A guerra sem fim, a crise e a vida que segue
Todo dia de manhã bem cedo, quando vou ao armazém do Boi tomar um café expresso, enquanto espero a chegada do jornal, de frente para o mar do Toque Toque Pequeno, em São Sebastião, fico reparando nas pessoas que passam, a caminho da praia ou do trabalho, no movimento dos cachorros vadios, dos caminhões de entrega e das marés, na cotidiana rotina da vida que segue _ nada que mereça manchetes ou mesmo um simples post de blog.
Por que então estou aqui hoje escrevendo estas coisas, já na primeira segunda-feira de 2009, se tinha dado folga aos leitores até o dia 12? Não, ninguém me fez apelos nem pediu para voltar antes do previsto, nenhum chefe me cobrou. Apenas me deu vontade de escrever, depois de passar estes dez dias apenas lendo, brincando com os netos, fazendo comida e olhando a paisagem.
Ao bater o olho em mais uma manchete da guerra sem fim no Oriente Médio e na foto de mais uma criança chorando a morte do irmão, uma das mais de 500 vítimas que já tombaram na faixa de Gaza, a tragédia distante cercada pelas notícias sobre os efeitos locais da crise econômica mundial, olhei em volta e pensei no contraste entre o que estava lendo e o que via e ouvia à minha volta.
Fora um ou outro renitente comprador de jornal, como eu, ninguém comentava estas notícias. Nem em casa queriam saber delas. Os assuntos por aqui são os de sempre: se o sol vai finalmente sair das nuvens depois de vários dias de chuva, o drama do deseparecimento de Leão, o mini cachorrinho de uma senhora idosa, o menino da Mariana que passou a noite sem febre, o novo roteiro de filme que a Carolina acabou de escrever e ficou uma beleza, quem vem nos visitar hoje, o que vamos fazer para o almoço. Será que deu peixe bom pra gente comprar na aldeia dos pescadores?
Daqui a pouco, claro, cada um volta para a sua rotina de escola e trabalho na cidade grande. Os assuntos serão outros, mas esta breve trégua de todo começo de ano é importante para a gente pensar naquilo que é realmente importante na vida, e só depende de nós, e daquilo que é importante para o noticiário do jornal, um balaio de crises, tragédias e problemas diante dos quais nos sentimos cada vez menores e mais impotentes.
Isto é bom para para baixar a bola, nos tornar mais humildes e dar mais valor às coisas pequenas da vida, não achando que a nossa pré-ocupação, o nosso sofrimento antecipado ou opinião formada sobre todas as coisas vá mudar o que quer que seja nos destinos do mundo.
Assim como a maré agora continua baixando até o meio dia e depois começa a subir de novo, como faz todos os dias e noites, com ou sem crise, com ou sem guerra, o mundo vai continuar girando, independentemente da nossa vontade ou desejo.
O ano começou como o outro terminou _ e por que haveria de ser diferente? Só porque a folhinha à meia noite do dia 31 mudou para 2009 como anunciou a bela queima de fogos na praia?
A chuva agora deu uma trégua e está na hora de comprar o peixe do almoço. Os netos já estão na porta de casa me chamando.
Espero que esteja tudo bem com vocês, caros leitores do Balaio, que continuaram mandando seus comentários mesmo na minha ausência. Vida que segue.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

Que bom seria se tudo de ruim acabasse na virada do ano.
Não aguentou, né, Ricardão?
Os dedos começam a coçar, se a gente não escreve.
Eu já sabia!
Bem vindo de volta à sua casa!
Dar um dor no coração,ver imagens de crianças morrendo ou perdendo familiares,por causa dessa guerra de poderes.E a elas não são dedicados sequer um minuto de silêncio,o mesmo que é dedicado quando as vítimas pertencem a países do primeiro mundo.
Aproveite os dias que faltam de sua folga.
Estimado Ricardo. Ano novo Balaio velho!
Meu velho amigo novo, nunca me imaginei entrando na casa de um camarada, e dizendo ao mesmo que já estava dentro pelo simples fato de ser o dono da casa, a frase ” Seja bem-vindo!”
Acredite Ricardo, as coisas nem sempre acontecem conforme o programado, apenas acontecem, e nem sempre acontecem na hora certa. ou quem sabe talvez as coisas, acontecem exatamente quando devem acontecer.
Você voltou, porque voltou! E só!
Ou como disse o estimado Carlos, voltou porque não aguentou a coceira nos dedos assim como eu.
Seja bem-vindo e desculpe-me pelo atrevimento da recepção na sua própria casa!
Abraços fraternos
Manoel Ferreira.
Faz muito tempo que não vejo fotos de vítimas israelenses causadas pelos foguetes lançados diariamente pelo Hamas. Acho que eles não causam vítimas e os israelenses estão chorando de barriga cheia. Já do lado palestino, a presteza com que eles exibem mulheres e crianças como vítimas… Talvez saibam que já ganharam a guerra da propaganda.
Parabéns por se posicionar em relação a mais esta insanidade.
Sempre há o que fazer, já é possível acessar listas de empresas israelenses na net para boicotar os seus produtos, uma delas está em: http://www.inminds.com/boycott-israel.php#companies
Abços
Baiano
Fico tb. imaginando, em alguns paises há varios protestos, contra politica, ex. corrupção, saúde, guerras igual de israel, esta acho uma guerra sem fim, infelizmente. Aqui no nosso Brasil, que dá tantas saidas para se resolverem tantos problemas, mas algumas pessoas brigam, faz ofensas, pincham muros, porque seu time não ganhou uma partida. Será que é problema tão sério, faltam médicos em hospitais, educação fraca, segurança não existe. Este BRASIL cheio de opórtunidades e não valorizamos. Digo falta cinquenta anos para chegarmos lá. TOMARA
Um bom indicativo para o ano que realmente espera-se. “… os pequenos detalhes da vida…”
Parabens pela bela percepção.
Parabéns pela crônica. Não se trata de faz de conta, mas de conviver com contrastes. Não é que a guerra não exista, exemplo: meu filho passou no vestibular em segundo lugar, em administração, numa universidade federal. Teremos amigos, familiares, churrasco e comemoraremos muito. A guerra somente nos aguça a percepção da fragilidade, humana e desses pequenos momentos, o quanto eles são importantes. Venha para o churrasco e eu vou comer um pouco de peixe com você na praia. Grande abraço. Maurício.
Em relação a guerra a qual infelizmente é evidente Ricardo, existem algumas perguntas que faço a mim mesmo:
Quando Começou? Veja é só uma pergunta!
Digamos, que existem diversas respostas! ( Nenhuma convincente!)
É muito difícil precisar um momento histórico do início, você poderia começar por Caim e Abel por exemplo, ou mais adiante a saída de Ló das terras de Abraão, quem sabe Jacó e Esaú são os responsáveis? Ou mesmo ainda a dispersão após a morte de Estevão, portanto até hoje não encontrei uma resposta a altura Ricardo, acredito que isto começou desde sempre!
E quando isto vai acabar?
Também não sei Ricardo, não é tão simples como as duas guerras mundiais, nem como a guerra do Vietnã, Coreia, Camboja e outras tantas idiotices que os americanos já inventaram para gastar o seu dinheiro e atrapalhar a vida dos outros, se metendo em conflitos internos de países aonde nunca foram convidados!
Os Judeus viviam sendo perseguidos, precisavam de um país, mas entre tantos lugares possíveis para fazer Israel escolheram uma nação do terceiro mundo onde o povo quase morria de sede apenas porque a religião judaica diz que aquela é a terra prometida dos judeus.
Mas não é para isso que existe o direito internacional?Para evitar que cada religião faça apenas aquilo que quiser, desconsiderando as demais?
Ricardo, e se você pensasse assim:
Teria a ONU cometido um erro terrível, com o aval dos EUA na criação deste estado? Talvez você não estivesse pensando errado, ou talvez sim!
Assim sendo, após este estabelecimento, os judeus foram tomando as terras palestinas vila por vila, em algumas executaram todos os homens em condição de lutar, e isto é um absurdo, e você ser contra estas coisas não estaria pensando errado!
Agora os tempos são outros, e essa imagem que temos hoje dos árabes brigões Ricardo, é uma idéia atual, ela não existia antes de Israel.
Acontece que os palestinos foram vítimas de uma das maiores injustiças da história da humanidade e a sua reação é proporcional ao tamanho dessa injustiça. É claro que não se pode admitir os ataques dos radicais, pra isto existem mediadores injternacionais e a própria Onu, mas aonde estão?
No lugar de sempre, ou seja lugar algum quando se precisa deles!
A situação já começou de uma forma complicada, Pelo que eu li a respeito, Ben Gurion, fundador de Israel, em suas cartas ao filho, deixou escapar que nunca teve a intenção de viver em harmonia com o povo árabe. Ele dizia que, no dia da fundação de Israel, estava alegre, mas ao mesmo tempo lamentava por ter que dividir a terra com os árabes. Isso mostra que Israel já nasceu com caráter colonialista.
A faixa de gaza é parte do que teria sido o estado palestino que sequer chegou a existir, pois os árabes nunca aceitaram esse que para eles foi o maior dos absurdos, que foi a criação de Israel!
Portanto é ao meu ver, lamentavelmente uma guerra sem fim!
E nestes comflitos nunca se sabe quem está certo, só quem está errado ou seja todos, e as vítimas são sempre as mesmas, mulheres, crianças, velhos, pobres miseráveis e outros que não conseguem fugir e até os que poer amor acabam ficando no meio do fogo cruel e cruzado!
Que Deus tenha compaixão de todos, ninguém merece esta desumanidade!
O aconselhamento da vez seria : Humildade e Juízo! de ambas as partes!
Abraços fraternos
Concordo com o que disse o Sr. Manoel, gostaria que essa guerra nunca tivesse começado, mas acredito que ela nunca vai acabar, e sinto pelos civis e o povo que não tem nada com isso.
Que maneira trágica de terminar um ano e começar outro.
Kotsho, como no texto de Marina Colassanti, a gente se acostuma. Acostuma a morar onde não tem vista, para não olhar para fora. Acostuma com cortinas fechadas e a não ter a luz do sol. Acostuma a ler sobre a guerra. Acostuma a aceitar a guerra e os seus mortos. Acostuma que exista estatistica de mortos e aceitando os seus números acostuma que os mortos não são pessoas. Acostuma a esquecer os mortos, a esquecer vítimas inocentes e que não seja negociada paz. A gente, infelizmente, se acostuma a tudo. Mas como diz Marina, a gente não devia se acostumar. Um abraço.
Caro Ricardo, é muito fácil e cômodo dar pazer para alguém, oferecendo o rabo dos outros. Foi o que fizeram os aliados logo após a segunda grande guerra. Deveriam os Estados Unidos e a Inglaterra ter oferecido parte de seus territórios para os Judeus, numa inequívoca demonstração de altruísmo. Pimenta no dos outros é refresco, né?
“Todo dia de manhã bem cedo, quando vou ao armazém do Boi tomar um café expresso, enquanto espero a chegada do jornal, de frente para o mar do Toque Toque Pequeno, em São Sebastião… nada que mereça manchetes ou mesmo um simples post de blog…Apenas me deu vontade de escrever, depois de passar estes dez dias apenas lendo, brincando com os netos, fazendo comida e olhando a paisagem….Fora um ou outro renitente comprador de jornal, como eu, ninguém comentava estas notícias. Nem em casa queriam saber delas. Os assuntos por aqui são os de sempre: se o sol vai finalmente sair das nuvens depois de vários dias de chuva, o drama do “deseparecimento” de Leão, o mini cachorrinho de uma senhora idosa… o que vamos fazer para o almoço. Será que deu peixe bom pra gente comprar na aldeia dos pescadores?…A chuva agora deu uma trégua e está na hora de comprar o peixe do almoço.”
É realmente voce deve estar muito preocupado com a guerra… Nota-se pelas suas palavras que voce nem anda dormindo direito…
Como diria o personagem das histórias em quadrinhos Robin: SANTA HIPOCRISIA, Batman!
Olá Ricardo,
também como você, às vezes, tenho ‘coceira nos dedos’ – são resquícios do velho Alberto Conte…
Tenho lido algumas crônicas suas e, realmente, gosto dos seus escritos, mas também sou são-paulino e amante do mar e, vendo as ondas quebrando na praia, entendi que o que tem que acontecer, quando ’a massa crítica’ se forma, não tem jeito… acontece! Acredito que nós estamos nesse mundo para aprender e só se aprende errando, contudo, quando se persiste no erro, o resultado só pode ser o desastre, de outra forma, não aprenderíamos… Só respeitamos a dor e quanto maior ela for, maior o respeito. Portanto, apesar das diferenças, das razões, dos motivos justos, ou injustos, enquanto não aprenderem a conviver, respeitando as necessidades alheias, o resultado só poderá ser o choque, o confronto, até que se entendam, ou não e aí… bem, aí chegamos à ‘massa crítica’ – de tanto bater cabeça, não tem jeito, ela quebra e o protagonista morre, que assim, certamente, não errará mais…!
Mas, por mais que o assunto seja importante, é imperioso observar o mar, o quebrar das ondas, o nascer do sol no mar… pois que esse aprendizado é fundamental, além de ser muito prazeroso.
Abraços,
Flavio
Caro Ricardo,
Não vou comentar sobre seu texto a respeito da guerra e sim sobre o teu dia a dia nessas férias aí em Toque Toque que eu conheço muito bem pois passo minhas férias em Paúba que vc também conhece.
Que maravilha, esperar o sol sair, os netos pra brincar, os pescadores (costumo comprar aí também), cozinhar, e tomar um café no bar do Boi.
Parabéns Ricardo. Com certeza esses pequenos grandes prazeres são privilégios de quem fez por merecer.
Um abraço
Se esta guerra estivesse ocorrendo nos confins do continente africano (genocídio em Ruanda, massacres no Darfur e Somália), nínguem estaria dando a mínima bola. Mas como o conflito acontece no Oriente Médio(onde está quase todo o petróleo consumido no mundo), todo mundo fica mostrando a sua “indignação”. O ser humano é realmente muito hipócrita. O dia em que as fontes renováveis de energia substituírem o petróleo, nínguem mais vai ficar dando bola pra essa “picuinha” entre arabes e judeus.
ola Ricardão vc. de volta não importa da maneira , o que importa é que vc. esta ai feliz 2009 ,vc. é velho o Balaio é velho, mas faça uma coisa nova deixe o cigarro que em 2009 vc. consegue.. UM ABRAÇO……………
Bom dia, Ricardo
Tenho apreço e respeito por voce, posso até nao concordar com algumas informações ou opniões, mas admiro sua conduta .
Solicito a voce e todos que desejam o bem , a paz, amor e compaixão , aclamem para a Paz no mundo, que as divergencias sejam negociadas, que violencia não combate violencia, que busquem tribunais por mais duvidosos que sejam, mas recusem a luta,guerras,mortes ou qualquer forma de agressão.
Paz e compaixão é o que precisamos, mesmo estando logne dessas atrocidades, conseguimos sentir o mau que faz aos inocentes.
Um abraço
É inacreditável e perfeitamente compreensível que o ódio, falsamente alimentado por questões religiosas, possa sempre estar a serviço de interesses políticos, infelizmente nossa indignação a cerca da guerra entre judeus e árabes, também seja partidária e não humanitária.