https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2010/wp1093.pdf
Este link acima leva você a um trabalho feito por economistas do FMI que tentam explicar por que Chinêses poupam tanto. Vale a pena a leitura para entender um pouco mais sobre a China. A Tabela abaixo mostra a poupança ( total domestic savings) chinesa comparada com outros países:
Poupança para os economistas é aquilo que você ( household ) guarda depois de pagar suas contas, impostos, juros e gastos em geral. Poupança para as empresas ( enterprise ) é a parte do Lucro apurado que é retido , isto é, que não vai para os acionistas. Para o governo ( government) é tudo aquilo que sobra da arrecadação de impostos, depois de pagar seus gastos, para ele investir em infraestrutura, reduzir dívida pública ou comprar ativos, sem contudo aumentar sua dívida. Se Governo para comprar US$ tem que emitir dívida em Reais aqui, os dólares comprados não são poupança. Para se ter poupança, a dívida não pode crescer na mesma proporção… para gerar poupança, governo tem que arrecadar mais do que gasta como qualquer indivíduo.
Toda vez que alguém toma dinheiro emprestado para consumir, está reduzindo a poupança interna.
Veja na tabela acima que a poupança na China é maior que na maioria dos países ( poupança doméstica no Brasil oscila entre 14 e 18% do pib ) e em todos os níveis: famílias, empresas e governo.
Outra coisa: poupança é o que permite investimento. Quando uma empresa investe em máquinas, equipamentos, informática, instalações, capital de giro, compra de tecnologia, etc, ela precisa de dinheiro. Este dinheiro vem da poupança, seja ela interna ( dos residentes no país ) ou externa, de investidores estrangeiros que querem investir na produção, comércio, serviços, construção, energia, mineração, infraestrutura ou agropecuária. Muita poupança significa muito investimento e vice-versa.
Segue aqui um pequeno resumo do texto acima e de outros que tratam do assunto:
Os economistas Kai Guo e Papa N´Diaye do FMI criaram um modelo usando ALGUMAS variáveis economicas e de vários países ( 39 ) para explicar a taxa de consumo e de poupança de um país. Este modelo serve para explicar o quanto um país diverge da normalidade em sua estrutura econômica no que diz respeito a consumo e poupança. Não serve para avaliar se as políticas estão certas ou erradas.
As conclusões são estas:
1. Embora China tenha tido um crescimento econômico vigoroso ( mais de 10% aa) nos últimos anos, o emprego lá subiu apenas 1.1% aa . A razão é simples: o modelo Chinês se baseiou em incentivar a indústria pesada ( siderurgia, petroqúimica, máquinário pesado, estaleiros), que consome muito capital e pouca mão de obra. Logo, a parcela de salários no PIB tem caído e a de lucro das empresas tem subido. O setor de serviço lá é pequeno em comparação a média dos países no mesmo estágio de desenvolvimento . O setor de serviços é grande gerador de empregos. Indústria não é.
O gráfico abaixo mostra que formação de emprego na Coréia foi igual a da CHINA, com Pib crescendo menos! Pib Coreano subiu cerca de 4% neste período enquanto Chinês cresceu mais de 10%. Emprego aparece no eixo vertical e crescimento do pib no horizontal.

O gráfico abaixo mostra que quanto mais cresce a renda per capita ( eixo horizontal) mais cresce o percentual de empregos no setor de serviços da economia ( inclue comércio), estando registrado no eixo vertical. A linha azul claro mostra os resultados do modelo, isto é, da média dos países da amostra. As bolinhas vermelhas mostram a China, que tem uma clara tendência de ter menos empregos no setor de serviços quando comprado com a Coréia ( triângulos azuis ) e outros países e com o próprio modelo:

2. O modelo também identifica os fatores que fazem aumentar ou diminuir a poupança privada, de acordo com tabela abaixo, indicados pela seta azul:

Os coeficientes negativos indicam que quanto maior for aquele fator ( taxa de juros real, percentual de população idosa, emprego no setor de serviços, desenvolvimento do mercado de capitais, valorização do cambio local, renda das famílias) , menor a taxa de Poupança da população e maior seu consumo. Já os fatores que tem coeficientes positivos quando sobem ( crescimento e aceleração do PIB, consumo do governo, renda per capita, inflação, preços dos produtos exportados / importados, finaciamento externo) tendem a explicar uma elevação da poupança e redução do consumo.
Um outro trabalho de Louis Kuijs ( http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=923265 ) do Banco Mundial vai na mesma linha e diz que além destes fatores, a parcela de lucro retido pelas grandes empresas na CHina é de fato bastante elevada. As empresas chinesas são bastante lucrativas pois governo mantém uma taxa real de juros para depositantes bastante negativa. Como a sofisticação do mercado de capitais por lá é bastante baixa, 80% da poupança das famílias é feita por depósitos em bancos que pagam juros tabelados e negativos. São poucos que investem em fundos ou em bolsa. Os bancos por sua vez emprestam tais recursos a taxas igualmente baixas ás empresas que com isto geram lucros enormes. Como 50% das grandes empresas Chinesas são estatais e o estado tem superavit fiscal , tais empresas distribuem poucos dividendos , retendo grande parte do lucro, e portanto aumentando assim a sua poupança disponível para financiar investimentos nem sempre lucrativos. Há na China portanto uma transferência de renda das famílias que poupam para empresas que investem loucamente e não distribuem seu lucro. O mecanismo de transferência são as taxas de juros artificialmente baixas.
Para estimar este subsídio anual, usaremos Coréia ( do SUL) como referência : de 2002 a 2009 Pib cresceu lá 6.5% em termos nominais ( inflação + crescimento real). Neste mesmo período a taxa de juros média para depósitos interbancários ( o cdi deles ) foi de 4.4%aa, ou seja 2% menor do que crescimento nominal do pib. Na China, no mesmo período, o pib nominal cresceu 14.5% e taxa de empréstimos a empresas foi em média de 5.8% aa, ou seja 8.7% aa menor…. Logo, estamos falando de um subsídio de cerca 6.7% aa na China quando comparada com Coréia. Como os depósitos de pessoas físicas na China representaram em média 75% do pib naquele período, o subsídio médio no período foi de cerca 5% do pib anualmente!
Para agravar tal situação de super investimento, o governo chinês, que é bastante superavitário, devolve às empresas cerca de 4.5% do PIb todo ano para que estas invistam em infraestrutura.
Há também um outro fator muito importante que aumenta taxa de poupança na China:
1. O mercado de financiamento ao consumo é muito pouco desenvolvido e, portanto, as pessoas tem pouco acesso ao crédito e a empréstimos; logo, se algúem lá quiser comprar uma geladeira tem que guardar dinheiro no banco rendendo 2.5% aa ( taxa média de depósitos de 1 ano nos últimos 8 anos) e quando juntar a grana necessária aí se compra a vista….
2. Na China os serviços públicos são inexistentes: grande maioria da população paga pelos serviços médicos, pela educação, e poucos tem direito a aposentadoria do estado. Portanto, a sáida é guardar dinheiro para os dias chuvosos e para poder arcar com tais despesas.
Como eu já disse , o objetivo dos trabalhos foi tentar explicar a natureza da alta taxa de poupança chinesa. Tal poupança elevada faz com que sobre dinheiro para ser investido por lá. A principio isto é bom, pois Investimento é o que gera crescimento. Porém quando tal poupança é exagerada, ela viabiliza certos investimentos tolos, pouco rentáveis ou até mesmo inúteis, ao gerar uma super oferta de crédito barato. Esta poupança excessiva aliada a juros baixos também pode gerar bolhas especulativas nos preços de certos ativos, como imóveis, bolsa de valores, ou até mesmo em commodities.
De fato já há fortes sinais de uma bolha imobiliária já ocorrendo nas grandes cidades Chinesas, onde os mais ricos estão comprando imóveis para especular com alta de preços, uma vez que deixar dinheiro aplicado nos bancos não rende nada. O governo está tentando reprimir tal bolha apertando o crédito e dificultando os empréstimos imobiliários para quem já tem um imóvel . Porém trata-se de um equilíbrio delicado, pois a construção civil é muito importante por lá, pois gera muitos empregos. Além disto, o mercado imobiliário gera cerca de 40% da receita fiscal das prefeituras e de algumas províncias, através da cobrança de impostos sobre os imóveis vendidos e da renda obtida na venda de terrenos para incorporações e projetos imobiliários, uma vez que a terra lá é do governo…. Estima-se que haja mais de us$ 1 tri em empréstimos de bancos para cerca de 8000 empresas criadas pelas diversas províncias e prefeituras ( chamadas de veículos de investimento em desenvolvimento urbano) que investem em projetos imobiliários ou em infraestrutura urbana. Se mercado imobilíario ruir, os bancos de lá vão sofrer bastante, uma vez que tais empréstimos representariam aprox. 14 % do total de empréstimos dos bancos no país. Vale a pena ler este trabalhão do BC do Japão que fala sobre mercado imobiliário na China e seus problemas.
( http://www.boj.or.jp/en/type/ronbun/rev/rev10e03.htm )
Veja evolução dos preços dos imóveis na China neste gráfico:

Este baixo consumo interno também faz com que China se torne um exportador de capitais. Como o consumo lá é baixo, as importações sobem devagar. Por outro lado, as exportações são baratas e sobem muito pois há excesso de capacidade na indústria pelos elevados investimentos feitos e devido ao baixo custo da mão de obra por causa do baixo crescimento do emprego. Esta situação gera superávits comerciais externos enormes que são alvo de críticas de todos seus parceiros comerciais, como EUA e até do nosso Brasil, desequilibrando as finanças globais, pois o superavit de um país significa o déficit de outros. Este saldo comercial gigantesco ( us$ 200 bi em 2009 ) faz com que BC Chinês tenha que intervir no mercado de câmbio comprando US$ dos exportadores para evitar que o US$ caia por lá…. Os parceiros comerciais da China dizem que governo chinês está manipulando o Câmbio não deixando que moeda local se valorize diante do US$… Porém se eles deixassem o câmbio livre, provavelmente o RMB ( remimbi ) iria se valorizar uns 30%…. causando a falência de todas as indústrias Chinesas … Logo, há algo de errado com a coisa por lá….
Moral da história: tudo que é feito em excesso ( consumo ou poupança ) não faz bem, como diz minha mãe.