Arquivo de janeiro, 2009
31/01/2009 - 09:37
Tempos atrás, quando comecei a trabalhar em casa, virei o “Jaques”. Era só minha mulher me ver sem fazer nada, que vinha logo com aquele irrespondível pedido à queima roupa:
”Já que ce taí sem fazer nada, será que não dá pra ir no banco pagar estas contas pra nós?”.
Tinha que ir, claro. Nos últimos tempos, minha vida melhorou muito porque ela passou a pagar todas as contas pela internet, e nunca mais falamos no assunto.
Este mes, como a Mara não conseguiu pagar algumas contas porque estava passando férias com a família na praia, e a internet lá ainda funciona movida a lenha, imagino, sobraram algumas contas para pagar no banco.
Sexta de manhã, lá fui eu cumprir meus compromissos na parte que me cabe neste longevo casal que está para completar 40 anos de vida em comum.
Minha primeira parada foi nos Correios, agência da rua Estados Unidos. Sim, apesar de toda a facilidade proporcionada pela internet, ainda é preciso mandar por carta os comprovantes para receber restituição de pagamento do plano de saúde.
Como era hora de almoço, claro que o pessoal tinha saído para o almoço. Ficou só um herói lá para atender à clientela. Acontece que é justamente nesta hora que muita gente aproveita para ir aos Correios…
Meia hora depois, cumprida a primeira missão, tive sorte: na agência do Banco do Brasil, na rua Augusta, estava tudo deserto no andar térreo, onde só ficam os caixas automáticos e uma mesa, deve ser do gerente, que tinha ido almoçar.
No andar de cima, onde ficam os caixas, também parecia feriado. Ali agora só funcionam dois guichês, mas logo fui atendido. Fiquei pensando para que serve uma agência tão grande e suntuosa para tão pouca gente.
Pouco mais acima, na rua Augusta, a agência do Banco Real estava fechada em pleno dia útil. Não entendi nada. Nenhum aviso, nenhum sinal de greve, e tudo vazio, portas fechadas. Dali a pouco apareceu um funcionário para me informar que a agência estava sem energia.
Virando à direta, na alameda Lorena, a agência do Santader era a última estação da minha viagem de pagador de contas da família. O mesmo cenário: tudo deserto, apenas os seguranças olhando para o vazio, que me indicaram o caminho para pagar a conta que faltava.
Era preciso pegar uma senha como nos laboratórios de exames clínicos. Tinha duas opções. Uma delas era só para idosos, deficientes, gestantes, etc., e foi nela que peguei a minha porque, de acordo com o Estatuto do Idoso, a partir dos 60 anos, temos direito à fila preferencial em qualquer lugar.
Foi a maior roubada. Esperei uma eternidade para ser atendido porque muitas empresas agora contratam pessoas de minha idade como office-boys, quer dizer, office-olds, que levam pacotes de documentos para pagar e passam horas no guichê.
Além disso, tem meus colegas aposentados, que não conseguem usar o caixa eletrônico e vão ao guichê todos os dias para conferir suas contas e levar um papo interminável com os atendentes, só para matar o tempo.
Por último, tem os malandros trouxas, que não são idosos, nem aleijados nem grávidos, mas entram na fila preferencial “por engano”. Em geral, são distintos senhores de paletó e gravata (no check-in de prioridade dos aeroportos, eles também costumam se “enganar”).
Não foi o melhor programa do mundo, confesso, mas faz parte, e é bom para a gente saber como é a dura vida de quem ainda está fora da internet e tem que pagar suas contas nos bancos.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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30/01/2009 - 10:39
Uma coisa que nunca falta nos governos, em qualquer governo, são problemas. Não passa um dia sem que eles apareçam de onde menos se espera. Governar é encontrar soluções, com a celeridade possível, para evitar que estes problemas virem crises.
“Temos um problema”, era a frase que mais ouvia dos meus colegas da Secretaria de Imprensa nos dois anos em que trabalhei no Palácio do Planalto. “Só um?”, eu respondia, brincando, enquanto tentava advinhar de qual se tratava desta vez.
Por uma sina misteriosa que nunca consegui entender, se por acaso não havia problema em determinado momento, a gente mesmo criava um.
Fiquei pensando nesta compulsão de dar tiros no próprio pé, se já não bastasse viver em meio a um fogo cruzado, que não dá um dia de folga, ao ver hoje o caudaloso noticiário sobre a decisão do governo Lula de negar a extradição de Cesare Battisti pedida pelo governo italiano.
E me lembrei de outro episódio muito desgastante para a imagem do governo, aqui dentro e, principalmente, lá fora, quando o governo decidiu não renovar o passaporte de Larry Rother, o agora famoso correspondente do New York Times, que escreveu um texto infame sobre o presidente Lula.
Bastaria mover um processo contra o jornalista na Justiça, por injúria, calúnia e difamação, em defesa da honra do presidente. Num primeiro momento, recordo-me bem, o presidente Lula recebeu solidariedade unânime de toda a mídia e dos líderes da oposição, algo até então inédito nos dois primeiros anos de governo.
Mas, ao tomar a decisão radical que correspondia a expulsar o jornalista do país, toda a opinião pública voltou-se contra o governo, acusado de atentar contra a liberdade de imprensa, e Rother virou uma pobre vítima.
Desde o primeiro momento, fui contrário à medida e alertei meus colegas de governo para este risco (conto a história completa no livro “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, da Companhia das Letras).
Com a decidida atuação do meu amigo Márcio Thomas Bastos, então ministro da Justiça, que se encontrava no exterior e voltou a tempo de consertar o estrago, a decisão foi revertida, mas até hoje é lembrada quando alguém quer criticar o governo.
Agora, repete-se a história, como revela reportagem da Folha desta sexta-feira. O jornal teve acesso ao processo sigiloso do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), orgão vinculado ao Ministério da Justiça, com todos os argumentos para não conceder o status de refugiado a Cesare Battisti, contrariando as alegações de Tarso Genro para negar a extradição.
A decisão do Conare foi em novembro, mas só ontem o Supremo Tribunal Federal, no qual tramita há anos o processo de extradição solicitado pela Itália, requisitou uma cópia do documento de 16 páginas.
Não existe “se” em política, mas imagino que se esta decisão do Conare, um orgão interministerial formado por conselheiros de diversas áreas do governo e da sociedade civil, tivesse sido simplesmente encaminhada ao STF na época, não estariam hoje abaladas as relações entre Brasil e Itália.
Nem o nosso país teria revertido contra ele um noticiário internacional amplamente favorável, agora ocupado por críticas contundentes, vindas de toda parte contra a decisão de conceder refúgio a um cidadão condenado por homicídios e práticas de terrorismo pela Justiça italiana.
Mais do que a decisão em si, o que provocou a violenta reação do governo italiano foram os termos utilizados pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, para negar o pedido de refugio, aceitando as alegações de Battisti, segundo as quais correria risco de vida e de perseguição política caso voltasse à Itália.
Ao contrário de Genro, o Conare reconhece em seu documento que a Justiça italiana é democrática e respeita os direitos humanos.
Seja como for, a última palavra (poderia ter sido a primeira) sobre o caso agora será dada, provavelmente na próxima semana, pelo Supremo Tribunal Federal, que concedeu ontem prazo de cinco dias para que o governo italiano se manifeste sobre o pedido de liberdade apresentado pela defesa de Battisti.
O ex-militante político, que virou escritor e se refugiu primeiro na França, antes de vir para o Brasil, em 2004, depois de ter sido um dos líderes do grupo Proletários Armados pelo Comunismo, foi condenado na Itália à prisão perpétua, já faz 15 anos.
Não fosse esta nossa mania de criar e ampliar problemas onde eles não existiam, deixando questões jurídicas para serem decididas no lugar adequado, ou seja, na Justiça, não transformando tudo em questões políticas, Larry Rother e Cesare Battisti jamais teriam virado manchete de jornal, pelo menos no Brasil.
Em tempo: entrou agora na área de comentários do post “Formatura sem festa: tristeza de pais e filhos”, mensagem de Dalva Aleixo, da Assessoria de Comunicação da Astral Formatura e Eventos, de Bauru, empresa que cancelou o evento marcado para o dia 10 de janeiro, em Marília, em razão do mau tempo, provocando o protesto dos estudantes.
Dalva informa que a festa foi apenas adiada e aconteceu no último dia 23, com a participação de 98 dos 110 formandos de Enfermagem da Unimar.
Um final feliz para uma história triste. Melhor assim.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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29/01/2009 - 11:25
Aos leitores: estive fora do ar durante todo este tempo, contra a minha vontade, por problemas técnicos chamados de instabilidade no sistema. Já estava sentindo falta de vocês. Vamos logo colocar a conversa em dia.
Favor ver no final deste post as mudanças no sistema de moderação de comentários a partir de hoje.
Um dos médicos que entraram hoje de manhã na UTI do Hospital Sírio-Libanes, onde o vice-presidente José Alencar se recupera faz três dias de uma cirurgia de quase 18 horas no abdome, para a retirada de tumores cancerígenos, sorriu quando leu os números dos equipamentos que avaliam o estado do paciente.
“Quem entrasse aqui agora e não soubesse da tua história, não iria acreditar no que estou vendo…”
Todos os sinais vitais do paciente estão estabilizados, a pressão é de 13 por 8 (excelente para seus 77 anos), ele está consciente e respira normalmente, sem aparelhos.
A história de José Alencar na batalha contra o câncer _ num dos rins e na próstata, que foram retirados há mais tempo, e as sucessivas cirurgias no abdome _, que já dura uns dez anos, resume a valente luta de um homem pela vida, contrariando todas as estatísticas e dogmas da medicina.
Estive com ele por algumas horas na manhã de sábado, quando José Alencar se preparava para a cirurgia do dia seguinte _ um ritual que já se tornou rotina, sem que em nenhum momento ele se queixe da vida.
Até demos algumas boas risadas e combinamos de comer uma feijoada na Lana (restaurante da Vila Madalena), “assim que eu conseguir me livrar do hospital”.
No quarto, apenas sua mulher, dona Mariza, uma filha, um neto, uma neta e o marido, e seu fiel secretário Adriano Silva, assessor para todos os assuntos. Nunca encontrei um sem o outro por perto.
Como disse o médico hoje de manhã, quem visse sua tranquilidade no sábado, apesar de todos os riscos que corria, detalhadamente descrita pelos vários médicos que o assistem, não poderia imaginar que dali a algumas horas ele se submeteria à mais longa e complexa das mais de dez cirurgias que já fez (cada jornal publica um número diferente e, a esta altura, nem ele deve saber exatamente quantas foram).
Mais do que a competência dos melhores médicos do país e dos mais sofisticados equipamentos colocados à sua disposição, o que dava força e paz à família Alencar naquele momento era o bom astral do paciente e sua inabalável fé de que tudo daria certo, mais uma vez.
Ele era capaz de descrever em detalhes cada procedimento que os médicos fariam durante a cirurgia, como se estivesse falando de outra pessoa, não dele mesmo. Parecia até um médico falando.
Mas não falava só dele. Queria saber do trabalho dos netos, perguntava de outros parentes que estavam para chegar, comentava as últimas notícias e lembrava histórias da política mineira de antigamente, seu assunto predileto. Como bom mineiro, Alencar é um contador de causos, geralmente engraçados.
É curioso isso, por que ele entrou tarde na política, quando já era um dos maiores empresários do país, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, dono da Coteminas, um império textil que começou com uma lojinha no interior mineiro chamada “A Queimadeira” e já chegou à China.
Lula já tinha ligado, conversaram bastante sobre a cirurgia e a vida, e o presidente prometeu visitá-lo após a cirurgia (esteve no hospital na terça-feira e na saída chamou o vice de “fortaleza”).
Os dois se conheceram em Belo Horizonte, meados de 2001, quando José Alencar recebeu uma homenagem dos empresários mineiros _ e Lula, em busca de um vice, já pensava nas eleições do ano seguinte, em que finalmente chegou ao poder central depois de três derrotas.
Em pouco tempo, durante as muitas e longas viagens na campanha presidencial de 2002, os dois se tornariam velhos amigos e confidentes, cada um contando mais vantagens do que o outro ao falar de suas trajetórias de vida tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão semelhantes, na origem e no destino _ um no ramo empresarial, outro na vida sindical, e ambos na política.
Para regar a conversa e selar a amizade, nunca faltava no final da jornada um gole (Zé Alencar chama de “golo”) de Maria da Cruz, a fantástica cachaça que ele mesmo fabrica numa das suas fazendas em Minas.
O resto é história conhecida. Quando os médicos liberarem visitas, vou lá de novo para a gente continuar a conversa. José Alencar é mesmo um paciente diferente: é ele quem passa sua força a quem o visita, e não o contrário, como normalmente acontece. Quando o visito, sempre saio do hospital mais animado com a vida.

O presidente Lula e seu vice, José Alencar / Foto: Agência Brasil
Em tempo: desde que o Balaio entrou no ar, os comentários entravam todos automaticamente e eu fazia a moderação depois, excluindo apenas aqueles ofensivos a terceiros, pois legalmente sou o responsável por tudo que é publicado no blog.
A partir de hoje, depois dos problemas técnicos que tivemos nos últimos dias, o sistema mudou: tenho que fazer a moderação antes da publicação para evitar os abusos.
Isto vai me dar mais trabalho e atrasar a entrada dos comentários, mas em poucos dias estará tudo normalizado, assim espero.
O problema é que não posso ficar o dia todo no computador porque preciso sair por aí em busca de novidades para o Balaio.
Conto com a compreensão de vocês.
Ricardo Kotscho
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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25/01/2009 - 13:10
Para pegar no meu pé, foram os próprios torcedores/leitores/comentaristas do Corinthians que fizeram a comparação aqui no Balaio.
Eles mangaram da fábrica de craques do Centro de Formação de Atletas de Cotia, quando o São Paulo foi eliminado e o time deles, que segundo seus torcedores treina no “terrão” de Itaquera, se classificou para a final da Copa São Paulo, na última quinta-feira.
E a moçada alvi-negra do “terrão”, sem os recursos humanos, equipamentos de fisioterapia de última geração e todas as mordomias do CFA do rival tricolor, chegou lá.
Em partida emocionante, com o Pacaembu lotado, o Corinthians conquistou pela sétima vez o título da Copinha, ao ganhar do Atético Paranaense, por 2 a 1, nesta manhã de domingo, dia do aniversário da cidade.
Foi justo e foi bonito. A garra mostrada pelo time do “terrão” em campo e a festa da torcida, que não parou de gritar e pular nas arquibancadas, fez toda a diferença.
O heptacampeonato conquistado pelos juniores do Corinthians serve de estímulo para todos os clubes que não dispõem da mesma estrutura do São Paulo, mas também podem revelar novos craques a cada Copinha.
No futebol, ainda bem, o amor à camisa pode fazer a diferença _ e nisso, reconheço, o clube do Parque São Jorge é imbatível. Quando o futebol é só uma diversão e não uma guerra, fica melhor ainda. Não é preciso ser ‘imparcial” nem assistir a todos os jogos de um torneio para reconhecer isso.
Deu gosto de ver a meninada de Corinthians e Atlético Paranaense acreditando em cada bola, rachando com gosto e mostrando futebol de gente grande na final da Copa São Paulo. Belo jogo, bela festa.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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25/01/2009 - 09:10
Para quem está chegando pela primeira vez ao Balaio, informo que desde o começo do blog, há pouco mais de quatro meses, todo domingo publico aqui um levantamento dos assuntos três mais comentados da semana, assim como os números da Folha e da Veja, os dois veículos impressos de maior circulação do país em suas áreas, que também divulgam este ranking.
Na semana que passou, o grande assunto do mundo todo foi a posse de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos, que está entre os mais comentados nos três levantamentos.
No Balaio, as duas matérias que postei sobre a posse e os primeiros dias de governo de Obama receberam 555 comentários e foram as mais comentadas da semana.
Logo a seguir, com 471 comentários vem o texto que escrevi sobre o drama vivido pelo cantor sertanejo Tinoco, da antiga dupla Tonico e Tinoco, que, aos 88 anos e com a mulher enfrentando grave problema de saúde, está preocupado em arrumar mais shows para fazer e poder pagar suas contas.
Em terceiro lugar, ficou um texto bastante infeliz (em todos os sentidos) que escrevi sobre os efeitos da crise econômica mundial, que finalmente chegou ao Brasil, e a festa da urubuzada, que há tempos vinha anunciando o fim do mundo (ver nota “Errei” mais abaixo).
Esta semana, todas as matérias aqui publicadas receberam comentários na casa de três digitos, o que não é muito comum em blogs jornalísticos na net.
Agradeço mais uma vez aos queridos comentaristas/leitores do Balaio por estes números, que me deixam cada dia mais feliz com o trabalho de blogueiro, no qual estreei já sexagenário, o que também não é muito usual.
Aos números:
Balaio
Barack Obama: 555
Drama de Tinoco: 471
A crise e a urubuzada: 303
Folha
Barack Obama: 80
Cesare Battisti: 76
Israel X palestinos: 52
Veja
Cesare Battisti: 36
Jayme Monjardim: 33
Barack Obama: 29
Errei
Como ombudsman de mim mesmo, já deveria ter aprendido há muito tempo que toda generalização é perigosa e, muitas vezes, injusta.
Foi o que aconteceu com o texto “E a crise chegou, a festa da urubuzada” publicada esta semana. Diante dos números da severa perda de empregos no Brasil no mes de dezembro, mais de 650 mil, escrevi um post pensando mais nos meus coleguinhas jornalistas do que nos leitores, e quebrei a cara.
Dezenas deles reclamaram, com razão, que nem todos os que previam o agravamento da crise e faziam críticas ao comportamento do governo Lula poderiam ser incluídos no mesmo balaio da urubuzada a que me referi.
Falei no texto de jornalistas que anteciparam e maximizaram a crise, assim como de líderes empresariais que se aproveitavam dela para obter vantagens do governo e tirar direitos de trabalhadores, além, é claro, dos políticos de oposição que viram nela uma boa chance de voltar à cena.
Estes três setores não podem ser confundidos com largas parcelas da sociedade que já sofrem os efeitos da crise econômica em suas vidas e fazem críticas às medidas até agora adotadas pelo governo.
Se os leitores não entenderam o que escrevi, é porque não fui claro no meu comentário _ e a todos peço desculpas pelo erro.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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25/01/2009 - 08:30

Num dia nublado como hoje, 25 de janeiro, dia de aniversário de São Paulo, há 25 anos, eu estava lá, na praça da Sé.
Era o primeiro grande comício das Diretas-Já, dando partida ao maior movimento cívico-popular da história do nosso país.
Em poucas semanas, esta campanha sem dono nem roteiro, tomaria as ruas e praças das grandes cidades brasileiras, de norte a sul, clamando por democracia e dando um agora chega! à ditadura militar.
Vinte anos após o golpe de 1964, o Brasil se reencontrava consigo mesmo. A partir deste comício, sem ninguém mandar, cada um passou a fazer a sua parte na virada da história.
Cheguei bem cedo na praça da Sé. Vi as pessoas se juntando aos poucos, até formar a multidão que, no meio da tarde, inundou as ruas vizinhas.
Ver tanta gente reunida em torno da mesma bandeira encheu de esperança os líderes políticos e os artistas amontoados no grande palanque armado em frente à catedral, animando todo mundo em volta, até os vendedores de churrasquinho e pipoca espalhados pelas laterais.
No dia seguinte, minha matéria publicada na Folha de S. Paulo, o único veículo da impresa brasileira que, desde o primeiro momento, abriu amplo espaço para a cobertura do movimento, saiu com o título “Na Sé, um brado retumbante pelas Diretas” e começava assim:
“Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas/De um povo heróico o brado retumbante”.
Nunca, antes, em sua história de 430 anos completados ontem, São Paulo viu algo igual _ centenas de milhares de pessoas transbordando da praça da Sé para todos os lados, horas debaixo de chuva, num grito uníssono: “Eleições diretas para presidente!”
Nunca, antes, foram tão verdadeiros os primeiros versos do nosso Hino Nacional.
O brado engasgado na garganta durante vinte anos explodiu na praça da Sé. O pranto travado correu pelos rostos de gente muito vivida, os braços se ergueram, dando-se as mãos uns aos outros, toda gente cantando o Hino Nacional, no encerramento desta festa pelas eleições diretas _ a maior manifestação pública a que o Brasil já assistiu.
Vai ver que foi daí que o hoje presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, um dos líderes das Diretas-Já que discursou naquele palanque, tirou esta história de falar ”nunca antes neste país…”.
Mas, naquele dia, e do começo ao final da campanha, quatro meses depois, o líder incontestável da campanha das Diretas-Já foi outro velho amigo, já falecido, o deputado Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, maior partido de oposição à ditadura na época.
Primeiro, o governador Franco Montoro, de São Paulo, mais adiante o governador de Minas, Tancredo Neves (ausente da praça da Sé) e o do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e outros governadores da oposição teriam importante papel na organização dos comícios e na articulação política da campanha, que a maior parte da imprensa brasileira teimou em esconder até onde pôde.
Lula ainda era uma novidade na cena política, recém saído da liderança sindical do ABC, mas fazia muito sucesso nos comícios, graças à animada militância do PT e suas bandeiras vermelhas com uma estrela branca no meio, a ponto de certo dia Ulysses Guimarães queixar-se a ele, brincando, durante o vôo fretado entre um compromisso e outro:
“Não está certo isso, Lula. O MDB é que monta os comícios, leva os artistas, aluga avião, paga as despesas e você fica com a fama, sempre é o mais aplaudido…”.
Os dois riram. Eram muito amigos e tinham um grande respeito mútuo pelo papel que cada um representava nesta história.
A travessia da esperança
Na introdução do livro “Explode um novo Brasil – Diário da Campanha das Diretas” (Editora Brasiliense, 1984), que lancei poucas semanas após o último comício do Anhangabau, no saguão da Folha, na alameda Barão de Limeira, conto como foi que esta história começou, pelo menos para mim.
O sonho aconteceu em novembro de 1983. Vinha voltando para casa, depois de um almoço de domingo com a família, no sítio do meu irmão, em Cotia, pertinho de São Paulo, e nem prestava atenção na conversa das três meninas no carro.
O ano estava chegando ao fim _ mais um ano, sem nenhuma perspectiva de mudança, sem esperanças, só lamentos por toda parte (…).
Era preciso mudar tudo, começar de novo, virar o Brasil de cabeça para baixo. Mas, de que jeito?
A única bandeira que pintava no horizonte escuro, acenando timidamente, era a das eleições diretas _ o primeiro passo, sabíamos todos, para a reconstrução deste rico e belo país, dilapidado, humilhado, torturado, quase dizimado pela ditadura dos últimos vinte anos, mas ainda de pé, com vergonha na cara.
Chegando em casa, nem esperei para saber o resultado final do jogo do meu time, e fui logo pra máquina (ainda não existia computador, celular, internet, então, nem pensar) escrever aquilo que tinha sonhado de olhos abertos: por que a Folha de S. Paulo não empunhava de uma vez esta bandeira das eleições diretas, como fazia a imprensa de antigamente, quando se apaixonava por uma causa?
No dia seguinte, as três laudas de pauta sobre a Campanha das Diretas que havia deixado com o chefe de reportagem, Adilson Laranjeira, foram logo parar nas mãos de Octavio Frias de Oliveira, o proprietário do jornal. Frias convocou imediatamente a cúpula da redação da Folha, leu aquele texto para todos, e mandou tocar o pau na máquina.
Naquele tempo, jornalistas podiam escrever com emoção o que viam, pensavam e sentiam, e eram estimulados a participar de todo o processo produtivo do jornal, dando sugestões e fazendo críticas à política editorial.
Por isso, a partir daquele dia, tive toda a liberdade para cobrir os comícios das Diretas pelo país inteiro, sem limite de espaço ou de despesas de viagem, sob o comando direto de seu Frias, que queria ser informado pessoalmente sobre cada passo do movimento, e até da circulação do jornal pelos lugares por onde eu andava.
Enquanto ainda havia certo ceticismo, tanto entre algumas chefias do jornal como entre líderes da oposição, sobre os rumos da campanha, Ulysses Guimarães e Octavio Frias em nenhum momento titubearam em jogar, respectivamente, seu prestígio político e o do jornal, cada um no seu papel, fazendo tudo o que era possível para tornar o movimento vitorioso.
Faltaram apenas 22 votos para a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que previa a volta das eleições diretas para presidente e precisava de maioria de dois terços no Congresso Nacional, naquela triste madrugada de 25 para 26 de abril de 1984. Escrevi no livro acima citado:
Pelo chão acarpetado do plenário da Câmara Federal, quando tudo acabou, os representantes de um povo derrotado no seu maior anseio pisavam sobre as pétalas de crisântemos amarelos, que estes meses todos simbolizaram uma luta, um sonho, um encontro _ o grito de liberdade desta humilhada Nação brasileira.
Lá fora, depois das duas da manhã, algumas centenas de cidadãos ainda esperavam o impossível, uma reversão no resultado que ninguém queria: a esmagadora maioria dos 130 milhões de brasileiros arrasada pela ausência dos deputados do PDS (o partido do governo militar).
(…) Alguns deputados choravam, outros se prostavam em silêncio. Ao ser anunciado o resultado da votação da Emenda Dante de Oliveira, pouco depois das duas horas da manhã de ontem, a grande festa que todo o povo brasileiro esperava corria o risco de se transformar num imenso velório.
Mais uma vez, porém, este povo reagiu. Em vez de ficarem lamentando os 22 votos que faltaram para que o Brasil voltasse a ser uma democracia, os homens e as mulheres que lotavam as galerias bradaram seu grito de guerra: “Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!”.
Em meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter” (Companhia das Letras, 2006), também dedico um capítulo inteiro à Campanha das Diretas.
Ali relato a conversa que tive, alguns dias após a votação no Congresso, com Ulysses Guimarães, que ficou conhecido como “Senhor Diretas”:
Ainda me recuperava da ressaca das Diretas, quando uma noite dr. Ulysses telefonou para minha casa, também ele inconformado com o que acontecera: “Sabe o que eu descobri, Kotscho? Enquanto nós estávamos viajando pelo Brasil defendendo as eleições diretas para presidente, o Tancredo já estava se acertando com os dissidentes do PDS e mesmo com companheiros meus do PMDB para montar sua campanha no Colégio Eleitoral. Gastei meu verbo à toa. Assim é a vida, meu filho”.
O que ele não disse, mas todos os que participaram por dentro da Campanha das Diretas sabiam, é que num determinado momento só havia dois caminhos pela frente.
Se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada, contra a vontade dos militares, que ainda mandavam no país, o candidato das oposições seria Ulysses Guimaraães.
Caso contrário, mantendo-se as indiretas no Colégio Eleitoral, todos apoiariam Tancredo Neves. E foi o que acabou acontecendo.
O batismo é do povo
Para encerrar este especial do Balaio sobre os 25 anos do Comício das Diretas na praça da Sé, peço licença aos leitores para reproduzir o manuscrito que Ulysses Guimarães me enviou para o prefácio do livro “Explode um novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas”.
Este é o maior troféu que guardo dos meus 44 anos de carreira, em que já ganhei premio até da ONU, no ano passado, mas ficou marcado porque a Campanha das Diretas foi o melhor momento da minha vida pessoal e profissional, um divisor de águas da história recente do país, na travessia da ditadura para a democracia.
Sob o título “O batismo é do povo”, dr. Ulysses escreveu:
“Poesia é encontrar uma árvore esquecida à beira de uma estrada e glorificá-la”.
O jornalista de raça é um mágico. Transfigura o anônimo em notável, celebra o desapercebido, enquadra o texto no contexto. Enquanto nós nos limitamos a olhar, ele vê coisas, pessoas, a paisagem. Vê e conta.
Ricardo Kotscho é jornalista raçudo. O jornalismo está no seu sangue e no seu destino.
Andei com ele por praças e ruas deste infindável País. Entupidas de gente, de berros e de gestos de revolta e de esperança. Quando lia suas reportagens na Folha de S. Paulo ficava surpreendido e encantado.
Como é que o Ricardo viu aquele jovem frenético, registrou a originalidade daquele dístico, enxergou aquela mulher chorando, ouviu daquele velho as histórias de outros comícios e outros personagens?
Ele não se absorve nas estrelas do acontecimento. Sua pena é também alto-falante da multidão, assegura-lhe o papel de personagem no grande e terrível drama social brasileiro.
Osmar Santos é o locutor das diretas, Fafá de Belém é a cantora das diretas, Ricardo Kotscho é o cronista das diretas. O batismo é do povo. Leia este livro. Assim verificará que, mais uma vez, o povo tem razão.
Brasília, 18 de abril de 1984
Deputado Ulysses Guimarães
Neste 25 de janeiro de 2009, eu quero prestar esta singela homenagem a um grande homem público brasileiro, tão cedo esquecido, que teve papel decisivo na nossa história para que hoje possamos viver numa democracia e votar livremente em nossos governantes.
Valeu, dr. Ulysses!
Em tempo: olhei de novo pela janela e agora, quase nove da manhã, o céu já abriu, ficou todo azul e teremos um belo domingo para comemorar o aniversário da cidade.
Foto: Agência Estado/Arquivo
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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24/01/2009 - 11:07
O leitor Paulistano, das 23:12 de sexta-feira, vibrou com a derrota do São Paulo para o Atlético Paranaense, na semifinal da Copa São Paulo, e meteu bronca na matéria que escrevi, semana passada, sobre a fábrica de jogadores do tricolor montada no Centro de Formação de Atletas de Cotia.
“Lugar de torcedor é na arquibancada e não na imprensa”, cobrou-me o caro leitor, porque apontei o time São Paulo como favorito para o título, a exemplo da maioria dos comentaristas que li e ouvi, diante do belo futebol mostrado pela meninada na primeira fase da Copinha, em que marcou 25 gols e tomou apenas um.
Nem pensar, caro Paulistano, não concordo. Lugar de torcedor não é só nas arquibancadas, é em qualquer lugar, inclusive aqui no Balaio, como deixei bem claro no primeiro dia do blog em que me apresento como “paulista, paulistano e são-paulino”. É só olhar aí do lado direito abaixo da minha foto.
“Seja imparcial e acompanhe todos os jogos”, ordena o leitor. Sem chance, meu caro. Só assisto a jogos do São Paulo na televisão e nunca escondi minhas preferências, nem quando trabalhava na chamada grande imprensa.
Não vai ser agora, que tenho meu próprio espaço para opinar, que vou dar uma de jornalista imparcial. Isto não existe. Eu sempre tive meu lado na vida, certo ou errado _ é a minha forma de encarar o ofício e a vida.
Alguém conhece um jornalista que não tenha seu time? Se existir, não gosta de futebol e, portanto, não vai escrever sobre o assunto, vai cuidar de outro ramo.
Como repórter, já disse várias vezes, não posso brigar com os fatos, tenho apenas que ser honesto ao contar o que está acontecendo, mas sem esconder minhas preferências, seja no futebol, na política, na religião ou na música.
Futebol para mim sempre foi a maior diversão, jogando ou vendo meu time jogar e, aqui no Balaio, sou apenas um torcedor, não um comentarista esportivo, coisa que nunca quis ser nem parecer.
Com tanto assunto sério para tratar todos os dias neste blog, de vez em quando escrevo sobre futebol apenas porque gosto, e me divirto com a guerra entre os torcedores/leitores, desde que não se parta para a ofensa e a baixaria, desqualificando o adversário.
Tudo no Brasil de hoje vira um Fla-Flu, seja na política ou na economia, por que então, justamente no futebol, vamos dar uma de imparciais, neutros, valentes defensores da objetividade jornalística, outra coisa que não existe?
A fábrica de novos craques do São Paulo existe, revelou este ano mais três ou quatro meninos que já podem ir para o time de cima. Perdeu, perdeu, paciência, não dá para ganhar sempre.
O Atlético Paranense, do meu amigo João Beltrão, outro leitor que me cobrou, jogou melhor, teve mais garra e mereceu ir para a final contra o Corinthians, de outro amigo leitor e gozador, o Marcelo Goes, amanhã, no Pacaembu. Ponto, parágrafo. Que ganhe o melhor, para mim tanto faz…
Para encerrar este assunto, pelo menos da minha parte, lembro uma frase do Muricy, com a qual concordo: “Equipe de base não é para colecionar títulos, mas para revelar novos jogadores para o time de cima”. E isto o São Paulo tem feito, ganhando ou perdendo, e é o que importa.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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23/01/2009 - 08:55
Posso estar enganado ou ficando cego, mas estranhei não ver uma bela tela de computador nas primeiras fotos de Barack Obama em sua franciscana mesa de trabalho no salão Oval da Casa Branca.
As aparências enganam: o que mais me chamou a atenção no noticiário sobre o seu primeiro dia de trabalho como presidente foi exatamente sua disposição de utilizar largamente a internet para governar em ligação direta com a população americana.
Na campanha presidencial, ele já tinha sido o primeiro candidato a fazer da internet sua principal arma, tanto para arrecadar fundos (foram mais de U$ 750 milhões), como para mobilizar militantes.
No mesmo dia da sua posse, Obama inaugurou um blog no site da presidência, comandado por Macon Philips, diretor de novas mídias na Casa Branca, que prestará contas em tempo real das ações e decisões do governo.
O endereço do site: www.whitehouse.gov
A comunicação pela internet funcionará em duas vias, como deve ser: ao mesmo tempo em que Philips cuida de colocar as notícias da Casa Branca na grande rede, Obama poderá receber por meio dela sugestões e críticas de qualquer cidadão para o seu governo.
Antes que algum apressadinho venha me cobrar por que o governo brasileiro não faz o mesmo, seguindo nosso velho espírito vira-lata, já vou logo contando uma história que aconteceu comigo, e da qual muito me orgulho.
Quando recebi a Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República das mãos da jornalista Ana Tavares, que exerceu com a maior competência esta função durante os oito anos de governo FHC, a internet ainda engatinhava, mas já se podia prever a revolução que provocaria nas comunicações humanas.
Por isso, uma das primeiras providências que tomei no curto período de dois anos em que ocupei o cargo foi exatamente informatizar a SID e criar um site:
www.info.planalto.gov.br
Neste endereço o leitor pode encontrar noticiário online em textos e fotos do dia a dia das atividades da Presidência e toda a memória do governo Lula.
Ali qualquer cidadão tem acesso a todos os discursos, íntegra de entrevistas, audiências concedidas, fotos de eventos e viagens do presidente Lula, desde o primeiro dia de seu governo.
Nem pensei em fazer um blog, como o diretor de novas mídias da Casa Branca, porque isto ainda era uma grande novidade lançada de forma artesanal e doméstica, exatamente neste período do início do governo Lula, pelo jornalista Ricardo Noblat (www.noblat.com.br).
O melhor de tudo é que foi possível montar o site sem ter que fazer licitação para a contratação de terceiros, contando só com recursos humanos e tecnológicos próprios do Palácio do Planalto, ocasião em que tive a colaboração de funcionários de carreira muito dedicados e da maior qualidade profissional.
A comunicação direta, o diálogo permanente que a internet proporciona entre governantes e governados será certamente o grande avanço dos próximos anos na construção de sociedades cada vez mais democráticas, não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil.
Em tempo: recebi agora um belo texto sobre a importância da internet na campanha de Obama, escrito logo após a sua vitória, pelo meu colega Fernando Figueiredo Mello no site da revista Brasileiros. Vale a pena ler:
http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/o-lado-b-da-noticia/noticias/221
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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21/01/2009 - 15:00
Que Obama, que política, que futebol, que nada!
Vamos mudar o disco do Balaio. Sim, o assunto hoje é música e o drama vivido no momento por um dos maiores artistas da história da arte e da cultura popular brasileiras.
Depois da bela festa de ontem em Washington, no Balaio e no mundo todo, vamos voltar à vida real para falar do meu amigo Tinoco, aquele da célebre dupla sertaneja formada com seu irmão Tonico, que conquistou o Brasil inteiro.
Aos 88 anos, com 73 de carreira, numa idade em que os grandes artistas só querem saber de sombra, água fresca e um bom chinelo, curtindo a justa aposentadoria, ele está no maior sufoco em busca de trabalho para pagar suas contas.
Seu único filho, José Carlos, que acumula as funções de motorista, empresário e operador de som, me ligou esta semana para contar que resolveram passar uma rifa e vão sortear o carro deles, um Gol 1998 MI, com ar condicionado.
Em agosto do ano passado, mesmo com sua mulher, dona Nadir, com quem está casado faz 56 anos, internada no hospital, recém-operada de câncer no pâncreas, reencontrei-o num sábado ensaiando para um show, na cidade de Piracicaba, no interior paulista.
Passamos o dia todo conversando, entre um telefonema e outro para saber notícias de dona Nadir. Pela milésima vez, Tinoco, com a maior paciência do mundo, relembrou passagens da sua história de sucesso, desde a primeira viagem com Tonico a São Paulo, em 1942, para cantar no programa do Capitão Furtado, na Rádio Difusora.
“Tinoco sem Tonico _ sozinho na estrada e nos palcos canta para viver, aos 88 anos”, foi o título da reportagem que escrevi para a “Brasileiros” de setembro _ até hoje, a que teve mais acessos quando foi publicada no site da revista aqui no iG.
Naquele dia, a situação do cidadão José Perez, mais conhecido por Tinoco, já era bem delicada. Com a mulher no hospital, ele vivia dos seguintes rendimentos:
* Aposentadoria de R$ 1 mil por mês do INSS.
* Cerca de R$ 2 mil de direitos autorais, pagos a cada três meses, pelas suas mais de 1.200 composições em parceria com Tonico, gravadas pela dupla e por outros cantores, em milhões de discos (nem ele mesmo sabe quantos foram vendidos).
* Um cachê de R$ 2.500 brutos por show para se apresentar nos sorteios semanais da Loteria Estadual Paulista (despesas de viagem por conta dele).
* Um ou outro show em festas de casamento ou batizado, casas de fazenda ou eventos, onde não tinha cachê fixo, ganhava o que pagavam.
Agora, a situação piorou. Com a venda da Nossa Caixa para o Banco do Brasil, a Loteria Paulista deve acabar e seu contrato também, conforme me relatou José Carlos.
Quando a reportagem saiu na revista, Álvaro Loas, um dos donos do Bar Brahma, onde Cauby Peixoto canta, no centro de São Paulo, ligou-me para pedir os contatos de Tinoco. Queria convidá-lo para se apresentar em sua casa.
Até escrevi sobre isso no Balaio, feliz por ter aberto as portas para o amigo. Mas ele nunca ligou para Tinoco e agora não retorna mais as ligações que lhe faço para saber o que aconteceu.
Falei da difícil situação vivida por Tinoco na época aos meus amigos do governo federal, mas até agora também nada consegui.
Por isso, sem outra alternativa, volto ao assunto aqui no Balaio para ver se algum empresário de artistas, banco que promove circuitos culturais, empresas estatais que investem em música, apresentador ou diretor de TV ou qualquer alma boa desta terra possa ajudar Tinoco a fazer o que mais gosta: subir num palco para cantar junto com a platéia clássicos como “Chico Mineiro” e “João de Barro”.
Que fique bem claro: Tinoco não está pedindo benemerência, mas apenas o direito de continuar trabalhando naquilo que sabe fazer tão bem e com tanta alegria, desde o tempo em que o Brasil era governado por Getúlio Vargas e televisão não existia.
Para quem não ainda não conhece ou tem dúvidas sobre a riqueza desta bela história de um legítimo artista popular brasileiro _ dos palcos, do rádio e da televisão_, peço para linkar na reportagem que escrevi sobre ele na revista “Brasileiros”.
Atualização em 22.1.2009
O José Carlos, filho do Tinoco, que publicou belo comentário hoje neste post (ver abaixo), ligou-me agora, perto do meio dia, para dizer que várias pessoas já entraram em contato para falar de trabalho e ajudar na venda da rifa do carro dele, um Gol 1998 MI.
A rifa está está sendo vendida a R$ 50,00 por número e o sorteio será pela Loteria Federal do próximo dia 9 de novembro.
Como vários leitores me pediram os contatos de Tinoco, José Carlos autorizou-me a publicá-los aqui no Balaio. São eles:
Site: http://www.tinocodobrasil.com.br
E-mail: zekaperez@hotmail.com
Celular: 9640 2315 (José Carlos)
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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20/01/2009 - 08:43
Não, caros amigos do Balaio, não estou em Washington, nem é preciso estar lá para sentir que hoje vai ser um belo dia _ desses de se guardar na lembrança para não esquecer nunca mais.
Vou apenas almoçar com o Washington Olivetto, mas para todos aqueles que ainda acreditam que o homem pode mudar a história, escrever seu destino com as próprias mãos e ter esperanças de viver num mundo melhor, mais justo e fraterno, esta terça-feira, 20 de janeiro de 2009, é um dia histórico.
Não, caros amigos do Balaio, esta não é uma notícia de rotina nem um dia como os outros, como agora parece nas manchetes.
A posse do primeiro presidente negro na nação mais poderosa do mundo é um marco carregado de tanto simbolismo que mexe com as expectativas do mundo todo. Eu ainda acredito que símbolos e sonhos podem mover o mundo, mais do que números e mercados, guerras e dogmas.
Há apenas vinte anos, por exemplo, quem acreditava que um jovem negro chamado Barack Hussein Obama chegaria lá?
Quem poderia imaginar que aquele recém graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Columbia, nascido no Havaí, filho de um queniano, tomaria posse hoje, às 10 horas (13h00 no horário de Brasília), diante de mais de dois milhões de pessoas em Washington, como 44º presidente dos Estados Unidos, depois de exercer apenas um mandato como senador?
Obama acreditava _ quer dizer, talvez ele, não sei. Quantos mais achavam que este sonho seria possível? “Yes, we can”, foi seu lema de campanha, e milhões acreditaram e o seguiram pelas primárias contra a favorita Hillary Clinton e, depois, no embate final com John McCain.
“Vocês vieram por acreditar no que esse país pode ser e vão nos ajudar a chegar lá”, disse ele, ao mesmo tempo otimista e humilde, para a multidão reunida domingo no Memorial Lincoln, já em meio à maratona de festas da posse mais concorrida da história americana.
Obama, sempre sorridente e confiante, não parecia preocupado com o triste e falido espólio do antigo império americano deixado por George W. Bush, em meio a duas guerras e à mais grave crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial, um desafio assim resumido na manchete da revista satírica “The Onion”.
NEGRO RECEBE O PIOR EMPREGO DA NAÇÃO
Em 1989, faz apenas vinte anos, é bom lembrar que o presidente da república dos Estados Unidos era o pai deste George W. que está saindo pela porta dos fundos, com o mais baixo índice de popularidade de todos os tempos: míseros 22%.
No mesmo ano, o Brasil elegia Fernando Collor de Mello na primeira eleição direta após a longa ditadura militar. O mundo mudou muito, e para melhor, de lá para cá, apesar dos Collor, dos Bush pai e filho, de todas as guerras e crises sem fim.
Pois é, agora, apenas duas décadas depois, 80% da população brasileira apóia o governo do homem que Collor derrotou, o operário nordestino Luiz Inácio Lula da Silva, já na metade do seu segundo mandato. E 79% dos americanos, segundo as pesquisas, declararam-se otimistas na véspera da posse do negro Barak Obama.
Para chegar lá, os dois venceram obstáculos históricos, do racismo ao preconceito, daqueles velhos esquemas dos donos do poder que o meu amigo Cláudio Lembo chama genericamente de elite branca, uma gente antiga, rançosa e reacionária, que simplesmente não se conforma com as mudanças do mundo.
Nada como um dia após o outro (com uma noite no meio, é claro, que ninguém é de ferro). Mais uma vez, a esperança venceu o medo, renovando as esperanças globais.
Amanhã há de ser outro dia, como já anunciava o poeta. Obama é esta cara nova para um novo dia para um mundo novo. Eu acredito.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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