Desemprego continua baixo, mas não para todos
Dados do emprego nos grandes centros urbanos publicados pelo IBGE mostram que o mercado de trabalho segue aquecido apesar do desaquecimento da economia.
O gráfico abaixo, fornecido pela equipe de economistas do banco BTG Pactual, mostra a tendencia de queda na taxa de desemprego desde 2003:
A linha preta pontilhada mostra a taxa de desemprego mês a mês dsde 2003 ajustada sazonalmente. Notamos que o desemprego continuou baixo apesar da esfriada do PIB em 2011. É o nível mais baixo da série. Apesar da desindustrialização, o mercado de trabalho continua aquecido!
Abaixo temos outra tabela compilada pelo BTG que mostra a taxa de crescimento anual da população empregada em diversos setores ( coluna indicada pela seta preta, a direita da tabela):
Em amarelo está a taxa de crescimento anual da população empregada nos grandes centros urbanos.
Vemos que setores como o de serviços a empresas ( azul ) e construção ( verde) entre outros mostram um crescimento do emprego maior que a média, enquanto a indústria mostra uma queda do emprego ( em vermelho).
Aqui fica evidente o efeito da desindustrialização. Há uma migração dos empregos disponíveis na indústria para os setores de serviços e construção onde a competição com produtos importados é bem menor. Apesar disto, o mercado de trabalho continua crescendo.
Investimento e crescimento sustentado
O economista Regis Bonelli da FGV escreveu alguns trabalhos excelentes sobre o assunto acima.
Vale a pena ler para se ter uma ideia do que ele pensa sobre a nossa taxa de crescimento e da necessidade do crescimento do investimento no Brasil e de outras variáveis que afetam o crescimento.
Veja um resumo abaixo de um de seus trabalhos sobre os impactos da taxa de investimento e da produtividade no pib:
Este trabalho discute requisitos para o crescimento de médio prazo da economia brasileira com foco no investimento necessário para a aceleração do crescimento. Ele especula em torno da questão de quanto o país pode crescer se alcançar uma taxa de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, de agora em diante) de 21% do PIB, como a que o governo brasileiro tem como objetivo para 2010, conforme estabelecido pela Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Mas o marco analítico desenvolvido também se aplica a diferentes taxas de formação de capital.
O texto está organizado da seguinte forma. Na seção 1 discutem-se características do crescimento brasileiro e da evolução da taxa de investimento (FBCF) no longo prazo, enfatizando a recuperação da atividade econômica do último qüinqüênio. Destacam-se nessa análise aspectos associados a traços comuns dos ciclos de longo prazo, à produtividade e à evolução dos preços relativos dos bens de investimento. Na seção 2 discute-se brevemente a questão do crescimento sustentado do ponto de vista das necessidades de investimento para que ele se concretize e apresentam-se estimativas de crescimento futuro do PIB segundo alternativas factíveis caso seja mantida a taxa de FBCF desejada. A seção 3 conclui com um breve resumo dos principais resultados e considerações adicionais.
Outro trabalho do mesmo autor na mesma linha segue abaixo, porém em inglês:
RESUMO
Este trabalho analisa alguns dos principais temas identificados como barreiras aocrescimento da economia brasileira no longo prazo. A apresentação tem início com decomposições do crescimento do PIB brasileiro total e per capita para identificar as causas mais próximas da desaceleração do crescimento observada depois da década de 1980 enfatizando fatores que atuam pelo lado da oferta agregada. A razão para esse tipo de abordagem é que, dentro de certos limites, a experiência do passado revela que é relativamente fácil expandir a demanda agregada por meio de estímulos monetários e fiscais. Cinco temas que têm identificados na literatura especializada como limitações à expansão da oferta são analisados em seguida, todos eles associados com uma taxa de poupança menor do que a necessária para sustentar taxas de crescimento da formação decapital fixo capazes de acelerar o crescimento: carga tributária, fatores institucionais,infraestrutura, financiamento e educação. Uma apreciação sumária de linhas de política para lidar com essas limitações é apresentada em seguida. O texto conclui trazendo novamente para primeiro plano a necessidade de aumentar a poupança e o investimento para elevar a taxa de crescimento da economia brasileira e especulando sobre o potencial decrescimento condicionado pelo crescimento da produtividade e do investimento.
Produção de Cimento e Aço despencam na China
Gráfico abaixo mostra a taxa anual de crescimento da produção de cimento na China, média móvel de 3 meses:
A taxa anual de crescimento da produção, que na média dos últimos 6 anos esteve ao redor de 12,4% aa ( em amarelo), teve uma forte queda em 2008 causada pela crise de crédito nos EUA ( em marrom).
Os investimentos feitos em infra urbana pelos governos locais em 2009 elevaram tal taxa de crescimento para 25% aa (em verde), ou seja, insustentável.
Depois de ficar estável entre 10 e 15% aa em 2010 e 2011, a produção se desacelerou bastante, com sua taxa de crescimento caindo para zero no início deste ano ( em vermelho).
Algo similar ocorre com a produção de aço:
Os gráficos, contudo, ensaiam uma pequena recuperação ( em vermelho). Vamos torcer para que a coisa de fato vire. Ou melhor, já está na hora das autoridades chinesas começarem a intensificar o uso de estímulos fiscais e monetários.
Itaú: investimento e crescimento
A excelente equipe de economistas do Banco Itaú traz uma análise bastante interessante sobre a poupança, o investimento e crescimento:
Brasil 2020: Crescimento limitado pela poupança
O Brasil tem uma base de consumo forte, um mercado financeiro bem desenvolvido e riqueza em recursos naturais. O País tornou-se uma democracia aberta e estável e precisa dar conta de um quarto de século de atraso nos investimentos. Tudo isso significa um leque amplo de oportunidades de investimento em commodities, infraestrutura, bens de consumo e serviços. Mas de onde virão os recursos?
O Brasil poupa pouco. O quadro à frente deve melhorar, mas lentamente. A volta do setor público à condição de poupador líquido faz parte do nosso cenário, porém não mudará substancialmente a situação de insuficiência de poupança doméstica. É difícil esperar mais poupança das famílias em um país que está neste momento incorporando milhões de pessoas ao mercado de consumo. Nos próximos dez anos (ou enquanto durar o boom de investimento), a diferença terá que ser coberta por poupança externa. Significa um déficit permanente em conta corrente, financiado por fluxos de capital saudáveis (investimento direto, por exemplo), o que manterá a taxa de câmbio apreciada.
Nossa projeção é de um crescimento do PIB de 3,5% em 2012 e 5,1% em 2013. A partir de 2014, a economia se expandiria à velocidade do PIB potencial, em torno de 4,0%. Um crescimento mais acelerado provavelmente pressionaria as contas externas, a taxa de câmbio e/ou a inflação.
Qual é a principal restrição à aceleração do crescimento econômico brasileiro? Até alguns anos atrás, o peso de uma dívida pública elevada constituía o maior entrave. Havia dúvidas sobre a capacidade do governo de honrar suas dívidas. Após anos de superávits primários elevados, queda consistente dos juros de equilíbrio, aceleração do PIB potencial e desindexação da dívida pública, essa dúvida hoje é marginal. O risco-país convergiu para níveis internacionais, o País tornou-seinvestment grade, o setor público é solvente. A correlação entre a dívida pública e a taxa de juros, antes elevada, não é estatisticamente significativa desde 2007. Essa restrição foi vencida, mas outras permanecem. Em particular, a baixa poupança doméstica, que ainda é insuficiente para financiar o investimento crescente.
As oportunidades de investimentos são fartas. Inúmeros projetos do setor privado tornaram-se viáveis devido à menor taxa de juros de equilíbrio, à manutenção da inflação em patamares baixos e à maior previsibilidade da política econômica. Adicionalmente, está nos planos do governo um aumento do investimento em infraestrutura nos próximos anos. Os grandes eventos esportivos de 2014 e 2016 serão um grande catalisador para o investimento público e privado. A exploração do petróleo na camada pré-sal também mobilizará elevadas somas.
É da expansão do estoque de capital que o País dependerá cada vez mais para crescer. Estimamos que o investimento como proporção do PIB deva se elevar de cerca de 19% em 2011 para em torno de 22% no fim da década. O fator trabalho não contribuirá tão intensamente como nos últimos anos. De 2003 a 2011, a taxa de desemprego baixou de 13% a 6%, com a oferta de mão-de-obra (especialmente qualificada) tornando-se escassa. O crescimento anual da população brasileira, que já foi de 1,5% em meados da década de 90, deve cair a 0,6% no final desta década; a expansão da população economicamente ativa deverá baixar de 2,3% para 0,9% em 2020. A taxa de crescimento da produtividade deverá manter-se nos patamares atuais, dada a ausência de reformas estruturais nos últimos anos. Portanto, a fonte adicional do crescimento será a elevação do estoque de capital. Mas para isso o país precisa elevar a taxa de poupança.
De onde virá o acréscimo de poupança?
O acréscimo de 3% do PIB ao investimento precisará ser financiado. A poupança terá que se elevar. Uma parte do crescimento na taxa de poupança doméstica virá da maior poupança pública, que hoje é deficitária em 1,5% do PIB. Em nosso cenário, o governo passará a ser um poupador líquido.
O governo contará com três principais fontes para elevar sua poupança. A primeira é o crescimento na arrecadação de impostos. A tendência de formalização de trabalhadores e empresas deve continuar por mais alguns anos, contribuindo para aumentar a base de contribuição e manter as receitas crescendo acima do ritmo da economia. Outra fonte de aumento de receitas será, em nosso cenário, uma taxação maior do setor de commodities, como acontece em outros países latino-americanos. Por fim, a redução na taxa de juros de equilíbrio continuará reduzindo o custo de rolagem da dívida pública.
Mas parte do aumento na poupança pública tem como contrapartida uma redução na poupança privada, através de maiores impostos e menor transferência de juros. Para ilustrar este ponto, basta notar que, dados o consumo do governo e do setor privado, uma elevação dos impostos (ou queda da transferência de juros) implica em redução da poupança privada de magnitude equivalente ao aumento da poupança pública.
E outros gastos públicos deverão aumentar, limitando a elevação da poupança pública. Nosso cenário contempla uma elevação dos gastos com transferências do governo federal de 8,6% em 2011 para 9,7% do PIB em 2020, devido a maiores despesas com aposentadorias. Calculamos que os benefícios previdenciários, já pressionados por uma razão contribuinte-beneficiário baixa, deverão crescer acima do PIB nominal nos próximos anos, tendo em vista um crescimento no número de beneficiários (ao redor de 3% ao ano) e os reajustes do salário mínimo (projetados de acordo com a regra em vigor, válida até 2015, e assumindo uma regra, a partir de 2016, de reajustes reais na metade do crescimento do PIB real de dois anos antes).
Nosso cenário também assume um aumento do consumo do governo federal de 7,5% em 2011 a 8,2% em 2020, pressionado pelo aumento nas despesas com aposentadorias do funcionalismo. Segundo dados do Ministério do Planejamento, cerca de 40% dos servidores federais terão provável direito de aposentadoria nos próximos dez anos.
Consequentemente, o aumento da poupança doméstica é menos significativo do que poderia ser caso a ênfase fosse na redução de gastos públicos. Desta forma, o aumento da poupança doméstica será insuficiente para fazer frente ao investimento. Será necessário recorrer, como nos últimos anos, à poupança externa, que deverá aumentar dos atuais 2,1% do PIB para cerca de 3,4% do PIB no fim da década.
Nossa projeção é de um crescimento do PIB de 3,5% em 2012 e 5,1% em 2013. A partir de 2014, a economia se expandiria à velocidade do PIB potencial, em torno de 4%. Um crescimento mais acelerado provavelmente pressionaria as contas externas, a taxa de câmbio e/ou a inflação.
Câmbio, juros e inflação
Os juros de equilíbrio continuarão sua tendência de queda, mas a convergência para níveis internacionais será parcial. Esperamos que, ao fim da década, os juros reais estejam em torno de 3,5%. Esse nível de taxa de juros já reflete o uso mais intenso de medidas regulatórias e macroprudenciais, que são em alguns aspectos substitutos (imperfeitos e com impacto diferente sobre a produtividade) à Selic. O que limita uma queda ainda maior dos juros de equilíbrio? Uma redução adicional dos juros implicaria mais investimento, o que requereria elevação adicional da poupança, que é escassa.
Por que não absorver ainda mais poupança externa e, com isso, poder financiar mais investimentos? Um motivo alegado é o de se proteger contra paradas bruscas nos fluxos internacionais de capitais. Países muito dependentes de capitais estrangeiros e com déficit em conta corrente muito elevado se veem frequentemente forçados a drásticos ajustes na taxa de câmbio e na balança comercial, quando há uma súbita reversão no mercado de capitais internacional. Embora não exista um limite “seguro” para o déficit em conta corrente, o histórico brasileiro e de outros mercados emergentes sugere sinal amarelo para déficits acima de 4,5% do PIB.
Outro limite é a valorização cambial que o País está disposto a aceitar. A entrada de poupança externa tem valorizado significativamente a taxa de câmbio nos últimos anos, e suspeitamos que não haja espaço político para uma grande valorização adicional. Nosso cenário para a taxa de câmbio no final da década é de BRL/USD 1,92, o que já equivale a uma apreciação da taxa de câmbio real devido ao diferencial de inflação. Um real mais valorizado diminuiria ainda mais a competitividade dos produtos manufaturados, o que parece não ser ainda a escolha do País.
Para a inflação, nossa expectativa é de IPCA em torno de 5,5%, a partir de 2014, em linha com o observado nos últimos anos (entre 2008 e 2011, a média do IPCA ficou em 5,7%). Em anos normais ou com choques benignos, o IPCA tem se situado em torno de 4,5%. Mas em anos com choques adversos, a inflação tem se situado na banda superior da meta, revelando uma opção de promover uma convergência mais lenta da inflação à meta para não sacrificar o crescimento no curto prazo. Com a queda do juro neutro ao longo da década, a taxa Selic de equilíbrio deverá convergir para valores de um dígito.
China: investimento de capital desacelerando
Importante parceiro comercial do Brasil, a economia da China mostra sinais de fraqueza.
Gráfico abaixo mostra a evolução da taxa de crescimento do investimento bruto de capital naquele país:
A taxa de crescimento do investimento urbano de capital na China, que historicamente se situava ao redor de 25% aa até 2008, disparou em 2009 ( marcado em verde), impulsionada por uma forte expansão do crédito. Os governos locais na China aproveitaram tal oferta de crédito e se endividaram bastante ao realizar investimentos em infra e no setor imobiliário.
Tal bolha de crédito e de investimento acelerou a inflação naquelas bandas, o que demandou um aperto na política monetária em 2011.
Os dados recentes ( em amarelo) mostram uma forte desaceleração na taxa de crescimento do investimento.
Alguns analistas já cogitam a possibilidade de um hard landing na China, ou seja, que o crescimento daquela economia venha abaixo dos 7,5% aa sinalizados pelo governo chinês recentemente. O próprio BC do B mostrou preocupação com isto em sua última ata.
Como disse em alguns posts no passado, parece que a fase dos 10% aa de crescimento na China acabaram:
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2011/12/02/china-economia-tambem-desacelerando/
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2011/10/14/chinaproblemas/
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2011/07/25/negocio-da-china-governo-gasta-e-divida-some/
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2011/06/13/aperto-monetario-na-china-avanca/
Vamos ter que aguardar para saber quais as medidas que o governo chinês tomará para evitar o colapso de sua economia, que mostra sinais evidentes de queda de demanda interna. Até agora, não veio quase nada….
Itau comenta ata do Copom
A excelente equipe de economistas do Itau comenta ata do COPOM:
MACRO BRASIL – Copom: ata explicita 9% – Itaú
O Banco Central do Brasil divulgou esta manhã a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de março, em que cortou a Selic em 0,75 p.p. para 9,75% a.a. No documento, o Copom revela que a desaceleração mais intensa do que o esperado respaldou a decisão da maioria de seus membros de acelerar o ritmo de corte de juros. E sinaliza a intenção do Comitê de reduzir o juro para 9%.
O Copom argumenta que “desaceleração da economia brasileira no segundo semestre do ano passado foi maior do que se antecipava”. Além do desaquecimento doméstico, também preocupam o comitê a “postergação de uma solução definitiva para a crise financeira europeia” e o “processo de desalavancagem – de bancos, de famílias e de governos – ora em curso nos principais blocos econômicos” (par. 29).
O menor crescimento, aliado à apreciação do câmbio de R$ 1,80 para R$ 1,70 considerada pelo Copom, levaram a queda da projeção de inflação para 2012 no cenário de referência (câmbio e juros constantes) para abaixo da meta central (4,5%). Para 2013, a projeção de inflação se elevou tanto no cenário de referência como de mercado, mantendo-se acima do centro da meta em ambos os casos.
Apesar do corte mais intenso nesta reunião, a ata sinaliza no parágrafo 30 que a decisão objetiva apenas uma “redistribuição temporal do ajuste total das condições monetárias” (par. 30). Ou seja, o Copom vê espaço para um ajuste mais rápido dos juros, mas não mais intenso do que o plano original.
A ata aponta ainda o tamanho do ajuste planejado, ao afirmar que “o Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos, e nesses patamares se estabilizando” (par. 35).
Como o mínimo histórico recente é 8,75%, é um sinal explícito de que o Copom pretende levar a Selic a 9% – patamar contemplado em nosso cenário base desde outubro de 2011.
Desta forma, mantemos a expectativa de que a Selic atinja 9% com mais um corte de 0,75 p.p. na próxima reunião do Copom, e permaneça neste nível até o final deste ano. Caso o Copom vislumbre riscos ao crescimento (apontados na Ata), o cenário alternativo seria o de uma Selic ainda menor, possivelmente 8,5% (com uma queda adicional de 0,5 p.p. na reunião seguinte). Pressões mais intensas para apreciação da taxa de câmbio também podem levar quedas adicionais dos juros.
Ilan Goldfajn
Economista-Chefe
Caio Megale
Economista
Aurélio Bicalho
Economista
BC indica: juros vão parar em 9% aa
Na ata da última reunião do COPOM o BC sinalizou que juros básicos irão ficar em 9% aa.
Veja texto abaixo:
35. Diante do exposto, e considerando os valores projetados para a inflação e o balanço de riscos associado, o Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos, e nesses patamares se estabilizando.
O gráfico abaixo mostra que, nos últimos 10 anos, o nível mínimo das taxas de juros selic foi 8,75% aa. Levemente acima, em BCgues, quer dizer 0,25% aa a mais, logo…
Acho que a caderneta de poupança falou mais alto. Governo quer evitar o desgaste político de mudar a regra da poupança. Logo, está definido o piso dos juros.
Previdência privada, seguro, plano de saúde e o juro baixo
Com a forte queda dos juros reais muita coisa muda na vida dos poupadores. Falei sobre isto em post recente:
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2012/03/06/juro-real-esta-desabando/
Como o sistema previdenciário público brasileiro não atende as demandas da classe média e das classes emergentes e com as deficiências do sistema de saúde público, é natural que as pessoas acumulem economias ao longo da vida para poderem encarar sua aposentadoria e os problemas naturais de saúde que chegam com a velhice.
Tal acumulação de poupança privada é fundamental, pois além de garantir uma velhice tranquila, as economias guardadas ao longo de uma vida servem para financiar o investimento de capital feito pelas empresas, pois tais recursos são reinvestidos e emprestados ao setor real que pode assim investir, aumentando o emprego e a renda para as novas gerações que chegam ao mercado de trabalho. O dinheiro não fica entesourado e guardado embaixo do colchão, mas sim é investido em papéis emitidos por bancos, governo e empresas que o investem na produção de bens e serviços, gerando empregos. A tal da ciranda financeira de fato é a reciclagem dos recursos guardados pelas famílias e empresas, que são reinvestidos. Toda vez que você investe sua grana poupada num banco, num título público ou privado, em CDBs, na poupança, em fundos de investimento, em ações, você está reciclando sua poupança que é então usada por aqueles que precisam de recursos para financiar suas compras ou investimentos produtivos. A renda dos projetos e dos serviços gerados nestes investimentos é retornada aos detentores do capital que investiram em títulos ou ações de empresas. Esta renda é o que ajuda o poupador a acumular um patrimônio que será um dia gasto durante a sua aposentadoria. Este excedente de poupança das famílias e indivíduos é decorrente da sobra de sua renda com trabalho, aluguéis, juros recebidos e ganhos de capital, depois do que você gasta, consome ou paga de impostos. Este é um conceito simples, porém muito pouco compreendido pela população em geral.
Como eu disse, o rendimento que é recebido nesta poupança é fundamental para se determinar o montante de recursos que é acumulado ao longo do tempo. Porém como há uma inflação que acaba por destruir o poder de compra de tal poupança que é acumulada ao longo da vida, o rendimento que importa é aquele que excede a inflação, ou seja, o rendimento real.
Vamos supor que um indivíduo poupe R$ 10 mil por ano durante 30 anos e que os invista em ativos que rendam 6% ao ano após deduzir os impostos e a inflação corrente. Vamos assumir que estes 10 mil poupados sejam todos os anos ajustados pela inflação, ou seja, se em determinado ano você poupou 10 mil e a inflação foi de 5% aa, você precisaria poupar R$ 10500, oo no ano seguinte, e assim por diante durante 30 anos. E vamos assumir que os rendimentos auferidos sejam reinvestidos da mesma forma. Ao final de 30 anos este individuo teria R$ 790 mil guardados, valor este que teria sido corrigido pela inflação ao longo destes 30 anos, mantendo assim seu poder de compra.
Repetindo agora este mesmo exercício, porém com uma rentabilidade real líquida de 3% aa, o valor acumulado ao final de 30 anos cairia para R$ 475mil, ou seja, haveria uma queda de 40% na poupança acumulada ao longo deste período. Caso tais recursos fossem destinados para financiar sua aposentadoria, haveria uma queda de 40% no padrão de vida desejado! Para que tal individuo atingisse os mesmos R$ 790 mil ele teria que continuar poupando por mais 10 anos, ou seja, só poderia se aposentar depois de 40 anos poupando ou elevar sua poupança anual para R$ 16600,00.
Como parte desta poupança tem como finalidade bancar gastos com saúde e eventualmente ajudar seus herdeiros no início de suas vidas, a redução dos juros acaba também por estimular a contratação de seguros de vida e de saúde. A demanda por tais seguros tende a aumentar pois a renda acumulada pode se tornar insuficiente para bancar estes custos futuros, principalmente em situações emergenciais. Os seguros tendem a servir como uma proteção para este patrimônio, proteção esta que aumenta de valor com a redução esperada da poupança a ser acumulada em virtude dos juros menores.
Não estou recomendando aqui que você contrate um seguro, porém acho que é um bom momento para refletir e avaliar sua poupança e sua aposentadoria.
Existe um outro impacto importante dos juros reais mais baixos no que diz respeito à alocação dos recursos investidos por entidades de previdência ( fundos de pensão) com benefício definido. Tais entidades recebem aportes dos seus patrocinadores de tal forma que os benefícios de aposentadoria dos beneficiários de tais planos já estão definidos a priori, de forma independente da rentabilidade das carteiras onde tais recursos são investidos. Por exemplo, se uma entidade aloca 50% dos recursos a ativos ligados ao CDI, a cada 2% aa de queda dos juros reais há um deficit de aproximadamente 8% no valor necessário para se cumprir suas obrigações atuarias num horizonte de 15 anos, o que vai demandar aportes maiores por parte das empresas patrocinadores destes planos ou vai exigir que se aumente a alocação de sua carteira em ativos de maior risco. Esta tendência de aumentar alocação em ativos de risco nas carteiras privadas é inevitável quando se reduz taxas de juros.
No aspecto macro tal processo é saudável, pois ao se reduzir o custo de capital para as empresas, ele acaba viabilizando mais investimentos privados e aumentando assim a capacidade de produção e a produtividade geral da economia. Contudo é fundamental que a inflação seja reduzida e estável, pois acelerações da mesma reduzem a renda real do trabalhador e seu poder de compra, além de reduzir o valor da poupança acumulada, o que abortaria o crescimento econômico. Um ambiente de juros reais mais baixos demanda uma disciplina inflacionária maior e uma menor volatilidade dos índices de inflação, para evitar que bolhas de consumo ou de investimento ocorram.
Por que o juro no Brasil é ( ou era…) tão elevado?
Este relatório abaixo do FMI analisa os motivos dos juros elevados no Brasil:
http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2012/wp1262.pdf
É uma boa leitura.
Neste paper o autor conclui que 3 fatores são determinantes para que a queda atual dos juros seja sustentável:
1. elevação do volume anual de poupança ( renda não consumida , guardada para financiar investimentos), que nos últimos 10 anos esteve ao redor de 18% do PIB, vis a vis 24% no México e 31% na Coréia;
2. elevação da poupança do setor público é mais eficaz do que elevar a poupança privada;
3. eliminação dos empréstimos públicos subsidiados pelo governo ( BNDES, CEF, BB) durante as fases positivas do ciclo econômico, como a que vivemos em 2010.





