Medidas prudenciais do BC não substituem a prudência
No final de 2010 o BC do B adotou algumas medidas chamadas prudenciais que tinham como objetivo impedir o crescimento exagerado das dívidas das famílias e dos consumidores em geral, através da redução da oferta de crédito ao consumo, dos seus prazos e da elevação dos juros cobrados pelos bancos.
Com a redução das taxas de juros nos últimos anos e com o crescimento da massa salarial e do emprego as pessoas passaram a demandar mais crédito. Os prazos das operações de empréstimos pessoais foram subindo rapidamente. Operações de credito consignado chegam até cinco anos de prazo. Com isto e com juros menores, as prestações foram caindo. Por exemplo, uma operação de consignado por 60 meses no valor de R$ 10 mil tem uma prestação de R$ 315 reais por mês. A mesma operação por 36 meses teria uma prestação de R$ 417. A mesma operação de 60 meses, assumindo agora um juro de 3,39% AM ao invés de 2,39% AM, teria uma prestação de R$ 392.
O consumidor quando contrata estas operações não pensa em termos de taxas de juros, mas sim no tamanho da prestação: se a prestação cabe no orçamento familiar, ele toma o empréstimo, sem prestar muita atenção ao custo do mesmo.
Há também um efeito curioso quando a inflação acelera. Os consumidores percebem que os preços dos bens desejados irão subir. Eles acompanham o que está acontecendo com os preços no seu dia a dia. Logo, se temos uma inflação de 6% AA, um bem que custa R$ 10 mil, sobe cerca de R$ 50 por mês. Cada mês que ele adia a compra ele tem que pagar mais caro. Logo, ele tende a antecipar seu consumo antes que a coisa suba mais de preço. O que ele não avalia é que a cada mês que ele espera ele deixa de pagar juros. No caso de um empréstimo consignado este juro mensal é de mais de 2% AM. Logo, num empréstimo de R$ 10 mil isto representa encargos adicionais de R$ 239 por mês. Porém ninguém pensa assim: a alta dos preços cria um estímulo maior para o consumidor antecipara suas compras.
Se você descontar a inflação mensal dos juros dos empréstimos você chega à taxa de juros real. No caso acima, os juros reais mensais são de aproximadamente 1,9% AM. Isto quer dizer que se você adiar uma compra financiada de R$ 10 mil por um ano, mesmo considerando a inflação, você pode ao final de um ano economizar até R$ 2500, ou seja, 25% do valor da mesma. Porém ninguém faz esta conta pois há uma demanda reprimida por alguns produtos e um fascínio pelo acesso fácil ao crédito.
Outro fator interessante da inflação é o impacto da elevação dos salários que ocorre com o tempo.
Uma pessoa que ganha hoje R$ 1575 por mês, líquidos de impostos, e deseja comprometer no máximo 20% de sua renda com prestações, pode tomar os R$ 10 mil reais por 60 meses que daria uma prestação mensal de R$ 315 num empréstimo consignado. Assumindo que o salário deste indivíduo suba de acordo com a inflação anual de 6% acrescida do crescimento do PIB de 4% AA, este terá seu salário elevado em cerca de 60% em termos nominais após cinco anos, ou seja, daqui a cinco anos quando ele estiver pagando a última parcela de seu empréstimo, seu salário estará em R$ 2564, ou seja, uma parcela representará 12% da renda apenas! A inflação dos salários acaba reduzindo o custo relativo do empréstimo. Assim a cada ano, o consumidor se sente seguro em aumentar sua dívida em 10% pois seu salário subiu!
Porém neste empréstimo de 60 meses o montante de juros pagos acima da inflação terá sido de quase 70% do valor do empréstimo! Se o tomador adiasse a compra por 5 anos, ele teria economizado 70% do valor do bem comprado em juros não pagos ! Na verdade ele irá pagar 17 mil reais por um bem que vale 10 mil reais. Mas ninguém faz esta conta. A única pergunta que é feita é: a prestação cabe em meu orçamento?
Este processo de expansão do endividamento se não for controlado traz vários riscos macro econômicos:
- Se o crescimento dos empréstimos for muito acima do PIB, a parcela da renda nacional comprometida com juros cresce, o que pode vir a reduzir o consumo futuro no caso de um desaquecimento da economia por algum choque. Os EUA tiveram esta experiência em 2008 e os custos econômicos foram devastadores: desemprego dobrou em poucos meses.
- O crédito farto pode gerar uma demanda ou consumo muito acima da capacidade produtiva do país, o que pode criar inflação ou elevação das importações para suprir tal demanda e, conseqüentemente, elevar o déficit externo e a necessidade de poupança externa para financiá-lo. Neste cenário, estaríamos financiando empréstimos ao consumo com fundos captados no exterior. Se liquidez internacional cair podemos ter uma crise de financiamento que derrubaria a oferta de crédito interno e reduziria crescimento da economia
- Somos um país que precisa investir em infra-estrutura, educação, saúde, etc. Se usarmos toda renda disponível para consumir, sobra pouco para poupar. Quando você poupa e guarda o dinheiro no banco, você gera recursos para financiar a produção e o investimento. Quando você se endivida você acaba absorvendo a grana que está no Banco e que poderia ser usada para financiar investimento produtivo. Um banco que pode emprestar a 32% AA num empréstimo consignado versus um empréstimo produtivo a 15% AA, vai preferir elevar as taxas cobradas nos financiamentos a empresas.
- Se inflação subir em função de um consumo elevado financiado por crédito farto o BC terá que subir os juros básicos ainda mais para combater a inflação, o que aumenta o custo da dívida pública pago pelo governo e o forçará a reduzir seus gastos e investimentos tão necessários
- O crescimento elevado do crédito aumenta alavancagem do sistema financeiro, tornando-o mais exposto a calotes e a crises como a vivida pelos Bancos da Europa e Estados Unidos em 2008 e 2009. Aprendemos que uma crise no sistema financeiro aleija a economia por bastante tempo.
Assim tais medidas prudências, embora não sejam substitutas da política tradicional de combate a inflação via juros Selic, são importantes para evitar o excessivo endividamento privado, que, embora seja extremamente importante para o crescimento da economia e para o funcionamento da economia, o crédito deve ser monitorado com rigor. O BC sabe que tais medidas ajudam no combate a inflação mas podem não ser suficientes, na medida em que temos hoje uma expectativa de inflação elevada, que precisa ser revertida. Há apenas duas formas de reduzir tal expectativa: desaquecer a economia de maneira abrupta ou elevar os juros mostrando aos agentes econômicos que o BC não permitirá que inflação fique acima da meta. Além disto, há indícios de um certo reaquecimento na demanda por crédito, o que indicaria que as medidas prudenciais podem ter tido um efeito menor do que se imaginava.
Mas cabe também ao consumidor consciente ter prudência em seus gastos e endividamento, pois o que vale para uma economia vale para uma família: juros pagos hoje representam menos poupança para os tempos difíceis.
Quer derrubar os juros cobrados pelos bancos? Pare de tomar empréstimos….
