Sem Categoria | Ricardo Gallo

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quarta-feira, 15 de maio de 2013 Inflação, Politica Economica, Sem categoria | 14:21

Keynes e a inflação

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Não é só Hayek que tinha horror a inflação.

Vejam algumas frases do grande economista, que lembra um feroz presidente de Banco Central defendendo seu mandato de protetor da moeda:

“Atribui-se a Lênin a declaração de que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista é destruindo a moeda. Com um processo contínuo de inflação os governos podem confiscar uma parte importante da riqueza de seus cidadãos, secreta e furtivamente. Com esse método eles não só confiscam, mas o fazem arbitrariamente; é um processo que empobrece a muitos, mas na verdade enriquece uns poucos. Este deslocamento arbitrário da riqueza fere não só a segurança, mas a confiança na equidade da distribuição da renda. Aqueles a quem o sistema traz vantagens além do que merecem, e mesmo do que esperam ou desejam, passam a ser ‘aproveitadores’ — objeto do ódio da burguesia, que a inflação empobreceu, não menos do que o proletariado. À medida que a inflação se desenvolve, e o valor da moeda flutua de mês a mês, as relações permanentes entre credores e devedores, fundamento do capitalismo, se desorganizam até quase perderem o sentido. E o processo de aquisição de valor degenera em uma loteria de azar. Não há dúvida de que Lênin tinha razão”.

“A inflação do sistema monetário europeu já avançou extraordinariamente. Incapazes por timidez ou miopia de obter com impostos ou empréstimos os recursos de que precisavam, os governos beligerantes recorriam à impressão de papel-moeda. Na Rússia e na Áustria-Hungria esse processo chegou a tal ponto que a moeda desses países praticamente não tem valor no mercado”.

“Há uma vantagem evidente em conservar bens no mesmo padrão em que irão vencer os compromissos futuros e nele esperar que o custo de vida permaneça relativamente estável. Ao mesmo tempo, a expectativa de relativa estabilidade no custo monetário da produção futura não se manteria com muita confiança se o padrão de valor fosse um bem com grande elasticidade de produção”.

“O desemprego aumenta porque as pessoas querem a lua; os homens não podem conseguir emprego enquanto o objeto de seus desejos (isto é, o dinheiro) é uma coisa que não se produz e cuja demanda não pode ser facilmente contida. O único remédio consiste em persuadir o público de que lua e queijo verde são praticamente a mesma coisa, e a fazer funcionar uma fábrica de queijo verde (isto é, um Banco Central) sob controle público”.

Autor: Ricardo Gallo Tags:

sábado, 27 de abril de 2013 Inflação, Juros no Brasil, Sem categoria | 13:29

É o emprego: Nakano pede juro maior!!!

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Em 2011 o Economista escreveu isto:

NAKANO, Yoshiaki. “Finalmente a independência do BC”. Valor Econômico. São Paulo, 13 de Setembro de 2011.

O Banco Central (BC) tomou a decisão de reduzir em 0,5 ponto percentual a sua taxa de juros, o que surpreendeu o mercado financeiro. Os seus “porta vozes”, por meio da imprensa, falaram em quebra de “protocolo”, da “liturgia” e na subversão aos ”princípios mais valiosos” do sistema de metas de inflação. Isso teria deixado o mercado “perplexo” segundo a imprensa. Mas, afinal, qual era esse protocolo ou liturgia a que o mercado estava acostumado? Quais eram esses “princípios mais valiosos do sistema de metas de inflação” que o BC teria abandonado?De fato, o BC, que não tem na sua diretoria atual funcionários de bancos privados, como tivemos nas diretorias anteriores, surpreendeu os tesoureiros e economistas dos bancos privados, que estavam acostumados a uma relação, no mínimo, promíscua. Nessa relação, o Banco Central reagia às expectativas de inflação dos economistas dos bancos privados, materializadas na pesquisa Focus e nas taxas de juros futuras das operações efetuadas pelas tesourarias.Na véspera das reuniões do Copom, a imprensa fazia a pesquisa informando o Banco Central, qual o aumento ou redução em que a maioria dos bancos e empresas de consultoria apostavam. Lógico que a maioria sempre acertava. Esse era o protocolo ou a liturgia seguidos pelas diretorias anteriores do Banco Central sempre ocupados por funcionários do sistema bancário. Na última reunião de agosto, esse protocolo foi de fato abandonado. Daí a grande surpresa e perplexidade do mercado financeiro. A rigor, o BC finalmente tornou-se independente do mercado. Nesse protocolo ou liturgia prevaleciam, evidentemente, os interesses dos mercados financeiros. Se as expectativas de inflação e de taxas de juros futuras do próprio mercado financeiro guiavam as decisões do Banco Central, os riscos de erros nas projeções eram minimizados e as possibilidades de ganho maximizadas. Vale lembrar que, no Brasil, o Banco Central fixa a taxa Selic, que é a mesma dos títulos públicos de longo prazo e, que serve de base (CDI) para a fixação das demais taxas de juros ativas e passivas. Assim, a indexação dos ativos financeiros à taxa diária Selic/DI elimina o risco da variação da taxa de juros e, tal “protocolo” entre o mercado e o Banco Central reduzia o risco de erros de expectativas. A dita “perplexidade” do mercado é compreensível, pois agora aumentam os riscos de serem surpreendidos se errarem nas as suas projeções.Outro aspecto que merece atenção é que muitos economistas de bancos ou de consultorias ligadas ao mercado financeiro imputam a última decisão do Banco Central como subversão das regras (“princípios mais valiosos”) da política monetária baseada em metas de inflação. Nada mais longe da verdade. A rigor, o sistema de metas que tínhamos no Brasil, era um arremedo do verdadeiro. Como a variação da taxa de juros tem uma defasagem longa, de seis a 12 meses, para ter efeitos mais relevantes sobre o lado real da economia (demanda agregada) e sobre a inflação, a taxa de inflação relevante, que tem que ser monitorada, é a taxa estimada para os próximos seis a 12 meses. Portanto, o sistema de metas pressupõe um bom sistema de previsão de inflação futura para compará-la com a meta e daí tomar a decisão de mudar a taxa de juros. No Brasil, além de considerarmos a inflação medida e acumulada de doze meses, portanto, referente ao passado, estamos presos à inflação calendário.Além da inflação passada de 12 meses dificilmente ser uma projeção correta da inflação futura, a não ser por acaso, não consideramos nem mesmo a inflação contemporânea. Se esta for mais relevante para extrapolarmos para o futuro, a taxa de juros deverá ter um comportamento completamente diferente do nosso caso.Por exemplo, a taxa de inflação de agosto foi de 0,37%, portanto, anualizando temos como taxa de inflação referência 4,5%, coincidindo com a meta. A taxa de juros deveria ser muito menor. Ao utilizarmos a inflação passada de 12 meses como referência, temos que manter a taxa de juros em níveis elevados mesmo que as pressões inflacionárias efetivas tenham desaparecido e a inflação contemporânea esteja dentro da meta. É compreensível que aqueles que ganham com juros elevados defendam os “princípios mais valiosos” da atual regra.Outro aspecto que chamou a atenção dos “porta-vozes” do sistema financeiro é que o BC não está considerando só a taxa de inflação, mas o crescimento da economia, como se isso fosse um pecado mortal praticado pelo banco. Novamente, isso representa uma ignorância sobre o sistema de metas de inflação ou a defesa de interesses setoriais. O sistema de metas pressupõe que a taxa de juros afeta a inflação por diversos canais, entre eles o da demanda agregada ou o hiato do produto. A taxa de juros não afeta diretamente a inflação. Assim, ao elevar a taxa de juros, o Banco Central pretende eliminar o excesso de demanda ou atingir o hiato zero para assim controlar a inflação.O Banco Central do Brasil agiu de forma correta se seus estudos técnicos e as projeções de seus modelos indicam tanto a desaceleração do nível de atividade econômica, como a queda nas pressões inflacionárias nos próximos 12 meses. Se isso for verdade, estamos mais próximos de um verdadeiro sistema de metas. Se acrescentarmos que o ministro da Fazenda anunciou um aperto fiscal maior para poder afrouxar a política monetária, estamos iniciando uma nova era e podemos caminhar para um novo regime de política macroeconômica compatível com crescimento acelerado e sustentado.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas – FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

…………..

E no começo de  2013 ele disse:

Entrevista com Yoshiaki Nakano, professor da FGV

“De fato, em 2011/2012 a taxa de crescimento do PIB sofreu forte redução, de um patamar de 4% ao ano, nos anos precedentes, para uma média de 1,8% no último biênio, enquanto, paradoxalmente, a taxa de inflação se eleva atingindo uma média de mais de 6% ao ano. Este patamar de inflação é preocupante e se persistir comprometerá o futuro da economia.

O quadro brasileiro atual é complexo, pois o PIB cresceu apenas 0,9% e indústria teve uma contração na produção de -2,7%, em 2012, e taxa de desemprego atingiu 4,6%, em dezembro ultimo. É preciso lembrar que não se trata de simples excesso de demanda agregada e pleno emprego gerando inflação. Se fosse este o caso, a simples elevação da taxa de juros poderia esfriar a economia, reduzir o crescimento, conter os salários e trazer a taxa de inflação para baixo.

Mas trata-se de uma situação em que existe um grande hiato entre o crescimento da demanda agregada e da oferta doméstica. O dinamismo da demanda doméstica se mantém enquanto a capacidade ociosa na indústria aumentou, os investimentos retraíram e, estímulos dados pelo governo estão provocando apenas uma ligeira recuperação. A inflação acelerou, no seu componente persistente, em grande parte, devido ao setor de serviços. Desta forma, pode-se dizer que inflação brasileira tem um componente estrutural.

Com os preços relativos (taxa de câmbio apreciada) favorecendo o setor de bens não comercializáveis, por longo período, gerou-se uma forte expansão particularmente do setor de serviços e uma desindustrialização, que acabaram mudando a estrutura produtiva do país com efeitos perversos. A taxa de inflação de serviços tem sido muito maior que da indústria, pois como setor não sofre competição das importações e pode aumentar seus preços e conceder aumentos de salários, acima da produtividade. A inflação de serviços e aumentos salariais tem provocado uma generalizada elevação de custos sobre nos demais setores. Convive-se assim uma inflação de demanda nos serviços e de custos na indústria.

No curto prazo, dadas as inúmeras incertezas, algumas geradas pela própria política do governo, o investimento não deverá reagir suficiente para gerar um novo ciclo de crescimento. Portanto, não resta senão a elevação da taxa de juros para reduzir a taxa de inflação. Entretanto, sabemos que os efeitos desinflacionários da elevação de juros no Brasil são limitados a devido à indexação de cerca de um terço preços ao consumidor e de todo o sistema financeiro, a taxa diária Selic/Di, o que também reduz a potencia dos juros aos fluxos financeiros e oferta de crédito.

Assim, se a politica monetária não for cuidadosamente conduzida poderá agravar a situação, pois se o Banco Central optar pelo canal de transmissão mais potente, o da apreciação da taxa de câmbio, comprimindo os preços da indústria, estimulará ainda mais a expansão do setor de serviços, com efeitos perversos mencionados acima. Os efeitos desinflacionários da apreciação sobre os preços industriais não deverá ser suficiente para neutralizar estes efeitos perversos.
Se ampliarmos o horizonte temporal de análise para o médio e o longo prazos, é possível conceber um conjunto de medidas com um sequenciamento bem determinado que poderá atingir os dois objetivos ao mesmo tempo, com resultados já no curto prazo. É preciso promover uma mudança no regime de politica econômica bem como uma rápida reversão geral nas expectativas dos diversos agentes econômicos.

De início, para estimular o crescimento é preciso aumentar a taxa de investimento e para isto é preciso reduzir as incertezas, definindo mais clara e precisamente os objetivos, as prioridades e os instrumentos para atingi-los, explicitando a estratégia de longo prazo. Vamos reindustrializar o Brasil, a exemplo, do que está fazendo os Estados Unidos? Se a resposta for positiva, como a nova indústria deverá se integrar a economia global? Quais os estímulos e como deverão se comportar os principais preços relativos macroeconômicos? Estes estímulos e a estrutura de preços relativos têm que ser sustentável no longo prazo para que tenha credibilidade. Em suma, é preciso explicitar uma estrutura conceitual para que as medidas, tópicas e setoriais, ganhem sentido e coerência para dar horizonte temporal para que os empresários retomarem os investimentos num volume capaz de iniciar um novo “boom” na economia brasileira. É preciso novas instituições para garantir que este novo regime de política será sustentável e duradoura.

Para controlar a inflação e retomar o crescimento simultaneamente é preciso controlar a demanda e a inflação no setor de serviços e, ao mesmo tempo, reduzir a taxa de juros e tornar o câmbio competitivo para estimular a produção e os investimentos no setor industrial. Trata-se de mudar os preços relativos de forma sustentável e crível para realocar os recursos para termos uma estrutura produtiva mais dinâmica e com potencial de aumento de produtividade e de crescimento maior.

Manter a taxa de juros baixa e a taxa de câmbio mais competitiva, só será possível com inversão total na atual política fiscal com forte contração nos gastos correntes do governo para que no curto prazo contenha as pressões inflacionárias e, no médio e longo prazos, estimule e abra espaço para que a taxa de investimento aumente para pelo menos 25% do PIB. Isto pode ser feito ao longo de anos, mas o corte inicial nos gastos correntes tem que ser o forte suficiente para mudar o regime de política, reverter as expectativas e mudar as convenções dos agentes econômicos de forma crível.

Confesso que eu não acredito que decisão dessa natureza seja tomada no Brasil num futuro próximo, nem que tenhamos competência para isto. Mudanças dessa natureza acabam ocorrendo como reação a uma situação de crise profunda. Resta o consolo de que a literatura econômica relata diversos casos de sucesso, em que uma sequencia de depreciação cambial, acompanhada de politica monetária expansionista e forte contração fiscal coloca a economia num novo regime com aceleração do crescimento e queda na inflação.”

E nesta semana ele disse:

Nakano admite desemprego contra a inflação

Um leve aumento na taxa de desemprego seria suficiente para conter o consumo, diz economista

Ricardo Leopoldo

O diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Yoshiaki Nakano, afirmou ontem que a inflação no Brasil somente baixará com aumento do desemprego. E, para ele, o aumento de juros na atual conjuntura é o melhor instrumento para viabilizar o desaquecimento do mercado de trabalho.

Segundo Nakano, não seria necessário gerar uma forte onda de desemprego, mas uma leve alteração do patamar, para a casa dos 6%. “Basta que as pessoas percebam que as condições do emprego não estão tão favoráveis, as demandas de alta de salário e de exagero de consumo vão diminuir para patamares mais razoáveis”, afirmou o economista, que participou do seminário “Os entraves à retomada econômica”, realizado pela Internews, em São Paulo.

Erro. O economista também afirmou ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que o BC está certo ao sinalizar que pode aumentar o ritmo de alta de juros em maio. “A elevação de 0,25 ponto porcentual da Selic foi um erro, tanto que o mercado mal reagiu a essa decisão”, afirmou. “Uma alta de 0,50 ponto porcentual teria sido mais eficiente, pois daria um sinal mais forte de que há vontade de combater com vigor a alta da inflação.”

Para Nakano, o movimento de alta disseminada do IPCA não está gerando um processo de inércia inflacionária. “Mas as pessoas estão alertas. Parece que estão esperando uma alta mais forte dos preços para fazer reajustes em seguida”, disse.

O diretor da FGV afirmou também que a administração Dilma Rousseff está passando por uma “transição de regime econômico”, com juros menores e câmbio menos apreciado, que está provocando “confusão mental” nos agentes econômicos. “Contudo, é preciso fazer uma definição sobre qual é o seu modelo. O empresário precisa ter uma noção sobre como vai ser o desenvolvimento do País em dez anos para ter mais segurança para investir de forma constante no longo prazo”, ponderou.

De acordo com Nakano, é fundamental que o governo ataque o “Custo Brasil”, especialmente o peso dos tributos sobre o setor produtivo, pois isso daria mais condições para que as empresas lucrem e possam aplicar mais recursos em investimentos.

MEU PITACO: ATÉ OS ECONOMISTAS QUE HISTORICAMENTE ESTIVERAM CONTRA AS ” PRÁTICAS MONETÁRIAS” DE NOSSO BC SE RENDEM AOS FATOS: OU SOBE O JURO OU TEMOS UM PROBLEMA. E ELE TAMBÉM CONCLUI QUE O PROBLEMA É O EMPREGO… NADA COM UM DIA DEPOIS DO OUTRO….

Autor: Ricardo Gallo Tags:

segunda-feira, 22 de abril de 2013 Sem categoria | 04:04

Capital humano e produtividade

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Segue uma excelente coluna do Jornal Valor Econômico do Naercio Menezes Filho,  professor titular, Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, sobre meu assunto favorito:

A economia brasileira está numa encruzilhada. A expansão nos últimos anos tem sido fortemente baseada no setor de serviços, que tem crescido graças aos aumentos de renda da nova classe média. Esse setor emprega intensivamente pessoas menos educadas, que recebem salários menores do que as que concluíram o ensino médio e superior.

No entanto, como o número de trabalhadores jovens está declinando (especialmente os menos qualificados), seu salário tem aumentado continuamente, provocando a alta dos preços no setor de serviços. Além disso, esse aumento de salário transborda para o resto da economia, afetando a competividade da indústria. Assim, para equilibrar a demanda e a oferta por trabalho (especialmente o menos qualificado), o governo começou a aumentar a taxa de juros, para desaquecer a economia e o mercado de trabalho. O problema é que isso tende a provocar desemprego, que diminui o bem-estar dos trabalhadores. Haveria outra saída?

A solução é aumentar o capital humano dos nossos trabalhadores: o Brasil anda muito mal nesse quesito

Uma possibilidade seria incentivar a imigração maciça de trabalhadores dos países vizinhos, para trabalhar no setor de serviços e suprir a carência de oferta de trabalho. Foi o que aconteceu nos EUA, por exemplo, que emprega os trabalhadores mexicanos para as tarefas menos qualificadas. Entretanto, teríamos que prover saúde e educação pública de qualidade para os filhos dos imigrantes, justamente num momento em que a demografia está ajudando a educação, ao diminuir o número dos nossos alunos.

Logo, uma saída melhor seria aumentar a produtividade no setor de serviços. Se a produtividade nesse setor aumentasse, as empresas poderiam atender mais consumidores com o mesmo número de trabalhadores, o que diminuiria seu custo e assim, as pressões inflacionárias. Mas, como poderíamos fazer isso, se o setor de serviços tradicionalmente faz pouco uso de novas tecnologias, dependendo muito do trabalho humano?

A solução é aumentar o capital humano dos nossos trabalhadores. O problema é que o Brasil anda muito mal nesse quesito. Alguns dados ilustram esse fato. Já há alguns anos, o Instituto Paulo Montenegro e a Ação Educativa vêm coletando dados sobre o analfabetismo funcional no Brasil. Os resultados são assustadores. Apenas um terço dos brasileiros com idade acima de 15 anos domina plenamente a leitura e a matemática. Cerca de 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais nesses quesitos. Como essas pessoas poderão trabalhar produtivamente no setor de serviços se não conseguem fazer contas ou escrever um simples recibo?

Mas, podemos pensar que a situação melhorará quando as novas gerações chegarem ao mercado de trabalho, agora que a sociedade acordou para a importância da educação de qualidade. Doce ilusão. A figura abaixo mostra que o aprendizado de matemática tem aumentado apenas na 4ª série (atual 5º ano). A qualidade está estagnada tanto na 8ª série como no 3º ano do ensino médio. O aluno médio dessas séries está aprendendo menos hoje do que em 1995. Infelizmente, a melhora de aprendizado nas séries iniciais não se traduziu em melhoras sucessivas nas séries seguintes, como esperávamos. Assim, o aumento dos anos de estudo que tem ocorrido nos últimos anos terá um efeito bem menor do que o esperado.

Na verdade, existem barreiras que impedem que os aumentos de aprendizado cheguem às series mais avançadas. Os problemas estão tanto entre os alunos como entre os professores dessas séries. Do lado dos alunos, quando as crianças chegam à adolescência, a concentração no estudo torna-se mais difícil, as distrações aumentam. Se o jovem não teve um desenvolvimento com foco no conhecimento desde os primeiros anos de vida, ele não tem motivação para aprender matérias abstratas. Assim, a evasão e a carreira criminal tornam-se bastante atraentes.

Do lado das escolas, o problema principal está com os professores. Além da carência de professores para ministrar as disciplinas específicas, os formados que escolhem a carreira docente geralmente são os que têm o pior desempenho na faculdade. Por fim, os professores existentes faltam uma quantidade enorme de dias por ano. Se os alunos não têm aulas, como vão aprender? Isso desestimula até os alunos interessados.

Em suma, nosso principal problema atual é a produtividade no setor de serviços, que depende de uma melhor formação dos nossos trabalhadores. As experiências de sucesso de aprendizado que ocorreram em alguns Estados, com foco na alfabetização, produziram resultados apenas na 4ª série. Mudar o aprendizado nas séries mais avançadas é outra história. Mas temos que enfrentar agora esse desafio para não termos que enfrentar os dilemas de política econômica novamente no futuro.

Naercio Menezes Filho professor titular, Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, é professor associado da FEA-USP e escreve mensalmente às sextas-feiras. naercioamf@insper.edu.br

http://www.insper.edu.br/professores/pesquisadores/naercio-aquino-menezes-filho/

http://www.valor.com.br/opiniao/3093006/educacao-produtividade-e-inflacao#ixzz2QwC7E2FR

Autor: Ricardo Gallo Tags:

sábado, 20 de abril de 2013 Inflação, Sem categoria | 19:25

Commodities darão uma trégua temporária para a inflação

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As commodities irão dar uma ajudinha para o BC do B, pois a pressão dos seus preços sobre a inflação tende a arrefecer, como vemos no gráfico abaixo preparado por um brilhante economista, especialista em lidar com dragões, que mostra a evolução dos preços das commodities internacionais agregadas com pesos similares aos do IPCA, convertidas em reais em bases diárias:

Marquei em vermelho a alta de preços que ocorreu em 2012, e em verde a queda dos preços que vem ocorrendo desde o final de 2012.

Assim , a  inflação dos próximos meses deve dar uma arrefecida em função de tais quedas.

Porém não se animem, pois não se prevê nenhum colapso no preço das commodities agrícolas, tampouco do petróleo… logo tal efeito é apenas temporário….

Agora, quando estamos a procura de  motivos para não fazer algo nós sempre os encontramos….

E aqui está mais um motivo  que o BC vai usar para ir bem devagar na alta dos juros…

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domingo, 14 de abril de 2013 Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 20:01

Consumo fraquinho: efeito da inflação?

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O consumo está  patinando… mesmo com juro baixo, desoneração tributária, bancos públicos bombando crédito, etc….

Gráficos abaixo mostram a realidade…

O gráfico azul mostra a expansão do volume mensal ( dessazonalizado) das vendas no varejo, excluindo autos e material de construção, desde 2007. O gráfico vermelho mostra a tendência do volume de vendas desde 2003, que cresce a 8% A.A.

Dependendo do ciclo econômico a linha azul fica acima ( consumo aquecido) ou abaixo ( consumo mais fraco) da linha de tendência.

Vemos em amarelo que estamos abaixo da tendência, e que de fato o volume de vendas está estacionado já há alguns meses apesar de todos os estímulos....

O gráfico preto abaixo mostra a distância das vendas no varejo de sua tendencia dos últimos 10 anos:

O tamanho atual do desvio das vendas de sua tendência  ( em amarelo)  só perde para o que tivemos na crise de 2009 ( vermelho). Ou seja, há algo estranho acontecendo… seria isto já um efeito da inflação?

O gráfico azul abaixo mostra a evolução taxa anualizada de crescimento das vendas desde 2007, calculada com base no volume de vendas dos últimos 3 meses sobre a venda dos 3 meses anteriores:

A linha vermelha horizontal mostra a taxa média de crescimento no período ( 2007 – 2013).  Marquei em amarelo as taxas de crescimento recentes que mostram uma desaceleração que ocorre desde meados de 2012, o que confirma a percepção de que as vendas estão perdendo folego já há alguns meses e não estão se recuperando na margem.

Ou seja, há fortes indícios que a demanda final vinda do consumo está caindo e que isto pode ser um efeito da forte aceleração da inflação dos últimos meses.

Esta poderia ser uma razão para BC não subir o juro agora?

Não acho, pois com as dúvidas gerais sobre o real compromisso do governo no combate à inflação decorrentes:

a. da inflação corrente que já passou o topo da banda….

b. das mensagens ambíguas vindas do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda, que deixaram dúvidas sobre o compromisso do governo no combate à inflação, e pior ainda, sobre a real autonomia operacional do BC do B.

e como tudo indica que tal desaceleração das vendas seja decorrente da própria elevação da inflação, fica difícil o BC deixar de subir os juros.

Caso o BC não concorde com este argumento e decida não subir o juro agora, ele terá que ser explícito na ata quanto as suas dúvidas sobre a solidez da recuperação econômica: seria ela sólida o suficiente para justificar uma elevação dos juros? Ele teria que falar isto alto e em bom tom, para que todos ouçam e entendam. Se ele continuar afirmando que a economia vai crescer os 1% ao trimestre daqui para frente, e que o consumo será sustentado pelo crédito e pelo aumento da renda real, ele precisará subir os juros rapidamente. Ou seja, só um discurso bem mais pessimista com relação à atividade poderia justificar uma hesitação em subir os juros agora.

Agora,  quanto a credibilidade danificada, há um remédio de  enorme força: o Congresso poderia aprovar, a toque de caixa, o projeto de lei que concede autonomia legal e formal ao BC do B,  com mandatos de 6 anos para seus diretores e ratificando que o cumprimento das metas de inflação  seja o objetivo único da política monetária. Aí a turma toda vai entender que quem manda neste front é o Tombini e sua turma. Com isto restauraríamos a credibilidade de forma mais definitiva. E evitaríamos ter que ficar mostrando que somos sérios  no combate a inflação o tempo todo… isto seria uma vitória extraordinária para a  Presidenta…

Porém, mesmo neste cenário, se a atividade se recuperar e a inflação se mostrar persistente,  BC terá que vir com artilharia pesada, pois só discurso não basta.

Mas se eles forem espertos, quem sabe dá para transformar o limão numa limonada, como diria um importante ex dirigente do BC do B que muito lutou pela autonomia, pois estaria criado o momento político para se conceder autonomia formal ao BC.

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quarta-feira, 10 de abril de 2013 Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 15:05

É o emprego, companheiro!

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Durante a campanha eleitoral de 1992 nos EUA, quando Bill Clinton enfrentou George Bush pai,  o estrategista da campanha de Clinton desejava que os correlegionários do então candidato democrata se lembrassem de algumas mensagens básicas. Na época, para facilitar a memorização da mensagem principal daquela campanha, ele cunhou a seguinte frase:

It’s the economy, stupid

A ideia era usar a recessão que predominava nos EUA  como argumento eleitoral para vencer o então presidente e candidato republicano George Bush.

É uma maneira bastante explícita de colocar as coisas…

Fazendo um trocadilho e uma adaptação à realidade brasileiro, acho que o emprego desempenha hoje um papel importante tanto no cenário político, como também no econômico.

Ao longo dos últimos anos a política econômica do governo levou a um aumento da participação dos  salários na economia, como mostra o gráfico abaixo:

Este gráfico vermelho mostra a evolução da relação da massa salarial ampliada ( inclui salários, previdência e outros programas de transferência de renda do governo) sobre o PIB desde 2004. Notamos em verde que tal relação está bem acima da média do período ( reta azul) e dos picos de 2006 e 2009 ( reta amarela), e tem apresentado uma alta bastante acentuada nos últimos anos ( em verde) .  Este processo ocorreu a meu ver por duas razões:

a. melhoria no emprego e aquecimento do mercado de trabalho;

b. aumentos reais do salário mínimo.

Não há nada de errado nisto. Faz sentido num governo democrático promover o aumento da renda dos trabalhadores.

Ao mesmo tempo, temos um comportamento dos preços relativos na economia que induz a um aumento do consumo de determinados produtos:

O gráfico acima mostra a variação relativa nos preços dos vários grupos de bens que constituem a cesta usada no cálculo da inflação medida pelo IPCA.

A linha preta central ( 1,00) mostra o índice cheio. Os gráficos das diversas cores mostram a evolução dos preços relativos dos vários sub grupos dentro do índice. Quando um gráfico está acima da linha preta quer dizer que seus preços  subiram mais do que o índice neste período desde dezembro de 2003. Se estão abaixo da linha preta, os preços subiram menos do que o índice. Ou seja, mostram como os diversos preços se comportaram em termos relativos.

Começaremos analisando de cima para baixo pelos itens que marquei em verde, que são preços dos serviços e dos itens não comercializáveis, itens que não sofrem a competição dos importados e portanto não estão sujeitos a variação da cotação dólar. Vemos que estes são os campeões de valorização real, ou seja, andaram bem acima da inflação média do período.  De fato são preços mais sujeitos a variações dos custos locais, como o custo da mão de obra que tem andado bem acima da inflação. Estes são itens que pesam muito no bolso da classe média.

Mais abaixo marquei a evolução dos preços dos itens que têm seus preços monitorados pelo governo, dos itens comercializáveis, que sofrem com a competição dos produtos importados, e da gasolina. Vemos que estes ajudaram a puxar a inflação média para baixo. Isto é fruto da política do governo de manter tais preços andando abaixo da inflação, seja através da fixação de seus preços em patamares baixos ou da manutenção de um dólar fraco. Isto explica as dificuldades que os exportadores e a Petrobrás estão tendo.

E por último, marcados em amarelo, temos os destaques de queda, que são o preço da eletricidade e dos bens duráveis, como televisores, carros, geladeiras, celulares, etc.

Com os salários subindo acima da inflação, o desemprego em queda, os preços de bens duráveis andando bem abaixo da inflação, com o crédito farto, os juros em queda e o dólar barato temos o cenário perfeito para a manutenção do consumo e da atividade no varejo.

As implicações políticas disto são óbvias, como vemos nas palavras do competente analista político Alberto Almeida:

Adicionalmente, em que pese o crescimento do PIB de 0,9% no ano passado, o consumo das famílias aumentou em 3,1% em 2012. A combinação de desemprego em baixa e consumo das famílias em alta resulta, na ausência de uma inflação muito elevada, no aumento real do poder de compra. É esse aumento real que explica a elevada aprovação do governo Dilma.

http://avaranda.blogspot.com.br/2013/04/por-que-dilma-e-tao-popular-alberto.html

Não há nada de errado nisto. É assim que funciona o processo político. E nada é mais legítimo do que assegurar um aumento no poder  de compra dos trabalhadores. O governo promove um ajuste de preços relativos que ajuda o consumo de bens muito valorizados pelas classes C e D, e com isto acaba encarecendo os itens consumidos pelas classe A e B. Esta é uma maneira de se fazer uma distribuição de renda.

Porém, como o que determina a renda total é o produto (PIB), uma alta na massa de salários acima do crescimento do produto implica numa queda do Lucro e da rentabilidade das empresas, como vemos no gráfico abaixo:

As barras amarelas mostram a evolução do retorno sobre o capital investido nas maiores empresas listadas na bolsa  ( IBX). Marquei em vermelho os dados de 2012 que estão na mínima do período, em nível inferior até ao de 2002 e de 2009.  Dá para notar também que tanto em 2006 como em 2009 tal retorno caiu,  coincidindo com os períodos de elevação da participação dos salários no PIB como vimos no gráfico mais acima.

Ou seja, não há “almoço de graça” em economia. Salários maiores, sem um aumento proporcional do produto, implicam em lucros menores para as empresas. Lucros menores reduzem a atratividade de novos investimentos por parte das empresas, como vemos no gráfico abaixo que mostra a taxa de crescimento da Formação Bruta de Capital em nossa economia:

Ele mostra que a queda da rentabilidade das empresas foi acompanhada por uma queda da taxa de investimento produtivo na economia ( vermelho) . Novamente, não há nada de errado aqui, pois numa economia capitalista, onde o capital está concentrado em mãos privadas, este tipo de comportamento é esperado e racional.

Enfim, este é o famoso jogo do capital x trabalho, onde o time do trabalho de fato está ganhando desde 2010. Pretendo expor a seguir as razões desta vitória, focando na questão do emprego.

Vemos no gráfico abaixo ( azul) a evolução do desemprego desde 2003:

Houve uma tendência clara de queda ( reta verde) que seguiu até meados de 2011. De lá para cá a tendência de queda continuou, porém em ritmo menos acentuado ( reta roxa).

O gráfico preto pontilhado mostra a evolução do desemprego já ajustado pelos fatores sazonais. Ou seja, mostra o comportamento da taxa de desemprego sem tantos ruídos. Vemos que ele também segue as tendencias que mencionei acima.

Arbitrariamente, usando o poder que a caneta me  concede, eu tracei uma reta amarela que marca o desemprego de meados de 2011, o qual, arbitrariamente, chamei de desemprego mínimo estrutural. Ou seja, vamos assumir daqui para frente o desemprego não caia mais, uma vez que a mão de obra hoje não empregada não teria empregabilidade no mercado atual de trabalho ou que, dadas as ineficiências e travas do mercado de trabalho, seja inviável permanecer sustentadamente com um nível de desemprego médio inferior a este. SE, se , se este for o caso é bem provável que a linha pontilhada comece a subir  na direção da reta amarela, ou seja, o desemprego voltará a subir em algum momento, como marquei na seta em roxo. Este desemprego subiria por algumas razões:

a. desemprego baixo demais causa uma pressão nos custos da mão de obra, algo que eleva a  inflação, que acaba corroendo o ganho das empresas, que reduzem assim seus investimentos, e  reduzindo o poder de compra dos salários, desaquecendo assim a demanda e reduzindo o emprego;

b. para evitar que tal inflação de custos gerados pelos salários crescentes se espalhe, o BC do B pode ser forçado a elevar os juros, o que desaqueceria a economia e elevaria o desemprego;

c. para combater a inflação, mas evitando uma elevação dos juros, o BC pode ser levado a induzir uma valorização real de nossa moeda, reduzindo assim o custo dos bens importados, o que prejudicaria os exportadores e as indústrias que competem com bens importados, levando a uma queda de emprego nestes setores e ao aumento do déficit externo.

Resumindo: uma vez ultrapassada a nossa capacidade de oferta de mão de obra, as pressões salariais se espalhariam, o que criaria uma pressão inflacionária ( como pode ser visto no post a que em referi acima e no último relatório de inflação do BC do B). E aí, seja qual for o caminho, tal pressão leva inequivocamente a mais desemprego.

Porém como saber se de fato ultrapassamos a linha amarela que coloquei no gráfico? Teria eu a colocado muito acima do nível correto?

Para tentar responder a estas perguntas veja o que está acontecendo com o emprego nos últimos anos:

O gráfico da esquerda mostra a evolução desde 2007 da taxa de crescimento anual da população empregada, que cresce ao redor de 2,5% aa, oscilando entre vales como em 2009 quando cresceu zero, e picos como em 2010, quando cresceu 4%aa. Ou seja, podemos afirmar que o crescimento da atividade nos últimos 5 anos gerou um crescimento do emprego ao redor de 2,5% aa.  É de se esperar que,  se quisermos manter a economia crescendo  no mesmo ritmo dos últimos ano, teremos que manter a população empregada crescendo a 2,5% aa. Porém é importante destacar que a população em idade ativa ( população acima dos 16 anos) deve crescer a menos de 1,5% aa, por questões demográficas, como vemos no gráfico preto abaixo retirado de um trabalho do IPEA  :

http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/mercadodetrabalho/bmt51_nt02_perfildaforca.pdf

Ele mostra que a população em idade para trabalhar ( PIA) cresce a velocidades cada vez menores ( marcado em amarelo) e já cresce hoje mendos  do que 1,5% a.a. ( linha vermelha). O texto do IPEA termina assim:

De todo modo, um possível crescimento da PIA brasileira provavelmente não iria muito além de um horizonte de uma década. Isto faz supor que, a partir da década de 2020, seja de se esperar que: 1) O tamanho total da PIA mostre-se estável, com possível tendência de redução já em algumas regiões do país, o que significaria redução do estoque de mão de obra disponível. 2) A PIA passe a apresentar uma estrutura mais envelhecida (possivelmente com uma permanência maior no mercado de trabalho de pessoas com idades mais avançadas).3) A força de trabalho disponível apresente maiores níveis de escolaridade, bem como maior experiência. 4) Haja maior participação feminina no mercado formal de trabalho, com as mulheres provavelmente ocupando cargos e postos de trabalho nos quais hoje ainda não se fazem muito presentes.A conjugação desses fatores, particularmente dos dois primeiros, tende a favorecer um aumento do preço relativo dessa mão de obra, pressionando um aumento da sua produtividade. A baixa qualidade educacional dessa mão de obra, contudo, poderá atuar como limitador desses ganhos de produtividade.

Logo, ou mais gente começa a procurar emprego ou em breve o estoque de mão de obra na economia acaba.

O gráfico abaixo ( barras azul claro) mostra as taxas de crescimento do emprego de várias economias no período 2000 – 2007 ( antes da crise americana e européia):


Marquei em verde o grupo que mostrou crescimento mais acelerado, e o Brasil está lá com louvor. Porém vemos que, mesmo antes da crise, as taxas de crescimento do emprego nas principais economias do globo andavam entre 1 e 2% a.a. e no caso brasileiro estava entre 2 e 3% a.a.. Ou seja, apesar do crescimento do PIB brasileiro estar andando bem próximo a média global até 2007, nosso emprego crescia numa velocidade superior a do crescimento do emprego global. Isto indica que nossa produtividade estava crescendo mais devagar do que no resto do mundo.

Vamos analisar mais a fundo o que está acontecendo com o  emprego aqui.

Vemos no gráfico abaixo à direita a evolução da taxa de participação desde 2005, que mostra o % da população ( em idade para trabalhar ) que procura emprego ou está empregada ( nos grandes centros urbanos):

Tal taxa, que ficava ao redor de 57% nos últimos anos, subiu para 57.8% recentemente. Ou seja, mais gente está entrando no mercado de trabalho, atraída pelos salários maiores.

Porém  no gráfico abaixo podemos comparar a taxa de participação do Brasil ( aqui são usados dados nacionais) com a de outros países. Vemos que temos pouco espaço para crescer a taxa de participação, pois esta já é bem elevada:


O Brasil, marcado em verde no gráfico acima, apresenta uma taxa de participação ( eixo horizontal)  bem elevada quando comparada com outros países mais desenvolvidos ( amarelo). Logo não é realista imaginar expansões significativas na taxa de participação.

O mesmo pode ser visto na tabela abaixo que mostra o % da população total que está empregada em diversos países, e Brasil e China são os destaques novamente ( em verde no topo), com os Europeus ( amarelo)  lá embaixo:

Ou seja, temos pouco espaço para trazer, de forma sustentável, mais pessoas para o mercado de trabalho. A tendência de fato é que este percentual de participação caia, e não suba, com o crescimento econômico e com a melhora da renda, como ocorre nas economias mais desenvolvidas.

Vamos agora ver o que acontecerá com o desemprego e com a oferta de mão de obra se de fato não aumentarmos a taxa de participação no mercado de trabalho, como os dados acima sugerem. Para isto o gráfico abaixo pode ajudar bastante:

O gráfico vermelho mostra a evolução do que produzimos nos últimos 12 meses no Brasil de acordo com Índice de atividade do BC do B. Em 2003 produzíamos um montante equivalente a 102. Hoje produzimos 145, ou seja, nossa produção de bens e serviços cresceu 42% em 10 anos, o que dá uns 3,6% a.a. de crescimento.

O Gráfico  azul mostra a evolução do percentual de pessoal empregado sobre o total de pessoas economicamente ativas ( empregadas ou a procura de emprego) médio  dos últimos 12 meses , ou seja, ele representa 100 menos a taxa de desemprego, desde 2004 ( no eixo da direita). [ Taxa de Desemprego é definida como o percentual de pessoas desocupadas a procura de emprego sobre o total de pessoas ocupadas ou a procura de emprego].

Logo, se assumirmos que a taxa de participação permanece constante, ou seja, que o percentual de pessoas empregadas ou à procura de emprego sobre o número de pessoas em idade de trabalho permaneça estável , o crescimento da oferta de mão de obra dependerá apenas do crescimento das pessoas em idade para trabalhar, algo que é bastante limitado como vimos acima.

Vemos que os dois gráficos, o vermelho e o azul,  andam juntos desde 2007 ( marcado em verde) , ou seja, empregamos mais gente na medida em que produzimos mais. Bem, isto seria o normal certo? Nem tanto… nem tanto…

Para tentar mostrar a armadilha em que nos encontramos, eu criei um modelo simples de projeção. Com base no que ocorreu com o emprego e a atividade no período entre 2007 e 2012, eu criei um modelo linear que relaciona o nível de atividade com o nível de emprego. Este modelo está representado pela curva verde no gráfico acima. Para um determinado nível de atividade, o modelo estima qual o nível de emprego necessário. Como era de se esperar, tal modelo segue bem de perto  o gráfico azul ( do emprego ) neste período amostral ( marcado em verde claro).

Fazendo um exercício simples de projeção, assumindo que a atividade (PIB) continue crescendo a 3,6% a.a. daqui para frente e usando o modelo mostrado no gráfico verde, eu projetei o que aconteceria com o emprego até 2016 e plotei no gráfico verde acima ( marquei em amarelo). Vemos que o emprego bate 98% no final de 2016. Ou seja, em 2016 haveria apenas 2% de desemprego no Brasil. E é possível também extrapolar que em 2018 teríamos uma  taxa de desemprego negativa o que é impossível na prática….

Logo, dada a tendência dos últimos anos da relação emprego/ atividade e o crescimento da atividade desejado pelo governo, precisaríamos aumentar a taxa de participação de forma consistente nos próximos anos para equilibrar o emprego, o que me parece difícil a luz do que mostrei acima.

Como se explica isto? Numa economia é de esperar que a atividade ( PIB) cresça a uma taxa superior a taxa de crescimento do emprego, pois há um aumento da produtividade total dos fatores. O que temos vivido nos últimos anos é uma forte queda na taxa de crescimento de nossa produtividade, como já mencionei em outros posts. Assim quase todo nosso crescimento é traduzido em aumento de emprego. Isto é bom pois ajuda a distribuição de renda e melhora da qualidade de vida das pessoas, porém em economia, como na vida, tudo tem limites.

Trazer mais gente para o mercado de trabalho é sempre positivo, porém é razoável supor que a produtividade ( medida pelo valor agregado à produção e ao PIB através do trabalho ) destas pessoas seja inferior à produtividade atual média do trabalho, em virtude da sua menor qualificação, experiência e treinamento, como podemos ver no gráfico abaixo que estima a evoluçao da produtividade desde 2002:

O gráfico laranja mostra uma estimativa da produtividade do trabalho usando a relação entre o índice de atividade do BC e a população ocupada. Ou seja , ele estima a atividade por trabalhador empregado como um “proxy” para medida de produtividade. Vemos que tal produtividade se acelerou até meados de 2010, quando começou a se estabilizar. O gráfico azul mostra a evolução do desemprego no mesmo período. Ou seja, desde 2010 , quando o desemprego veio abaixo do 7%,  a produtividade marginal da mão de obra vem caindo. Isto pode ser apenas uma consequência do ciclo econômico, da mesma forma que ocorreu em 2008 e 2009, porém a duração deste ciclo atual pode indicar que de fato estamos tendo um problema estrutural com a  produtividade da mão de obra que está entrando no mercado  de trabalho.

Assim, é provável que crescimentos marginais de atividade requeiram cada vez mais gente trabalhando, ou seja, é provável que precisemos de aumentos cada vez mais expressivos da taxa de participação  [ ( número de pessoas a procura de trabalho + número de pessoas empregadas )/ número total de pessoas em idade de trabalho].

Em resumo, o mercado de trabalho tende a ficar aquecido por um bom tempo se crescermos na velocidade que o governo deseja.

Nesta linha, vou mostrar um outro gráfico que preocupa bastante o BC, como mostrei em post recente :

http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2013/04/01/bc-comenta-sobre-a-produtividade-do-trabalho/

As barras vermelhas mostram a taxa real de crescimento da massa salarial desde 2007, no eixo da direita. Vemos que tal massa cresce, em termos reais ( além da inflação), a taxas superiores a 4% a.a. em média, e que nos últimos anos tal taxa esteve acima de 5%a.a. Ou seja, a massa de salários cresce acima do PIB. Isto cria uma pressão de custos na economia em função dos aumentos salariais reais, o que é natural de se esperar num mercado que absorve mão de obra na velocidade que vimos anteriormente (  no meu  modelinho para cada 1% de pib adicional precisamos de mais 0,2% de emprego, além do crescimento vegetativo da população em idade para trabalhar).

De fato não há nada de errado em ter um aumento forte do emprego e da renda dos trabalhadores. Isto está 100% em linha com a agenda do governo.

Contudo, como falei mencionei acima, esta pressão de custo com a mão de obra reduz a margem de lucro das empresas, que muitas vezes são forçadas a repassar tais custos aos preços de seus produtos, se a demanda vier a subir com o reaquecimento da atividade.

Há algumas maneiras de endereçar este problema:

a. podemos aumentar o investimento em máquinas e automação em serviços, na construção, na indústria, e na  infra, de tal forma que possamos crescer mais sem demandar tanta mão de obra qualificada. Com isto os salários poderiam continuar crescendo sem pressionar a margem de lucro dos empresários;

b. no médio prazo podemos promover um programa agressivo de qualificação de mão de obra visando aumentar o seu valor agregado na produção;

c. no longo prazo podemos  induzir uma migração maior de mão de obra hoje alocada a atividades de baixa produtividade (exemplo: agricultura) para o setor de serviços e para a indústria, com uma urbanização de melhor qualidade e treinamento para este pessoal. Este movimento ajudou a sustentar o enorme crescimento Chinês na última década. O gráfico abaixo mostra que poucos países do mundo tem mais de 10% ( linha cinza vertical)  de sua população trabalhando no setor agrícola ( barrinhas horizontais azul escuro):

No Brasil há mais de 15 % do pessoal ocupado trabalhando no setor agrícola ( em amarelo abaixo) e muito pouca gente trabalhando na indústria ( vermelho):

d. ajustar os programas sociais de forma a aumentar a atratividade do mercado de trabalho vis a vis os benefícios das transferências dos programas governamentais, como a bolsa família, previdência rural e seguro desemprego. Ou seja, é preciso estimular a entrada dos beneficiários destes programas no mercado de trabalho;

e. executar uma profunda cirurgia tributária visando desestimular o consumo de produtos e serviços que utilizem muita mão de obra, através de onerações tributárias, e estimular o investimento na produção, através de uma forte redução dos  impostos cobrados sobre os lucros e receitas das empresas. Neste sentido também seria recomendável tributar os dividendos pagos pelas empresas, estimulando a retenção de seus lucros e o seu reinvestimento na produção;

f. estimular a previdência privada,  aumentando o percentual máximo da renda individual que pode ser investido em produtos previdenciários de longo prazo com isenção total de imposto no seu resgate, visando gerar a poupança necessária para financiar o aumento de investimento;

g.  como tudo isto demanda tempo, é preciso em paralelo comprar algum tempo elevando os juros básicos, para evitar que a inflação se espalhe ainda mais, caso o cenário de crescimento mais forte previsto pelo BC de fato se concretize.

Desta forma teríamos como gerenciar este gargalo da mão de obra de maneira não inflacionária, estimulando a oferta e não o consumo, sem prejudicar as conquistas dos trabalhadores.

Ou encaramos de frente que, além dos gargalos de infra, temos gargalos no mercado de trabalho, ou vamos começar uma corrida atrás do rabo que não vai nos levar a lugar nenhum.

Inflação crescente, economia patinando e deficit externo crescente são todos sinais que temos gargalos nos fatores de produção, na oferta…. na oferta.

Autor: Ricardo Gallo Tags:

quarta-feira, 3 de abril de 2013 Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 00:40

Presidente Tombini no Senado: ” Estamos atentos…”

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Veja como o presidente do BC do B terminou sua apresentação no Senado:

http://www.bcb.gov.br/pec/appron/apres/Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20-%20CAE%20-%20VF.pdf


Minha leitura: Economia vai crescer mais forte…. E inflação mais persistente…. Logo, os juros vão ter que subir.

Só não sabemos quando, como e quanto…

Se de fato eu estiver correto, usando um pouco da teoria dos jogos, é melhor :

  • iniciar o processo de alta o mais cedo possível, para evitar que a inflação se espalhe ainda mais…
  • executá-lo durante o menor prazo possível, para minimizar o impacto negativo no investimento e o ruído na imprensa…
  • e com um orçamento para elevação de juros mais conservador, para evitar que sejam NECESSÁRIAS novas altas dos juros no futuro, pois ano que vem tem eleição…

Se  tudo der certo, até junho do ano que vem o BC poderá baixar o juro de novo, para menos dos 7% aa atuais…

Agora, o que ele vai fazer? Só saberemos daqui algumas semanas…. mas não é fácil não… vida dura.


Autor: Ricardo Gallo Tags:

domingo, 24 de março de 2013 Brasil, Investimentos, Politica Economica, Sem categoria | 12:24

Atraindo investimentos

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Veja o que aconteceu com o valor das empresas do setor de energia elétrica listadas  na bolsa desde o ano passado em função das intervenções do governo no setor para reduzir tarifas:

Caíram 20%….

Imagine como vai ser “fácil” para o governo atrair capital estrangeiro para investidor neste setor depois disto tudo???

Autor: Ricardo Gallo Tags:

quinta-feira, 14 de março de 2013 Câmbio, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 12:46

A política da âncora “isentomonetária”

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Sou de uma geração que sentiu na pele o sofrimento de viver em uma hiperinflação. Preços que subiam em média 2 ou 3% ao dia. Salários eram reajustados mensalmente com base na inflação passada, mas que não conseguiam acompanhar a aceleração dos preços. Imaginar hoje em dia uma situação destas é como criar uma experiência surreal, algo muito fora do alcance das mentes das novas gerações, que sempre viveram numa economia onde tais fatos não povoam nem os mais tenebrosos pesadelos. Estamos hoje muito, mas muito longe disto. Ainda bem.

Eu também me recordo dos inúmeros esforços heroicos e criativos tentados ao longo de vários anos visando combater a inflação cronica que nos assombrava:

. congelamento de preços

. prisão de especuladores

. confiscos monetários

. ancoras cambiais

. mudanças de moeda

. contingenciamento na oferta de crédito

. depósitos compulsórios sobre bancos

e por a foi…

Em todas estas tentativas  tinha-se como objetivo reduzir a inflação, porém minimizando o custo social que é natural em tais batalhas. Um objetivo bastante justo.

Porém, na  medida em que o custo social de se combater a inflação subia, o governo perdia sustentação política e afrouxava seus esforços,  o que acabava frustrando a tentativa de debelar a dita, que voltava cada vez mais forte depois de cada fracasso.

A coisa foi assim até que,  através de um sequenciamento correto de medidas tomadas durante vários anos e por três presidentes de diferentes partidos, a inflação foi finalmente domada  e estabilizada. Foi um processo longo e  doloroso, porém os resultados estão aí. São mais de 15 anos com uma inflação civilizada.

Aprendemos muito com isto tudo e este conhecimento é um patrimônio de nossa sociedade que precisa ser usado e resgatado sempre que necessário.

Pois bem, eu acho que  é momento de pelo menos refletir um pouco sobre algumas ações do governo atual no que diz respeito ao combate à inflação.

O governo Dilma decidiu adotar uma política mais intervencionista visando reduzir os preços de alguns produtos e serviços que pesam bastante no IPCA através de medidas administrativas e tributárias. Tais medidas visam reduzir o custo dos produtos consumidos  e produzidos no país, o que é algo louvável. Este tipo de medidas se tornou mais frequente assim que a inflação tomou um trajetória ascendente no final de 2012. O governo atua visando reduzir a aceleração dos índices de preços. Com isto a inflação medida pelo IBGE ficaria contida o que retardaria ou até mesmo eliminaria a necessidade de uma elevação dos juros pelo BC do B.

Até aqui tudo isto faz enorme sentido. Juros maiores geram um custo maior na rolagem da dívida pública e uma redução na taxa de investimentos, tão necessários neste momento. Como um amigo me diz, é um objetivo bacana, porém a questão reside em sua viabilidade no mundo real…

Eu apelidei está política de isentomonetária, já que nesta política:

a. o governo aumenta seu déficit, reduzindo a arrecadação de impostos sem uma contrapartida de redução de despesas;

b.o governo espera que tais desonerações sejam repassadas para os preços praticados, implicando em queda temporária dos índices de inflação;

c. aí ele espera que tais quedas temporárias reduzam as expectativas com relação a inflação futura, ajudando na convergência da dita para a meta, ou melhor, evitando que tal inflação fique acima do que foi em 2012, que parece ser a novo objetivo do BC de acordo com entrevista do Presidente do BC do B.

Enfim, é uma maneria bastante criativa de atuar no canal das expectativas, pois na forma tradicional de política monetária praticada há anos pelos inflation targeters, como menciona o Mr Bernanke no texto http://www.federalreserve.gov/Boarddocs/Speeches/2003/20030325/default.htm , utiliza-se  mudanças nas taxas básicas de juros para ajustar as expectativas de inflação e com isto induzir os agentes econômicos a praticar preços condizentes com as metas de inflação do BC. A ideia é simples: se a inflação dá sinais de baixa, o BC antecipa tais movimentos e reduz os juros, sinalizando que não pretende tolerar uma inflação abaixo do target por muito tempo, e vice versa. Com o tempo,  o BC ganha credibilidade e são precisos movimentos cada vez menores das taxas de juros para trazer as expectativas e a inflação corrente para dentro do alvo, reduzindo assim o impacto desta flutuação dos juros na atividade econômica. Foi adotando esta visão que fomos capazes de manter a inflação estável nos últimos 12 anos.

Parece que o governo está inovando mais uma vez neste front adotando as “ancoras desonerantes” para os preços.

Não creio que isto tenha sido testado com sucesso em nenhum lugar do mundo,  em particular quando:

a. há um quadro clássico de falta de oferta na economia e não de falta de demanda. O BC reconhece isto na Ata de sua última reunião;

b. há um quadro de aceleração forte nas expectativas de inflação e da inflação prevista nos modelos do próprio BC do B, tanto para 2013, como também para 2014, quando os efeitos diretos dos choque positivos de preço desonerados acabam;

c. o BC trabalha com uma recuperação forte da economia para segundo semestre, o que traz mais demanda e, portanto, uma maior probabilidade de que tais desonerações não sejam repassadas aos preços praticado, como mostra a tal da lei da procura e da oferta;

d. a suposta economia gerada pela redução dos gastos com os itens desonerados não irá ser poupada necessariamente, algo que reduziria a demanda agregada. Tal economia de gastos pode liberar espaço no orçamento das famílias para gastos adicionais em  outros itens, como serviços, cujos preços estão disparando e pressionando o mercado de trabalho. O próprio BC reconhece em sua ata no parágrafo 28 que a inflação está espalhada em vários itens. E o próprio BC atesta em sua ata que o mercado de trabalho está com pouca ociosidade;

e.  há sinais que a utilização da capacidade ociosa na industria esteja subindo ( gráfico abaixo marcado em vermelho)  e entrando em níveis onde há uma tendencia de recuperação de margens por parte dos empresários, apesar do BC não reconhecer o fato mostrado no gráfico abaixo:

f. o próprio BC afirma em sua ata no importante parágrafo 27 que precisa do dólar baixo ( os tais dos ativos reais e financeiros) pois ele ajuda a segurar a inflação. OU seja, nem o BC acredita na ancora desonerante..

g. há uma questão de consistência aqui: quando o preço de alimentos sobe por que um fator externo anormal e não recorrente faz com que a inflação suba  ( devido a secas ou chuvas excessivas ), o BC tende a ignorar a alta e trata-la como choque temporário, certo? Por que não tratar tais desonerações da mesma forma, uma vez que não dá para ficar desonerando tudo todos os anos sem cortar gasto público??

Enfim, acho que o experimento isentomonetário apresenta um elevado risco a esta altura. Elevadíssimo.

Como não sou economista, apenas observador, peço ajuda aos Universitários, como naquele programa de TV.

Autor: Ricardo Gallo Tags:

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013 Câmbio, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 15:10

BC diz que o problema é de falta de oferta e não de demanda!!!

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Na minha opinião, o BC soltou esta semana a ata da reunião do COPOM mais importante dos últimos 12 meses.   Não pelas mudanças na política monetária, pois ele não sinaliza nenhuma mudança no curto prazo, mas pelo diagnóstico correto e preciso da situação atual.

http://www.bcb.gov.br/?COPOM172

Segue abaixo algumas partes extraídas da ata (em itálico) e meus pitacos logo em seguida:

20. O cenário de referência leva em conta as hipóteses de manutenção da taxa de câmbio em R$2,05/US$ e da taxa Selic em 7,25% ao ano (a.a.) em todo o horizonte relevante. Nesse cenário, a projeção para a inflação de 2013 aumentou em relação ao valor considerado na reunião do Copom de novembro e se posiciona acima do valor central de 4,5% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). No cenário de mercado, que leva em conta as trajetórias de câmbio e de juros coletadas pelo Gerin com analistas de mercado, no período imediatamente anterior à reunião do Copom, a projeção de inflação para 2013 também aumentou e se encontra acima do valor central da meta para a inflação. Para 2014, em ambos os cenários, a projeção de inflação está ligeiramente acima do valor central da meta.

BC afirma que, em alguns cenários e de acordo com seus modelos, as projeções da inflação para 2013 subiram e se encontram acima da meta.

26. O Copom pondera que o ritmo de recuperação da atividade econômica doméstica – menos intenso do que se antecipava – se deve essencialmente a limitações no campo da oferta. Dada sua natureza, portanto, esses impedimentos não podem ser endereçados por ações de política monetária, que são, por excelência, instrumento de controle da demanda. A propósito, não obstante a fragilidade do investimento, que reflete, em grande parte, o aumento de incertezas e a lenta recuperação da confiança, a demanda doméstica continuará a ser impulsionada pelos efeitos defasados de ações de política monetária implementadas recentemente, bem como pela expansão moderada da oferta de crédito, tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas. O Comitê entende, adicionalmente, que a atividade doméstica continuará a ser favorecida pelas transferências públicas, bem como pelo vigor do mercado de trabalho, que se reflete em taxas de desemprego historicamente baixas e em crescimento dos salários, apesar de certa acomodação na margem.

O BC está surpreso com o PIBINHO persistente, porém ele reconhece, como já comentamos algumas vezes nesta coluna, que o problema é de falta de oferta e não na demanda, ou seja,  o investimento não cresce. E na opinião do BC, não adianta baixar ainda mais as taxas de juros para tentar resolver este problema. Ou seja, a política monetária como instrumento de estímulo, chegou ao seu limite.

27. O Copom observa que o cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais. Nota que a geração de superavit primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidificará a tendência de redução da razão dívida pública sobre produto e a percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo.

O BC afirma que trabalha em suas projeções com a manutenção dos superávits fiscais atuais. Ou seja, se superávits caírem, inflação futura sobe. Logo, o governo tem pouco espaço para expandir gastos ou reduzir impostos sem que isto afete ainda mais o precário equilíbrio entre oferta e demanda e faça a inflação subir ainda mais.

28. O Copom destaca que o cenário central também contempla expansão moderada do crédito. Ainda sobre esse mercado, o Comitê considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito.

O BC aqui também menciona que assume um crescimento gradual do crédito, ou seja, se crédito crescer mais rápido, inflação sobe.

29. O Copom avalia que a maior dispersão, recentemente observada, de aumentos de preços ao consumidor e a reversão de isenções tributárias, combinadas com pressões sazonais e pressões localizadas no segmento de transportes, tendem a contribuir para que, no curto prazo, a inflação se mostre resistente.

O BC aqui reconhece que a inflação é mais generalizada e que, no curto prazo, ela está resistente, como temos dito nesta coluna.

30. O Copom ressalta que o cenário central contempla ritmo de atividade doméstica mais intenso neste ano e riscos limitados, mas que recentemente se intensificaram, de descompasso, em segmentos específicos, entre as taxas de crescimento da oferta e da demanda. O Comitê destaca a estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho, apesar dos sinais de moderação nesse mercado, e pondera que, em tais circunstâncias, um risco significativo reside na possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade e suas repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação. Por outro lado, observa que o nível de utilização da capacidade instalada se encontra abaixo da tendência de longo prazo, ou seja, está contribuindo para a abertura do hiato do produto e para conter pressões de preços. Além disso, importa destacar que as perspectivas para os próximos semestres apontam moderação na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros.

Este é, na minha opinião, o parágrafo mais importante da ATA. Ele re enfatiza o problema do descompasso entre o crescimento da demanda e  da oferta. Ele destaca que o mercado de trabalho está apertado, e que há risco, portanto, de aumentos dos salários reais acima do aumento da produtividade, como temos mencionado em outros posts, e que representa um risco de alta da inflação futura.

34. O Copom avalia que a demanda doméstica tende a se apresentar robusta, especialmente o consumo das famílias, em grande parte devido aos efeitos de fatores de estímulo, como o crescimento da renda e a expansão moderada do crédito. Esse ambiente tende a prevalecer neste e nos próximos semestres, quando a demanda doméstica será impactada pelos efeitos das ações de política recentemente implementadas, que, de resto, são defasados e cumulativos. Para o Comitê, esses efeitos, os programas de concessão de serviços públicos, os estoques em níveis ajustados e a gradual recuperação da confiança dos empresários criam perspectivas de retomada dos investimentos. O Comitê pondera que iniciativas recentes apontam o balanço do setor público em posição expansionista. Por outro lado, o Comitê nota que se apresenta como fator de contenção da demanda agregada o ainda frágil cenário internacional. Esses elementos e os desenvolvimentos no âmbito parafiscal e no mercado de ativos são partes importantes do contexto no qual decisões futuras de política monetária serão tomadas, com vistas a assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas.

Aqui o BC levanta algumas outras hipóteses usadas por ele para manter a política atual de manutenção dos juros:

a. o cenário internacional continuar frágil;

b. o BNDES com sua política parafiscal ( já comentei sobre isto) não seja ainda mais expansivo;

c.  e que preços dos ativos internacionais ( este é o código que BC usa quando quer falar da taxa do dólar / R$ ) não subam mais;

Se estas coisas mudarem, tudo muda. Ou seja, o dólar não sobe mais enquanto a inflação seguir em alta.

31. Em resumo, o Copom destaca que o balanço de riscos para a inflação apresentou piora no curto prazo e que a recuperação da atividade doméstica foi menos intensa do que o esperado, bem como que certa complexidade ainda envolve o ambiente internacional.

Aqui ele dá o tom final: temos uma piora na inflação com um pibinho que não decola.

E o diagnóstico é claro: o problema não é de falta de demanda , mas sim de falta de oferta. E oferta aumenta com mais produtividade,  capital físico e capital humano. Como no curto prazo fica difícil aumentar o capital humano e a produtividade, só nos resta torcer para que o capital físico suba através de mais investimentos, como tenho dito nesta coluna.

Autor: Ricardo Gallo Tags:

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