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Arquivo de novembro, 2008

30/11/2008 - 19:41

Ficou para domingo que vem a festa tricolor

Pois é, caros amigos do Balaio, com tantos secadores, hoje não deu.  Empatamos com o Fluminense,  jogando muito mal, coisa que nenhum de nós esperava, e o Gremio ganhou do Ipatinga.

Assim, ainda com três pontos de vantagem, só adiamos para domingo que vem, contra o Goiás, em Brasília,  a festa do nosso hexacampeonato e do terceiro título seguido do campeonato brasileiro, que ninguém tem, nem vai tirar de nós. É só uma questão de tempo.

Tinha tanta certeza de que a festa seria hoje que escrevi um texto do fundo da minha alma e do coração antes do jogo começar. Estava só esperando o jogo acabar para publicá-lo. Mas não é o resultado de um jogo que vai mudar o que penso e sinto. Domingo que vem, só vai mudar a data deste post. Mas o amor à camisa continua o mesmo.

Para quem não sabe, torcedores de outros times, a palavra hexa, que tem 3.120.000 citações no Google, vem do grego hex , designativo de seis: seis vezes campeão brasileiro.

Endeusaram tanto o planejamento e o profissionalismo do São Paulo, que se esqueceram de um detalhe fundamental: a trajetória deste time, desde 1935,  é uma longa história de amor à camisa tricolor, de garra e de superação, mesmo quando o time não era lá grande coisa, a exemplo do que aconteceu este ano.

Já tivemos times melhores e piores, mas esta paixão sobreviveu a longas temporadas sem títulos, como a dos anos 60 a 70 do século passado, quando o clube investia tudo o que tinha e o que não tinha para terminar a construção do Morumbi.

Eu estava lá, tinha 12 anos, quando o nosso estádio, ainda só com meio anel das arquibancadas, foi inaugurado em 1960, poucos meses após a morte de meu pai, o engenheiro Nikolaus Kotscho, que todos chamavam de Nik.

Nascido na antiga Bessarábia, de onde veio também o grande jornalista Samuel Wainer, emigrou com minha mãe para o Brasil no pós-guerra, e não sei explicar como e por quê ele se tornou e me fez são-paulino.

Só sei que era fanático pelo time. Desde que me conheço por gente, me levava a todos os jogos. Tinha nove anos quando comemorei com ele meu primeiro título de campeão paulista, em 1957, no inesquecível 3 a 1 que metemos no Corínthians, naquela memorável “tarde das garrafadas”, como ficou conhecido o conflito generalizado entre as duas torcidas.

No meio da confusão, perdi-me de meu pai, que gostava de uma boa briga. Não lembro como o encontrei depois, mas nunca vou esquecer daquele time, que até hoje tenho na memória: Poy; De Sordi e Mauro; Sarará (jogou no lugar de Dino Sani, contundido), Vitor e Riberto; Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro. 

O goleiro argentino José Poy, também já falecido, era amigo de meu pai, que não era nada no São Paulo, mas gostava de dar palpite em tudo, no time e nas obras do estádio, para onde me levava todo sábado de manhã.

Nik era o que mais tarde viria a ser chamado de “corneteiro”. O São Paulo estava numa pindaíba tão grande que não tinha nem ônibus para levar os jogadores do acanhado campo de treinamento do Morumbi para a concentração, no Hotel São Paulo, no Vale do Anhangabaú.

O vestiário era um galpão de madeira e os jogadores eram levados de carona para o hotel por conselheiros e “corneteiros” como meu pai, que tinha um Chevrolet preto e era metido a descobrir novos talentos na várzea. Nenhum deu certo…

Pena que meu pai morreu sem ver a torcida lotando o Morumbi para festejar tantos títulos, de 1970 para cá, que até já perdi a conta.

Para mim, os melhores exemplos deste amor à camisa do São Paulo vem do meu pai e de José Poy, passando pelo grande Roberto Dias, único ídolo do tempo das vacas magras, e pelo mestre Telê Santana dos dois primeiros títulos mundiais, até chegar a Muricy Ramalho e Rogério Ceni, os maiores símbolos deste time que está prestes a conquistar três vezes seguidas o Campeonato Nacional, o primeiro tri na história do tricolor.

Meu pai precisava ver como a Bebel, minha neta do meio, e única são-paulina dos três, aos dois anos, segue o bisavô e já pede para vestir a camisa do nosso time, canta o hino do São Paulo e dança para comemorar as vitórias. Agora, a Bebel, como todos nós são-pauilinos, vai ter que esperar atéo próximo domingo. Vai ser mais sofrido, mas vai ser bom.    

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/11/2008 - 11:00

Cenas da vida real entre o hospital e o futebol

O domingo amanheceu bonito, com o sol se abrindo as poucos em São Paulo e logo chega a notícia de que minha filha Carolina deve sair hoje do hospital, depois de quase três semanas internada.

Bom demais para o grande dia em que meu tricolor pode se tornar hexacampeão brasileiro no Morumbi e a cidade se prepara para uma grande festa. Acho que por isso acordei hoje com vontade de escrever esta crônica, coisa cada vez mais rara ultimamante.

Minha outra filha, Mariana, ligou agora há pouco para contar que a Bebel, a neta do meio e única são-paulina, já está de uniforme do time cantando o hino do São Paulo, dançando em cima da cama dos pais, para desgosto do Fernando, meu genro palmeirense.

Como ando pela cidade sempre a pé ou de táxi (só pego o carro para viajar), ontem conheci mais uma figura carimbada que vocês precisam conhecer. Depois de comer uma bela mini-feijoada por módicos R$8,00 na Lanchonete Ministro, ao voltar para o hospital à tarde, subi no táxi comum de uma figurinha carimbada.

De bem com a vida e muito falante, Rozendo Ribeiro é um desses filósofos urbanos que tem frase pronta pra qualquer assunto. Quando lhe perguntei onde era seu ponto, falou que não tinha.

“Eu fico rodando pela cidade igual notícia ruim…”.

Conta que no seu trabalho se sente sempre entre o céu e o inferno, mas não reclama, ri dele mesmo.

“Quando chove, o passageiro me faz sinal e eu páro, ele fala que eu caí do céu. Se não páro, me manda para o inferno…”.

Junto à porta de entrada, do lado de fora do hospital, único lugar onde ainda há cinzeiros, os acompanhantes dos pacientes vão fazendo novas amizades, cada um relatando um drama maior do que o outro.

Mas como estava com a camisa do São Paulo, um pessoal do Espírito Santo veio conversar comigo para falar de coisa boa. Lá na cidade deles, em Vila Velha, me contaram que tem um restaurante chamado Delira.

O dono, um são-paulino fanático, criou ali o Clube do Uísque, onde só podem entrar torcedores do seu time. Em dia de jogo do tricolor, como hoje, fecha o restaurante para os sócios do clube, quer dizer, da sua confraria.  

É o São Paulo se espalhando pelo Brasil. Está na hora de alguém fazer uma nova pesquisa sobre as maiores torcidas do país. Desconfio que o tricolor já está na frente também nesta disputa.  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
30/11/2008 - 10:18

Os três assuntos mais comentados da semana

Medir o gosto, o interesse e a participação dos leitores é um bom indicador para nos orientar neste trabalho solitário de blogueiro.

Por isso, todo domingo, o Balaio publica um levantamento dos três assuntos mais comentados da semana no blog, na Folha e na Veja, as duas publicações impressas que fazem o mesmo tipo de ranking.

Esta semana, nenhum assunto foi comum nas três listas:

Balaio

Juiz Odilon de Oliveira: 232

Futebol/São Paulo: 203

Mídia/web: 177

Folha

Santa Catarina: 80

Cotas/racismo: 38

Crise econômica e caso Thales Schoedel: 33

Veja

Eunice Durham: 61

Caso Isabella: 60

Veja Essa: 17

Nosso ombudsman particular notou que esta semana o Balaio teve maior variedade de assuntos, mas nem por isso deixou de ser criticado pelos leitores, que se dividem em dois grupos: os que reclamam das notícias enguiçadas, quer dizer, quando vários posts tratam do mesmo tema, e os que não gostam quando se trata aqui do que chamam de “conversas de elevador”.

Desde abril, quando comecei a escrever no  iG,  nestes pouco mais de seis meses, primeiro na coluna e depois aqui no Balaio, já escrevi sobre tudo que é tipo de assunto, sem preconceitos.

De política a futebol, de mídia a justiça (ou falta de), de lugares por onde viajei a personagens que não estão na imprensa grande,  procuro na maior parte das vezes falar de assuntos da vida real que possam interessar a qualquer tipo de leitor.

Neste breve período, já publiquei um conjunto de entrevistas exclusivas que não vi em nenhum outro blog ou orgão de imprensa: do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; dos presidenciáveis Aécio Neves, Ciro Gomes e Dilma Roussef ao juiz Odilon de Oliveira (há quatro anos ameaçado de morte no Mato Grosso do Sul, tema da última semana), do ministro Franklin Martins ao melhor jogador de futebol do mundo, o Kaká. E estou na fila para entrevistar o grande personagem do momento, o delegado Protógenes Queiróz.

A grande diferença que sinto do meu trabalho anterior em jornais, revistas e redes de televisão é justamente esta interatividade que me permite saber o que os leitores pensam sobre aquilo que escrevo. É como se antes meu trabalho fosse um monólogo e, agora, um diálogo permanente.

Outra mudança que percebi é a necessidade de dar um tom mais pessoal aos textos em relação aos trabalhos anteriores, que eram mais formais, impessoais, como recomendam os modernos manuais de redação.

Bom domingo e boa semana, caros leitores. Muito obrigado pela audiência e pela participação neste Balaio. Sejam bem-vindos, sintam-se em casa.  

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
29/11/2008 - 13:01

Pó-de-arroz da Paraíba nunca perde a fé

“Domingo é nóis de novo!”. O ano todo, mesmo quando o São Paulo estava por baixo, eliminado do Paulista e da Libertadores, e não engrenava no Brasileirão, toda  vez que o encontrava lá vinha ele com sua profissão de fé no tricolor.

Anunciava não só a vitória como também o resultado. E, várias vezes, acertou na mosca. Se o São Paulo é conhecido como o “clube da fé”, ele é certamente o nosso profeta.

Nas últimas semanas, ficou impossível, todo gabola, não perdoando suínos, raposas, gambás, urubús e outros bichos, toda a fauna do nosso futebol. “Vai dar nóis de novo, eu não falei?”.

No começo do segundo turno, quando o São Paulo perdeu por 1 a 0 do tricolor gaúcho no Olímpico, e ficou 11 pontos atrás do líder Grêmio, joguei a toalha, como a grande maioria dos são-paulinos, torcedores, dirigentes e até jogadores, que já se davam por contentes com uma vaga na Libertadores.

Acho que só ele e o Muricy ainda acreditavam que este ano o São Paulo, com o futebolzinho que vinha jogando, poderia se tornar o primeiro time a conquistar seis vezes, em anos alternados, e três consecutivos o título de campeão brasileiro.

Ele é o cabeça-chata José Hailton Guilherme da Silva, 36 anos, um dos faxineiros do prédio onde moro, que todo mundo só chama de “Ceará”. Esta semana fiz uma entrevista exclusiva com ele para saber de onde vem seu fanatismo e a fé que o alimenta.

Zé Hailton, na verdade, nasceu na Paraíba, numa pequena cidade chamada Solânea, no agreste do Estado, perto de Campina Grande, e veio para São Paulo faz 25 anos. Ao contrário de outros retirantes nordestinos, que aqui chegando adotam logo o tricolor, ele já veio para cá são-paulino.

Num tempo em que o clube do Morumbi ainda não era o rei da cocada preta, seu irmão mais velho, Haroldo, montou um time em Solaina com o nome e a camisa do São Paulo. Não uma camisa tricolor qualquer, mas a oficial, que ele veio comprar no Morumbi.

Foi nesse time que Zé Hailton começou a jogar bola e viu despertar sua paixão. Neste domingo, ele não irá ao Morumbi porque, como faz todo ano, vai numa excursão de romeiros para Aparecida do Norte. Só espera voltar a tempo de ver o jogo em casa.

Não fez promessa para o São Paulo ganhar. “Tenho certeza que nós vamos ganhar de 2 a 0, só aqui no meu pensamento e na moral, não preciso fazer promessa”, explica, convicto. Não se conforma de não ter conseguido fazer nenhuma aposta desta vez com seus colegas aqui do condomínio do prédio.

“Eles não apostam mais comigo. Sabe como é, já perderam muito este ano, estão com medo…”

Zé Hailton é uma figura emblemática do novo torcedor são-paulino, que se multiplica como praga por todas as partes do país, especialmente no Norte e Nordeste, onde sumiram das ruas as camisas do Flamengo e do Coríntians, e até la fora.

Na minha recente viagem a Buenos Aires, vi na calle Florida mais torcedores com a camisa do São Paulo do que do Boca Juniors _ e nenhuma de qualquer outro time brasileiro.

Pó-de-arroz da Paraíba? Acabou aquela velha história de torcedor pó-de-arroz e time de elite que levou os desaforados torcedores de outros times menos vencedores a chamar a nossa torrcida de bambi.

Deixa falar, não tem problema. Podem chamar do que quiserem, mas neste domingo vamos ser obrigados a colocar mais uma estrela na camisa.

Elite agora é aquele time da Marginal do Tietê, que tem entre seus torcedores desde o presidente da República até alguns dos maiores empresários do país, como Antonio Ermírio de Moraes, passando pelo publicitário Washington Olivetto e o multimídia Juca Kfouri, agora legítimos campeões da segunda divisão.

Aquela camisa vermelha com que comemoramos o  título do ano passado, com o 5-3-3 das nossas conquistas em branco, vai sair de linha na segunda-feira. Entra a nova já com 6 (brasileiros) – 3 (sul-americanos) - 3 ( mundiais). Tá bom assim ou querem mais?

“Vem pra festa!”,  grita a manchete do Lance, o maior jornal esportivo do país, com exclamação e tudo, em preto, branco e vermelho. Estão todos convidados. O espetáculo do tricolor paulista começa neste domingo às 17 horas, no agora rebatizado Morumtri. O Fluminense é nosso convidado especial.   

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/11/2008 - 17:41

Chico Pinheiro contra onda das correntes

Já repararam como ultimamente, tirando o futebol, este Balaio só está tratando de assuntos sérios demais para o meu gosto, meio pesados, às vezes até desanimadores? Tudo bem, eu sei que é fase, mas já está na hora de a gente brincar um pouco nesta chegada de mais um final de semana.

Antes de mais nada, portanto, já vou avisando que é tudo brincadeira. Começou com uma corrente internética enviada por uma integrante do Grupo de Oração aos demais membros desta minha confraria etílico-fraterno-religiosa, que já está completando 30 anos, sempre sob as bençãos do Frei Betto. 

Ao recebê-la, o amigo Chico Pinheiro, aquele mesmo que vocês conhecem da TV Globo, respondeu na lata:

“Atenção todos, principalmente jornalistas: vamos pesquisar melhor antes de mandar correntes… É grupo! Essa lei não existe!!! Bjs. Chico”.

A corrente falava da entrada em vigor de uma tal lei de gratuidade de estacionamento, que os shoppings agora seriam obrigados a cumprir. Para parecer mais verossímel, a corrente dava até o número (Lei Estadual Nº 1209/2004) e informava que a notícia foi dada “até no Jornal da Globo”.

Como por acaso ele trabalha lá, o boa praça Chico Pinheiro aproveitou o pito que deu na turma _ com toda razão, aliás _ para mandar uma outra mensagem. Na verdade, como vocês verão abaixo, trata-se de uma contra-corrente muito engraçada. Perguntei a ele se poderia colocá-la no blog e recebi esta resposta:

“Caríssimo, claro que pode. Afinal, o texto não é meu, ele rola pela internet já faz uns dois anos… Mas, de quando em vez, eu o remeto para os passadores de correntes e spams. Use e abuse. Beijos de fraternura. E não se esqueça: `Deus está solto´. Chico.

Aos amigos,

obrigado pelas 4512 correntes enviadas este ano. Graças a elas tomei algumas atitudes que mudaram minha vida.

1. Já não saco dinheiro em caixa eletrônico porque vão me colar um adesivo amarelo e quando eu dobrar a esquina vão me roubar.

2. Já não tomo Coca-Cola depois que me avisaram que um cara caiu no tanque na fábrica e ficou totalmente corroído.

3. Não vou ao cinema com medo de sentar numa agulha contaminada com o vírus da Aids.

4. Estou com uma inhaca de gambá porque desodorante causa câncer de mama.

5. Não estaciono o carro em shopping-center com medo de cheirar perfurme e ser sequestrado e violentado.

6. Não atendo celular com medo que alguém peça para digitar *55533216450123=T4RH2 e eu pague uma fortuna de ligação para o Irã.

7. Não como mais big mac pois é tudo feito com carne de minhoca; nem carne de hamburguer com anabolizante para que minhas bolas não fiquem gigantes.

8. Não como mais carne de frango pois os frangos foram alterados gneticamente e têm seis asas, oito coxas e não têm bico, penas nem cabeça.

9. Não como mais ninguém porque tenho medo de acordar na banheira cheia de gelo sem meus rins.

10. Refrigerante em lata nem pensar; tenho medo de encontrar o dedo daquele maluco lá de cima ou então morrer da mijada do rato.

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
28/11/2008 - 16:49

Debate sobre mídia fica fora da mídia

Fiquei frustrado ao ler hoje a Folha e o Estadão. Não encontrei nenhuma linha falando do debate de ontem sobre os rumos da mídia (ver post abaixo), promovido pela Mega Brasil, do qual participaram seus diretores de redação, Otavio Frias Filho e Ricardo Gandour, respectivamente, além de Josemar Gimenez, do Correio Brasiliense.

Como se trata de fato raro um encontro desses, anunciei o evento na véspera aqui no Balaio, saudando o ineditismo da iniciativa (post do dia 26, quarta-feira), no qual também publiquei um artigo de Geneton Moraes Neto, editor e repórter do “Fantástico”, da TV Globo, em que ele acusa jornalistas de assassinarem o jornalismo nas redações.

“A mídia que tudo sabe, julga e contesta, não gosta de discutir a mídia”, escrevi neste post, citando Alberto Dines. Desta vez, eles até discutiram bastante, mais de três horas, mas nada publicaram em seus veículos (não li o Correio Braziliense, que não chega por aqui).

Fosse qualquer outro setor da economia brasileira, ainda mais um ramo importante como é a indústria da comunicação num cenário de crise econômica mundial, com a participação de três dos principais protagonistas da nossa imprensa, certamente seus repórteres seriam escalados para cobrir o debate e nós todos poderíamos saber o que aconteceu em seus jornais no dia seguinte.

Aproveito este registro da não-notícia dos jornalões para tocar num assunto que ficou de fora da minha matéria de ontem sobre o debate _ aliás, muito bem mediado pela Fátima Tucci _, tantos foram os temas tratados, que encheram meu bloco de anotações.

O diretor do Estadão, Ricardo Gandour, que durante dez anos trabalhou na Folha, me surpreendeu ao apresentar uma tese no mínimo bastante curiosa: a de que, em 2006, na campanha de reeleição do presidente, na falta de um projeto de oposição no país, o governo Lula resolveu antagonizar com a mídia.

Escrevi várias vezes aqui neste nosso espaço no Balaio e nas colunas do iG exatamente o contrário. Foi justamente diante da inanição do discurso e falta de bandeiras dos partidos de oposição, que setores da mídia, blogueiros e colunistas coroados resolveram assumir este papel _ inclusive dando sugestões de como deveriam fazer a campanha para derrotar o governo (como não foram ouvidos, passaram a criticar também os líderes da oposição, qualificados de frouxos).

Seja lá quem for que tenha atirado primeiro, a verdade é que a disputa política, a partir de um determinado momento no primeiro mandato de Lula, passou a se dar entre governo e mídia, e não entre partidos de situação e de oposição, certamente uma anomalia do atual estágio da nossa jovem democracia.

Já quase no final do debate, Gandour surpreendeu novamente a platéia ao dizer que “os nossos jornais nunca foram tão lidos” ( vendem hoje um terço do que chegaram a ter de circulação uma década atrás)…, para logo em seguida acrescentar: “se agregarmos a leitura na internet”. Ah, bom…

Segundo Gandour, o Estadão tem hoje 7 milhões de leitores: 2,5 milhões no papel e 4,5 milhões na tela do computador. Na web, até pode ser, embora seja difícil medir (o Ibope só vai começar a fazer no próximo ano a medição de audiência da internet, hoje feita apenas nos domicílios, também nos locais de trabalho).

Mas, para se chegar a este número de leitores no papel, cada exemplar do Estadão teria que ser lido por 8 pessoas, já que a circulação média do jornal anda em torno de 300 mil. Deve dar uma briga danada para ver quem lê primeiro o caderno de esportes, que é muito bom…  

 

 

  

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/11/2008 - 17:56

Se jornais fecharem, web fica sem notícia?

De tudo que se falou hoje de manhã nas três horas do debate sobre o tema “Mitos e Verdades sobre o Brasil de hoje _ A visão da mídia” _, organizado pela Mega Brasil, com a participação dos diretores editoriais dos jornais Folha (Otavio Frias Filho), Estadão (Ricardo Gandour) e Correio Braziliense (Josemar Gimenez), o mais importate ficou para o final:

“Se os jornais impressos fechassem amanhã, os sites e blogs da web ficariam sem notícias para comentar”.

Foi a ameaça bem humorada deixada no ar por Gandour, que chamou a atenção para o fato de os portais eletrônicos brasileiros serem os únicos no mundo a priorizar o jornalismo em suas primeiras páginas (ou “homes”, para ser mais moderno e preciso). 

O diretor do Estadão tocou num ponto vital do impasse vivido pela velha mídia ao apontar um paradoxo: ao mesmo tempo em que ameaçam a sobrevivência do papel, roubando sua freguesia, os portais de internet (a maioria pertencente aos mesmos grupos econômicos) não vivem sem a matéria prima noticiosa e o dinheiro fornecidos pelas antigas redações.

Como desatar este nó? Existe prazo para isso? Vai acabar o papel do jornal impresso no jornalismo do futuro?

Não é o nosso caso aqui, como bem sabem os leitores do Balaio (entre outros motivos porque ainda não aprendi a fazer esta operação de transplantar notícias…), já que busco sempre entrevistas exclusivas (ver, por exemplo, o post sobre o juiz Odilon de Oliveira logo aqui abaixo), furos e histórias de personagens e lugares que não estão na mídia.  

Gandour exagerou um pouco porque alguns portais, como o iG , já contam com sua própria equipe de jornalistas para produzir o noticiário das diferentes editorias e com colunistas exclusivos, mas a verdade é que muitos sites e blogs ainda se limitam mesmo a copiar, colar, deitar regras e panfletar sobre a matéria prima alheia ou então se dedicam ao plantio de abobrinhas e crises existenciais.

Como conciliar a clássica imprensa de papel, que ainda sustenta as grandes empresas jornalísticas, com o crescimento do mercado leitor dos novos produtos digitais, que ainda não vem acompanhado do respectivo aumento da receita? Este foi o grande desafio colocado no centro das discussões no quase lotado auditório do Jockey Clube, no centro da cidade.

Cada um dos diretores convidados escolheu roteiros e temas diferentes para fazer sua palestra, mas na hora dos debates os três repetiram basicamente as mesmas preocupações que assolam seus veículos: a necessidade de buscar um diferencial _ não só em relação aos concorrentes, mas também às outras mídias, especialmente as eletrônicas.

“O leitor precisa ter nosso jornal como um gênero de primeira necessidade, precisa sentir que não pode viver sem ele”, costumava nos dizer Octavio Frias de Oliveira, o publisher da Folha e fundador do pioneiro portal eletrônico UOL, falecido no ano passado.  

A grande ameaça ao jornal de papel hoje é, justamente, tornar-se um produto supérfluo, irrelevante, artigo de luxo oferecido no café da manhã para um público saciado na véspera pela internet e pela televisão, insistindo em oferecer manchetes e notícias que todo mundo já está careca de saber.

Os três diretores bateram na mesma tecla: ainda não se inventou nada melhor do que o furo, matérias com textos que vão mais fundo na história para explicar o que está acontendo, colunas e reportagens exclusivas, tudo para oferecer um diferencial que os concorrentes não têm.

Estamos todos de acordo com isso, mas, no final, ficou a velha pergunta: por que, então, os jornais não fazem isso e continuam tão parecidos uns com os outros, sem agregar valor e novidades ao noticiário online, full-time, digital?

Primeiro a falar, Josemar Gimenez, que acumula a direção do Correio Brasiliense com a do Estado de Minas, centrou sua fala nas difíceis relações da imprensa com o poder em Brasília e em três crises existenciais simultâneas:  acertar a convivência com a internet, que exige novos investimentos, exatamente num quadro de crise econômica.

Josemar mostrou-se preocupado com o negativismo da mídia diante da crise. “A vida é feita de luzes e sombras. Vamos denunciar, noticiar os problemas, mas também é preciso mostrar o lado bom da vida. Precisamos tomar cuidado e ter responsabilidade para não sair batendo em tudo e em todos, e não agravar os sintomas e a velocidade da crise, até para não afugentar nossos próprios anunciantes, especialmente, os setores imobiliário e de automóveis”. 

Sem gravata nem ânimo para polemizar, Frias Filho, em sua palestra, preferiu fazer uma análise histórica e sociológica da vida brasileira nos últimos 100 anos, destacando os processos de industrialização ao longo do século 20, a democratização do país e a estabilidade econômica nos anos mais recentes.

Citando números do PIB e da expectativa de vida, o diretor da Folha apresentou, ao contrário do que o jornal costuma destacar, um quadro bastante positivo da evolução do país nos campos econômico, político e social até desaguar no período “social-democrata” dos governos FHC e Lula, para ele “uma coisa só”.

“Coloco esta social-democracia entre aspas porque ela é liberal na macroeconomia e estabelece uma transferência de renda do Estado para os setores excluídos, e não do capital para o trabalho, como aconteceu na Europa”.

Em tom de aula sobre a nossa história recente, Otavio buscou em ”Raízes do Brasil”, a obra prima de Sergio Buarque de Holanda, argumentos para mostrar como a chamada revolução burguesa aqui se dá em câmara lenta, sem maior violência política, ao contrário das rupturas provocadas nos Estados Unidos, Japão e boa parte dos países europeus.

“No Brasil, o privado, as relações de amizade, parentesco e compadrio prevalecem sobre o que é público, o emocional sobre o racional”, concluiu, sem nenhuma vez pronunciar as palavras mídia, imprensa, jornalistas e Folha.

Ricardo Gandour, do Estadão, montou, segundo ele mesmo, uma espécie de infográfico baseado sobre três afirmações:

* temos uma democracia consolidada, ainda que jovem;

*o país tem uma imprensa de qualidade;

* somos do primeiro time em novas tecnologias, inclusive na área de comunicação;

Apesar de muitos mas, poréns e no entantos, Gandour destacou que a imprensa teve um papel importante na redemocratização do país, com o pleno funcionamento das instituições e um sistema eleitoral moderno. Ao mesmo tempo, segundo ele, o país assumiu um papel importante no cenário econômico mundial.

O diretor do Estadão criticou a assimetria dos três poderes _ um Executivo que passou por processo de modernização, um Legislativo enfraquecido e um Judiciário questionado, com a imagem afetada negativamente _ mas também acabou fazendo uma abordagem positiva do país.

Ficou a impressão, ao ouvir os três falando, de que o país não é tão pobre, violento, injusto, safado, atrasado e corrupto, e tudo de ruim que se possa imaginar, como diariamente se informa aos leitores dos seus veículos.

Para eles, a imprensa de papel não vai morrer, e o Brasil e o mundo não vão acabar _ pelo menos, tão cedo.    

   

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
27/11/2008 - 15:23

Exclusivo: entrevista com o juiz de MS que continua ameaçado de morte

Enquanto, em São Paulo, o Orgão Especial do Tribunal de Justiça absolve por 23 a 0 o promotor Thales Ferri Schoedl, que matou a tiros um jovem e feriu outro em uma praia de Bertioga, no litoral de São Paulo, no final de 2004, lá no Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, o juiz federal Odilon de Oliveira, na mesma época ameaçado de morte por traficantes,continua vivendo com escolta da Polícia Federal nas ruas e mesmo dentro da sua casa, dia e noite. 

São os dois lados da nossa Justiça. Esta semana, publiquei aqui mesmo no Balaio a história deste juiz federal fora dos padrões, que arriscou a própria vida, ao condenar, em apenas um ano, 114 criminosos à cadeia, em Ponta Porã (MS), na fronteira com o Paraguai. Por isso, foi obrigado a morar no período 2004/2005 dentro do Fórum, sem poder sair de lá para não ser morto.

Quando publiquei o relato, não tinha a informação de que estes fatos se deram quatro anos atrás. Fui corrigido pelos leitores, mas a história era absolutamente verdadeira, como vocês verão na entrevista exclusiva que o juiz Odilon Oliveira me concedeu hoje por e-mail.

O erro de data que cometi nos permitiu saber o mais grave: o drama do juiz persiste, mesmo com ele agora trabalhando em Campo Grande, a capital do Estado.

“Continuo, 24 horas por dia, andando com escolta da Polícia Federal, em carro blindado. Agentes dormem dentro da minha casa, já há cinco anos. Há um dormitório, uma espécie de posto policial, para eles. Na verdade, entre Ponta Porã e Campo Grande, mudou apenas o endereço”, escreveu-me o juiz Odilon de Oliveira.

Magistrado mais antigo do país na esfera da 1ª instância federal, recusou este mes sua promoção a desembargador do Tribunal Regional Federal, abrindo vaga para o juiz Fausto de Sanctis, de São Paulo, aquele mesmo que está nas manchetes como responsável pelo processo do banqueiro Daniel Dantas, que também abriu mão do cargo.

Com 35 anos de serviço público e há 22 na magistratura federal, trabalhou na roça dos 10 aos 17 anos e só pretende se aposentar aos 70. A seguir, a íntegra da entevista com o juiz federal Odilon de Oliveira:

Balaio: Que lições ficaram da sua passagem por Ponta Porã, que o obrigaram a morar no Fórum, distante da família, diante das ameaças de morte recebidas? Como se deu sua transferência para o posto atual em Campo Grande?

Odilon: Estive em Ponta Porã de junho de 2004 a julho de 2005, dando rumo a uma vara que lá foi instalada na época. A experiência foi boa. Apenas acrescentou, pois sempre trabalhei em fronteiras (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia), desde que ingressei, há 22 anos, na magistratura federal.

Minha volta para Campo Grande não foi uma transferência. Sou titular da 3ª Vara desde quando a mesma foi criada, em 1989. Estive em Ponta Porã apenas por designação do Tribunal, portanto, provisoriamente.

Minha Vara é especializada em lavagem de dinheiro e em crimes financeiros, com destaque para remessas ilegais ao exterior, e delitos conexos. Ele cobre todo o Estado, inclusive, portanto, Ponta Porã.

Balaio: Como está seu trabalho hoje? Sua vida voltou ao normal?

Odilon: Minha situação continua sendo a mesma em relação à segurança pessoal, uma vez que as atividades da minha Vara se chocam frontalmente com a criminalidade organizada.

Para você ter uma idéia, nos últimos três anos, a Vara possui um estoque muito grande de bens sequestrados do crime organizado: 600 veículos, 18 aviões, 86 fazendas, mais de 50 casas, mais de 30 apartamentos, 86 lotes urbanos, em torno de R$ 20 milhões apreendidos, etc.

Continuo, 24 horas por dia, andando com escolta da polícia federal, em carro blindado. Agentes dormem dentro da minha casa, já há cinco anos. Há um dormitório, uma espécie de posto polcial para eles. Na verdade, entre Ponta Porã e Campo Grande, mudou apenas o endereço.

Balaio:  Nos comentários enviados por leitores quando publiquei eta semana o seu drama vivido em Ponta Porã, há muitos elogios à atuação do juiz e críticas às instâncias mais altas da Justiça brasileira. Que análise o sr. faz do atual momento do Judiciário enquanto instituição. Situações como a que o sr. viveu em Ponta Porã ainda persistem em outros pontos do país?

Odilon: Não sei se em alguma outra parte do país existe algum juiz em situação semelhante quanto à segurança pessoal. Penso que não. Ameaçados, sim, sei que existem.

O Judiciário enfrenta uma fase bastante crítica. É necessário haver uma mudança na legislação processual, com o que o andamento dos processos seria mais rápido. A morosidade da Justiça a deixa desacreditada. Casos pontinuais de corrupção também.

Os tribunais estão muito distantes da realidade. Tem-se a impressão de que trabalham apenas com papéis, com números, deixando a sociedade como se esta fosse detalhe.

Balaio: Qual deveria ser, na sua opinião, o perfil do magistrado brasileiro hoje para bem cumprir suas tarefas, como o sr. vem fazendo?

Odilon: Com quase 30 anos no Judiciário, incluindo o período em que fui juiz estadual, penso que o perfil do magistrado deve ser outro. Deve haver uma mudança de mentalidade. O juiz não pode mais ficar trancado numa redoma, sem saber o que está acontecendo com o povo que ele julga.

O magistrado tem que se integrar na sociedade, conversar com o povo, fazer uso da imprensa, proferir palestras, comparecer a programas de televisão, etc. Em síntese, como tudo está globalizado, há a necessidade de o julgador se inserir nessa globalização.

O magistrado titular de uma Vara de lavagem não pode voltar seus olhos e ouvidos apenas para o que acontece no Brasil. Esse processo é transnacional. Assim sendo, o magistrado tem que possuir uma visão global sobre o assunto.

Diga-se o mesmo em relação ao juiz de família. Ele não pode conhecer apenas o que está dentro do processo, mas saber, em termos de fenômeno, o que provoca, por exemplo, tantas separações, divórcios, destruição de lares etc. Assim deve ser em todas as áreas. Em poucas linhas, esta é uma parte do perfil do novo juiz.

Abraços.

Odilon de Oliveira, juiz federal, Campo Grande-MS.

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/11/2008 - 17:45

Mídia em debate e um anúncio fúnebre

 A mídia, que tudo sabe, julga e contesta, não gosta de discutir a mídia, costuma dizer mestre Alberto Dines. Nossa imprensa quase nunca é notícia _ e não gosta que se fala dela. Jornais e jornalistas não aceitam esse negócio de ter o seu trabalho discutido, muito menos criticado ou regulamentado.

Mas há exceções. Amanhã, quinta-feira, dia 27, teremos um importante e raríssimo ( pelo peso dos participantes) evento para discutir o tema “Mitos e verdades sobre o Brasil de hoje _ A visão da mídia”. Local e horário: auditório do Jockey Club, no centro de São Paulo (rua Boa Vista, 280), a partir das 9h30.

Organizado pela Mega Brasil, do meu amigo Eduardo Ribeiro, participam do debate os diretores editoriais dos jornais Folha de S. Paulo (Otavio Frias Filho), O Estado de S. Paulo (Ricardo Gandour) e Josemar Gimenez (Correio Braziliense). Dos diretores dos principais jornais brasileiros, só ficou de fora Rodolfo Fernandes, de O Globo.  Os ingressos já estão esgotados.

Bem na véspera, por mais uma feliz coincidência, dou de cara com um antológico texto de Geneton Moraes Neto, repórter e editor do “Fantástico”, da TV Globo, um dos melhores e mais respeitados jornalistas brasileiros da sua geração.

A começar pelo título_ “Anúncio fúnebre: os jornalistas estão enterrando o jornalismo” _ , o artigo de Geneton, que reproduzo abaixo, é um libelo em defesa do jornalismo e de ataque aos jornalistas que estão matando, nas redações, aquela que considero a mais bela profissão do mundo.

Na mensagem que enviou junto com o texto, ele me escreveu que seu objetivo era mesmo “jogar gasolina na fogueira dos debates sobre a nossa profissão. Você sabe melhor do que eu, que aquilo tudo é verdade. Diria que fui até condescendente…”.

Geneton não poderia ter encontrado momento melhor do que este que antecede o inédito debate entre os diretores das nossas grandes redações. pode até servir de pauta para os participantes.

De fato, como ele diz, é tudo muito triste o que está acontecendo nas redações dos nossos jornalões, mas, infelizmente, é tudo verdade o que o Geneton escreveu.

Sua corajosa profissão de fé na profissão de jornalista ganha ainda mais valor por se tratar, não de um acadêmico frustrado ou um amargurado jornalista em final de carreira, mas de uma das estrelas do jornalismo, trabalhando da maior empresa de comunicação do país, no auge da sua carreira.

Já escrevi demais. É melhor ler logo o Geneton:

ANÚNCIO FÚNEBRE : OS JORNALISTAS ESTÃO ENTERRANDO O JORNALISMO!


                                                                    Geneton Moraes Neto

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

O jornal é de São Paulo.Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro.Eu disse “notícias interessantes” ? Em nome da verdade,retiro o que disse.

Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.

O que o jornal me dizia, nos títulos ? Que o São Paulo “abre cinco pontos sobre o Grêmio”. Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. “Chuvas em Santa Catarina matam 20″. Que novidade! “Obama divulga nomes de cargos-chave”. Que novidade! “EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup”. Que novidade!

Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.

Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.

De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era “novidade” para mim: “Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase”. Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pela mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo ? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta ? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?

Os autores dessas obras-primas ( primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso.
É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto “derrubar” uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer : “ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto”; “ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido” e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos ? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar – e oferecer ao publico – uma história ? Haverá sempre uma saída!

A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.

Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres ( um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei – de memória – uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nos zoológicos jornalísticos. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso ( zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar – por exemplo – providências estritamente “técnicas”: em vez de repetir papagaiamente(*) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia,sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV” ? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável – um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas…..o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança. Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É o que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia….

Estão loucos.

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.

(*)Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.

Em tempo: para quem quiser conhecer o blog do Geneton e conhecer algumas das belas entrevistas que ele fez:

www.geneton.com.br

 

  

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
26/11/2008 - 16:33

Uma volta ao mundo sem sair de S.Paulo

São Paulo faz pizzas melhores do que as de Nápoles, sushis melhores que os de Tóquio (…) São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia dúzia de paulistanos significa um italiano, um japonês, um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.  _ Washington Olivetto, em artigo publicado na Vejinha, no dia do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro.

Lembrei-me do texto do amigo ao receber mensagem da jornalista Marilda Varejão, minha colega de Grupo de Oração, que me mandou diretamente de Petrópolis, onde usufrui sua justa vida de aposentada, uma estatística de 2007, provando, com números, o tamanho da grandeza desta cidade tão amada e ao mesmo tempo tão odiada chamada São Paulo.

Se Olivetto fala da qualidade das nossas pizzas e sushis, Marilda dá as pantagruélicas quantidades: esta cidade de 10.434.252 milhões de habitantes consome 40 mil pizzas e 16.800 sushis por hora. A cada segundo, são efetuadas 10 compras pagas com cartões de crédito ou débito num território de 1.530 quilômetros quadrados (do tamanho de Cuba).

“Tem gente que pega no pé dos mano , mas há que se tirar o chapéu…”, escreveu ela, que trabalhou muitos anos aqui, mas é de uma família carioca da gema. Os grandes números de São Paulo:

* A taxa de alfabetização está em 95,4% da população.

* O PIB é de R$ 76 bilhões.

* São mais de 70 shopping centers, que recebem 30 milhões de pessoas por mês.

* Por aqui circulam mais de 30 mil táxis (Londres tem 20 mil).

* Um em cada dois habitantes têm carro: são 5,5 milhões rodando por suas ruas congestionadas.

* 2,5 milhões de pessoas por dia são transportadas pelas quatro linhas do sistema de metrô, que tem apenas 57,6 quilômetros.

* Piscam mais de 5.500 semáforos nos cruzamentos.

*A cada dia, meio milhão de pessoas passa pela rua 25 de Março (nos dias que antecedem o natal, este número dobra).

* Vivem na cidade 60% de todos os milionários do Brasil.

* São mais de 200 hospitais…

* …120 teatros e casas de show…

* …70 museus…

* … 70 mil eventos por ano…

* … 100 peças teatrais em cartaz por semana…

* … 1.500 agências bancárias…

* … 830 jatos particulares.

* É a maior cidade de população japonesa fora do Japão…

* … portuguesa fora de Portugal… 

* … e a terceira maior cidade italiana do mundo.

Por tudo isso, o grande Washington Olivetto, legítimo campeão da segunda divisão, escreveu em seu artigo:

“São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Paris no Largo do Arouche, Salvador na Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do Teatro Municipal, Munique em Santo Amaro, Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana Olinda na Freguesia do Ó”.

Dá para dar uma volta ao mundo sem sair daqui… 

 

 

   

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:
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