009, variando entre 2 e 4% _ bem abaixo do PIB registrado nos últimos anos, mas ainda assim positivo.

Não cabe ao presidente da República alarmar a população além da conta nem vender ilusões baratas, mas não se pode esperar do governo outra atitude a não ser se empenhar o tempo todo para manter a roda girando e cumprir a sua parte _ única forma de se contrapor à urubuzada formada por analistas, colunistas e líderes empresariais, que ficam no alpendre das casas grandes só anunciando desgraças, que acabam se auto-realizando.

Só num ponto, governo e oposição, empresários e trabalhadores, urubus e gaivotas, estão todos de acordo: já passou da hora do Banco Central promover uma vigorosa queda dos juros, pois a inflação está em queda e a cada dia surgem novos sinais de desaceleração em diferentes setores da economia.

Não pode passar desta quarta-feira. Neste dia o Copom se reune pela primeira vez, desde 1996, quando foi criado, para definir a taxa de juros sob forte pressão pela queda no nível de emprego com a inflação em declínio. 

O vice-presidente, meu valente amigo José Alencar, que vem pregando no deserto ao pedir a redução da taxa de juros desde o início do governo, e sempre trabalhou muito para tudo dar certo, ao contrário da urubuzada, desta vez provavelmente poderá sentar no alpendre de uma das suas fazendas e comemorar:

Eu não avisei? Tinha que baixar os juros…

Em tempo: acabei de ler agora na manchete do iG que, em todo o país, o número de empregos perdidos em dezembro foi de exatos 654.946 postos de trabalho com carteira assinada. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (Caged) este é o pior resultado da série histórica que começou em 1999.

Apesar do resultado negativo nos últimos dois meses do ano, o saldo foi positivo em 2008, com a criação de 1.452.204 vagas.

De 2003 a 2008, foram criados 7.790.972 novos empegos com carteira assinada.

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
18/01/2009 - 10:49

Dilma X Serra: tema mais comentado da semana

Compartilhe: Twitter

Por mais que eu queira mudar de assunto e trate de outros temas aqui no Balaio, a política continua sendo o que produz mais repercussão e o maior número de comentários dos leitores.

Esta semana escrevi o primeiro texto sobre a sucessão presidencial de 2010, prevendo uma disputa limitada aos prováveis candidatos do governo, Dilma Roussef, e pela oposição o governador paulista José Serra. Foi o post mais comentado, com 420 mensagens publicadas até as 10 horas da manhã deste domingo _ sem contar os comentários enviados para outros blogs que reproduziram meu artigo.

A entrevista concedida pelo presidente Lula à revista Piauí, em que faz críticas à midia e revela que não se preocupa em acoampanhar a imprensa brasileira, que lhe dá azia, continuou repercutindo na última semana, depois que o Observatório da Imprensa reproduziu a integra da conversa com o diretor de redação Mario Sergio Conti. Foi o segundo assunto mais comentado da semana.

Publicar a íntegra de todas as entrevistas de Lula foi uma iniciativa minha quando ocupei o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação nos dois primeiros anos do primeiro governo Lula e criei o site www.info.planalto.gov.br, um serviço que permite a todos os cidadãos ter acesso a todas as declarações e discursos do presidente da República.

O resumo feito por Conti foi criticado por Alberto Dines no Observatório da Imprensa por ter publicado apenas uma amostra grátis de uma longa entrevista do presidente.

A fábrica de jogadores de futebol montada pelo São Paulo no Centro de Formação de Atletas Laudo Natel, em Cotia, foi o terceiro assunto mais comentado _ política e futebol, como sabemos, sempre causam muita polêmica.

Aos leitores que me cobram uma resposta aos ataques que sofri esta semana de um outro blogueiro lembro  minha declaração de princípios na carta de apresentação do Balaio no dia em que o blog entrou no ar, a 11 de setembro do ano passado. Na semana que termina hoje completamos, portanto, apenas quatro meses de Balaio, e continuo fiel ao que escrevi.

Podem tirar o cavalinho da chuva porque não vou entrar neste jogo. Não vou ficar aqui batendo palmas pra ver louco dançar.

Seguem abaixo os números da semana dos três assuntos mais comentados no Balaio e na Folha. Ainda não recebi a Veja hoje. Assim que possível, acrescentarei os números da revista, como faço toda semana.

Balaio

Sucessão presidencial: 420

Mídia X Lula: 389

Fábrica de jogadores: 224

Folha

Israel X Palestinos: 156

Cesare Battisti: 65

Governo Lula: 50 

Veja

Suzana Vieira: 259

Israel X Hamas: 64

Seu dinheiro: 10

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/01/2009 - 10:04

A incrível fábrica de jogador de futebol

Compartilhe: Twitter

Caros parceiros do Balaio:

cheguei tarde de viagem e só agora, sábado de manhã, tomei conhecimento dos problemas com niks falsos e apropriação de comentários por outros blogs, que deixaram alguns leitores habituais indignados.

Tem covardes usando nome e endereço eletrônico de outras pessoas, mas aqui onde estou, em São Sebastião, com a conexão muito lenta e difícil, não posso fazer nada agora.

Semana que vem vou conversar com os colegas do iG para ver o que pode ser feito na área técnica para evitar estes abusos, assim como na questão dos horários de comentários que entram fora de ordem.

Peço um pouco de paciência, são as dores do crescimento… Ainda não contei (publico os números amanhã), mas esta semana já entraram bem mais de 1.000 comentários no Balaio e o controle vai ficando mais difícil.

Bom fim de semana a todos.

Abraços,

Ricardo Kotscho

Foram 21 gols a favor e nenhum contra até agora, em quatro jogos da Copa São Paulo de juniores, que entra nas oitavas de final neste final de semana.

Até agora, para variar, o tricolor está sobrando, mostrando um futebol muito superior a todos os outros.

Tem leitor que reclama de mim por falar muito do São Paulo no Balaio, mas fazer o quê? Futebol é um dos meus temas favoritos, muito mais do que política.

Tudo bem que sou são-paulino, como vocês sabem. Se vou falar de futebol _ vejam bem f-u-t-e-b-o-l, e não marketing esportivo _, vou escrever sobre qual outro time no momento?

Para quem assistiu ao passeio do São Paulo nos 5 a 0 contra o Juventus na noite de quinta-feira, em Rio Claro, não tem nenhuma novidade o que escrevi acima, mas muitos podem se perguntar a razão desta hegemonia tão flagrante. 

Entra ano, sai  ano, e o São Paulo não pára de apresentar novos craques, como se eles brotassem do chão ou fossem produzidos em série numa fábrica de jogadores de futebol.

Pois esta fábrica existe. Chama-se Centro de Formação de Atletas Presidente Laudo Natel, fica a 30 quilômetros de São Paulo, tem 220 mil metros quadrados de área, cinco campos oficiais, alojamentos com capacidade para 96 jogadores, refeitório para 150 pessoas, lan-houses, sala de aula e até uma pequena igreja.

O CTA foi inaugurado faz menos de quatro anos, mas já se pagou só com a revelação e a venda do jogador Breno para o futebol alemão, numa das maiores transações da história do clube.

Após jogar apenas seis meses no time principal e chegar à seleção brasileira, aos 17 anos, estava valendo 30 milhões de reais.

Há, no momento, 90 jovens de 10 a 18 anos sendo formados na fábrica de jogadores de Cotia.

Foi entre eles que o técnico Marcos Vizolli, ele próprio revelado no tricolor e ex-jogador do clube, escolheu o time que está empolgando a torcida na Copa São Paulo.

São tantos os novos craques que até o técnico Muricy, que acompanha de perto este trabalho, deve estar surpreso com a safra 2009.

Digo isso porque jantei com ele no final do ano passado, na casa do Faustão, e Muricy só me falou de uma grande revelação, o meia Oscar, de 17 anos, segundo ele o “novo Kaká”.

Oscar, de fato, é uma das gratas novidades do time de Vizolli, mas não a única. Sem que eu nunca tenha ouvido falar nele, o torneio apresentou à torcida o atacante Henrique, de 18 anos, artilheiro do time e da Copa.

Com cinco gols até agora, é um cara que joga com garra e muita alegria o tempo todo, coisa rara no nosso futebol. Para o artilheiro Henrique não tem bola perdida _ pegou, chutou. 

E tem mais: no meio de campo, desponta o fino futebol do apoiador Wellington, autor de um passe magistral, com um toque de jogo de bilhar para Oscar marcar o primeiro gol na noite de ontem.

Não tem jogador ruim neste time, que mostra um futebol de gente grande, firme na defesa, rápido no meio de campo e fulminante no ataque. Deu pena do Juventus, que não viu a cor da bola.

O que nem todos sabem é que estes meninos treinaram um mes direto, sem folgas, nem no Natal nem no Ano Novo, para ganhar o entrosamento que agora mostram em campo.

Não tem milagre. Tem muito trabalho, equipamentos de última geração e profissionais da melhor qualidade em todas as áreas para cuidar destes garotos.

Os titulares tri/hexacampeões de 2008 e os seis novos bons jogadores comprados para reforçar o elenco principal este ano que se cuidem.

Se bobearem, Muricy saca eles e chama os meninos do Vizolli, que poderiam ser titulares já na maioria dos times brasileiros.  



Equipe que participa da Copa São Paulo de Futebol Júnior treina em Cotia/ Foto: Site Oficial do São Paulo

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
15/01/2009 - 13:21

Imprensa: uma tarde na toca de mestre Dines

Compartilhe: Twitter

Cercado de milhares de livros distribuídos por mais de 30 estantes e um container no quintal, algumas raridades que avançam até pelo banheiro e cozinha da casa onde funciona seu escritório, na Vila Madalena, mestre Alberto Dines recebeu na tarde desta quarta-feira os colegas do Jornalistas & e Cia., de Eduardo Ribeiro, para prestar seu depoimento para a série “Protagonistas da Imprensa”.

Como repórter convidado, participei das três agradáveis e gratificantes horas que passamos na toca do Dines, numa bucólica rua sem saída apropriadamente chamada de Laboriosa, onde ele e a mulher, a também jornalista Norma Couri, trabalham desde que voltaram de uma longa temporada em Portugal, em 1996.

Azulejos coloniais informam na entrada da casa que ali funciona a empresa “Jornalistas Associados”, formada na verdade só pelo casal, quando Dines resolveu trabalhar como profissional autônomo, sem carteira assinada, depois de ter ocupado postos de comando no Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Editora Bloch e Editora Abril, entre outras publicações.

Aos 77 anos, ele mantém um ritmo de trabalho de deixar qualquer jovem com inveja. Criador, mentor e articulista do site Observatório da Imprensa, há 18 anos, responsável também por um programa semanal na TV Brasil e outro diário no rádio, Dines ainda escreve uma coluna distribuída para o iG e jornais regionais, faz palestras e dedica as horas vagas à literatura.

Quando não está escrevendo ou reescrevendo algum livro, Dines pode ser visto lendo qualquer obra da sua vastíssima biblioteca, em seu apertado escritório instalado num dos cômodos do bangalô, que é alugado _ uma ilha de paz em meio ao agito do mais boêmio bairro paulistano, onde também mora, num apartamento a poucas quadras da toca em que passa os dias, e muitas noites, enfurnado.

A visão crítica que tem sobre a profissão, a imprensa brasileira e o país, não lhe tiraram o entusiasmo de quando começou na carreira, faz 56 anos, no Rio de Janeiro, onde nasceu. 

Logo na primeira pergunta do longo roteiro levado por Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli, editor executivo do Jornalistas e Cia., Dines disse que poderia falar sobre o assunto durante várias horas ou dias. Edu queria simplesmente saber como o consagrado jornalista vê a imprensa brasileira hoje.

Em sua longa resposta, Dines constatou que a principal característica é a falta de diferenciação entre os três grandes jornais do país (Folha, O Globo e Estadão). “Eles não competem mais. Estão todos nivelados por baixo, não têm mais pluralidade.”

Para ele, a internet é apenas um pretexto, uma desculpa para o declínio do jornalismo impresso, que começou bem antes da febre de portais, sites e blogs, já que o eletrônico não lhe oferece ainda informação atualizada de qualidade.

Concordo com ele, mas vou parando por aqui porque não ficaria bem furar a entrevista dos meus amigos.

Quem quiser saber tudo o que mestre Dines pensa sobre a história da imprensa brasileira, jornalistas de redação e assessorias de imprensa, ética profissional, indústria editorial, poder econômico, governo Lula e os momentos mais importantes da sua vida e obra, deve esperar o começo de fevereiro, quando será publicada a nova edição especial do Jornalistas & Cia. com este que é um maiores protagonistas do nosso ofício. 

Prometo avisar vocês quando a entrevista sair.   

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
14/01/2009 - 08:43

Formatura sem festa: tristeza de pais e filhos

Compartilhe: Twitter

A família do estudante de Enfermagem Ricardo Oliveira Soares saiu de Barra do Choça, na Bahia, e viajou 1.650 quilômetros até Marília, a 435 quilômetros de São Paulo, só para assistir à festa de formatura dele.

Ricardo até alugou uma chácara para abrigar os parentes, mas não houve festa. A empresa responsável pelo evento, a Astral Formaturas, de Bauru, simplesmente cancelou o baile, sem avisar ninguém, “devido ao mau tempo”.

Li esta história triste numa pequena nota publicada pelo jornal O Globo e pude imaginar o que sentiram as famílias dos 100 formandos em Enfermagem, que chegaram vestidos a rigor para o baile e deram com a cara na porta.

Eu mesmo não cheguei a me formar em curso superior, não tenho diploma, como se diz. Mas me coloquei no lugar deles porque já fui patrono ou paraninfo em pelo menos umas 50 festas de formatura de estudantes de Jornalismo e Comunicação nestes últimos 40 anos.

Sei o que isso representa para eles e seus pais, toda a liturgia e simbolismo que cercam este momento. 

Só quem tem filhos sabe como é importante o dia da formatura _ não só na vida deles, mas de toda a família. Num país em que a grande maioria dos pais faz sacrifícios enormes para que seus filhos conquistem o bendito canudo de curso superior, e possam dançar a valsa com eles, este ritual é um marco na vida de todos, um dia que ninguém esquece.

Lembro-me da festa de formatura de Carolina, minha filha caçula, na FAAP. Por um problema burocrático qualquer, ela não foi chamada para receber seu diploma junto com os outros.

Todos os formandos perfilados no palco, fazendo a maior farra com suas becas e canudos, e ela ali sem graça, olhando a cena sem entender o que estava acontecendo _ muito menos nós, a família e os amigos.

O problema burocrático foi logo resolvido, ela receberia seu diploma noutro dia, sem festa nem testemunhas, mas a tristeza daquela cena dela no palco de mãos vazias na noite da formatura ficou marcada em mim para sempre.

Por isso, me toquei tanto com a notícia sobre a festa de formatura que não houve em Marília. Para promover a festa, cada aluno pagou à empresa R$ 61,40, em 12 prestações.

Mesmo que o dinheiro seja devolvido, não há o que pague a tristeza de todos naquela noite, como podemos constatar nos desabafos dos próprios formandos:

“É frustrante. Principalmente para a família, que ajudou a pagar as roupas, a festa” (Adriana Gigueira, que foi à festa com a mãe, tios e o namorado).

“A gente pagou, a gente veio para a festa. A gente é de fora, veio com a família toda e não vai ter festa. E sem explicação (Ligiane Aparecida Barbosa).

“Fica a decepção. Todo mundo tinha um sonho: os pais, os familiares, todos. Principalmente nós, formandos. E foi tudo por água abaixo” ( Ricardo de Oliveira Soares, o formando que trouxe a família toda de Barra do Choça).

Moral da história: não tem.

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/01/2009 - 09:38

Com Serra e Dilma, um 2010 civilizado

Compartilhe: Twitter


(crédito da foto: AE)

Eu sei que é cedo para tratar do assunto, posto que ainda faltam quase dois anos para a eleição que escolherá o próximo presidente da República.

Mas, com todo mundo já falando de 2010, como se 2009 fosse só uma rápida passagem, também me animei a escrever sobre o quadro sucessório.

O que me motivou a falar de política, tema que não está entre meus favoritos no Balaio, foi uma foto publicada nas capas dos jornais de hoje em que aparecem sorridentes o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra Dilma Rousseff, ao lado do presidente Lula, que ameaça, brincando, jogar um sapato em jornalistas. 

Tudo parece caminhar mais uma vez para uma disputa PT X PSDB, como vem acontecendo desde 1994. Desta vez, Serra é o candidato da oposição, hoje favorito nas pesquisas, e Dilma a candidata do governo, cada vez mais abertamente apoiada pelo presidente Lula.

Em 2002, quando Lula, pelo então oposicionista PT, foi eleito pela primeira vez, Serra era o candidato do governo FHC, assim como Geraldo Alckmin teve este papel em 2006.

Em 2010, após 16 anos destes dois partidos se alternando no poder, tudo indica que o próximo presidente também será tucano ou petista.

À medida em que o tempo passa e o quadro sucessório vai se afunilando, o tucano Aécio Neves, governador de Minas, e o deputado Ciro Gomes, do PSB, foram sumindo do noticiário, sem achar espaço entre Dilma e Serra.

A partir do momento em que Lula abriu seu jogo em Dilma, Ciro perdeu a esperança de ser uma das opções de candidato do governo. E Aécio agora joga todas as suas fichas numa improvável convenção do PSDB para disputar no mano a mano a indicação com o governador de São Paulo.

Resta a vereadora alagoana Heloisa Helena, do PSOL, outra vez no papel de franco atiradora. Ela vem se mantendo bem posicionada nas pesquisas, mas também sumiu da mídia e carece de estrutura e discurso para enfrentar uma campanha polarizada como a que se avizinha.

E é só. Dificilmente outro nome vai aparecer nestes 19 meses que faltam para a eleição presidencial. 

Os sorrisos de Lula, Dilma e Serra na abertura de uma feira de artigos de couro em São Paulo, na segunda feira, podem ser um bom sinal de que teremos uma campanha civilizada em 2010, baseada em projetos para o país e não nos ataques pessoais para a desclassificação do adversário.

Com Serra ou Dilma, que têm uma trajetória política bastante semelhante, vindo da esquerda que comandou a resistência ao regime militar e agora caminhando para o centro, penso que o país estará bem servido no pós-Lula. Não há cacarecos nem salvadores da pátria no horizonte.

Arrisco-me até a dizer que, assim como FHC não ficou nem um pouco contrariado ao passar a faixa presidencial a Lula naquela grande festa popular de 1° de janeiro de 2003, também Lula não fará cara feia se o vencedor for José Serra, de quem é amigo e com quem tem muitas afinidades políticas.

Assim, poderemos ter uma disputa eleitoral em que estará em debate o futuro do país e não o passado nem a vida pessoal dos candidatos _ adversários, mas não inimigos.

É um quadro alentador para um país que teve poucas sucessões tranquilas, de presidente eleito para presidente eleito, dentro das normas e seguindo a ordem natural de um regime democrático. Até aqui, estamos indo bem.

Em tempo:

Temas políticos, sabemos todos, costumam gerar acirrados debates entre petistas e tucanos. Por isso, faço um apelo aos leitores para que, assim como os prováveis candidatos, mantenham o nível mínimo de civilidade, sem partir para ofensas e agressões. Usem seus argumentos.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
12/01/2009 - 16:27

Uma cidade que nunca sai de férias

Compartilhe: Twitter

Nem parecia que tinha passado duas semanas fora de São Paulo, no auge da temporada de verão. Assim como a vi agitada e colorida antes do Natal, reeencontrei a avenida Paulista no domingo, às dez da noite, com um movimento de carros e de gente nas calçadas como se ninguém tivesse saído daqui.

Lembrei-me das férias de verão dos tempos em que fui correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, no final dos anos 1970. Parava tudo em julho.

Estudantes sem aulas, donos e empregados de lojas e restaurantes em férias coletivas, os carros sumiam das cidades e congestionavam as estradas, como se tudo mundo tivesse saído na mesma hora para os mesmos lugares. 

Até as notícias rareavam, para desespero dos correspondentes obrigados a escrever todos os dias, com ou sem verão.

Na Itália, nem os padres resistiam ao calor e sumiam das ruas de Roma(naquele tempo ainda usavam batinas), assim que o Papa deixava o Vaticano para seu retiro de verão.

Programadas sempre com muita antecedência, as férias de verão são uma instituição das famílias na Europa, aonde o sol tem dia certo para aparecer e ir embora, sempre com pressa.

Aqui, não. Ao descer para o litoral entre o Natal e o Ano Novo, um desafio que exige cada vez mais paciência nas nossas estradas cheias de pedágios e carros novos, pode dar a impressão de que todo mundo abandonou São Paulo, mas é um engano.

As ruas podem até ficar desertas por algumas horas ou poucos dias, para as tradicionais fotos da cidade vazia nos jornais, mas os paulistanos, ao menos a grande maioria deles, continuam lá enfurnados em suas casas, comendo o resto dos banquetes das festas ou apenas aproveitando para descansar.

Por boniteza ou precisão, o habitante desta metrópole capaz de provocar tanto amor como ódio, em suas múltiplas caras e facetas, custa a sair daqui e, quando o faz, é por pouco tempo _ como se a ausência prolongada dele fizesse o mundo desandar.

Nós paulistanos adoramos falar mal de São Paulo, mas ficamos bravos quando brasileiros de outros cantos falam das nossas feiuras e manias de grandeza.

Xingamos São Paulo quando estamos aqui e não vemos a hora de chegar o verão para fugir para uma praia bem deserta e distante _ e logo morremos de saudades, e voltamos. Tem explicação isso?

Com o advento da internet, do celular e outras modernidades, tenho certeza de que muitos paulistanos, como eu, poderíamos passar mais algum tempo longe daqui, mas quem aguenta?

Para mim, por exemplo, tanto faz de onde carrego o Balaio, mas se não estou aqui parece que não estou trabalhando direito nem atendendo aos leitores como deveria, como se isso fizesse alguma diferença.

Hoje de manhã, ao calçar sapatos pela primeira vez no ano (sem meias, claro), e vestir uma bermuda urbana (quem olha só a roupa das pessoas nas calçadas pode pensar que continua no litoral), para ir até o Bexiga consertar meus óculos, notei apenas uma sensível melhora no trânsito ( o rodízio de carros voltou nesta segunda-feira), claro, mas também foi só.

O resto estava tudo funcionando como em quer outra época do ano. Lá estava meu amigo Miguelzinho Giannini recebendo com festa seus clientes, passando a todos a felicidade de costume.

A modesta cantina do Bexiga, aonde vou quando estou no bairro, encontrei com todas as mesas ocupadas, assim como os balcões dos botecos do prato feito.

Os corredores do Santa Luzia estavam transitáveis, sem a muvuca da véspera de Natal, mas os velhos donos portugueses do tradicional armazém de secos e molhados lá estavam firmes e fortes, comandando o serviço, de camisa social e gravata.

Em São Paulo, os bares e restaurantes não fecham no verão. Ao contrário: é quando ficam mais lotados nos finais de tarde de muito calor como neste meu primeiro dia de 2009 na cidade. Meus amigos também já voltaram… Parece mesmo que esta cidade nunca sai de férias.  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/01/2009 - 11:04

Mídia X Lula: as mais comentadas da semana

Compartilhe: Twitter

O post sobre a difícil relação do governo Lula com a mídia brasileira, baseado numa entrevista do presidente ao diretor de redação da revista piauí, Mário Sergio Conti, foi o assunto mais comentado da semana pelos leitores do Balaio, com 256 mensagens enviadas até as 10 horas da manhã de hoje.

Mesmo reafirmando que sua chegada à Presidência da República é resultado da liberdade de imprensa no país, Lula falou de uma relação histórica em que a grande mídia sempre foi bastante crítica em relação a ele e ao seu governo, e que deixou de ler jornais e revistas porque sofre de azia.

As declarações de Lula, que chamou a atenção para a importância dos blogs na internet para a democratização das opiniões, que também diz não ler, provocaram mais um acalorado debate entre os leitores a favor e contra o presidente, mantendo mais ou menos a mesma proporção apontada pelas pesquisas sobre a aprovação do seu governo.

Desta vez, notei que houve uma sensível queda no número de cachorros loucos entrando no Balaio só para agredir e ofender. Alguns poucos fui obrigado a excluir e encaminhar à vacinação contra raiva, mas no geral o debate se manteve em alto nível.

Há uma impressão generalizada no leitorado de que a mídia faz oposição ao governo, ocupando o espaço dos partidos que deveriam fazê-lo, ao contrário de uma tese levantada no final do ano passado pelo diretor de redação do Estadão, Ricardo Gandour, de que foi o governo quem escolheu a mídia como adversária na campanha eleitoral de 2006.

Aliás, os leitores do Balaio entraram na primeira semana útil de 2009 mostrando bom humor e alto astral, apesar de todo o noticiário ainda predominante sobre guerras e crises, como podemos observar nos posts mais comentados desta semana.

Ao contrário do que costumo fazer, hoje publico apenas os números do Balaio e da Folha, porque ainda não consegui comprar a Veja na praia onde me encontro aqui no litoral norte. À tarde volto para São Paulo, e assim que possível publicarei também os números da revista, já que são os únicos dois veículos que publicam este tipo de levantamento.

Os números da semana:

Balaio

Mídia X Lula: 256

Vida boa: turma do Balaio volta em alto astral: 131

A guerra sem fim, a crise e a vida que segue: 92

Folha

Israel X palestinos: 336

Artigo de João Pereira Coutinho: 130

Lula: 37

Em tempo: como só cheguei agora, quase 11 da noite, de volta a São Paulo, não pude fazer a moderação dos comentários. Vou deixá-los para que os próprios leitores vejam a que ponto podem chegar a baixaria e o desrespeito daqueles que não aceitam opiniões contrárias às suas, sempre covardemente escondidos sob o anonimato, alcunhas ou codinomes. É triste, mas é a nossa realidade.

O lado positivo é que, em pleno domingo, dia fraco na internet, esta simples nota sobre os assuntos mais comentados da semana acabou gerando até agora quase o mesmo número de mensagens daquele do post que teve a maior participação no levantamento acima.

Abaixo, os números dos assuntos mais comentados semana passada na Veja:

Israel versus Hamas (capa): 59

Longevidade e juventude: 15

Demétrio Magnoli: 14

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
09/01/2009 - 10:15

Vida boa: turma do Balaio volta em alto astral

Compartilhe: Twitter

Tirando um ou outro cachorro louco que insiste em latir para o lado errado e procurar salsicha sem osso em sorveteria, a turma do Balaio voltou nesta primeira semana útil de 2009 com a corda toda, como eu gosto: falando também das coisas da vida real, que não estão na mídia, sem perder o bom humor, apesar das guerras e crises que assolam o mundo.

Acabo de ler os comentários publicados no post anterior sobre o amigo “scalper” que com a crise dos mercados já perdeu uma fortuna na Bovespa e não tem pressa para voltar da praia. Nunca me diverti tanto desde a estréia deste blog em setembro do ano passado. Aconteceu o que eu queria: meu texto é apenas um gancho para a discussão entre os leitores.

Por isso, recomendo vivamente que, se voces tiverem um tempinho, leiam os comentários do post abaixo deste, em especial o do Tito, das 8h37 de hoje _  fantástica cronica sobre um dia na praia com a família, no melhor estilo Ivan Lessa, uma delícia de texto que também acabei de ler agora no iG e recomendo aos amigos do Balaio.

Tem de tudo aqui, a ponto do leitor Thiagones constatar que o blog virou um mercado livre. Já tem gente marcando encontro na praia, vendendo carro usado, oferecendo serviços de corretor, encanador e eletricista _ um saco de gatos que mistura auto-ajuda com consultoria economica de dar inveja ao Mailson da Nobrega.

Manoel Ferreira, Vanda, Emanuel Lima, Simei, Enio, Maurício-Barretos e tantos outros, uma pá de gente prova que é possível levar a vida sem ter que fazer cara feia e procurar desgraças alheias para justificar nossas frustrações e/ou perversões. Falam das coisas sérias da vida, sim, como qualquer jornalista juramentado, mas também abrem espaço para falarmos de coisas boas _ por que não?

De que adianta ficar falando só de mortes, alucinações, tragédias em geral, ficar sem dormir, fazer cara de conteúdo, mover guerras santas, como se a vida fosse um eterno FlaXFlu ou um PTXPSDB de verdades absolutas, em que só nós e nossos amigos temos razão e os que não pensam como nós são todos idiotas, vendidos, canalhas?

Não contem comigo nesta guerrinha particular dos blogs que vivem de mal com a vida. Com os leitores que tenho, com esta fantástica turma do Balaio que se juntou em tão pouco tempo, só no boca a boca, não tenho do que reclamar da vida, e não vou. Vou até deixar de responder aos poucos cachorros loucos que insistem em entrar no blog errado. Cada um que procure a sua turma.

E um bom fim de semana a todos, com ou sem sol, desde que a cerveja esteja gelada e a mulher amada do nosso lado. Valeu, galera. Este ano promete.

Em tempo: como fundo musical para o fim de semana, recomendo a música “Vida Boa”, da dupla sertaneja Victor e Leo, dois jovens de quem ouvi falar outro dia e já têm música na novela das oito.

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
08/01/2009 - 11:49

A Crise nas Bolsas: “Eu já perdi 10 paus”

Compartilhe: Twitter

Com a vida voltando ao normal, depois dos festejos de fim de ano e da invasão de forasteiros em busca de sol, menos gente na praia e carros na estrada, resolvi fazer um passeio e encontrei alguns amigos em outro bairro de São Sebastião.

Comentei com eles que este ano o pessoal subiu a serra mais cedo do que de costume. Deve ser por causa da tal da crise, concordamos, e por isso estranhei a calma de um desses amigos, justamente o que deveria estar mais preocupado, já que trabalha na Bolsa e terminou o ano no olho do vulcão financeiro que derreteu os mercados mundiais.

“Eu já perdi 10 paus nesta história”, disse-me ele, candidamente, sem se queixar de nada, apenas constantando um fato como quem aponta para o arco-íris no céu. Paus, para quem não sabe, é a moeda de referência de quem opera nas Bolsas de Valores: representa um milhão de reais.

O amigo ganhou muito dinheiro nos últimos anos depois que se tornou um “scalper”, profissional autônomo autorizado a fazer aplicações na Bovespa/BM&F. Não é para qualquer um. Para ter direito de entrar na brincadeira é preciso depositar R$ 1,6 milhão.

Pela tranquilidade com que meu amigo conta como ficou 10 milhões de reais mais pobre, de uma hora para outra, ninguém precisa ter pena dele. Deve ter sobrado outro tanto, imagino. É um outro mundo, que nós simples mortais simplesmente nunca vamos entender. Mas eu fiquei curioso em saber por que ele não voltou logo para São Paulo como a maioria dos outros veranistas preocupados com a crise.

“Tô aqui porque lá a coisa ainda tá feia”, explicou-me, com um sorriso resignado, como quem diz que agora não há muito o que fazer. “O primeiro trimestre ainda vai ser muito ruim, mas depois tenho certeza que as coisas vão melhorar”.

A esperança dele para o mundo começar a sair do buraco tem nome e data: 20 de janeiro, dia da posse de Obama nos Estados Unidos. No Brasil, como de costume, nada vai acontecer antes do Carnaval, que este ano cai no final de fevereiro.

“Nunca houve uma destruição da riqueza mundial tão grande e tão rápida como desta vez”, diz o amigo, que me dá um exemplo bem simples para explicar o que aconteceu com o dinheiro e o patrimônio de cada um de nós.

“Se eu tiver que vender agora meu carro, que vale 100 mil, para pagar as contas de casa, eu não conseguiria nele mais do que 30 mil. Então, se você não precisar, é melhor não comprar nem vender nada agora, esperar a poeira assentar”.

Caminhando pela areia, o “scalper” conta uma longa história de como este tsunami financeiro apareceu no horizonte, desde a quebra da Enron, uma das maiores empresas de energia dos Estados Unidos e chegou ao auge no segundo semestre do ano passado, quando ruiu o castelo de cartas do mercado imobiliário americano, financiado a juros baixos, levando junto com ele algumas das maiores instituições financeiras do mundo.

Aquele dinheiro que gerava cada vez mais dinheiro nas Bolsas não existia. Foi só os primeiros investidores desconfiarem que algo estava errado e começarem a resgatar seus títulos, para que tudo viesse abaixo. “O império americano simplesmente ruiu e abalou a Europa, depois o resto do mundo…”

E agora? O amigo baseia seu otimismo sobre o futuro não só nas providências que o novo presidente norte-americano adotará logo para enfrentar a recessão, mas principalmente na solidez do sistema financeiro brasileiro que, segundo ele, não foi atingido pela orgia do sub-prime, o nome dado a toda esta desgraça.

“Tenho certeza absoluta de que vou recuperar ainda este ano pelo menos parte do dinheiro que perdi. Só preciso ter fôlego para sobreviver até lá. Do mesmo jeito que houve um exagero na alta, houve um exagero na baixa. Não acabou o mundo. O que move o mundo é o mercado financeiro, desde a época de gregos e romanos, as coisas vão acabar se acertando”.  

Sempre crítico do governo e do presidente Lula, meu amigo “scalper” desta vez reconhece, no entanto, que ele tem razão ao repetir toda hora que o Brasil está mais preparado do que outros países para enfrentar a crise. Para mudar de assunto, já que este é um dos muitos que não domino nem entendo, proponho que, diante do exposto, a gente vá tomar uma cerveja. A esta altura, o que de melhor poderíamos fazer? 

  

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
Voltar ao topo

oferecimento