Em 2011 o Economista escreveu isto:
NAKANO, Yoshiaki. “Finalmente a independência do BC”. Valor Econômico. São Paulo, 13 de Setembro de 2011.
O Banco Central (BC) tomou a decisão de reduzir em 0,5 ponto percentual a sua taxa de juros, o que surpreendeu o mercado financeiro. Os seus “porta vozes”, por meio da imprensa, falaram em quebra de “protocolo”, da “liturgia” e na subversão aos ”princípios mais valiosos” do sistema de metas de inflação. Isso teria deixado o mercado “perplexo” segundo a imprensa. Mas, afinal, qual era esse protocolo ou liturgia a que o mercado estava acostumado? Quais eram esses “princípios mais valiosos do sistema de metas de inflação” que o BC teria abandonado?De fato, o BC, que não tem na sua diretoria atual funcionários de bancos privados, como tivemos nas diretorias anteriores, surpreendeu os tesoureiros e economistas dos bancos privados, que estavam acostumados a uma relação, no mínimo, promíscua. Nessa relação, o Banco Central reagia às expectativas de inflação dos economistas dos bancos privados, materializadas na pesquisa Focus e nas taxas de juros futuras das operações efetuadas pelas tesourarias.Na véspera das reuniões do Copom, a imprensa fazia a pesquisa informando o Banco Central, qual o aumento ou redução em que a maioria dos bancos e empresas de consultoria apostavam. Lógico que a maioria sempre acertava. Esse era o protocolo ou a liturgia seguidos pelas diretorias anteriores do Banco Central sempre ocupados por funcionários do sistema bancário. Na última reunião de agosto, esse protocolo foi de fato abandonado. Daí a grande surpresa e perplexidade do mercado financeiro. A rigor, o BC finalmente tornou-se independente do mercado. Nesse protocolo ou liturgia prevaleciam, evidentemente, os interesses dos mercados financeiros. Se as expectativas de inflação e de taxas de juros futuras do próprio mercado financeiro guiavam as decisões do Banco Central, os riscos de erros nas projeções eram minimizados e as possibilidades de ganho maximizadas. Vale lembrar que, no Brasil, o Banco Central fixa a taxa Selic, que é a mesma dos títulos públicos de longo prazo e, que serve de base (CDI) para a fixação das demais taxas de juros ativas e passivas. Assim, a indexação dos ativos financeiros à taxa diária Selic/DI elimina o risco da variação da taxa de juros e, tal “protocolo” entre o mercado e o Banco Central reduzia o risco de erros de expectativas. A dita “perplexidade” do mercado é compreensível, pois agora aumentam os riscos de serem surpreendidos se errarem nas as suas projeções.Outro aspecto que merece atenção é que muitos economistas de bancos ou de consultorias ligadas ao mercado financeiro imputam a última decisão do Banco Central como subversão das regras (“princípios mais valiosos”) da política monetária baseada em metas de inflação. Nada mais longe da verdade. A rigor, o sistema de metas que tínhamos no Brasil, era um arremedo do verdadeiro. Como a variação da taxa de juros tem uma defasagem longa, de seis a 12 meses, para ter efeitos mais relevantes sobre o lado real da economia (demanda agregada) e sobre a inflação, a taxa de inflação relevante, que tem que ser monitorada, é a taxa estimada para os próximos seis a 12 meses. Portanto, o sistema de metas pressupõe um bom sistema de previsão de inflação futura para compará-la com a meta e daí tomar a decisão de mudar a taxa de juros. No Brasil, além de considerarmos a inflação medida e acumulada de doze meses, portanto, referente ao passado, estamos presos à inflação calendário.Além da inflação passada de 12 meses dificilmente ser uma projeção correta da inflação futura, a não ser por acaso, não consideramos nem mesmo a inflação contemporânea. Se esta for mais relevante para extrapolarmos para o futuro, a taxa de juros deverá ter um comportamento completamente diferente do nosso caso.Por exemplo, a taxa de inflação de agosto foi de 0,37%, portanto, anualizando temos como taxa de inflação referência 4,5%, coincidindo com a meta. A taxa de juros deveria ser muito menor. Ao utilizarmos a inflação passada de 12 meses como referência, temos que manter a taxa de juros em níveis elevados mesmo que as pressões inflacionárias efetivas tenham desaparecido e a inflação contemporânea esteja dentro da meta. É compreensível que aqueles que ganham com juros elevados defendam os “princípios mais valiosos” da atual regra.Outro aspecto que chamou a atenção dos “porta-vozes” do sistema financeiro é que o BC não está considerando só a taxa de inflação, mas o crescimento da economia, como se isso fosse um pecado mortal praticado pelo banco. Novamente, isso representa uma ignorância sobre o sistema de metas de inflação ou a defesa de interesses setoriais. O sistema de metas pressupõe que a taxa de juros afeta a inflação por diversos canais, entre eles o da demanda agregada ou o hiato do produto. A taxa de juros não afeta diretamente a inflação. Assim, ao elevar a taxa de juros, o Banco Central pretende eliminar o excesso de demanda ou atingir o hiato zero para assim controlar a inflação.O Banco Central do Brasil agiu de forma correta se seus estudos técnicos e as projeções de seus modelos indicam tanto a desaceleração do nível de atividade econômica, como a queda nas pressões inflacionárias nos próximos 12 meses. Se isso for verdade, estamos mais próximos de um verdadeiro sistema de metas. Se acrescentarmos que o ministro da Fazenda anunciou um aperto fiscal maior para poder afrouxar a política monetária, estamos iniciando uma nova era e podemos caminhar para um novo regime de política macroeconômica compatível com crescimento acelerado e sustentado.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas – FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.
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E no começo de 2013 ele disse:
Entrevista com Yoshiaki Nakano, professor da FGV
“De fato, em 2011/2012 a taxa de crescimento do PIB sofreu forte redução, de um patamar de 4% ao ano, nos anos precedentes, para uma média de 1,8% no último biênio, enquanto, paradoxalmente, a taxa de inflação se eleva atingindo uma média de mais de 6% ao ano. Este patamar de inflação é preocupante e se persistir comprometerá o futuro da economia.
O quadro brasileiro atual é complexo, pois o PIB cresceu apenas 0,9% e indústria teve uma contração na produção de -2,7%, em 2012, e taxa de desemprego atingiu 4,6%, em dezembro ultimo. É preciso lembrar que não se trata de simples excesso de demanda agregada e pleno emprego gerando inflação. Se fosse este o caso, a simples elevação da taxa de juros poderia esfriar a economia, reduzir o crescimento, conter os salários e trazer a taxa de inflação para baixo.
Mas trata-se de uma situação em que existe um grande hiato entre o crescimento da demanda agregada e da oferta doméstica. O dinamismo da demanda doméstica se mantém enquanto a capacidade ociosa na indústria aumentou, os investimentos retraíram e, estímulos dados pelo governo estão provocando apenas uma ligeira recuperação. A inflação acelerou, no seu componente persistente, em grande parte, devido ao setor de serviços. Desta forma, pode-se dizer que inflação brasileira tem um componente estrutural.
Com os preços relativos (taxa de câmbio apreciada) favorecendo o setor de bens não comercializáveis, por longo período, gerou-se uma forte expansão particularmente do setor de serviços e uma desindustrialização, que acabaram mudando a estrutura produtiva do país com efeitos perversos. A taxa de inflação de serviços tem sido muito maior que da indústria, pois como setor não sofre competição das importações e pode aumentar seus preços e conceder aumentos de salários, acima da produtividade. A inflação de serviços e aumentos salariais tem provocado uma generalizada elevação de custos sobre nos demais setores. Convive-se assim uma inflação de demanda nos serviços e de custos na indústria.
No curto prazo, dadas as inúmeras incertezas, algumas geradas pela própria política do governo, o investimento não deverá reagir suficiente para gerar um novo ciclo de crescimento. Portanto, não resta senão a elevação da taxa de juros para reduzir a taxa de inflação. Entretanto, sabemos que os efeitos desinflacionários da elevação de juros no Brasil são limitados a devido à indexação de cerca de um terço preços ao consumidor e de todo o sistema financeiro, a taxa diária Selic/Di, o que também reduz a potencia dos juros aos fluxos financeiros e oferta de crédito.
Assim, se a politica monetária não for cuidadosamente conduzida poderá agravar a situação, pois se o Banco Central optar pelo canal de transmissão mais potente, o da apreciação da taxa de câmbio, comprimindo os preços da indústria, estimulará ainda mais a expansão do setor de serviços, com efeitos perversos mencionados acima. Os efeitos desinflacionários da apreciação sobre os preços industriais não deverá ser suficiente para neutralizar estes efeitos perversos.
Se ampliarmos o horizonte temporal de análise para o médio e o longo prazos, é possível conceber um conjunto de medidas com um sequenciamento bem determinado que poderá atingir os dois objetivos ao mesmo tempo, com resultados já no curto prazo. É preciso promover uma mudança no regime de politica econômica bem como uma rápida reversão geral nas expectativas dos diversos agentes econômicos.
De início, para estimular o crescimento é preciso aumentar a taxa de investimento e para isto é preciso reduzir as incertezas, definindo mais clara e precisamente os objetivos, as prioridades e os instrumentos para atingi-los, explicitando a estratégia de longo prazo. Vamos reindustrializar o Brasil, a exemplo, do que está fazendo os Estados Unidos? Se a resposta for positiva, como a nova indústria deverá se integrar a economia global? Quais os estímulos e como deverão se comportar os principais preços relativos macroeconômicos? Estes estímulos e a estrutura de preços relativos têm que ser sustentável no longo prazo para que tenha credibilidade. Em suma, é preciso explicitar uma estrutura conceitual para que as medidas, tópicas e setoriais, ganhem sentido e coerência para dar horizonte temporal para que os empresários retomarem os investimentos num volume capaz de iniciar um novo “boom” na economia brasileira. É preciso novas instituições para garantir que este novo regime de política será sustentável e duradoura.
Para controlar a inflação e retomar o crescimento simultaneamente é preciso controlar a demanda e a inflação no setor de serviços e, ao mesmo tempo, reduzir a taxa de juros e tornar o câmbio competitivo para estimular a produção e os investimentos no setor industrial. Trata-se de mudar os preços relativos de forma sustentável e crível para realocar os recursos para termos uma estrutura produtiva mais dinâmica e com potencial de aumento de produtividade e de crescimento maior.
Manter a taxa de juros baixa e a taxa de câmbio mais competitiva, só será possível com inversão total na atual política fiscal com forte contração nos gastos correntes do governo para que no curto prazo contenha as pressões inflacionárias e, no médio e longo prazos, estimule e abra espaço para que a taxa de investimento aumente para pelo menos 25% do PIB. Isto pode ser feito ao longo de anos, mas o corte inicial nos gastos correntes tem que ser o forte suficiente para mudar o regime de política, reverter as expectativas e mudar as convenções dos agentes econômicos de forma crível.
Confesso que eu não acredito que decisão dessa natureza seja tomada no Brasil num futuro próximo, nem que tenhamos competência para isto. Mudanças dessa natureza acabam ocorrendo como reação a uma situação de crise profunda. Resta o consolo de que a literatura econômica relata diversos casos de sucesso, em que uma sequencia de depreciação cambial, acompanhada de politica monetária expansionista e forte contração fiscal coloca a economia num novo regime com aceleração do crescimento e queda na inflação.”
E nesta semana ele disse:
Nakano admite desemprego contra a inflação
Um leve aumento na taxa de desemprego seria suficiente para conter o consumo, diz economista
Ricardo Leopoldo
O diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Yoshiaki Nakano, afirmou ontem que a inflação no Brasil somente baixará com aumento do desemprego. E, para ele, o aumento de juros na atual conjuntura é o melhor instrumento para viabilizar o desaquecimento do mercado de trabalho.
Segundo Nakano, não seria necessário gerar uma forte onda de desemprego, mas uma leve alteração do patamar, para a casa dos 6%. “Basta que as pessoas percebam que as condições do emprego não estão tão favoráveis, as demandas de alta de salário e de exagero de consumo vão diminuir para patamares mais razoáveis”, afirmou o economista, que participou do seminário “Os entraves à retomada econômica”, realizado pela Internews, em São Paulo.
Erro. O economista também afirmou ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que o BC está certo ao sinalizar que pode aumentar o ritmo de alta de juros em maio. “A elevação de 0,25 ponto porcentual da Selic foi um erro, tanto que o mercado mal reagiu a essa decisão”, afirmou. “Uma alta de 0,50 ponto porcentual teria sido mais eficiente, pois daria um sinal mais forte de que há vontade de combater com vigor a alta da inflação.”
Para Nakano, o movimento de alta disseminada do IPCA não está gerando um processo de inércia inflacionária. “Mas as pessoas estão alertas. Parece que estão esperando uma alta mais forte dos preços para fazer reajustes em seguida”, disse.
O diretor da FGV afirmou também que a administração Dilma Rousseff está passando por uma “transição de regime econômico”, com juros menores e câmbio menos apreciado, que está provocando “confusão mental” nos agentes econômicos. “Contudo, é preciso fazer uma definição sobre qual é o seu modelo. O empresário precisa ter uma noção sobre como vai ser o desenvolvimento do País em dez anos para ter mais segurança para investir de forma constante no longo prazo”, ponderou.
De acordo com Nakano, é fundamental que o governo ataque o “Custo Brasil”, especialmente o peso dos tributos sobre o setor produtivo, pois isso daria mais condições para que as empresas lucrem e possam aplicar mais recursos em investimentos.
MEU PITACO: ATÉ OS ECONOMISTAS QUE HISTORICAMENTE ESTIVERAM CONTRA AS ” PRÁTICAS MONETÁRIAS” DE NOSSO BC SE RENDEM AOS FATOS: OU SOBE O JURO OU TEMOS UM PROBLEMA. E ELE TAMBÉM CONCLUI QUE O PROBLEMA É O EMPREGO… NADA COM UM DIA DEPOIS DO OUTRO….