iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
17/11/2008 - 11:07

Argentinos e brasileiros invertem os papéis

Nem é preciso sair dos aeroportos para notar as mudanças que ocorreram no comportamento de brasileiros e argentinos nos últimos anos. Bastou-me uma curta viagem com a família a Buenos Aires, com direito a sogra e três netos pequenos, para notar as diferenças, que vão além das antigas rivalidades na política, na economia e no futebol. 

Em qualquer lugar do mundo, sempre há avisos de prioridade para idosos, gestantes, deficientes e crianças. Na área de embarque do aeroporto de Cumbica, nos espaços reservados à Infraero, Polícia Federal e Receita Federal para fiscalizar passageiros e bagagens, parece que os agentes receberam uma ordem exatamente ao contrário: cuidado com as famílias!

Acredite quem quiser, mas uma agente responsável pelo aparelho de raio-X pediu à minha neta, de cinco anos, que quebrou o pé, para tirar a bota ortopédica e examinou-a com o cuidado de um agente do FBI em Nova York no dia seguinte ao atentado ao WTC em 2001. Não satisfeita, pediu que a menina andasse sem a bota, com o pé quebrado, para passar novamente pelo aparelho.

“Você está brincando!”, falei para a agente da lei.

“São normas, meu senhor!”, respondeu-me com ar grave a jovem autoridade.

Sei lá que normas são essas, mas será que alguém como minha filha e meu genro, dois jovens ao que parece de boa índole, vão levar junto com eles os três filhos pequenos, mais os avós e a  bisavó, para cometer um atentado num jumbo da British Airways com destino a Buenos Aires?

Meia hora na fila para passar pelo raio-X, mais meia hora na fila para mostrar o passaporte. Alguma prioridade para minha sogra de 84 anos ou para meu neto de um ano e meio? Imagina…

Com os oito documentos nas mãos e uma familia diante dela, a agente federal conferiu cuidadosamente as fotos com as caras dos passageiros à sua frente, fez alguns comentários que não entendi, e balançou a cabeça. Deve não gostar de famílias que viajam juntas para o exterior.

Duas horas e meia depois, ao desembarcar no velho aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, aconteceu exatamente o contrário. Os rituais de segurança lá são os mesmos do Brasil ou de qualquer aeroporto do mundo, mas as pessoas eram diferentes. Gentis, prestativas, bem humoradas, vários funcionários foram abrindo caminho para que a família de brasileiros passasse o mais rapidamente pela alfândega.  

Foi assim em toda parte nos quatro agradáveis dias que passamos nesta que é a cidade européia mais próxima do Brasil. Perdi a conta de quantas vezes fui a Buenos Aires a serviço ou a passeio. Já encontrei a cidade mais bonita e melhor cuidada em outros tempos, mas agora o que me chamou mais a atenção foi o modo afável como nos trataram.  

No final da Segunda Guerra, Argentina já foi um país mais rico do que o Brasil e nos dava lições de civilidade, cultura e educação. Criou-se também o estereótipo do argentino arrogante e mascarado, que se achava o melhor do mundo em tudo. As ditaduras militares que vieram depois deixaram tudo igual.

Agora, após a grave crise econômica que se seguiu à maxidesvalorização de 2001, quando acabou a miragem da paridade entre o peso e o dólar inventado por Menem, parece que nossos amigos portenhos ficaram mais humanos, mais humildes e divertidos _ ao contrário dos brasileiros, que parecem ter seguido o caminho inverso.

Em tempo: em razão das minhas viagens na semana passada, o Balaio deixou de publicar o ranking das três matérias mais comentadas neste blog e nas duas publicações (Folha e Veja) que divulgam o mesmo levantamento. Nos dois únicos textos publicados na semana passada, ambos sobre o Caso Satiagraha, o Balaio recebeu 366 comentários; o assunto mais comentado na Folha foi a Crise Econômica (69) e, na Veja, A dor da garota Lucélia (149).  

Sem palestras ou viagens marcadas para os próximos dias, pretendo retomar esta semana a rotina do Balaio. E aproveito para agradecer aos leitores que, mesmo durante a minha ausência, continuaram movimentando as discussões aqui neste espaço. Daqui a pouco, só falta alguém dizer que sou mesmo dispensável, o Balaio já ganhou vida própria…

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

167 comentários para “Argentinos e brasileiros invertem os papéis”

  1. S.F.Medeiros disse:

    CHEGA !!!. SE ASNEIRA FOSSE POESIA, ESTA SALA ESTARIA CHEIA DE SHAKESPEARE´S.

  2. Toni Gonzaga disse:

    Que sorte encontrar uma junta de ortopedistas no aeroporto de nova york pra uma revisao gratis do pe da sua neta ne? Com direito a raio X e tudo gratis. Esses Estados Unidos da America sao muito modernos mesmo. Se fosse na Argentina ela podia passar com uma faca cravada na testa e ninguem ia perceber!

    Ah! Vc nao precisa ficar chateado pq nao deram prioridade pra sua sogra e pro seu neto de 1 ano. Provavelmente quando a senhora idosa passou no raio X viram q tava tudo ok e nem a examinaram. E eles tambem devem ser muito ocupados pra ficar fazendo consulta de puericultura gratis.
    Brasileiro nao pode ver uma gentileza que acha q pode tudo. Esperava o que, um plano familia???

  3. Ludmilla Lima disse:

    Admiro você, Kotscho, mas dessa vez errou. O fato de a Argentina não ter adotado regras de seguranca com vocie e sua família significa “gentileza”? Em 4 anos de Argentina e muitos anos antes viajando no país, te digo que isso não é verdade e não snao amáveis com brasileiros coisa alguma. Infelizmente. Quando passava 4 dias aqui tb achava. Depois de 4 anos, a coisa muda. Tento ostrar um pouco da Argentina no Cartas, mas infelizmente eles não vão mudar. Saber um pouco de história argentina e várias opiniões de vários espectros da sociedade argentina ajuda a descobrir que essa suposta civilidade que eles tinham e que fazia deles superiores aos brasileiros nnao passa disso, uma suposição.
    Sua opinião não é a opinião geral da maioria dos brasileiros em visita que encontro pela rua. Meu namorado é inglês e no Rio ele ficou impressionado com a quantidade de regras para embarcar e a gentileza como tudo nos foi explicado. Na Argentina, vc embarca com um torpedo e ninguém te revisa nada. Agora, na hora de revisar laptops, câmeras, objetos pessoais e o diabo em Ezeiza para depois roubá-los, ah isso sim eles revisam e é mais que normal.

  4. Ludmilla Lima disse:

    Sobre o triste comentário de a PF argentina não estar nas mãos do PT ou algo assim: amigo, aqui eles são ladrões mesmo, do Partido Justicialista. Isso se vc quiser politizar né?

    Se não quiser, basta tentar buscar inimamente na net a quantidade de reclamações sobre roubos em Ezeiza e como tudo fica por isso mesmo. Roubos pelo pessoal do aeroporto (outro dia quase que meu Mac dança! Claro, era um Mac. Saí da Argentina, sou residente, ninguém perguntou. Na volta, sinceramente, pensei que já era. Por SORTE, pura sorte, não foi assim e não descarto nada!), e depois de sair do aeroporto, a aventura de não ser assaltado com essa máscara de gentileza toda. Pq é o que acontece.

    Se o Kotscho morasse aqui, certamente diria o mesmo que eu.

  5. Ludmilla Lima disse:

    Ah, só pra finalizar: eu adoro essas regras loucas de aeroporto, ainda que possam parecer um saco. Mas se existem, tem que haver uma razão.

    Para mim, não há razão melhor que essa: vou colocar minha vida num tudo de aço por 1h, 2h, 5h, 13h, com gente que ninguém imagina quem é, assim como não imaginam que sou. Todos ou quase todos desejam ferrenhamente chegar vivos no destino. E isso é só uma pequena parte de chegar vivos ao destino.

    Na Europa (Alemanha) perdemos um creme super caro porque nos esquecemos de colocá-lo na bagagem pra despachar. Não podia embarcar com aquilo e pronto. Estávamos meio dormidos e enfim, não temos cara de terrorista nem nada, ficamos bravos, mas mais ainda com nós mesmos, por termos esquecido disso. OK, podemos comprar outro. E do nosso lado, vi gente de lá mesmo perdendo toooooooooooodos seus objetos de banho etc. Alemão ou não, com cara de terrorista ou não. Se é assi comigo e com todo mundo, me tranqüiliza – além de ser o certo.

    O pior mesmo é que o Kotscho não sabe que essa gentileza toda mascara tantas falhas… a começar pelo radar… que não funciona. Chega-se vivo em Ezeiza por obra divina. E por sistemas/radares/antenas ou sei lá o que da GOL e outras empresas que os têm, pq confiar nos radares argentinos, não dá.

  6. Palo Pablito disse:

    Costa: não moro na Argentina pelo que há de bom.tud de bom que há na Argentina versus SP cidade caótica?

    Onde vc mora? Aluminé? Não, pq Buenos Aires é bem mais caótica.

    Nada funciona na Argentina. Não sei do que estão reclamando. E pior são os idiotas que moram na Argentina e têm que escrever num foro de brasileiros para se fazer bonzão – aliás como MUITOS argentinos, o tempo todo. Acham que ninguém viaja e vie as coisas, não?!?!?

    É, Costa, vc já ficou bem argentino, hein? Santa prepotência.

  7. Palo Pablito disse:

    Cruz credo, o NIL não pode nem falar a verdade que o povo quer comer ele vivo. Agindo exatamente como ele deplora e justificando seu comentário.

    NIL em toda razão, bobocas.

    COSTA: agora vi seus outros comentários. Um pior que o outro.
    Ar-gen-TI-NHO!

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo