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25/10/2008 - 15:44

Artigo/Frei Betto: O Deus mercado pede perdão

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Recebi agora e partilho com os caros leitores do Balaio um brilhante artigo do meu amigo Frei Betto explicando esta crise do dinheiro que ameaça quebrar o mundo.
É o texto mais didático que já li sobre a crise e acho que deveria ser divulgado nas escolas, nas fábricas e nos escritórios para que todos possam entender as raízes desta crise e suas consequências para todos nos.

PEÇO DESCULPAS 

Frei Betto 

Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, as economias familiares, o capital de seus empreendimentos.Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos – os economistas neoliberais – saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés. Fiz governos e opinião pública acreditarem  que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade.

Reduzi todos os valores ao cassino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização.

Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me. Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante. Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e que o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezenove anos.

Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período.

Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação.

Para contê-la, o governo subiu os juros… e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou.

Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro.

Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado!

Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores.

Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e terão que repensar suas políticas econômicas.Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência.

Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.

Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel. 

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros. 

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog Tags:

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91 comentários para “Artigo/Frei Betto: O Deus mercado pede perdão”

  1. Bento Bravo disse:

    Prezado Ricardo, bom dia.

    Apenas para agradecer a oportunidade de poder ler um texto ma-ra-vi-lho-so como esse do Frei Beto no seu blog. Não fosse ele e, com toda a certeza, passaria em brancas nuvens. Ou Estadão, Folha ou Veja abririam seu “nobre” espaço para uma preciosidade destas?

    Forte abraço e que amanhã à noite (vou fazer o possível para estar lá) seus amigos possam reforçar em você a convicção de que, no final das contas, ser honesto, e amigo dos amigos, ainda vale à pena.

  2. Cristovam disse:

    Senhores, vou lhes contar uma fábula. Um certo agricultor foi para
    roça com um facão bem amolado, mas com o uso ele foi cegando e começou a prejudicar a produção do agricultor. Ele lembrou que perto da roça tinha dois amoladores e foi no mais próximo, claro. Mas o amolador ao invés de passar as laterais do facão na pedra, no intuito de afiar o corte, ele passava o fio do facão na pedra. O agricultor voltou e começou a roçar, mas o mato apenas deitava e não era cortado, então ele resolveu ir no outro amolador e este amolou o facão pelas laterais afinando o fio e claro, o facão voltou a cortar.

    Conclusões:
    Primeira: os modelos, como o facão, se desgastam e perdem provisóriamente a eficiência.

    Segunda: os dois amoladores tem o mesmo intuito, fazer com que o facão corte o mato, só que o jeito do primeiro não funciona

    terceira: o tempo gasto para chegar no primeiro é menor e por isto a tarefa aparentemente mais fácil, para chegar no segundo mais longe por isto aparentemente mais difícil.

    Moral: O Primeiro amolador é o Socialismo, o segundo o capitalismo……

  3. Cristovam disse:

    Vou dizer umas coisitas que todos podem entender:

    Comprei uma linha telefônica em 1980 por $ 5.000,00 (cinco mil dólares), é isso mesmo. Passei cinco anos pagando e passei dois anos esperando a instalação do aparelho. Vendi as ações desta linha por $ 180,00 (cento e oitenta dólares), quando o mercado estava louco atrás delas.
    Comprei uma linha telefônica em 2004, paguei R$ – 80,00 (oitenta Reais), liguei para concessionária as nove horas da manhã e as três da tarde do dia seguinte o aparelho esta instalado e funcionando.

    Ora faça-me um favor, abram os olhos, defender o monopólio estatal ou se é maluco ou muito cínico. Parem com isso gente…

  4. Cristovam disse:

    Fábio Ferraz….

    A crise financeira existe todos os dias em em todos os lugares e a intervenção dos governos não vai resolver nada, não vai solucionar nada, a não ser satisfazer o ego de alguns esquerdistas, tipo esse frei que nem é mais frei, o que realmente vai resolver a crise é a ação humana, independente de qualquer que seja os políticos de plantão, nos EUA, Na CHINA, Na EUROPA ou em qualquer outro lugar. Será até quando que as esquerda do mundo vão continuar iguais a corujas, ou seja, quanto mais claro menos eles enxergam.

  5. Enio Barroso Filho disse:

    Se eu tivesse uma foice e um martelo na mão nesse instante eu ia pra cima desse Cristovan, a foice eu nem amolava, cortava-lhe a lingua sem o fio mesmo e quanto ao martelo eu não seguraria pelo cabo para que sentisse a utilidade que eu estou imaginando.
    Foi assim que os “Czares Cristovams” foram tratados pelos trabalhadores durante a Revolução Sovietica em 1917.
    Do mesmo jeito que voce vem aqui contar a sua “fábula estupida”, deste liberdade para eu tambem contar a minha.
    Depois de batido o ultimo prego no caixão do neoliberalismo e na economia de mercado, por conta da crise atual, volta tudo como era antes, é ideologia, ideologia e ideologia. É nóis de baixo contra voces de cima.
    E TENHO DITO

  6. Lugar de Padre é na igreja! disse:

    Dissidente de primeira hora do governo Lula, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo está apostando numa ressurreição. A ressurreição do PT, o partido que, segundo ele, perdeu o rumo de casa por culpa dos dirigentes que afastaram a legenda das bases e a empurraram pela ladeira dos escândalos. Um dos fundadores do partido, Frei Betto tornou-se um dos principais conselheiros de Lula, subiu com ele a rampa do poder e teve direito a sala particular no quarto andar do Palácio do Planalto. Ali, atuou na organização do projeto Fome Zero, um de seus orgulhos. E ali também sofreu suas maiores decepções com o governo e o presidente, a ponto de pedir para sair da equipe no final de 2004. Sucumbiu porque não entendia o motivo de “tanta ortodoxia” na política econômica.
    Vai rezar Frei, vai rezar pra escapar do inferno!

  7. O padre que queria mais! disse:

    Frei Betto, assessor importante de Lula, ficou revoltado de não sair dessa condição de assessor!
    Conversou muito sobre o assunto com o presidente Lula. Como o presidente Lula ouviu mas não tomou providências, depois de algum tempo, pediu demissão. totalmente decepcionado com o patrão e para se vingar escreveu um livro.
    Conta histórias que não deveria contar, mas o critério, a decisão, e os direitos autorais pertenciam a ele, só ele poderia ser o promotor e o juiz da sentença de publicar.
    Textual no livro: ‘Uma vez o presidente Lula me pediu que ‘arranjasse’ (a palavra exata) um negro que pretendia indicar para ministro do Supremo. Um dia, no aeroporto, me apresentaram a um “negro advogado”, perguntei a ele se queria ser ministro do Supremo’.
    Conhecendo o país onde nasceu e vive, Joaquim Barbosa, sem saber quem era Frei Betto, ficou indignado. Revoltado, disse que não admitia ser gozado dessa maneira. Frei Betto mostrou a incrível carteira de assessor do Planalto e do presidente, acalmou o advogado, respondeu: ‘É verdade, o presidente quer nomear um negro para o Supremo, vou indicar você’.
    Não estão em dúvida as credenciais de Joaquim Barbosa, o seu possível e exigido ‘notável saber jurídico e ilibada reputação’, pois nada disto fazia a menor diferença, era só ser negro, nunca pensaram em examinar o brilhante curriculun do advogado, nada foi examinado. Joaquim Barbosa viajou para o destino inicial já garantido como ministro do Supremo. (Ainda bem que não voou pela TAM ou pela GOL.)
    Joaquim Barbosa está com o processo contra os 40 mensaleiros, desde maio de 2005. Levou portanto mais de 2 anos para colocar em pauta, hoje, a denúncia do procurador geral a respeito de um dos momentos mais corruptos de toda a história brasileira. É lógico que o Supremo receberá a denúncia do procurador geral, julgará os 40 personagens acusados de corrupção e muitos outros crimes correlatos.

  8. Papa! disse:

    Frei Betto é defensor dos regimes totalitários espalhados pelo mundo, relativiza o genocídio de milhões de inocentes em nome do socialismo, e é unha e carne com o ditador Fidel Castro. Além disso, em várias oportunidades tentou justificar os atentados terroristas de 11 de setembro. Acha normal a existência dos homens-bomba e a sanha odiosa que professam contra o ocidente. E foi assessor direto de Lula, o presidente de um governo que criou o “mensalão”, o maior esquema de roubalheiras que se tem notícia até hoje.

    Cuidado senhores pais. Cuidado. Seus filhos não são massa de manobra de ressentidos ideológicos.

  9. Puxa…bom debate…

    Robson

  10. nicanor amaro silva neto disse:

    Esse hábito de “carimbar” quem quer que seja, é a perniciosa herança da “cabeça pequena” aquela que se convencionou chamar de tucano .
    Os “comentaristas” de blogs para serem respeitados precisam respeitar primeiro. O contraditório é mais do que necessário numa democracia que está sendo construída de tijolinho em tijolinho. Ainda estamos muito longe do ideal, mas existe luz no fim do tunel. Benditos contraditórios, porém não precisam ser tão ácidos. O cotovelo fica muito inchado se a “dose” não for bem administrada…

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