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Arquivo de dezembro, 2008

17/12/2008 - 16:49

Balaio copia Xexéu e lança Mala do Ano

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Em tempo: esta enquete para eleger os “Malas do ano”, lançada no Balaio na última quarta-feira, termina amanhã, quando serão anunciados os resultados.

Como os leitores poderão notar nos comentários abaixo, está pintando um campeão absoluto para “Mala do Ano”. É só entrar na área de comentários e depositar seu voto. 

Na maior cara de pau, já vou logo avisando que esta idéia não é minha, mas do colega Artur Xexéo, editor do Segundo Cardeno de O Globo e dono de uma coluna em que ele faz uma enquete entre os leitores para escolher as Malas do Ano.

“Mala é aquele que incomoda, que chateia, que perturba”, explica ele na abertura da sua coluna de hoje, em que divulga as primeiras pesquisas e informa que “políticos perdem favoritismo para estrelas do mundo das celebridades”.

Como idéia boa é para ser copiada, o Balaio também lança hoje a sua enquete  para eleger as Malas do Ano nas diversas categorias, que os próprios leitores podem criar.

Xexéu dá algumas dicas e pistas de espécimes que têm grandes chances de chegar na frente este ano (para não tirar a surpresa, nada de nomes). Vamos a elas:

* Atriz loura que vive se metendo em confusões amorosas e seu ex-namorado valentão.

* Ex-jogadores que viraram técnicos de futebol.

* Na categoria de votos inéditos, Xexéo conta que aparece entre os preferidos do eleitorado um ministro do STF (ele escreveu STJ, mas deve ter se enganado), também conhecido como o Rei do Habeas Corpus.

* Na categoria de celebridades, “aquela gente que não sai das páginas das revistas de…hummm…celebridades”, a lista é grande: são “as malas que passam de mão em mão”.

* Cantoras em geral, do axé às que participaram das comemorações dos 50 anos da bossa nova _ “a mais mala das efemérides de 2008″.

É isso aí, pessoal. Está lançado o desafio. Todos podem votar e fazer suas campanhas. Favor evitar ofensas e baixarias nas declarações de voto. 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
17/12/2008 - 15:44

O belo gesto de Daniel não merece manchete

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Os caros leitores deste Balaio certamente tomaram conhecimento do escândalo dos soldados do Exército e de voluntários que roubaram donativos enviados aos flagelados de Santa Catarina, já que toda a imprensa mancheteou e noticiou exaustivamente esta revoltante história. Muito justo.

Agora, eu pergunto: quantos leitores tomaram conhecimento hoje do belo gesto de um flagelado, também de Santa Catarina, que devolveu os 20 mil reais encontrados num casaco que lhe foi doado?

Eu mesmo, que leio vários jornais por dia e consumo notícias o tempo todo, por dever de ofício, só fiquei sabendo desta história agora à tarde ao ler os comentários dos leitores no post que escrevi ontem sobre o livro “Mordaça no Estadão”.

O leitor Neskeens von Lyrics, um freguês aqui do Balaio, enviou comentário às 11h09 de hoje, reproduzindo nota divulgada pelo portal Globo.com, e só assim fiquei sabendo que Daniel Manoel da Silva, 58, morador de Ilhota, que perdeu sua casa na enchente, foi o autor do nobre gesto, que não mereceu as manchetes da nossa grande imprensa.

Corri para procurar mais informações no jornal O Globo, mas só encontrei 11 linhas escondidas no meio de outra história, apenas um breve resumo da nota publicada no online da mesma empresa. 

Quem encontrou o dinheiro escondido na manga de um casaco de couro e pele foi uma neta de Daniel, de 5 anos. A primeira providência dele foi procurar o doador, um morador de Concórdia, para lhe devolver o dinheiro. O que Daniel falou deveria estar na primeira página de todos os jornais:

“Se o dinheiro fosse entregue em minha mão, teria aceitado com certeza porque preciso. Mas é uma questão de criação, fui educado assim e estou com a minha consciência limpa”.

Daniel recebeu R$ 1 mil pela sua honestidade, informou o portal.

Mas, em vez de destacar o gesto e a frase lapidar de Daniel Manoel da Silva, um flagelado anônimo, O Globo preferiu abrilhantar sua capa com frases daqueles luminares sempre de plantão para falar sobre qualquer assunto _ no caso, o escândalo do roubo das mercadorias doadas aos flagelados.

Vale a pena reproduzir as palavras dos sábios.

Marco Antônio Villa, historiador (sempre que algum veículo quiser esculhambar com o governo ou com políticos em geral, é só falar com ele): “Quando se vê um político dividindo sacos de dinheiro, começa-se a achar natural um soldado, um voluntuário separar daquele conjunto o que é melhor para ele. É necessário dar um basta”.

(Só uma curiosidade: a qual político o professor Villa se refere?)

Roberto Romano, professor de Ética: “Não é possível perder a referência da perversidade, daí a importância da educação e do estado de direito”.

Muito bom, muito bonito, mas por que, em lugar de ouvir os de sempre, os jornais que cobrem a tragédia de Santa Catarina não foram atrás da família de Daniel Manoel da Silva para saber como eles vivem, como foi a educação deles, quem os ensinou a ser honestos?

Ao final do seu comentário, escreveu o leitor Neskeens von Lyrics:

“Dá para não se emocionar frente a uma demonstração de honestidade desta magnitude? Pena que muitos perferem roubar os donativos”.

Vivemos um tempo estranho em que os leitores têm mais sensibilidade jornalística do que aqueles que vivem desta profissão. Ainda bem que hoje temos a internet para que os próprios leitores possam informar o repórter do Balaio e os outros leitores sobre o que está acontecendo. 

Em tempo: um leitor me informa que a história completa da família de Daniel Manoel da Silva está contada na edição de hoje do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, um bom jornal que não é fácil encontrar aqui em São Paulo.

Deixo aqui os meus parabéns à equipe e um abraço ao Carlos Wagner, repórter de ZH, um dos melhores que conheci nas quebradas da vida nos tempos da boa e velha reportagem.

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
16/12/2008 - 16:04

A noite em que os Mesquitas abandonaram o Estadão

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Da noite de 13 de dezembro de 1968, e pelos sete anos seguintes, até a retirada da censura prévia, em 4 de janeiro de 1975, quando o jornal comemorou seu centenário, a família Mesquita esteve à frente da resistência da redação do Estadão aos arbítrios do AI-5, o golpe dentro do golpe que eles tinham ajudado a deflagrar em 1964.

Na noite desta segunda-feira, 15 de dezembro de 2008, quando o jornal lançou o livro “Mordaça no Estadão”, que relata o período da censura, com texto de José Maria Mayrink, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, nenhum Mesquita foi visto no evento.

O que terá acontecido nos 40 anos que separam um dezembro do outro? Aconteceu muita coisa no país e no mundo, claro. Caímos numa democracia com plenas liberdades públicas. A União Soviética acabou. 82% da nossa população não tem hoje a menor idéia do que foi o AI-5. O operário nordestino Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente do Brasil e o negro Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. Casei, tive duas filhas, que me deram três netos. As maiores empresas capitalistas do mundo pedem ajuda aos governos centrais para não ir à falência _ tanta coisa aconteceu…

Mas o que explica a ausência da família dos fundadores no lançamento de um livro que registra a história mais gloriosa do centenário jornal? Não sei. Sei que eles já não estão mais, faz anos, no comando do jornal, restringindo-se a participação da família a Ruy Mesquita, responsável pelas duas páginas de opinião. Os demais foram cuidar da vida em outros ramos.

Ninguém poderia imaginar algo assim nos mais de 10 anos em que lá trabalhei, de 1967 a 1977, quando os jornalistas da casa referiam-se a Júlio Mesquita Filho e, depois, seus filhos Júlio Neto e Ruy, simplesmente, como “deus”. Mais do que donos do jornal, eram tratados como verdadeiras entidades superiores.

Ontem à noite, numa roda ao lado de Mayrink, o autor do livro que assinava as dedicatórias para as cerca de 200 pessoas que foram ao lançamento, quem recebia os cumprimentos das autoridades era o diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour. Até brinquei com ele: estava parecendo o pai da noiva…

Entre as poucas autoridades que vi passar pela livraria, anotei os ex-governadores Cláudio Lembro e Orestes Quércia. Na fila de autógrafos, quem mais chamava a atenção era a nobre figura do pernambucano Carlos Garcia, ex-diretor da sucursal do Recife e, mais tarde, do arquivo do jornal.  Preso e torturado pelos militares, era um dos poucos a lembrar, em sua elegância de septuagenário de barbas brncas, os velhos tempos da aristocracia que o jornal tão bem representou.  

Daquele meu tempo de Estadão, o único que encontrei, e ainda permanece trabalhando por lá, foi Antonio Carvalho Mendes, mais conhecido por Toninho Boa Morte, por ser o redator das notícias fúnebres do jornal _ naquela época, e até hoje.

Por uma dessas finas ironias da vida, o mais próximo da família Mesquita que encontrei foi o jornalista Getúlio Alencar, um pernambucano de esquerda, que foi casado com a herdeira Patrícia Mesquita, filha do Carlão, e que ainda é sua representante no Conselho de Administração. 

Antes das dez da noite, a fila tinha acabado. Fui com alguns amigos para o Boteco Brasil, na esquina da Bela Cintra com Alameda Santos. Lembramos de histórias dos velhos tempos em que o Estadão era o jornal mais importante do país e, a família Mesquita, seu símbolo. A gente tinha muito orgulho de trabalhar lá.  

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
15/12/2008 - 13:54

2008: o ano em que todos ganhamos

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Olho na folhinha e me dou conta de que faltam só 15 dias para acabar o ano. Antes que todo mundo comece a fazer seus balanços e retrospectivas, já antecipo aqui meu inventário de 2008, mesmo sabendo que posso quebrar a cara, claro, com alguma desgraça inesperada surgindo nestas duas semanas que faltam para o ano novo.

2008 foi o ano em que todos ganhamos _ dos grandes empresários aos pequenos beneficiários do Bolsa Família, passando pelas classes médias e por este repórter que vos escreve.

Não me lembro de outro ano tão bom para mim e a grande maioria do povo brasileiro, que teve mais mais empregos e maior renda, comprou mais comida, roupa, perfume, casas, carros e livros, viajou e se divertiu mais (mesmo os que não torcem para o São Paulo…).

Eu sei que alguns leitores vão dizer que é fácil falar estas coisas porque faço o que gosto, ganho pra isso, tenho plano de saúde, uma bela família e muitos amigos, e eles têm um primo desempregado, o trem chegou atrasado e o médico do posto de saúde não apareceu.

Fácil, para mim, não foi. Nunca tinha trabalhado tanto como este ano em que cheguei aos 60. Tive que cumprir vários compromissos ao mesmo tempo para dar conta das encomendas, além de abastecer este Balaio: as reportagens para a revista Brasileiros, que se consolidou no mercado e chegou ao número 17 (já nas bancas e aqui no iG) , mais frilas em geral e palestras, que me levaram aos quatro cantos do país.

O fato é que a vida melhorou. Tirando alguns líderes da oposição ( me vem à lembrança a imagem patética de Álvaro Dias, o senador tucano do Paraná, dando plantão toda noite nos telejornais, com aquela fala empolada de locutor de serviço de som no interior), que passaram o ano farejando novos escândalos, em parceria com seus pit-bulls da imprensa, meia dúzia de blogueiros histéricos, que agora ameaçam rasgar as pregas, e alguns colunistas cansados, os brasileiros terminam o ano mais felizes, como mostram todas as pesquisas.

Mais de 20 milhões de brasileiros ascenderam à classe média, que pela primeira vez é maioria na população brasileira. Os índices de popularidade do governo e do presidente Lula batem sucessivos recordes. Semana passada, foi o Datafolha; hoje, outros dois institutos confirmam o crescimento da aprovação a Lula ao completar seu sexto ano de governo.

No CNI/Ibope, o governo alcançou 73% de ótimo/bom, a avaliação pessoal de Lula bateu nos 84% e, agora, só 6% continuam achando tudo ruim e péssimo. No CNT/Sensus, a aprovação do governo Lula ultrapassou os 80% e chegou a 80,3%.

Mas, a minoria, que é cada vez mais minoria, com seus 6% de descontentes, ainda faz bastante barulho na mídia, dando a impressão de que nada funciona, nada presta, está tudo errado, o Brasil caminha para o abismo e a vida não vale a pena.

Basta pegar todos os índices econômicos e sociais do Brasil quando começou o primeiro governo de Lula, em 2003, e compará-los com os de hoje, para entender este estado de espírito dos brasileiros, que mantêm o otimismo, mesmo em meio à maior crise econômica que o mundo viveu no pós-guerra.

A grande crise anunciada aqui pelos profetas do apocalipse desde a primeira eleição de Lula, em 2002, finalmente chegou, mas foi nos Estados Unidos, e de lá exportada para o resto do mundo, como sabemos.

Por isso, tudo o que eu queria para 2009 era não sentir saudades de 2008, mas eu sei que vai ser difícil. A economia mundial está hoje de tal forma globalizada e embricada que nenhum país ficara a salvo desta crise, por mais sólidos que sejam os fundamentos da economia brasileira.

Uns vão perder mais, outros menos, mas dificilmente voltaremos a ter tão cedo um ano como este que está terminando. Vai depender de como cada um de nós reagir à crise: entregando-se ao noticiário catastrófico, que antecipa e amplifica problemas, ou indo à luta, buscando formas de superá-la ou ao menos minimizá-la, como tem feito o governo brasileiro. Vida que segue.  

  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
14/12/2008 - 09:45

AI-5 é o assunto mais comentado da semana

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Na semana em que o Balaio completou três meses no ar e superou a marca de 150 matérias publicadas, o assunto mais comentado foram os 40 anos do Ato Institucional Nº 5, tristemente lembrados neste sábado, 13 de dezembro.

O fato de ter sido o assunto que mais gerou a participação de leitores, com 228 comentários (fora os excluídos por conter ofensas), é bastante animador para este espaço de discussão, já que, na mesma semana, pesquisa Datafolha registrou a falta de memória e interesse pelo assunto: 82% dos brasileiros não têm a menor idéia do que foi o AI-5, editado pelo general Costa e Silva em 1968.

Chamou-me a atenção também a grande quantidade de leitores que escreveram defendendo o AI-5, o golpe dentro do golpe da ditadura militar, e a a melhora do nível dos comentários em geral, qualquer que fosse a posição defendida, caindo a cada semana o número de cachorros loucos e suas baixarias.

Manoel Ferreira, um leitor assíduo do Balaio, que sempre participa dos debates, sugeriu-me escrever um outro livro sobre o período só com os comentários recebidos: “Quanta versão para um mesmo fato…”.

Segue abaixo a lista dos três assuntos mais comentados no Balaio e os levantamentos publicados por Folha e Veja, as duas publicações impressas que também fazem este balanço semanal:

Balaio

Especial AI-5: 228

Pizzada do Faustão: 93

Frei Betto: 83

Folha

Lula: 72

Educação: 55

Crise econômica: 45

Veja

Nudez: 27

Nossa Senhora de Medjugorje: 17

Carlos Minc: 16

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/12/2008 - 18:31

Feijoada da Brasileiros anima até nosso Waack

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Com suas olheiras fundas, cabelos cada vez mais grisalhos e um ar permanentemente grave, o arauto das desgraças que já aconteceram e as que ainda estão por acontecer nos finais de noite na Globo, até ele se animou com o alto astral à sua volta.

A crise ficou fora da pauta na feijoada de fim de ano da Brasileiros, revista mensal de reportagem (para entrar no site, basta clicar na coluna à direita do Balaio), nesta tarde de sábado, na casa do fotógrafo Hélio Campos Mello, o dono da publicação, no Alto de Pinheiros.

Sim, estou falando na abertura deste texto do meu velho e bom amigo William Waack, o âncora do Jornal da Globo, um dos mais sérios, cultos e bem informados jornalistas da imprensa brasileira.

Estava tão boa a festa que não dava nem para circular entre a mesa dos comes e o lugar dos bebes. Tinha de tudo um muito lá entre os mais de 100 convidados. Além de jornalistas e publicitários, que não costumam perder uma boca livre, encontrei ministros, empresários, artistas, donos de restaurante, psicólogos e outros ólogos.

Com a mulher, que minhas filhas chamavam de tia Íris quando eram pequenas na Alemanha, onde trabalhei como correspondente na mesma época do William, e seus dois filhos, Leonardo e Carlos, o Waack da Globo deixou por um tempo de lado a pessoa jurídica e se animou com as conversas como pessoa física.  

Ao contrário do que se lê e ouve nos noticiários, nada lembrava o clima de fim de mundo anunciado para 2009: as pessoas falavam de planos, projetos, investimentos. Arrumei um papel e uma caneta e aproveitei para ouvir as previsões de alguns deles (blogueiro trabalha até em festa de amigos…).

Vamos começar pelo nosso William Waack:

“Não importa a severidade da crise, é uma grande oportunidade para o Brasil abrir os olhos e, com a maior urgência,  promover reformas importantes no país. Como estava indo tudo bem, fomos empurrando com a barriga, mas agora espero que elas aconteçam. É uma grande oportunidade que esta crise nos oferece para dar uma freada de arrumação”.

Entre seus projetos pessoais, William pretende aprender a pilotar “um avião que voe mais alto e mais longe” do que o seu monomotor Cessna 172 de asa alta, com o qual começou a voar, faz dois anos.

A seu lado, na mesma roda, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que foi meu colega na assessoria do hoje presidente Lula, quando ainda trabalhávamos no Instituto Cidadania, preparando projetos de governo durante as campanhas, diz para William:

“Você tem muita responsabilidade no que fala na televisão porque a tua palavra influi mais nos mercados do que a minha…”. Guido não consegue se livrar da pessoa jurídica e repete o que tem falando nos últimos dias: 

“Vamos trabalhar para garantir a manutenção das conquistas que tivemos em 2008. E espero que, em 2009, possamos fazer no G-20, finalmente, a renegociação do sistema financeiro internacional”. Não conseguiu lembrar de nenhum projeto pessoal. 

Um dos maiores empresários nacionais, Benjamim Steinbruch, da CSN, presta atenção na conversa e responde na lata quando o ministro Mantega o desafia a anunciar novos investimentos:

“Se o governo desonerar a produção… Pretendemos retomar nosso programa de investimentos no próximo ano e espero continuar vendo o povão consumindo, ver a população brasileira feliz”.

Eles continuaram um tempão na roda conversando. Antes que os deixasse em paz, ainda ouvi de Steinbruch um projeto de pessoa física que ele tem para 2009: comprar um veleiro. William, que durante muito tempo foi velejador de fim de semana, dá-lhe umas dicas.

Do magro Nizan Guanaes, ao cada vez mais robusto fotógrafo Pedro Martinelli, capa do número 17 da Brasileiros, a nova edição que saiu ontem da gráfica, levei da casa do Hélio e da Patrícia, meus chefes na revista, pequeno retrato em preto e branco de um Brasil que continua confiando no seu taco, apesar de tudo.      

Hélio Campos Mello/Brasileiros)
O repórter do Balaio entre Guido Mantega, Benjamim Steinbruch e
William Waack (foto: Hélio Campos Mello/Brasileiros)

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
13/12/2008 - 09:47

Dicas para o verão no Litoral Norte

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Neste sábado nublado e sem assunto em São Paulo, caiu do céu, como diria o Magri, esta contribuição do amigo repórter Ivan Quadros, diretamente de São Sebastião.

Em seu peculiar estilo literário musical, ele vem falar de coisa boa: histórias e dicas do Litoral Norte de São Paulo, bem-vindas nestes dias que antecedem o verão, e muita gente só está pensando em pegar uma boa praia.

Enquanto eu descanso um pouco, que ninguém é de ferro, e vou ali no Santo Grão tomar um café no meu bar da esquina, fiquem com o Ivan Quadros:

São ancestrais os caminhos que levam ao conhecimento do Litoral Norte paulista.

Por detrás das pedras, onde se estatelam as ondas, no vai e vem do mar, existe um ecoar de lendas e registros históricos que tornam a região uma das mais importantes no cenário antropológico brasileiro.

Há rumores de que, mesmo antes de Cristo, aqui viveram tribos nômades que deixaram rastros nas areias das praias e sinais de vida no frescor da Mata Atlântica. São os chamados “primeiros brasileiros”.

Pelos séculos subseqüentes, o caiçara ganhou características físicas peculiares graças à miscigenação com europeus (piratas), africanos (escravos), asiáticos (japoneses) e com o índio.

Ficou também o nobre espírito de superação para manter a raça e suas tradições, diante das adversidades oriundas principalmente do interesse econômico especulativo.

A história do Litoral Norte paulista só é longínqua porque, a exemplo do Antigo Testamento, ela foi repassada de geração em geração pela oralidade, através dos causos que até hoje ouvimos.

Temos aqui vários contadores, como dona Neide Palumbo, que lecionou e morou numa aldeia de pescadores em Boiçucanga, na costa sul de São Sebastião, uma de nossas quatro cidades.

Ao ouvir dona Neide Palumbo sapecar um causo notamos que o caiçara, como ela, troca o V pelo B. Aqui, vovó é bobó. Já “Arrelá” é uma expressão de espanto, às vezes de contrariedade: “Arrelá! O que bós quereis?”

Desde que cheguei aqui para morar, há quase oito anos, descobri, além de dona Neide, outros contadores, poetas, pescadores, artistas plásticos, músicos, colegas jornalistas, que compõem a cultura caiçara, aos quais eu sempre presto reverência.

Tendo então o caiçara como personagem principal, o Litoral Norte de São Paulo fica com certeza mais atraente. É uma opção de lazer que reúne informações dos nossos antepassados e ao mesmo tempo o usufruto de um dos mais encantadores recantos naturais.

Como a Pedra da Cruz, para citar um exemplo próximo de mim, a alguns metros de minha casa, na Praia Deserta.

Trata-se de um belo lugar a beira-mar de onde se contempla o Canal de Toc-Toc (também conhecido como Canal de São Sebastião).

Mas, na medida do possível, e tal qual um turista, aos poucos eu mesmo vou conhecendo também outros lugares interessantes, fazendo questão de realizar algumas excursões por mais breves que sejam.

E cá entre nós, sem querer despertar nenhuma inveja, trata-se de um raro privilégio fazer turismo na própria cidade onde se vive e trabalha.

Eu já conhecia o Litoral Norte paulista desde as férias do ginásio. Mas somente depois de estar morando aqui interessei-me por  passeios muito especiais que convido o amigo leitor a fazer.

Como uma visita à comunidade do Bonete, em Ilhabela, até onde se chega somente de barco ou a pé; a praia de pescadores da Almada, em Ubatuba, cujo acesso de carro só é possível até as proximidades devido aos limites naturais; o Sítio Arqueológico de São Sebastião, através de uma trilha íngreme onde se encontram as ruínas e uma fazenda utilizada para o tráfico de escravos.

A fim de que tudo isso seja preservado e sirva mais e mais de alavanca para a economia da região, as ONGs se mobilizam para tratar das questões ambientais.

A Realnorte, que reúne as ONGs, fez parceria com a Universidade de Santos. Com o apoio da Petrobras, acabam de lançar o “Diálogo para a Sustentabilidade do Litoral Norte Paulista”.

Trata-se de uma série de palestras e oficinas com programação prevista para durar todo o próximo ano e que terá como finalidade debater idéias que visem a preservação do meio ambiente, apesar dos fortes investimentos já em andamento aqui, como a Unidade de Gás da Petrobras em Caraguatatuba, a ampliação do porto de São Sebastião e a ampliação da rodovia dos Tamoios.

É de fato uma boa notícia para uma região tão atraente, que busca a utopia do desenvolvimento sustentável, ainda mais depois do dilúvio que até geograficamente modificou a configuração de cidades catarinenses, que por sinal têm características semelhantes às quatro cidades de nossa região: mar, montanhas, encostas ocupadas, e vocação econômica voltada para o turismo.

Boa viagem e seja bem-vindo.

Com abraços do Ivan Quadros

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
12/12/2008 - 11:24

Na pizzada do Faustão, Muricy e o novo Kaká

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Dei sorte de me sentar à mesa do Muricy na tradicional pizzada na casa do Faustão, na noite de quinta-feira, no Morumbi. Repórter é que nem goleiro: tem que ter sorte…

Ainda empolgado com a conquista do hexa no domingo, Muricy estava mais falante do que nunca, a toda hora atendendo o celular e recebendo cumprimentos de quem chegava. Parecia o pai da noiva.

Lá pelo meio da festa, ele começou a me falar com entusiasmo do novo Kaká que está sendo preparado no Morumbi para ser lançado no time principal do São Paulo no segundo semestre de 2009.

É o menino Oscar, que ainda não completou 17 anos, um meia, segundo Muricy, em tudo parecido a Kaká _ no estilo, no físico, na altura (1,80m) e na história de vida familiar, quando o astro do Milan começou no São Paulo.

Quando perguntei sobre Oscar, Muricy bateu logo na canela, como costuma fazer com os jornalistas nas coletivas: “Não adianta você, a imprensa e a torcida inteira pedir, porque ainda não está na hora de colocar o garoto no time. Só eu sei o momento certo”.

O técnico três vezes consecutivas campeão brasileiro com o São Paulo toma todos os cuidados do mundo com Oscar porque ele é a única grande promessa das divisões de base do tricolor neste momento.

Como ainda não tem massa muscular para suportar um tranco, podendo estourar o joelho e sofrer outras lesões, Muricy está fazendo com Oscar o que o velho Osvaldo Brandão fez com ele mesmo, quando começou no clube, e o São Paulo repetiu depois com Kaká: pegou o menino para criar.

Foi o que Muricy fez também com o zagueiro Breno, que ele garimpou nos juvenis com 16 anos, preparou para o time de cima e, depois de jogar apenas seis meses como titular em 2007, foi vendido para a Alemanha por 19 milhões de dólares.

Na reta final do Brasileirão, o técnico já levou Oscar para as concentrações e viagens, mesmo sabendo que ele não iria jogar, só para já ir se acostumando com o clima de uma decisão.

Enquanto isso, recebe alimentação e preparação física reforçadas, aos cuidados de uma equipe de médicos e fisioterapeutas no CT da Barra Funda, sempre sob o olhar atento de Muricy.

Oscar começou a treinar no time de cima em julho e estreou no mês seguinte na equipe mista que disputou a Copa Sul-Americana, quando o São Paulo foi eliminado nos penaltis pelo Atlético Paranaense, no Morumbi.

Oscar desperdiçou um dos penalis. Mesmo assim, já caiu no gosto da torcida, que sempre pede sua entrada no time durante os jogos no Morumbi, mas vai ter que esperar. Muricy é teimoso e não gosta de perder, como sabemos.

Ao contrário dos outros jogadores, ele praticamente não terá férias. Em janeiro, vai disputar a Copa São Paulo com o time juvenil e, em seguida, se apresenta a Muricy, que já marcou prazo para o menino estourar como craque: no final do ano que vem.

No puxadão que Faustão construiu atrás da sua casa, onde montou uma das melhores pizzarias da cidade, só para os amigos, Muricy foi a grande estrela entre os mais de 100 convidados e Oscar, que não estava lá, anunciado como a boa surpresa que o técnico prepara para os são-paulinos em 2009.

Em tempo: com a pizzada do Faustão, Muricy e o novo Kaká, o Balaio atinge a marca de 150 posts em seus três meses de vida, completados esta semana, o que dá a média mensal de 50 matérias _ um recorde na minha vida de repórter.

São matérias mesmo e não apenas posts fast-food, porque aqui, como vocês notaram, não tem aquele copia e cola de agências, e os comentaristas são apenas os próprios leitores.

De Limoneiro do Norte, no Ceará, a Foz do Iguaçu, no Paraná, passando por Brasília e Rio de Janeiro, foram postadas matérias de diferentes pontos do país, falando um pouco de tudo _ da política a futebol, de ecologia a comportamento, de música a justiça (ou falta de), de livros a saúde, mostrando lugares e personagens da vida cotidiana que não estão na mídia.

É hora de agradecer aos leitores e à brava equipe de jovens editores da redação do iG, sob o comando da competente Mariana Castro. Valeu!

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
11/12/2008 - 08:15

Especial 40 anos/A longa noite do AI-5 no velho Estadão

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O Estado de S. Paulo é apreendido e deixa de circular porque a direção se recusou a mudar o texto do editorialNão vou repetir aquele chavão do “parece que foi ontem”, porque faz tanto tempo que, na verdade, já nem me lembro direito. Depois de amanhã, vai fazer 40 anos que a redação do velho Estadão parou para ouvir, em volta da mesa do jovem Clóvis Rossi, então chefe de reportagem, o anúncio do Ato Institucional nº 5, que afundava de vez o Brasil na ditadura militar mais escrachada.

Eu tinha 20 anos, era repórter de geral, como se dizia na época, e só lembro bem que fiquei muito assustado com a cara dos mais velhos, especialmente do secretário de redação, o professor Oliveiros Ferreira, um estudioso das Fôrças Armadas, que previa coisas tenebrosas acontecendo dali para a frente.

Cada um de nós lembra das coisas de um jeito. Muitas vezes, sabemos que a memória afetiva fala mais alto do que a racional. Por isso, hoje, ao completar três meses no ar, o Balaio publica esta matéria especial sobre o AI-5, trazendo não só as lembranças deste blogueiro, mas também de três queridos colegas de redação do Estadão. Como bom anfitrião, deixo as minhas memórias para o final deste post.

Daquela época, restam trabalhando no Estadão, se não estiver enganado, apenas Ruy Mesquita, o dono, responsável agora somente pelas páginas de opinião, e nosso colega Saul Galvão, que se tornou catedrático em comes e bebes. 

Mas nós, mesmo depois de rodar por muitas redações da vida, continuamos sendo conhecidos como a “Turma do Estadão”, amigos que comemoram juntos os natais desde 1962 (como sou o mais novo, só entrei na confraria em 1967), até hoje.

Vamos começar com um belo texto que me foi enviado pelo acima citado Clóvis Rossi, 66, o Grandão. Oito anos depois desta noite, ele se tornaria editor-chefe do mesmo jornal e, após uma brilhante carreira de correspondente internacional, hoje é colunista e repórter especial da Folha.

A seguir, vocês vão conhecer um dos melhores jornalistas com quem já trabalhei, o Raul Martins Bastos, também 66, dono de um texto primoroso que poucos conhecem porque sempre trabalhou na retaguarda das redações. Chefe de produção e da rede de sucursais e correspondentes do Estadão em 1968, hoje ele é diretor de planejamento da DM9DDB.

O terceiro colega que participa desta reconstituição do 13 de dezembro de 1968 é o Ludenbergue Góes , 73 anos, o decano da turma, que foi um brilhante editor de esportes na época e atualmente trabalha como redator da Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado.

                   A NOITE EM QUE INTERDITARAM O FUTURO

Clóvis Rossi

Minha principal lembrança da noite em que a ditadura editou o AI-5 não é física; é mental. Fiquei com a sensação de que haviam interditado, proibido, o futuro. Equivale a dizer que haviam proibido tudo porque eu tinha, então, magros 26 anos.

Nem sei se os companheiros daquela noite tiveram sensação idêntica. Lembro-me que saímos da redação do “Estadão”, então ainda na rua Major Quedinho, no centro, rumo a um boteco na rua da Consolação, bem em frente, não porque era o favorito da turma, mas porque parecia ser o único aberto nas redondezas. E não havia lá muito ânimo para ir além das redondezas.

Não vou citar os que estavam no boteco, porque esqueceria muitos. Há um tango que diz que “20 años no es nada”, mas 40 anos são muitos, sim, senhor.

Imagino que lá estivessem os de sempre, a turma que se divertia fazendo jornal, mesmo na ditadura.

Esqueceria muitos porque, se os presentes de então me perdoarem agora, devo confessar que estava ensimesmado demais para prestar muita atenção em todos e em cada um. Parecia que baixava sobre mim a tampa de um caixão, sacramentando uma morte cívica.

Não obstante, a vida teria que continuar, mas, pela primeira vez desde que me tornara chefe de Reportagem do “Estadão”, quase três anos antes, não tinha a menor vontade de deixar encaminhadas as pautas do dia seguinte. Porque parecia, naquele momento, que não havia dia seguinte.

                                 A INDIGNAÇÃO NA SUCURSAL DO RIO

Raul Bastos

 

Mário Cunha,

Não fique zangado com o começo desta carta.

É que toda vez que se fala daquele maldito 13 de dezembro de 1968 eu me lembro de você e de como o que já era muito ruim ter ficado muito pior até se tornar o horror do AI-5.

Quarenta anos depois, vejo nos jornais, nas revistas, na internet, quem sabe até na televisão, uma enxurrada de rememorações, análises, interpretações. Lembro de você.

Há de tudo nelas, Mário, menos você.

Celebra-se a coragem dos arrependidos do golpe.

Há um tácito esquecimento/perdão dos que _ inclusive no nosso meio, patrões e profissionais, sendo que um deles foi porta-voz do general-presidente – por ação ou omissão foram coniventes com a ditadura.

E com justa razão rememora-se a saga dos que resistiram, se bem que hoje, aqui e acolá, alguns se tornaram os donos exclusivos da história da resistência na imprensa, alguns até remunerados por isso. Paciência, a vida é assim mesmo.

Diante desse imenso latifúndio de retrospectivas eu fiquei pensando comigo se haveria um cantinho, uma citação, uma referência, uma lembrança, um agradecimento por você ter sido quem foi e ter feito o que fez nesta luta. Até agora, nada. Não que você faça questão disso. Mas, cá entre nós, que não está direito, não está.

Do dia do AI-5, como me pede o Kotscho, para ser sincero, a não ser o choque do golpe dentro do golpe, eu não me lembro de muita coisa. Só me lembro que, para variar, trabalhei muito, falei muitas vezes com você, discutimos algumas vezes as matérias, me amolei com Brasília não sei bem por quais motivos e, também para variar, fui beber lá no bar da Jussara, que Deus a tenha, e bebi mais do que de costume.

O que ficou gravado como marcante no dia 13 de dezembro de 1968, Mário Cunha, foi outra coisa. Foi a veemência da sua imensa indignação com o AI-5. Lembro de como você comandou a cobertura da sucursal do Rio, da sua sofreguidão por uma boa, ampla e corajosa edição. E o tom da cobertura que você deu aos seus repórteres: indignação.

Lembro da sua convicção de que, a partir daquele momento _ e mais do que nunca _, o jornalismo deveria ser de resistência, denúncia e combate, a despeito do preço que poderíamos pagar.

E assim foi durante quase dez anos, longos anos, Mário. Até o Estadão mandar todos nós para o espaço, e vocês aí do Rio de Janeiro de uma maneira indigna e desrespeitosa. Mas aí o arbítrio já estava no fim, de joelhos. E, a despeito do desfecho ruim e torto, seria injusto e mentiroso não reconhecer a coragem dos Mesquitas, não é mesmo?

Muito do brilho e da eficiência da lendária sucursal do Estadão no Rio (que teve um papel fundamental e nunca claramente reconhecido na luta contra o arbítrio e a censura no Estadão) deve-se, Mário, à sua competência, persistência e coragem _ sua e dos seus companheiros daquela época, entre eles, Maurício Azedo, Teixeira Heizer, Antonio Carlos, Paulo César Araújo, Valério Meinel, Sueli Caldas, entre outros tantos. Por onde eles andam hoje?

Eu não estou falando por falar e nem exagerando. É só cotejar a cobertura do Estadão com outros jornais, inclusive do Rio. A sucursal era uma referência não só de informação de resistência, mas também da qualidade de informação.

E nem vou tratar aqui dos companheiros que você, Mário, tanto ajudou, protegeu, acompanhou na prisão, que isso você considerava uma tarefa humanitária e política, não é mesmo?

É evidente que você não era o único naquele grupo fantástico do Estadão. Mas era um dos principais e estava entre os mais atuantes. Tinha voz e o respeito da sede do jornal.

Então, Mário Cunha, eu queria que você soubesse desse meu sentimento e ficasse registrado o meu agradecido reconhecimento pela sua participação naquele período tão terrível, mas tão rico de nossas vidas.

Diante dessa cara de paisagem de todos, torço para que a juventude que vem aí recupere essa sua bonita história profissional e de vida, e faça dela um exemplo. Quem sabe um desses grupos de jovens formandos resolva fazer o seu TCC sobre a sucursal do Rio de 1968, e comece a recuperar esta história e situe você nela como se deve.

Pena que você tenha morrido sem ver isso.

Com o carinho, o respeito e a admiração do Raul Bastos.

                    A passeata dos 100 mil, no Rio, conseguiu apoio de intelectuais, artistas, padres, professores, mães                    PELA DIREITA…

Ludembergue Góes

 

De repente, algumas pessoas estranhas começaram a chegar à redação do Estadão, provocando agitação, mas não muita surpresa. Afinal, depois da apreensão da edição do dia do jornal e do anúncio do AI-5, não surpreenderia se eles chegassem, os censores.

Como editor de esportes, teoricamente, eu não teria muito a me preocupar com eles, porque, normalmente, não haveria nenhuma notícia ou comentário que pudesse merecer censura.

Acontece, porém, que naquele dia cabia a nós do esporte fechar a última página, com a apresentação do jogo do dia seguinte, entre o Brasil e a Alemanha Ocidental. Com certeza, como página nobre do jornal, seria alvo dos censores.

Como todo o resto da redação, nós, do esporte, discutimos muito uma forma de driblar os “homens” e indicar que estávamos sob censura. Uma das propostas foi do Ricardo Kotscho, que sugeriu a manchete:

Brasil ataca pela direita

O secretário de redação, Oliveiros Ferreira, preferiu não arriscar ter a edição apreendida de novo.

 

                               MENINOS, A BRINCADEIRA ACABOU

Ricardo Kotscho (*)

 

O pior ainda estava para acontecer. Na madrugada de 13 de dezembro, dia em que Costa e Silva editou o Ato Institucional Nº5, o principal editorial do jornal, na página 3, trazia o premonitório título “Instituições em frangalhos”.

Informado por algum dos vários colaboradores do regime infiltrados na redação, o delegado Sílvio Correia de Andrade, da Polícia Federal, invadiu a oficina, que dava para a rua Martins Fontes, e gritou a ordem: “Parem as máquinas!”.

Em seguida, determinou aos policiais que o acompanhavam a apreensão de todos os exemplares já prontos para a distribuição. Pela primeira vez desde o golpe, o Estadão deixou de circular.

Logo cedo, Julio Mesquita Neto e Ruy Mesquita foram se queixar ao governador Abreu Sodré, um amigo da família nomeado para o cargo pelos militares. Comunicaram-lhe que o jornal não mudaria sua linha editorial, agora de oposição aberta ao regime.

No começo da noite, dois policiais à paisana da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo chegaram à redação para “examinar o noticiário político”.

Era o início oficial da censura prévia. Enquanto eles se aboletavam em volta da mesa de Oliveiros Ferreira, o secretário de redação, nós nos reuníamos para ouvir o pronunciamento do general Costa e Silva num rádio portátil posto sobre a mesa de Clóvis Rossi.

No silêncio do ambiente destacava-se a voz grave do general, que não deixava nenhuma dúvida nas suas palavras: meninos, a brincadeira acabou. O Brasil entrava no quinto ato. Era um golpe dentro do golpe _ a ditadura total, sem disfarces, com mais cassações de mandatos, fechamento do Congresso Nacional e fim das liberdades e direitos individuais, começando pela censura prévia.

Ao recordar este episódio muitos anos depois, Oliveiros me contou que Carlão, o nosso amigo diretor e dono do jornal, só se zangou quando um contínuo serviu café aos censores.

Voltei para a minha mesa e continuei a escrever, como se nada estivesse acontecendo. Sem alternativa, eu e minha turma terminaríamos outra noite na boate da Jussara. Professor da USP, estudioso dos assuntos militares, Oliveiros Ferreira previu um longo e feroz período de ditadura.

(*) Tirado do meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto _ Uma Vida de Repórter” (Companhia das Letras)

***

É bom que todo mundo lembre agora o que foi aquele período mais tenebroso da ditadura, não só para que ele nunca mais se repita, mas para que alguns veículos e muitos colegas parem de falar em ameaças à liberdade de imprensa  cada vez que se ousa contestar ou apenas discutir o seu trabalho.

Eles não sabem o que falam ou não lembram o que foi a ditadura militar. O Brasil vive hoje o seu mais duradouro período de plenas liberdades públicas e, se alguma ameaça persiste ao livre trabalho dos jornalistas, ela não vem do governo central, como naquela época, mas dos próprios responsáveis pelos meios de comunicação.

Basta ver, por exemplo, o que aconteceu com a repórter Ana Beatriz Magno, vencedora do Prêmio Esso de Reportagem esta semana, demitida há dois meses do Correio Braziliense.

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
09/12/2008 - 22:18

Zé Alencar dá mais uma bela lição de vida

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Cheguei agora do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira, o ICESP, um imponenete hospital inaugurado no meio do ano na avenida Dr. Arnaldo, com a alma leve e mais fé no ser humano.

O motivo é o velho amigo Zé Alencar, como Lula chama seu vice-presidente. Batalhando contra o câncer desde 1997, ele foi homenageado durante a cerimônia de entrega do Prêmio Carmen Prudente, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, no começo da noite de hoje.

Em breve discurso de agradecimento, falando de improviso, ele fez a pequena platéia de médicos, pacientes e voluntários dar boas risadas com suas histórias de como enfrenta a doença, sempre com força e bom humor, sem nenhum sinal de entregar os pontos.

A que mais fez sucesso foi a história do médico principal durante sua mais recente internação no Hospital Sirio-Libanês, para tratar de uma grave infecção intestinal.

“Vocês não podem imaginar o que é médico principal numa situação dessas…”, começou a contar o vice-presidente, já abrindo um sorriso. Este médico, Paulo Hoff, chefe de uma equipe que cuida dele, proibiu-o de tomar café com leite e pão com manteiga, como ele sempre pedia de manhã.

Inconformado, Zé Alencar fez a mesma consulta a outro médico, que o liberou na hora. “Sabem qual foi o resultado? Uma tremenda diarréia… Por isso, eu aprendi que é preciso respeitar sempre o médico principal…”

Na primeira fila do auditório, quem mais se divertia com ele era sua inseparável companheira, dona Mariza, e o fiel escudeiro Adriano Silva, assessor de todas as horas e assuntos, o Gilberto Carvalho do vice.

Já perdi as contas de quantas vezes fui visitar este grande empresário que entrou tarde na vida pública, toda vez que ele é internado no Hospital Sírio-Libanês para fazer tratamento ou uma nova cirurgia. Mariza e Adriano sempre estão lá, recebendo as visitas, como se o hospital fosse uma extensão do Palácio do Jaburú, onde o vice mora em Brasília.

Ficamos amigos durante as muitas viagens do então candidato Lula na campanha de 2002. No final do ano anterior, Lula me falou para não deixar de ir na festinha de Natal que a gente sempre fazia no Instituto Cidadania.

“Você precisa ir na festa para conhecer o Zé Alencar. É um grande cara. Ele vai ser o nosso vice”. Pouco sabia dele e nunca poderia imaginar que este plano fosse dar tão certo, o ex-metalúrgico e líder sindical junto com o empresário de sucesso, a aliança capital-trabalho com que o hoje presidente Lula sempre sonhara. Zé Alencar era o único de paletó na festa, mas parecia à vontade.

Os dois se deram bem logo de cara porque têm uma trajetória semelhante, saindo do nada, cada um tomando rumo diferente na vida, um no comércio e na indústria, outro na política, mas sem nunca esquecer suas origens.

Lula e Zé Alencar são dois bons contadores de histórias e divertiam-se nas longas viagens de campanha, como se fosse um desses desafios entre cantadores nordestinos, cada um querendo contar mais vantagens do que o outro.

Bom de papo, Zé Alencar contou no auditório do hospital outras passagens divertidas sobre a sua luta contra o câncer, transformando uma cerimônia de natureza formal num agradável encontro de pessoas que acreditam e lutam pela vida, cada um na sua área.

“O senhor já tá falando melhor de improviso do que o presidente Lula”, brinquei com ele na saída, mas, nesta hora, ele ficou sério:

“Não, não, nem brinca com isso…”

Ao final, outro bom amigo, o empresário José Alberto de Camargo lançou o livro “É Câncer”, escrito em parceria com o jornalista Camilo Vannuchi, no qual relata sua história na luta contra o câncer, muito semelhante à de Zé Alencar, e um coral de jovens cantou para lembrar que o Natal está chegando. Vida que segue.   

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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