Arquivo de outubro, 2008
31/10/2008 - 10:11
A melhor coisa que me aconteceu desde que parei de fumar na hora do almoço de quarta-feira, dia 29 de outubro de 2008, foi ler os comentários que voces me enviaram. Deve ser mesmo algo tão importante na vida das pessoas que muitos leitores começaram suas mensagens assim mesmo, com o dia, o mes, o ano e até a hora em que pararam com o cigarro.
Tem de tudo: depoimentos comoventes de pessoas contando como sofreram para parar de fumar, de outras que precisam parar e não conseguem ou contando o que mudou nas suas vidas depois que largaram o cigarro, e muita gente me dando parabéns e desejando boa sorte.
“Parece até que foi teu aniversário”, comentou uma leitora bem humorada. Foram tantos comentários, mais de 150 até a hora em que comecei a escrever este post, que só me lembro de alguns.
Ainda estou meio zonzo, suei muito à noite, acordei mais cedo do que de costume, a dor de cabeça incomoda, mas vamos lá, que o blog não pode parar. É só tomar água, muita água, que vai…
Vale a pena, para quem não leu o texto publicado ontem sobre “O que muda na vida de quem pára de fumar”, entrar no Balaio só para ver os comentários. Sempre dá para aprender com a experiência dos outros.
Desde o primeiro, da Vanda, que entrou às 17h01, desta vez nem teve muita polêmica entre leitores, muito menos baixarias, ao contrário do que ocorre em outros sítios (agora virou moda os próprios blogueiros estimularem debates escatológicos).
Apesar de se tratar de um tema pesado e desagradável, pelo menos pra mim, o alto astral de tantos testemunhos aqui publicados tornou mais leves estas primeiras horas de abstinência, que não são fáceis para quem fumou dois maços por dia durante 48 anos (algo próximo a 270 mil cigarros, se não errei na conta).
“Foi a melhor coisa que fiz em minha vida”. Você vai conseguir”, escreveu a ex-fumante Vanda. O leitor Adriano, que postou seu comentário hoje, às 08h24, resumiu bem o sentimento de liberdade e independência de que falam os que pararam de fumar:
“Pois é. Parar de fumar é uma sábia decisão. Parei de fumar e com o dindim dispensado pro cigarro comprei uma bicicleta. Hoje esta mesma bicicleta me leva para lugares que nem os comerciais de cigarro me levariam”.
Ainda não consegui fazer as caminhadas recomendadas pelo tratamento e pelos leitores, mas chegarei lá. Uma coisa de cada vez… A melhor notícia veio de uma leitora que informou ter feito gratuitamente no SUS o tratamento para parar de fumar, com médicos especializados e até uma psicóloga.
O leitor Everaldo, freguês antigo e constante deste espaço, sugeriu até transformar o Balaio num ponto de encontro “para nos auxiliarmos mutuamente neste objetivo de parar de fumar”. Está liberado.
Quando já ia encerrando este texto, minha mulher, que parou de fumar junto comigo, veio me mostrar o jornal. Leio na página C6 da Folha:
“SUS e INSS gastam R$ 37 milhões por ano com fumo passivo _ Infarto e angina, doenças ligadas ao fumo involuntário, custam 12,2 mi ao SUS”.
Bem, agora, que já não me sinto mais responsável por estas doenças passivas nem pelas despesas que elas geram, gostaria de fazer apenas uma pergunta.
Este dinheiro não seria melhor aplicado se, em vez de combater as consequências, o sistema público de saúde o usasse para fazer uma campanha divulgando os tratamentos que o SUS já oferece gratuitamente para quem quer parar de fumar?
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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30/10/2008 - 16:42
Parece que o mundo virou de cabeça pra baixo e começou a rodar ao contrário, tudo muito estranho. O QI, que já não era dos maiores, deve estar agora com registro negativo. Quase fui atropelado na esquina de casa, não consigo nem prestar atenção direito no que leio ou escuto, quanto mais escrever com a rapidez habitual. Está difícil.
Agora há pouco completei 24 horas sem fumar. Já tinha passado pela mesma experiência outras vezes, mas foi em consequência de problemas graves de saúde e, simplesmente, porque no hospital era proibido fumar.
Desta vez, é diferente, estou em casa. Não tenho nenhum problema de saúde, fui aprovado em todos os 42 exames que os médicos me mandaram fazer recentemente. Até a chapa do pulmão estava beleza.
Por que então resolvi parar? Eu mesmo sempre achei que as pessoas só param de fumar no susto, como aconteceu comigo das outras vezes, quer dizer, quando um grave problema de saúde te obriga a cortar o cigarro de uma hora para outra.
Mas agora a razão foi bem diferente e mais assustadora: a pressão familiar, que me impediu de fumar até dentro da minha própria casa, e esta ofensiva social, oficial, midiática, legislativa e o escambau, que proibiu o cigarro em praticamente todos os outros lugares.
As pessoas parecem não ter mais outro assunto. Bastava alguém me ver acendendo um cigarro para se deflagrar aquela conversa interminável sobre os males do fumo, não só para quem fuma, claro, mas para toda a humanidade, a saúde pública e a camada de ozônio, etc…
Quando minha mulher, que também fumava e tinha os mesmos problemas de rejeição na família e na sociedade, me trouxe há algumas semanas o folheto de um instituto especializado no “tratamento do tabagismo”, achei que tinha chegado a hora de tomar uma providência radical.
No mesmo dia, ela agendou a consulta e, ontem, na hora marcada, fomos lá os dois, por absoluta falta de alternativa: para sobreviver no mundo de hoje, era parar ou parar de fumar.
Ouvimos junto com mais algumas pessoas, durante mais de uma hora, as explicações dadas pelo dono do instituto sobre o tratamento que consiste na introdução de cristais em pontos da orelha depois protegidos por um micropore (espécie de esparadrapo).
Teve gente hoje que já me falou que, na verdade, o que colocam na nossa orelha não são cristais, mas sementes de alface. Seja como for, do que deu para entender da palestra e me lembro, o método foi desenvolvido por acupuntiristas na França para o tratamento de usuários de drogas e é aplicado no Brasil, há mais de 30 anos, no combate ao tabagismo, com bons resultados. Eles garantem que o tratamento inibe a vontade de fumar, em mais de 70% dos casos.
Ao sair do consultório em Higienópolis, fiz de conta que estava embarcando para uma longa viagem de avião ao exterior _ assim, pelo menos, me conformaria em não poder fumar mais, pelo menos até o dia seguinte.
Segui rigorosamente as recomendações: tomar muita água (10 a 12 copos por dia) e não tomar café, coca, chá e bebidas alcoólicas durante 15 dias (até cair o micropore protetor).
Tomei um comprimido do único remédio recomendado, um fitoterápico para combater a ansiedade e a insônia, botei uma bermuda e fui ver o jogo do meu São Paulo contra o Botafogo já como ex-fumante.
Dormi antes de começar o segundo tempo, quando o jogo ainda estava 0 a 0 (ganhamos por 2 a 1 e ainda vamos acabar faturando este campeonato), e nem vi a volta da minha filha à TV no SBT Repórter.
Acordei chumbado, com dor nas pernas, já pensando em ir para a área de serviço para fumar o primeiro cigarro do dia, um ritual que não há mais. O café foi trocado pelo suco de laranja e acompanhei com suco de tomate o belo vinho italiano tomado pelos amigos no almoço.
Em compensação, me dispensaram de pagar a conta, já que não tomei vinho, e assim fui embora antes do café para poder escrever logo este texto. Sinto-me agora como aquele sujeito que pulou do décimo andar e, ao passar pelo quinto, comentou:
“Até aqui, tudo bem!”
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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30/10/2008 - 11:11
A campanha de Barack Obama está podendo: ontem à noite, comprou meia hora no horário nobre da televisão, por um valor calculado entre 3 e 5 milhões de dálares, para exibir uma propaganda-documentário de 30 minutos louvando o candidato democrata em sete emissoras no mesmo horário.
E de onde vem esse dinheiro todo?, logo perguntaria um repórter investigativo da imprensa brasileira. Para quem já arrecadou _ oficialmente, em caixa um _ mais de U$ 660 milhões, a despesa com a Rede Obama de TV foi troco.
Esta montanha de dinheiro veio, principalmente, das pequenas contribuições de pessoas físicas via internet. Como li na coluna de Fernando Rodrigues, na Folha, Obama já recebeu recursos desta forma de mais de 3 milhões de doadores, muitos contribuindo com menos de 100 dólares.
Além de facilitar e multiplicar a arrecadação de recursos, a campanha de Obama mostrou ao mundo e aos candidatos do futuro a importância da internet em todos os campos das campanhas eleitorais, do dinheiro à propaganda, da mobilização de militantes para os eventos às respostas rápidas aos ataques dos adversários.
No Brasil, há esperanças de que, em 2010, finalmente, como já sinalizou o presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, a livre expressão de idéias e a propaganda política sejam permitidas na internet, assim como a arrecadação de doações para as campanhas eleitorais.
Por ironia do destino, enquanto muitos responsabilizam a internet pela queda de audiência das grades redes de televisão no Brasil, nos Estados Unidos, a campanha de Obama gasta na TV parte da bolada que arrecadou pela web.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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29/10/2008 - 09:10
Ela ficou 11 anos na TV Globo, onde trabalhou em vários telejornais, no Fantástico e passou dois anos no Ceará fazendo reportagens para o Jornal Nacional. Gostava tanto do que fazia, e os colegas gostavam tanto dela, que cheguei a pensar que iria se aposentar na emissora.
Só que aí vieram os três filhos, um atrás do outro, e ela simplesmente não conseguia mais conciliar os horários de trabalho com as obrigações de mãe.
No começo deste ano, tomou uma decisão muito difícil para profissionais como ela: resolveu não renovar seu contrato com a Globo e não foi para nenhuma outra empresa. Foi cuidar dos filhos.
Fez alguns frilas para ajudar nas despesas de casa e começou a produzir com antigos colegas um programa independente voltado para as mães, que está com o piloto pronto. Recebeu várias propostas para voltar à TV, mas não queria nem podia mais trabalhar no jornalismo diário.
Até que um dia cedeu à sua velha paixão pela reportagem. O SBT, onde ela começou ainda menina, logo que entrou na faculdade, a convidou para fazer uma reportagem por mês, sem horário nem contrato fixo, e ela ficou feliz da vida com a proposta. Topou na hora.
Ela é Mariana Kotscho, 35 anos, minha filha mais velha, e seus filhos são por acaso meus netos queridos, Laura, Isabel e André. E, hoje, às onze e meia da noite, ela volta ao ar com um programa especial do SBT Repórter sobre a eterna juventude.
Abaixo, o texto da chamada do programa que ela me mandou e pediu para repassar aos leitores deste Balaio:
“O SBT Repórter vai em busca da eterna juventude. Como viver mais e melhor?
Comer, meditar, manter corpo e mente na ativa.
A repórter Mariana Kotscho revela os caminhos para o elixir da vida.
O segredo da longevidade _ que não custa nada _ ensinado pela arte marcial e pela natureza.
Tinoco, 88 anos. O ídolo da música sertaneja tem agenda lotada e fôlego de menino.
Seu Chiquinho. Aos 91 anos ele quer sair de férias. Mas só depois dos 100.
A clínica que atende apenas centenários.
E as pequenas porções de comida que nos ajudam a ir mais longe.
Fusae e Reiko. Duas jovens senhoras que tiram a maior onda aos 78 anos de idade.
E o que você faria se pudesse viver mil anos? Um cientista inglês explica como ainda seremos milenares.
Nesta quarta, onze e meia da noite, no SBT Repórter”.
Não percam!
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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28/10/2008 - 11:06
Um ano depois da primeira tentativa, incontáveis trocas de e-mails e telefonemas, e uma tragédia familiar no meio, finalmente meu amigo Augusto Diniz, jornalista e produtor musical dos bons, conseguiu trazer o cantor e compositor Riachão, grande sambista baiano, de volta a São Paulo.
Nos dias 7 e 8 de novembro, sexta e sábado da semana que vem, ele estará se apresentando no palco do Sesc Pompéia. Todas as dificuldades enfrentadas pelo produtor para trazer a São Paulo o show deste notável artista popular, desde o final de 2007 até a semana passada, ele conta no texto enviado para os leitores do Balaio, que publico abaixo:
No final do ano passado, o departamento de programação musical do Sesc Pompéia me telefonou perguntando se gostaria de produzir um show do cantor e compositor Riachão. Ele seria uma das atrações dentro de um projeto extenso, que aconteceria em janeiro e fevereiro na unidade, com a presença de músicos de diversos gêneros.
Topei na hora. Porém, tinha um primeiro desafio. Falar com a pessoa certa. Antes, o Sesc Pompéia não tinha obtido sucesso nessa empreitada. Apareceram duas pessoas se anunciando empresários do artista e cobrando os tubos para ele cantar em São Paulo.
No entanto, consegui contato com a sua filha caçula. Depois de alguns dias de negociação, acertamos o cachê de Riachão, acompanhante de Salvador a São Paulo, já que a sua idade (dia 14 de novembro ele faz 87 anos) e a saúde não permitem que se desloque sozinho por aí. Definimos o roteiro musical (algumas músicas não tinham nem registro), hospedagem etc..
O ano virou e nos primeiros dias de janeiro liguei para a filha do Riachão para darmos prosseguimento à produção do show. Riachão se apresentaria logo após o Carnaval. Tentei contato por telefone uma, duas, três vezes, e nada. Liguei para um amigo de Salvador e ele me esclareceu: uma tragédia abateu a família de Riachão.
Em uma nova tentativa de contato com a filha, por e-mail, consegui saber o que houve. Num relato comovente, ela escreve que a mãe, a irmã e o marido dela, e a cunhada sofreram um acidente de carro no Rio e todos morreram. Um irmão dela, que também estava no veículo, faleceu dias depois. Sem a mulher e dois filhos, a família de Riachão estava destroçada. E, eu, estarrecido.
Trocamos mais alguns e-mails. Sofrimento, dor, abalo, busca de força divina e incredulidade. As mensagens caminhavam pelos significados dessas palavras, em um tom de dramaticidade angustiante.
No meio deste ano, tentamos novamente reagendar o show que havia sido cancelado por conta da tragédia familiar. Nada feito. A dor tinha tomado conta do mais representativo sambista da Bahia. Já não se sabia mais se um dia ele voltaria a cantar.
Clementino Rodrigues, o Riachão, nasceu na Língua de Vaca, bairro do Garcia, em Salvador. Seu modo peculiar de compor tem características de crônica. Em suas letras, quase sempre irreverentes, apresenta o povo baiano a partir da antiga Salvador, com suas baianas, malandros e capoeristas atrevidos.
Riachão foi o primeiro compositor da Bahia a ser gravado no Rio de Janeiro após Dorival Caymmi, ainda na década de 50. As músicas foram “Meu patrão”, “Saia rota” e “Judas Traidor”, interpretadas por Jackson do Pandeiro.
Nos anos 70, Riachão teve um samba proibido pela censura. A música se chama “Barriga Vazia” cuja letra fala sobre a miséria: “Eu de fome vou morrer primeiro / Você, de barriga cheia, também, vai morrer um dia”.
Em 2001, o diretor Jorge Alfredo lança o filme “Samba Riachão”, realizando uma viagem pela história da música popular brasileira, através dos olhos de Riachão. Um punhado de artistas do primeiro time da MPB participa do filme.
Seus registros fonográficos incluem os discos “O Samba da Bahia” (1973; c/ Batatinha e Panela), “Sonho do malandro (1981)” e “Humanenochum (2000)”. O sambista tem ainda composições gravadas por Caetano Veloso (“Cada Macaco em Seu Galho”), Cássia Eller (“Vá Morar com o Diabo”), dentre muitos outros.
Em outubro, a pedido do Sesc Pompéia, retomei o projeto de tentar trazer Riachão para São Paulo. As minhas esperanças eram parcas. Esperava tudo, menos que ele aceitasse fazer o show. Mas Riachão topou. O sobrinho que está cuidando da produção dele disse que há alguns dias lembrou de mim e estava mesmo querendo conversar comigo. Fechamos tudo então, finalmente para valer.
Feliz, aliviado e emocionado, informo que nos dias 7 e 8 de novembro (sexta-feira e sábado da semana que vem), a partir das 21 horas, Riachão, ao lado de outros três expressivos sambistas baianos — Mariene de Castro, Nelson Rufino e Roberto Mendes —, se apresenta no Sesc Pompéia (rua Clélia, 93), em São Paulo.
O projeto, intitulado “Bahia de todos os sambas”, mostrará as diferentes variáveis do gênero na Bahia — partido alto, samba de coco e samba do recôncavo. Riachão vai estar de novo com a gente. Não foi fácil, mas valeu a pena.
Serviço:
“Bahia de Todos os Samboas” _ Sesc Pompéia _7 e 8/11 _ 21 horas
Projeto que apresenta quatro importantes expressões do samba da Bahia e suas variáveis _ partido alto, samba de coco, samba do recôncavo e samba canção _ com a participação de quatro artistas baianos: Riachão, Nelson Rufino, Roberto Mendes e Mariene de Castro.
Preços: R$ 16,00 (inteira); R$ 8,00 (usuário matriculado no Sesc e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculados no Sesc e dependentes).
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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27/10/2008 - 17:45
Com a entrevista exclusiva do presidente Lula, o Balaio encerra sua participação na cobertura da campanha eleitoral no iG. Confesso que a disputa política não é o assunto que mais me atrai. Mas não tem jeito: de dois em dois anos, a democracia prevê eleições no calendário.
Agradeço a todos os leitores/comentaristas pela paciência com que acompanharam esta cobertura ao longo de dois meses. Ganhou quem tinha que ganhar, perdeu quem tinha que perder, e nada melhor agora do que mudar de assunto. A partir de amnahã, vamos virar o disco. A vida continua.
Daqui a pouco vou desligar o computador e ir para a festa de entrega do Troféu Especial de Imprensa da ONU, no Tuca, o teatro da PUC, a cinco jornalistas brasileiros pelo conjunto da obra, em comemoração aos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos.
Sou um deles, ao lado dos bravos colegas Caco Barcellos, José Hamilton Ribeiro, Zuenir Ventura e Henfil, que já não está entre nós, porque foi embora antes da hora. O melhor da história é que fomos escolhidos em eleição direta pelos mais de 500 vencedores do Premio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que hoje completa 30 anos.
Aproveito para cumprimentar Mario Magalhães e Joel Silva, da Folha de S. Paulo, que ganharam o Herzog de reportagem em jornal deste ano, com “Os anti-heróis, o submundo da cana”.
É um dos melhores trabalhos que li nos últimos tempos, mostrando que denunciar o desrespeito aos direitos humanos ainda é um desafio para todos nós, jornalistas, três décadas após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes do regime militar.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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27/10/2008 - 10:24
Apurados os votos, no dia seguinte à eleição cada um faz suas contas de quem ganhou e quem perdeu. Políticos e jornalistas de todas as latitudes fazem suas análises sobre os resultados.
Achei melhor para os leitores do Balaio ouvir a opinião de quem entende de política um pouco mais do que eu: o presidente da República, meu amigo Luiz Inácio Lula da Silva.
Logo cedo, ele me recebeu contente da vida, no escritório da Presidência da República em São Paulo, num prédio na esquina da rua Augusta com avenida Paulista. É que hoje Lula faz aniversário (63 anos) e, assim que saiu do elevador, encontrou amigos, assessores, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e um bolo de chocolate com morango.
De roupa esporte, com sua jaqueta predileta que tem o brasão da República, ele me levou até a sua sala. Enquanto o presidente comia um pedaço de bolo, falamos só de dois assuntos _ a eleição de domingo e a crise econômica sem data para acabar.
Em seguida, ele teria uma importante reunião com Meirelles para fazer um balanço dos efeitos da crise econômica no Brasil e no mundo. Falariam também sobre a importante reunião do G-8 ampliado, no próximo dia 15, em Washington, para a qual Lula foi convidado pelo presidente George Bush.
Os dois assuntos acabaram se misturando no meio da conversa, quando Lula criticou quem joga na crise para tirar dividendos políticos com vistas à eleição de 2010.
“Lamentavelmente, temos um grupo de pessoas no país que está pedindo a Deus para que a crise chegue logo ao Brasil para desgastar o governo. O que é uma enorme imbecilidade. O Brasil não merece ser prejudicado porque nós fizemos as coisas certas e não temos que pagar pelos erros dos outros”.
A seguir, a entrevista com o presidente Lula:
Balaio: Está todo mundo hoje fazendo contas e análises sobre quem ganhou as eleições municipais. Para o Presidente da República, qual foi o resultado mais importante?
Lula: Quem ganhou estas eleições foi o processo democrático brasileiro. Foi mais uma eleição que transcorreu da forma mais tranquila possível. E foi uma eleição atípica porque todos os candidatos, do DEM ao PT, defenderam as parcerias com o governo federal. Como o povo está satisfeito, ganharam todos os prefeitos de capitais que disputaram a reeleição, menos o Serafim Corrêa, em Manaus. O povo mostrou que sabia o que queria. Quer manter as obras que estão em andamento em cada cidade.
Balaio: Mas, do ponto de vista dos partidos, quem cresceu e quem perdeu votos nestas eleições?
Lula: Três partidos perderam: DEM, PSDB e PPS. Os três partidos da oposição foram os que perderam mais prefeituras. E os partidos da base do governo todos eles cresceram: PT, PMDB, PSB, PCdoB, PP, PTB, todos.
Balaio: Em número de votos e de prefeitos o grande vencedor foi o PMDB, que agora está sendo apontado como o fiel da balança para a sucessão presidencial em 2010.
Lula: Ainda é muito cedo para tirarmos conclusões sobre os resultados de domingo. Eu não trabalho assim com esta antecedência porque em política as coisas não funcionam automaticamente, uma eleição definindo a próxima. Eu me lembro do Mário Covas que teve uma grande votação para senador em São Paulo e foi apontado como futuro presidente da República, mas ficou em quarto lugar, em 1989. Quando o Quércia fez do Fleury seu sucessor em São Paulo, também saiu em capa de revista como futuro presidente, mas teve só 5% dos votos, em 1994. Não dá para fazer uma ligação robotizada entre 2008 e 2010. É incorrer num grande erro. Cada eleição tem sua própria história, seus próprios candidatos, uma é diferente da outra. É como no futebol. Eleição presidencial é um clássico, e clássico não tem favorito…
Balaio: Vamos mudar de assunto, presidente. A eleição já passou e agora todo mundo quer saber como ficará sua vida diante desta crise econômica globalizada. O que vai acontecer com o mundo? O que vai acontecer com o Brasil?
Lula: Com o mundo, eu não sei o que vai acontecer… A única coisa certa é que vamos ter esta importante reunião em Washington no dia 15 de novembro em que deverão ser tomadas medidas para controlar o sistema financeiro internacional. Temos que fazer a regulação porque ninguém pode brincar com a economia, a ponto de causar prejuízos para todas as pessoas do mundo, sem produzir nada, apenas com especulação.
Balaio: E como fica o Brasil nesta história?
Lula: Teoricamente, esta crise pode causar problemas ao Brasil, mas numa escala bem menor do que em outros países. No Brasil, temos um sistema financeiro mais sólido, não envolvido no sub-prime. Temos um mercado interno ascendente, com muitas obras financiadas pelo governo federal e por grandes empresas, como a Vale do Rio Doce e a Petrobras, que não vão diminuir seus investimentos. Temos uma exportação hoje muito diversificada, não dependendo apenas de um ou dois países. Agora, sabemos que está faltando crédito no mundo. Não há mais confiança entre os bancos, sequer para funcionar o interbancário (empréstimos de um banco a outro). Mas também neste aspecto o nosso governo, com suas reservas e o compulsório, com bancos públicos bastante sólidos, pode ajudar a combater os efeitos da crise. A Caixa, o Banco do Brasil e o BNDES vão cuidar de irrigar de crédito a economia.
Balaio: O que você diria para um cidadão brasileiro que te perguntasse se deve fazer um investimento ou esperar um pouco?
Lula: Falaria para ele investir. Outro dia, um sobrinho meu, o Rogério, que é caminhoneiro, veio me fazer esta pergunta. Ele estava na dúvida se deveria comprar um caminhão novo. Falei para ele: compra o caminhão.
Balaio: Mas nem todo mundo pensa assim. Alguns políticos e analistas econômicos já estão anunciando que a crise do fim do mundo está chegando por aqui e vai influir em 2010 …
Lula: Lamentavelmente, temos um grupo de pessoas no país que está pedindo a Deus para que a crise chegue logo ao Brasil para desgastar o governo. O que é uma imbecilidade, porque o Brasil não merece ser prejudicado. Nós fizemos as coisas certas e não temos que pagar pelos erros dos outros.
Balaio: Para terminar a nossa conversa, presidente: o que você gostaria de ganhar de presente de aniversário?
Lula: Já ganhei no sábado… O meu Coringão voltou pra primeira divisão…
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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26/10/2008 - 21:54
O publicitário Lula Vieira, o Washington Olivetto dos cariocas, é meu amigo. Aos 61 anos, paulista da Lapa, fez sua carreira de muito sucesso no Rio. Já a meio caminho do primeiro turno, entrou de cabeça na campanha de Fernando Gabeira.
Pedi a ele no começo da semana que me contasse como foi por dentro esta campanha absolutamente fora dos padrões da política brasileira _ os bastidores, as dificuldades, as discussões internas, a luta para chegar ao segundo turno, a onda que se formou nas últimas semanas indicando que era possível ganhar.
Hoje, bem no dia da eleição, ele arrumou um tempinho para me escrever. Tentou o dia todo falar comigo, mas meu celular não estava funcionando. Só agora, quase 11 da noite, recebo este belo depoimento de Lula Vieira, que repasso aos leitores do Balaio. Nele ficamos sabendo como Gabeira perdeu, mas ganhou as eleições no Rio:
“Escrevo ao meio dia de domingo, antes de encerrar a votação aqui no Rio de Janeiro, com as pesquisas de intenção de voto indicando empate técnico entre os dois candidatos a prefeito, Fernando Gabeira e Eduardo Paes.
Trabalhei para Gabeira desde quando ele tinha 4% das intenções de voto e era um candidato tão pequeno que nem mereceu ser entrevistado pelo RJTV, que restringia o supremo prestígio de ser ouvido pelos repórteres àqueles que tivessem algo acima de 5% das intenções de voto.
Invariavelmente Gabeira aparecia na condição de “outros” quando os jornais e as emissoras de televisão falavam dos candidatos. O que mais ouvi neste mês de agosto foi que sem dúvida Gabeira era o melhor nome para a Prefeitura, mas que infelizmente não teria a menor chance.
Os eleitores mais conscientes tratavam de escolher “o menos pior” entre os que poderiam ganhar, Jandira Fegali, Bispo Crivella e Eduardo Paes. Essa difícil e desanimadora escolha ficava entre Jandira e Paes, pois “Crivella nunca”, pelo menos na ótica – como eu já disse – dos mais conscientes. Ou dos mais bem informados, sei lá.
Uma revista semanal, acredito que a IstoÉ ou Época (Veja tenho certeza que não foi) chegou a apelidar Gabeira de “Candidato Carrossel” por girar, girar, girar e não sair do lugar. Fui procurado pela mulher de Gabeira, Neila Figueiredo, e selamos o trabalho em conjunto no dia do velório de dona Ruth Cardoso, no aeroporto Santos Dumont, que permanecera fechado durante toda manhã.
Teria total liberdade, desde que não resolvesse criar um Gabeira de mentira. A restrição a qualquer tipo de maquilagem ia até mesmo à própria maquilagem. “As rugas são as marcas do tempo no rosto dele, devem ficar”. Não seria necessária a advertência. Mas fiquei contente por ouvi-la.
Acho que os marqueteiros são responsáveis pelo esvaziamento do conteúdo verdadeiro dos candidatos, embora não tenham culpa na falta de caráter e na compulsão pela mentira. Essas características o sujeito já traz de casa, ou de berço, como queiram.
Dias depois, na minha casa, traçamos o rumo da campanha: não atacar o adversário, ser absolutamente transparente, não sujar a cidade. A transparência deveria ir até mesmo no caixa da campanha: nada de Caixa 2, não receber dinheiro de companhia de ônibus nem de cooperativa de taxi, pagar e receber tudo “por dentro” e colocar todas as movimentaçõs imediatamente na Internet.
Se você for até o site da campanha vai achar lá o ítem “Ebulição”. É a nossa empresa. Todos os pagamentos que recebemos (e pagamos os impostos) estão lá. Para os padrões brasileiros, o dinheiro da campanha era quase pobre.
Como vantagem tínhamos a melhor equipe que a ideologia pode comprar: Moacir Góis na direção do programa de televisão, João Paulo na edição, Moacir Padilha dirigindo o rádio, Carlinhos Chagas na redação, e por aí afora.
Gente que se dispôs a trabalhar por menos da metade do que poderia cobrar, mas que se sentia recompensada pela oportunidade de se engajar na campanha de um candidato digno, limpo, idealista, agradável.Coisa raríssima nestes dias que correm.
Uma noite, logo nos primeiros dias, o Campanelli da MCR apareceu com um jingle de estarrecedora simplicidade, mas com potencial de se tranformar num mantra: “O Rio é de Gabeira…Gabeira…Gabeira” num ritmo classificado de “marchável”, meio hip hop, um chiclete de ouvido irresistível.
Fizemos um santinho, uma equipe se encarregou do site, nos concentramos nos programas de TVe rádio e entregamos a Deus, que com certeza deve ter pensado “Crivella nunca”. Tanto é verdade que Crivella, que vinha liderando as pesquisas, se envolveu com o escândalo de uma obra que se chamava “cimento social” e serviu como pá de cal para suas pretenções, com perdão pelo trocadilho.
Teve até a participação de um militar alucinado que entregou uns garotos para serem chacinados por uma gangue do tráfego. Tudo respingou no Bispo e no seu discurso messiânico de ungido pelo céu e por Lula. Só no discurso dele, pois ambos não quiseram se comprometer.
Tivemos a imensa vantagem de termos bom tempo na TV e no rádio, cerca de cinco minutos, e de não sermos ameaça para ninguém. Por isso pudemos apresentar Gabeira com toda calma, como alguém capaz de ter uma visão mais aberta, mais moderna, mais cosmopolita para os imensos problemas da cidade.
Eduardo Paes veio como o grande síndico que se preparou durante dezessete anos para ser prefeito. Dizia conhecer cada pedra, cada buraco da cidade. Prometeu instalar 40 UPA’s (Unidades de Pronto Atendimento), uma espécie de Centro de Saúde feito rapidamente e outras coisinhas que transformariam o Rio de Janeiro numa Finlândia em apenas 4 anos.
Jandira, por ser médica, centrou seus esforços na saúde e Crivella era o amigo dos pobres. Jandira parecia ter acabado de acordar no meio de um plantão: nervosa, desgrenhada, vestido aparentemente amassado.
Entre os nanicos, o candidato do PT resolveu transgredir a mais sagrada das normas da televisão e passou o tempo todo falando de lado, para um ponto à esquerda do espectador. Bonitinho, bonzinho, arrumadinho, era o bom filho, o bom colega e o bom professor.
Todos sabem que realmente é um homem direito, mas ficou bonzinho demais, arrumadinho demais. Falou bastante, mas todo mundo se perguntava porque ele olhava para o lado. Chico Alencar é o Chico Alencar, veio de Chico Alencar e falou como Chico Alencar. Levou os votos de Chico Alencar. Meia dúzia.
Os demais se confundiam com os candidatos a vereador. Um deles tinha um belo slogan: “quem pica cartão não vota em patrão”. Em conjunto eles iam implantar o socialismo, destruir a Rede Globo e conduzir os povos à libertação, à verdadeira democracia e à divisão justa de renda.
Chega o dia da eleição e, para estupor geral, Gabeira – o candidato Carrossel, o sem chance, o nanico do bem, tira um magnífico segundo lugar e vai para o segundo turno, juntamente com Eduardo Paes, candidato do governador e do presidente. O
O espanto maior, no entanto, foi dos institutos de pesquisas que até o dia anterior davam como certa presença de Crivella como adversário de Paes. Neste mesmo dia, Gabeira virou maconheiro, viado, defensor do aborto e da prostituição, nefelibata e tudo mais que é possível se falar contra um político brasileiro.
Só não poderia ser demagogo, mentiroso e ladrão porque no caso do Gabeira é impossível se falar isso dele. Nas primeiras semanas todos os derrotados se aliaram ao Paes, que passou a ser candidato da máquina estadual, nacional e universal (do Reino de Deus).
Lula falou de Paes, Cabral falou de Paes, Crivella falou de Paes, Jandira falou de Paes. Até Molon do PT e Vladimir Palmeira se aliaram a Eduardo Paes. O solitário apoio a Gabeira veio de César Maia, o único prefeito do mundo que surtou e virou blogueiro em pleno mandato.
Quer dizer, vieram dar apoio, além de Cézar Maia, Caetano Veloso, Fernanda Torres, Adriana Calcanhoto, Alceu Valença, Debora Colker, Oscar Niemayer, Gustavo Lins, Alcione, Wagner Moura, Martinália, Pedro Luiz, Marina Lima, João Bosco, Paula Toller, Frejat, Nelson Mota, Armínio Fraga, Aécio Neves e mais oito mil voluntários.
Logo no comecinho me lembro de uma passagem de Gabeira. Um político, dos mais conceituados, propôs a Gabeira começar a mostrar os podres da turma de Paes, um amplo arco de alianças que iam do famoso Piciani a Jorge Babul, passando por uma varidíssima fauna de pessoas sobre as quais não resta a menor dúvida.
Gabeira respondeu: “eu prometi não atacar adversários”. O interlocutor não deixou por menos: “então você vai perder”. Gabeira respondeu firme: “então eu vou perder”. Noutra ocasião, um empresário, que já foi meu cliente, liga oferecendo dinheiro para a campanha. Gabeira instrui o financeiro: “você já sabe, quando empatar com as despesas, pare de receber qualquer dinheiro”.
Nunca antes na história deste país um político se dispôs a receber somente o dinheiro necessário para a campanha. Fizeram de tudo, de tudo mesmo, até a suprema burrice: mandar imprimir na Gráfica da Ediouro, de quem sou Diretor de Marketing, um folheto contra Gabeira.
Ninguém acreditou nem vai acreditar, mas tal como Lula, eu não soube de nada, a não ser quando o TRE confiscou o material, que por sinal estava dentro da Lei, com nota fiscal e tudo. Paes ficou repetindo o bordão: “Gabeira é apoiado pelo César Maia, Gabeira é apoiado pelo César Maia, Gabeira é apoiado pelo César Maia”.
O engraçado é que todo o currículo de grandes realizações de Paes foi como subprefeito, e secretário… de César Maia. Que raça! No telefone, Gabeira fala de uma vereadora: “ela é analfabeta política…está fazendo política suburbana”. Os jornalistas ouvem e dão a notícia.
Mais um bordão: “Gabeira é preconceituoso, Gabeira é preconceituoso, Gabeira é preconceituoso”. Milhares de faixas são impressas: “sou suburbano com muito orgulho”. Uma feijoada é oferecida aos suburbanos ofendidos e Noca da Portela e outros menos votados dão apoio a Paes, o amigão do subúrbio.
Cria-se uma situação irreal. Gabeira, menino pobre, que vendia banana e ovo para ajudar o pai, professor voluntário na Zona Norte, vira o “candidato dos ricos”, enquanto Paes, menino da Zona Sul, estudante de colégios caros e da PUC, quer se consagrar como “o candidato dos pobres”.
Paes, 38 anos, cara de garotão é o velho matreiro, conhecedor dos meandros da política, o experiente. Gabeira, 68 anos é o jovem, impetuoso, novidadeiro, contemporâneo. E começam os debates. Até o último, da TV Globo na sexta-feira anterior ao domingo da votação, foram 7 deles.
Gabeira venceu sempre, na opinião dos internautas. Alguns momentos foram muito bons. Por exemplo, quando Paes afirmou que se preparava a vida inteira para ser prefeito do Rio, Gabeira respondeu: “pois eu me prepararei a vida inteira para… a vida inteira”.
Ou, então, quando Paes disse que seria necessário saber que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”, recebeu como resposta: “a esta altura da vida eu já sei”.
Vladimir Palmeira pode nesta eleição ter batido o recorde mundial de ingratidão. Gabeira sequestrou o embaixador americano para que Vladimir, entre outros presos políticos, pudesse ser libertado. E Palmeira decidiu apoiar Eduardo Paes.
Por falar em embaixador sequestrado, a filha do próprio fez absoluta questão de declarar seu apoio a Gabeira. E contou que o pai dela tinha boas recordações dele. Na imprensa escrita, inaugurou-se um novo tipo de colunismo: o de crítica a horário eleitoral gratuito. Como se fosse novela.
O Globo e o Jornal do Brasil tiveram seus colunistas que diariamente comentavam sobre roupa, postura, edição. O colunista do JB, se sentindo obrigado a fazer uma gracinha por dia, algumas vezes se perdeu na busca do humor.
A certa altura, como o programa de Gabeira fazia enorme sucesso com seus clipes de cantores, Paes colocou no seu programa a entrevista de uma jovem na rua que afirmou: “eu quero ver propostas, não musiquinhas bonitas”. Nem na Noruega se vê tanta participação cidadã.
Uma jovem exigir dos candidatos a apresentarem suas propostas de governo é tão natural quanto as donas de casa que afirmavam que Paes no seu tempo de sub prefeito entrou na lama até a cintura para ajudar as pessoas assoladas por uma enchente.
Uma enorme demonstração de incompetência de seus auxiliares foi não encontrar uma única foto registrando o heróico feito. Hoje o eleitor decide quem é o prefeito do Rio de Janeiro. O resultado sairá dentro de algumas horas. Seja qual for o vencedor, Gabeira sai muito maior do que entrou.
É um político que pode se orgulhar do respeito de todos, inclusive de seus adversários, que jamais colocaram em dúvida sua honradez e honestidade. Outra vitória de sua candidatura foi a de trazer para milhões de pessoas a informação de que é possível se fazer politica com seriedade.
Trouxe também a participação dos jovens, entre os quais, as pesquisas eram unânimes em apontá-lo como o candidato preferido. Nesta eleição não se ouviu o tradicional discurso do “político é tudo igual”, principalmente por parte deles.
Gabeira demonstrou que os políticos, como as pessoas, são diferentes. Sua campanha termina com a marca da elegância, do bom humor e do amor pelo Rio de Janeiro. O Rio foi votar sorrindo. Essa é a grande, a enorme vitória de Fernando Gabeira”.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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26/10/2008 - 18:31
Nos muitos debates e nos milhões de panfletos contra Gabeira distribuídos pelo Rio nas últimas semanas e ainda hoje, baixarias à parte, Eduardo Paes usou a mesma arma: o apoio declarado pelo prefeito César Maia ao seu adversário.
Se para Fernando Gabeira, com toda sua história de guerrilheiro a político de esquerda defensor das causas ecológicas e libertárias, já era difícil explicar ao eleitor mais progressista sua aliança demo-tucana nesta eleição, aparecer nos panfletos ao lado de César Maia pode ter sido fatal numa eleição disputada voto a voto.
Ainda ontem, a Justiça Eleitoral apreendeu milhares de panfletos espalhados nas bocas de urna com fotografias dos dois e o texto: “Diga não à continuidade de César Maia. Pense nisso”. Curioso é que só assinam o panfleto o PT, o PDT, o PSB e o PCdoB, que apoiaram Paes no segundo turno, e não o PMDB, seu sexto e atual partido.
Logo no começo do segundo turno, quando César Maia veio a público para dar seu apoio a Gabeira, escrevi aqui no Balaio que, se ele quisesse mesmo a vitória do candidato do PV, teria feito o contrário, anunciando sua adesão a Eduardo Paes, que foi sua cria.
Prefeito de capital mais rejeitado do país, a ponto de deixar sua candidata Solange Amaral, do DEM, entre os nanicos do primeiro turno, César Maia acabou sendo o grande eleitor no Rio, dando a vitória à campanha mais suja e fisiológica destas eleições.
Foi um final triste para a bela cidade do Rio de Janeiro. Fernando Gabeira, apesar das suas alianças exóticas, poderia dar um novo alento aos cariocas, abrir a janela para novos cenários, ao menos uma esperança de que ainda é possível virar o jogo há décadas dominado pelo que há de pior e mais atrasado na política brasileira.
Gabeira provou que é possível fazer uma campanha limpa, com poucos recursos, levada apenas na base de novas propostas e velhas utopias _ e quase chegou lá. Poderia mudar a cara do Rio, mas vai ficar aquele retrato de sempre, que não é bonito.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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26/10/2008 - 16:44
Pelos números da pesquisa boca de urna do Ibope nas maiores cidades do país, que a TV Globo acaba de anunciar, deu a lógica, como dizem os comentaristas esportivos: Gilberto Kassab (60 a 40), em São Paulo, Márcio Lacerda (56 a 44), em Belo Horizonte, e Fogaça (57 a 43), em Porto Alegre. A votação em Salvador só termina às seis da tarde.
Nenhuma surpresa, e apenas uma eleição indefinida, no Rio de Janeiro, onde, segundo o Ibope, só se saberá o vencedor quando acabarem as apurações. A boca de urna deu 51 para Paes e 49 para Gabeira, repetindo a pesquisa da véspera. ”Os indecisos vão decidir…”, concluiu o comentarista Alexandre Garcia, e até William Bonner teve que rir.
Escrevi acima que deu a lógica porque acabaram ganhando os candidatos que tinham a seu lado a máquina e que, montados nelas, foram capazes de construir as alianças mais amplas, assegurando maior tempo para seus programas na televisão.
Kassab e Fogaça foram reeleitos com o apoio das máquinas municipais e estaduais de São Paulo e Rio Grande do Sul, à frente de um balaio de partidos em que o denominador comum, para variar, foi o PMDB (de Pedro Simon, em Porto Alegre; de Orestes Quércia na capital paulista).
Em Belo Horizonte, o até outro dia desconhecido Márcio Lacerda, do PSB, atropelou a onda de outro desconhecido, Leonardo Quintão, do PMDB. Juntando a fome com a vontade de comer, Lacerda reuniu no mesmo palanque o PSDB do governador Aécio Neves e o PT do prefeito Fernando Pimentel e do presidente Lula, mais um saco de gatos de partidos menores.
A zorra de alianças destas eleições, a começar pela mais emblemática de Belo Horizonte, reunindo na mesma chapa em mais de metade dos municípios brasileiros partidos de situação e oposição no plano federal, levou o leitor Braga a mandar um desencatado comentário para o Balaio, às 13h46:
“Eu não sei qaual é o pior partido do país, PT, PSDB, PMDB, DEM, etc (…) Para mim, são todos farinha do mesmo saco. A direita deste país está de costas para o futuro e a esquerda de frente para o passado”.
Em outras palavras, foi mais ou menos o que escreveu Jânio de Freitas, um dos mais respeitados e experientes jornalistas brasileiros, em sua coluna da Folha de hoje:
“A maior peculariedade destas eleições (supondo que haja outras) é uma contradição: baseada, como impõem as regras em vigor, na divisão do corpo político em partidos, as eleições formalizaram o atestado de óbito da identidade destes partidos. Os quais, por definição, só podem ter sentido em razão da sua identidade”.
A partir de amanhã, podem anotar os leitores do Balaio, líderes de todos os partidos voltarão a falar na necessidade premente de uma reforma política. Que, mais uma vez, não virá, por um motivo muito simples: a reforma política depende dos políticos.
E eles não querem mudar nada porque estão muito satisfeitos com as regras atuais, em que podem nadar de braçada e garantir a sua sobrevivência de um jeito ou de outro, dando uma banana para a coerência, a lei e a ética.
Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog
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