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30/01/2009 - 10:39

Battisti e Rother: a arte dos tiros no pé

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Uma coisa que nunca falta nos governos, em qualquer governo, são problemas. Não passa um dia sem que eles apareçam de onde menos se espera. Governar é encontrar soluções, com a celeridade possível, para evitar que estes problemas virem crises.

“Temos um problema”, era a frase que mais ouvia dos meus colegas da Secretaria de Imprensa nos dois anos em que trabalhei no Palácio do Planalto. “Só um?”, eu respondia, brincando, enquanto tentava advinhar de qual se tratava desta vez.

Por uma sina misteriosa que nunca consegui entender, se por acaso não havia problema em determinado momento, a gente mesmo criava um.

Fiquei pensando nesta compulsão de dar tiros no próprio pé, se já não bastasse viver em meio a um fogo cruzado, que não dá um dia de folga, ao ver hoje o caudaloso noticiário sobre a decisão do governo Lula de negar a extradição de Cesare Battisti pedida pelo governo italiano.

E me lembrei de outro episódio muito desgastante para a imagem do governo, aqui dentro e, principalmente, lá fora, quando o governo decidiu não renovar o passaporte de Larry Rother, o agora famoso correspondente do New York Times, que escreveu um texto infame sobre o presidente Lula.

Bastaria mover um processo contra o jornalista na Justiça, por injúria, calúnia e difamação, em defesa da honra do presidente. Num primeiro momento, recordo-me bem, o presidente Lula recebeu solidariedade unânime de toda a mídia e dos líderes da oposição, algo até então inédito nos dois primeiros anos de governo.

Mas, ao tomar a decisão radical que correspondia a expulsar o jornalista do país, toda a opinião pública voltou-se contra o governo, acusado de atentar contra a liberdade de imprensa, e Rother virou uma pobre vítima.

Desde o primeiro momento, fui contrário à medida e alertei meus colegas de governo para este risco (conto a história completa no livro “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, da Companhia das Letras). 

Com a decidida atuação do meu amigo Márcio Thomas Bastos, então ministro da Justiça, que se encontrava no exterior e voltou a tempo de consertar o estrago, a decisão foi revertida, mas até hoje é lembrada quando alguém quer criticar o governo.

Agora, repete-se a história, como revela reportagem da Folha desta sexta-feira. O jornal teve acesso ao processo sigiloso do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), orgão vinculado ao Ministério da Justiça, com todos os argumentos para não conceder o status de refugiado a Cesare Battisti, contrariando as alegações de Tarso Genro para negar a extradição.  

A decisão do Conare foi em novembro, mas só ontem o Supremo Tribunal Federal, no qual tramita há anos o processo de extradição solicitado pela Itália, requisitou uma cópia do documento de 16 páginas.

Não existe “se” em política, mas imagino que se esta decisão do Conare, um orgão interministerial formado por conselheiros de diversas áreas do governo e da sociedade civil, tivesse sido simplesmente encaminhada ao STF na época, não estariam hoje abaladas as relações entre Brasil e Itália.

Nem o nosso país teria revertido contra ele um noticiário internacional amplamente favorável, agora ocupado por críticas contundentes, vindas de toda parte contra a decisão de conceder refúgio a um cidadão condenado por homicídios e práticas de terrorismo pela Justiça italiana.

Mais do que a decisão em si, o que provocou a violenta reação do governo italiano foram os termos utilizados pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, para negar o pedido de refugio, aceitando as alegações de Battisti, segundo as quais correria risco de vida e de perseguição política caso voltasse à Itália.

Ao contrário de Genro, o Conare reconhece em seu documento que a Justiça italiana é democrática e respeita os direitos humanos.

Seja como for, a última palavra (poderia ter sido a primeira) sobre o caso agora será dada, provavelmente na próxima semana, pelo Supremo Tribunal Federal, que concedeu ontem prazo de cinco dias para que o governo italiano se manifeste sobre o pedido de liberdade apresentado pela defesa de Battisti.

O ex-militante político, que virou escritor e se refugiu primeiro na França, antes de vir para o Brasil, em 2004, depois de ter sido um dos líderes do grupo Proletários Armados pelo Comunismo, foi condenado na Itália à prisão perpétua, já faz 15 anos.

Não fosse esta nossa mania de criar e ampliar problemas onde eles não existiam, deixando questões jurídicas para serem decididas no lugar adequado, ou seja, na Justiça, não transformando tudo em questões políticas, Larry Rother e Cesare Battisti jamais teriam virado manchete de jornal, pelo menos no Brasil.  

Em tempo: entrou agora na área de comentários do post “Formatura sem festa: tristeza de pais e filhos”, mensagem de Dalva Aleixo, da Assessoria de Comunicação da Astral Formatura e Eventos, de Bauru, empresa que cancelou o evento marcado para o dia 10 de janeiro, em Marília, em razão do mau tempo, provocando o protesto dos estudantes.

Dalva informa que a festa foi apenas adiada e aconteceu no último dia 23, com a participação de 98 dos 110 formandos de Enfermagem da Unimar. 

Um final feliz para uma história triste. Melhor assim. 

  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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219 comentários para “Battisti e Rother: a arte dos tiros no pé”

  1. Manoel Ferreira disse:

    Estimado Sr. Neskeens das 12:42

    Enviei um texto em referência ao seu, onde concor com o sr. em: Gênero,Número e Grau, e faço outras colocações mas não saiu, ou foi abortado, ou o ig está com Urucubaca mesmo!

    Parabéns pelo seu texto, isto é Brasil!

  2. Sofia disse:

    Até você Kostcho?
    Pera lá… comparar os dois casos é o fim da picada!
    o caso Battisti envolvia uma decisão do tipo sim ou não, e essa resposta implicava em considerar questões de fundo, humanitárias.
    Não é o tipo de coisa que pode ser simplesmente equacionada numa atitude política “menos radical”, ‘menos deletéria” à imagem!!!!
    Não nego que a resposta – tanto o sim, como um possível não – constituísse de forma evidente também uma posição política, mas ela teria que responder necessariamente, e em último grau, a essa questão de fundo humanitária. Teria que prestar contas sobre ela. Isso feito, ponto final, seria a resposta, doesse a quem doesse!!!!
    Se discorda da concessão do asilo, então se atenha aos motivos pelos quais discorda, mas não diga que foi uma decisão politicamente desnecessária, um “tiro no pé”, como foi a questão do Rother.
    Só os covardes dão, sempre e em qualquer circunstância, apenas as respostas que os “outros” querem ouvir.

  3. Neskeens von Lyrics disse:

    Grande Manoel Ferreira!!!
    Eu fiz o serviço militar em Lorena (isso em 1.970/71) e no dia de soldo, dia 28 do mês, íamos, uns 200 soldados, de trem até Cruzeiro (numa certa vila de casas localizada ” além” da linha férrea)… Bons tempos aqueles que tudo se resolvia com umas injeções de “Benzapen 1.000.000 de unidades…
    Obrigado pelo seu comentário.
    Não sou Petista, nem Pmdbista, nem Psdbista, nem qualquer outro tipo de “ista”, mas leio, acompanho e observo as coisas com uma enorme dor no meu coração brasileiro…
    Nós merecíamos coisa melhor…

  4. Luiz Carlos disse:

    Mas não é possível gente. Será que o ‘PIG” não dá sossego nem lá; ”Meio-irmão de Barack Obama é preso por posse de drogas no Quênia.”
    Ah esse PIG…
    Ah, esses irmãos. Quem nunca teve um irmão, digamos, ”problemático” quando se está no poder, que atire a primeira pedra.

  5. jenivaldo disse:

    esse aqui ta moderado

  6. jenivaldo disse:

    porque tiro no pe

  7. Manoel Ferreira disse:

    Enviado por: Rui Martins 31-01/10;32

    Estimado Rui, bom dia e fiquei de certa forma feliz ao ler o seu texto, redigido com clareza, sabedoria e lucidez impar! Porém?
    Meu caro Rui, embora transparente por demais, eu não vejo diante de outras situações expostas no seu próprio texto o caso do Battisti de uma forma singular ou simplista ou como se fosse ainda mera questão jurídica, pelo tudo o que li e reli sobre este camarada, trata-se somente de um marginal, um fora-da-lei, ou ainda delinquente comum que carrega consigo quatro assassinatos nas costas.
    Portanto Rui, se é o caso de elevar a situação acima da questão de direito, e julgarmos pela ótica da humanidade, de compaixão como você diz, eu discordo, e não se aplica, pois eu creio que neste momento existe uma corrente enorme em sentido oposto a este raciocínio, e caso comprovado seus crimes , espero que este sujeito vá pra bem longe de nós, aqui no Brasil já temos um monte de mer… como ele aliás piores que le pois ainda além de não terem nunca pagos poor seus inúmeros crimes, e estarem em uma cela que deveria ser o seu lugar, ainda gozam de uma maldita imunidade parlamentar!
    Lugar de bandiido Rui é na cadeia!
    O azar deste malandro foi não ter nascido aqui no Brasil, mas se depender do desmiolado do padre Tarso e de seus Bispos , certamente o safado vai receber cidadania e tudo mais!
    Mas respeito seu belíssimo comentário, e olha são episódios como estes que fazem com que as pessoas lúcidas detestem cada vez mais as decisões insanas deste governo!
    Pobre Mãe gentil, Rui pobre Brasil, que tem que suportar todas estas mazelas que assolam o solo da pátria amada idolatrada, do Oiapoque ao Chuí, está tudo perdido mesmo! Tudo dominado!
    Bom domingo Rui
    Abraços fraternos
    Manoel Ferreira

  8. Manoel Ferreira disse:

    É meu amigo, eu tive onde você chorava e a mãe não via!

    Quitaúna, berço daquela insanidade Lamarca !

    É brincadeira chamar um cara daqueles de herói, de exímio atirador e outras tantas lendas idiotas a respeito de um sujeito mal resolvido com a vida, nunca soube bem o que queria, foi de péssimo a regular na academia, nunca foi primeiro aluno em nada, é tudo onda quando voltou de Suez veio mais xarope ainda!

    Fica aqui sim os meus respeitos a familia, isto sim, agora no demais, pura perda de tempo!

    Sabe Neskeens von Lyrics, caso seja o seu nome, eu sempre digo haviam erros gritantes e absurdos de ambos os lados, e nada daquilo precisava ter acontecido, um passado já meio remoto que nem merece uma página sequer nos livros de história, um conjunto de reações mixtas de truculência e covardia, onde heróis eram vagabundos comuns e vagabundos singulares eram heróis de araki,

    Também cumpri meu tempo e fui lecionar, e creio que aí sim ajudei o meu país!

    Acreditei que o estudo era a luz da vida, e que um dia seríamos conduzidos pela inteligencia e a intelectualidade dos nosso irmãos, e nunca pela astúcia e pela sagacidade!

    Emfim é isto aí, aplauda quem quizer, pois a continuar o descalabro, certamente as lágrimas viram em prantos !

    Abraços Fraternos

    Manoel Ferreira

  9. Venusto Casto Francisco López disse:

    Estamos falando no caso Battisti, e o leitor ´Wilson´, que evidentemente pertence àqueles minúsculos 5% da população que não gosta de Lula, vai aproveitando da oportunidade para pichar seu governo, tachando-o de ´inábil em todo´. Inábil?? A mais recente pesquisa demonstra que a aprovação dele nunca foi tão alta na história. E, por favor, não me vem com esta asneira que todos os institutos de pesquisas estão comprados. Até os analistas especialistas do exterior (que não têm rabo preso) tiram o chapeu para o governo dele.

  10. João Alberto disse:

    Prezado Kotscho.
    Já li mais de uma vez e em vários orgãos da imprensa, a declaração de importantes membros do governo, de que, se alguém pensa de que qualquer ato é feito sem a aprovação do LULLA, esse alguém não conhece a estrutura montada, daí, demonizar o fraquinho Tarso é uma maldade sem precedentes.

  11. alexandre disse:

    amigos internautas,já afirmei neste blog e volto a repetir,esse tarso genro jamais poderia ocupar um ministério tão importante para qaulquer paiz ,é uma lástima a maneira como esse ex-guerrilheiro se comporta na direção do ministário,só mesmo um governo despreparado e politiqueiro nomearia um sujeito como esse para ser ministro da justiça.o tomaz bastos era ruim mas esse é bem pior,se fosse inteligente e sério já tinha pedido demissão.

  12. alexandre disse:

    amigo venusto,petista evidentemente,nem todos os governos com alto indice de aprovação são bons,a opinião das pessoas,principalmente onde a maioria absoluta dessa passoas são aquinhoadas com benesses do governo,mais a capacidade palanqueira desse governo em proclamar frases que essas mesmas pessoas gostam de houvir,evisentemente elevam a aprovação por ele,não sou critico dpo que o teu lula fez mas do que ele não fêz podendo fazer,pra teu conhecimento,NUNCA,NA HISTÓRIA DESTE PAIZ(SIC)UM GOVERNO ARRECADOU TANTO DINHEIRO,AUMENTOU TANTO OS IMPOSTOS E GOVERNOU COM A SITUAÇÃO MUNDIAL TÃO PROPICIA,se não sabia guarde e analise,se fosse um governo que soubesse administrar esse dinheirão todo teria feito muitissimo mais do que fez ate agora,te manca cara e aprende

  13. capo di tutti capi disse:

    Concordo com as seis primeiras palavras do wilson; de fato, sua inabalável amizade ao presidente 100% de bom ou ótimo (que país!!!) jamais poderia deixar de mostrar o viés de seus comentários a favor sempre desse governo ao qual serviu e ajudou muito a construir. Enquanto houver nas “pesquisas” um infinitésimo contra essa turma do PT e seu “capo de tutti capi” é porque levaram em consideração o meu voto. A verdade pode tardar mas um dia vai aparecer.

  14. gigi disse:

    Olha, querido,
    eu moro na Italia…que bom pro Brasil estar assim com um pais que nao tem um minimo de respeito por nos, visto que nos considera uma “Republica das Bananas”; por nossas juristas – visto que somos famosos pelas bailarinas…”
    Posso falar, ADA PELLEGRINI GRINOVER arrasou qdo teve em Milao, meus professores babaram nela-altro che ballerina!
    Se os caras nao peitaram a França por 11 anos espero que GILMAR MENDES nao arregue e defenda a tradiçao jurisprudencial do nosso pais, se ele nao defender a nossa constituiçao ai sim vai ser duro!!!!

  15. gigi disse:

    Brasileiro è complexado mesmo…

    Aqui, na Italia, so tem qualidade de vida pq 80 milhoes de pobres emigraram e o resto eles deixam afogar em Lampedusa …

    Ai …se o gentil jornalista escutasse o discurso neofascista todos os dias durante tres anos certamente nao criticaria a atitude corajosa e DESCENTE do nosso Ministro.

  16. Walter disse:

    Passei 15 dias na europa a trabalho, retornei no ultimo final de semana.
    Se o Brasil já era motivo de gozação, imagina agora com esse Battisti e os três alemães que tiraram a roupa no aeroporto de salvador…estão dizendo lá que o Bin Laden está pensando seriamente em trocar umas idéias com o Tarso

  17. Wagner disse:

    Alguém se lembra do “caso” LUBECA, apenas p/ refrescar a memoria foi na gestão da ex prefeita Erundina.

  18. [...] segundo as quais correria risco de vida e de perseguição política caso voltasse à Itália. Battisti e Rother: a arte dos tiros no pé – Balaio do Kotscho Por mais que insista que a decisão do Brasil foi soberana, é sabido que Tarso [...]

  19. Patricia disse:

    Graças a pessoa como Dilma temos hoje um país diferente, sou filha de militar e economista so eu sei o que nao pude me espressar no passado por ser filha de militar, adimiro Dilma Rousseff sua força e sua coragem. Vou trabalhar a seu favor farei de tudo pra vc ganhar acho que vc vai ser o orgulho de todas as mulheres brasileira. Vamos a luta.

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