Durante a campanha eleitoral de 1992 nos EUA, quando Bill Clinton enfrentou George Bush pai, o estrategista da campanha de Clinton desejava que os correlegionários do então candidato democrata se lembrassem de algumas mensagens básicas. Na época, para facilitar a memorização da mensagem principal daquela campanha, ele cunhou a seguinte frase:
“It’s the economy, stupid”
A ideia era usar a recessão que predominava nos EUA como argumento eleitoral para vencer o então presidente e candidato republicano George Bush.
É uma maneira bastante explícita de colocar as coisas…
Fazendo um trocadilho e uma adaptação à realidade brasileiro, acho que o emprego desempenha hoje um papel importante tanto no cenário político, como também no econômico.
Ao longo dos últimos anos a política econômica do governo levou a um aumento da participação dos salários na economia, como mostra o gráfico abaixo:
Este gráfico vermelho mostra a evolução da relação da massa salarial ampliada ( inclui salários, previdência e outros programas de transferência de renda do governo) sobre o PIB desde 2004. Notamos em verde que tal relação está bem acima da média do período ( reta azul) e dos picos de 2006 e 2009 ( reta amarela), e tem apresentado uma alta bastante acentuada nos últimos anos ( em verde) . Este processo ocorreu a meu ver por duas razões:
a. melhoria no emprego e aquecimento do mercado de trabalho;
b. aumentos reais do salário mínimo.
Não há nada de errado nisto. Faz sentido num governo democrático promover o aumento da renda dos trabalhadores.
Ao mesmo tempo, temos um comportamento dos preços relativos na economia que induz a um aumento do consumo de determinados produtos:

O gráfico acima mostra a variação relativa nos preços dos vários grupos de bens que constituem a cesta usada no cálculo da inflação medida pelo IPCA.
A linha preta central ( 1,00) mostra o índice cheio. Os gráficos das diversas cores mostram a evolução dos preços relativos dos vários sub grupos dentro do índice. Quando um gráfico está acima da linha preta quer dizer que seus preços subiram mais do que o índice neste período desde dezembro de 2003. Se estão abaixo da linha preta, os preços subiram menos do que o índice. Ou seja, mostram como os diversos preços se comportaram em termos relativos.
Começaremos analisando de cima para baixo pelos itens que marquei em verde, que são preços dos serviços e dos itens não comercializáveis, itens que não sofrem a competição dos importados e portanto não estão sujeitos a variação da cotação dólar. Vemos que estes são os campeões de valorização real, ou seja, andaram bem acima da inflação média do período. De fato são preços mais sujeitos a variações dos custos locais, como o custo da mão de obra que tem andado bem acima da inflação. Estes são itens que pesam muito no bolso da classe média.
Mais abaixo marquei a evolução dos preços dos itens que têm seus preços monitorados pelo governo, dos itens comercializáveis, que sofrem com a competição dos produtos importados, e da gasolina. Vemos que estes ajudaram a puxar a inflação média para baixo. Isto é fruto da política do governo de manter tais preços andando abaixo da inflação, seja através da fixação de seus preços em patamares baixos ou da manutenção de um dólar fraco. Isto explica as dificuldades que os exportadores e a Petrobrás estão tendo.
E por último, marcados em amarelo, temos os destaques de queda, que são o preço da eletricidade e dos bens duráveis, como televisores, carros, geladeiras, celulares, etc.
Com os salários subindo acima da inflação, o desemprego em queda, os preços de bens duráveis andando bem abaixo da inflação, com o crédito farto, os juros em queda e o dólar barato temos o cenário perfeito para a manutenção do consumo e da atividade no varejo.
As implicações políticas disto são óbvias, como vemos nas palavras do competente analista político Alberto Almeida:
Adicionalmente, em que pese o crescimento do PIB de 0,9% no ano passado, o consumo das famílias aumentou em 3,1% em 2012. A combinação de desemprego em baixa e consumo das famílias em alta resulta, na ausência de uma inflação muito elevada, no aumento real do poder de compra. É esse aumento real que explica a elevada aprovação do governo Dilma.
http://avaranda.blogspot.com.br/2013/04/por-que-dilma-e-tao-popular-alberto.html
Não há nada de errado nisto. É assim que funciona o processo político. E nada é mais legítimo do que assegurar um aumento no poder de compra dos trabalhadores. O governo promove um ajuste de preços relativos que ajuda o consumo de bens muito valorizados pelas classes C e D, e com isto acaba encarecendo os itens consumidos pelas classe A e B. Esta é uma maneira de se fazer uma distribuição de renda.
Porém, como o que determina a renda total é o produto (PIB), uma alta na massa de salários acima do crescimento do produto implica numa queda do Lucro e da rentabilidade das empresas, como vemos no gráfico abaixo:

As barras amarelas mostram a evolução do retorno sobre o capital investido nas maiores empresas listadas na bolsa ( IBX). Marquei em vermelho os dados de 2012 que estão na mínima do período, em nível inferior até ao de 2002 e de 2009. Dá para notar também que tanto em 2006 como em 2009 tal retorno caiu, coincidindo com os períodos de elevação da participação dos salários no PIB como vimos no gráfico mais acima.
Ou seja, não há “almoço de graça” em economia. Salários maiores, sem um aumento proporcional do produto, implicam em lucros menores para as empresas. Lucros menores reduzem a atratividade de novos investimentos por parte das empresas, como vemos no gráfico abaixo que mostra a taxa de crescimento da Formação Bruta de Capital em nossa economia:

Ele mostra que a queda da rentabilidade das empresas foi acompanhada por uma queda da taxa de investimento produtivo na economia ( vermelho) . Novamente, não há nada de errado aqui, pois numa economia capitalista, onde o capital está concentrado em mãos privadas, este tipo de comportamento é esperado e racional.
Enfim, este é o famoso jogo do capital x trabalho, onde o time do trabalho de fato está ganhando desde 2010. Pretendo expor a seguir as razões desta vitória, focando na questão do emprego.
Vemos no gráfico abaixo ( azul) a evolução do desemprego desde 2003:
Houve uma tendência clara de queda ( reta verde) que seguiu até meados de 2011. De lá para cá a tendência de queda continuou, porém em ritmo menos acentuado ( reta roxa).
O gráfico preto pontilhado mostra a evolução do desemprego já ajustado pelos fatores sazonais. Ou seja, mostra o comportamento da taxa de desemprego sem tantos ruídos. Vemos que ele também segue as tendencias que mencionei acima.
Arbitrariamente, usando o poder que a caneta me concede, eu tracei uma reta amarela que marca o desemprego de meados de 2011, o qual, arbitrariamente, chamei de desemprego mínimo estrutural. Ou seja, vamos assumir daqui para frente o desemprego não caia mais, uma vez que a mão de obra hoje não empregada não teria empregabilidade no mercado atual de trabalho ou que, dadas as ineficiências e travas do mercado de trabalho, seja inviável permanecer sustentadamente com um nível de desemprego médio inferior a este. SE, se , se este for o caso é bem provável que a linha pontilhada comece a subir na direção da reta amarela, ou seja, o desemprego voltará a subir em algum momento, como marquei na seta em roxo. Este desemprego subiria por algumas razões:
a. desemprego baixo demais causa uma pressão nos custos da mão de obra, algo que eleva a inflação, que acaba corroendo o ganho das empresas, que reduzem assim seus investimentos, e reduzindo o poder de compra dos salários, desaquecendo assim a demanda e reduzindo o emprego;
b. para evitar que tal inflação de custos gerados pelos salários crescentes se espalhe, o BC do B pode ser forçado a elevar os juros, o que desaqueceria a economia e elevaria o desemprego;
c. para combater a inflação, mas evitando uma elevação dos juros, o BC pode ser levado a induzir uma valorização real de nossa moeda, reduzindo assim o custo dos bens importados, o que prejudicaria os exportadores e as indústrias que competem com bens importados, levando a uma queda de emprego nestes setores e ao aumento do déficit externo.
Resumindo: uma vez ultrapassada a nossa capacidade de oferta de mão de obra, as pressões salariais se espalhariam, o que criaria uma pressão inflacionária ( como pode ser visto no post a que em referi acima e no último relatório de inflação do BC do B). E aí, seja qual for o caminho, tal pressão leva inequivocamente a mais desemprego.
Porém como saber se de fato ultrapassamos a linha amarela que coloquei no gráfico? Teria eu a colocado muito acima do nível correto?
Para tentar responder a estas perguntas veja o que está acontecendo com o emprego nos últimos anos:

O gráfico da esquerda mostra a evolução desde 2007 da taxa de crescimento anual da população empregada, que cresce ao redor de 2,5% aa, oscilando entre vales como em 2009 quando cresceu zero, e picos como em 2010, quando cresceu 4%aa. Ou seja, podemos afirmar que o crescimento da atividade nos últimos 5 anos gerou um crescimento do emprego ao redor de 2,5% aa. É de se esperar que, se quisermos manter a economia crescendo no mesmo ritmo dos últimos ano, teremos que manter a população empregada crescendo a 2,5% aa. Porém é importante destacar que a população em idade ativa ( população acima dos 16 anos) deve crescer a menos de 1,5% aa, por questões demográficas, como vemos no gráfico preto abaixo retirado de um trabalho do IPEA :

http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/mercadodetrabalho/bmt51_nt02_perfildaforca.pdf
Ele mostra que a população em idade para trabalhar ( PIA) cresce a velocidades cada vez menores ( marcado em amarelo) e já cresce hoje mendos do que 1,5% a.a. ( linha vermelha). O texto do IPEA termina assim:
De todo modo, um possível crescimento da PIA brasileira provavelmente não iria muito além de um horizonte de uma década. Isto faz supor que, a partir da década de 2020, seja de se esperar que: 1) O tamanho total da PIA mostre-se estável, com possível tendência de redução já em algumas regiões do país, o que significaria redução do estoque de mão de obra disponível. 2) A PIA passe a apresentar uma estrutura mais envelhecida (possivelmente com uma permanência maior no mercado de trabalho de pessoas com idades mais avançadas).3) A força de trabalho disponível apresente maiores níveis de escolaridade, bem como maior experiência. 4) Haja maior participação feminina no mercado formal de trabalho, com as mulheres provavelmente ocupando cargos e postos de trabalho nos quais hoje ainda não se fazem muito presentes.A conjugação desses fatores, particularmente dos dois primeiros, tende a favorecer um aumento do preço relativo dessa mão de obra, pressionando um aumento da sua produtividade. A baixa qualidade educacional dessa mão de obra, contudo, poderá atuar como limitador desses ganhos de produtividade.
Logo, ou mais gente começa a procurar emprego ou em breve o estoque de mão de obra na economia acaba.
O gráfico abaixo ( barras azul claro) mostra as taxas de crescimento do emprego de várias economias no período 2000 – 2007 ( antes da crise americana e européia):

Marquei em verde o grupo que mostrou crescimento mais acelerado, e o Brasil está lá com louvor. Porém vemos que, mesmo antes da crise, as taxas de crescimento do emprego nas principais economias do globo andavam entre 1 e 2% a.a. e no caso brasileiro estava entre 2 e 3% a.a.. Ou seja, apesar do crescimento do PIB brasileiro estar andando bem próximo a média global até 2007, nosso emprego crescia numa velocidade superior a do crescimento do emprego global. Isto indica que nossa produtividade estava crescendo mais devagar do que no resto do mundo.
Vamos analisar mais a fundo o que está acontecendo com o emprego aqui.
Vemos no gráfico abaixo à direita a evolução da taxa de participação desde 2005, que mostra o % da população ( em idade para trabalhar ) que procura emprego ou está empregada ( nos grandes centros urbanos):
Tal taxa, que ficava ao redor de 57% nos últimos anos, subiu para 57.8% recentemente. Ou seja, mais gente está entrando no mercado de trabalho, atraída pelos salários maiores.
Porém no gráfico abaixo podemos comparar a taxa de participação do Brasil ( aqui são usados dados nacionais) com a de outros países. Vemos que temos pouco espaço para crescer a taxa de participação, pois esta já é bem elevada:

O Brasil, marcado em verde no gráfico acima, apresenta uma taxa de participação ( eixo horizontal) bem elevada quando comparada com outros países mais desenvolvidos ( amarelo). Logo não é realista imaginar expansões significativas na taxa de participação.
O mesmo pode ser visto na tabela abaixo que mostra o % da população total que está empregada em diversos países, e Brasil e China são os destaques novamente ( em verde no topo), com os Europeus ( amarelo) lá embaixo:
Ou seja, temos pouco espaço para trazer, de forma sustentável, mais pessoas para o mercado de trabalho. A tendência de fato é que este percentual de participação caia, e não suba, com o crescimento econômico e com a melhora da renda, como ocorre nas economias mais desenvolvidas.
Vamos agora ver o que acontecerá com o desemprego e com a oferta de mão de obra se de fato não aumentarmos a taxa de participação no mercado de trabalho, como os dados acima sugerem. Para isto o gráfico abaixo pode ajudar bastante:

O gráfico vermelho mostra a evolução do que produzimos nos últimos 12 meses no Brasil de acordo com Índice de atividade do BC do B. Em 2003 produzíamos um montante equivalente a 102. Hoje produzimos 145, ou seja, nossa produção de bens e serviços cresceu 42% em 10 anos, o que dá uns 3,6% a.a. de crescimento.
O Gráfico azul mostra a evolução do percentual de pessoal empregado sobre o total de pessoas economicamente ativas ( empregadas ou a procura de emprego) médio dos últimos 12 meses , ou seja, ele representa 100 menos a taxa de desemprego, desde 2004 ( no eixo da direita). [ Taxa de Desemprego é definida como o percentual de pessoas desocupadas a procura de emprego sobre o total de pessoas ocupadas ou a procura de emprego].
Logo, se assumirmos que a taxa de participação permanece constante, ou seja, que o percentual de pessoas empregadas ou à procura de emprego sobre o número de pessoas em idade de trabalho permaneça estável , o crescimento da oferta de mão de obra dependerá apenas do crescimento das pessoas em idade para trabalhar, algo que é bastante limitado como vimos acima.
Vemos que os dois gráficos, o vermelho e o azul, andam juntos desde 2007 ( marcado em verde) , ou seja, empregamos mais gente na medida em que produzimos mais. Bem, isto seria o normal certo? Nem tanto… nem tanto…
Para tentar mostrar a armadilha em que nos encontramos, eu criei um modelo simples de projeção. Com base no que ocorreu com o emprego e a atividade no período entre 2007 e 2012, eu criei um modelo linear que relaciona o nível de atividade com o nível de emprego. Este modelo está representado pela curva verde no gráfico acima. Para um determinado nível de atividade, o modelo estima qual o nível de emprego necessário. Como era de se esperar, tal modelo segue bem de perto o gráfico azul ( do emprego ) neste período amostral ( marcado em verde claro).
Fazendo um exercício simples de projeção, assumindo que a atividade (PIB) continue crescendo a 3,6% a.a. daqui para frente e usando o modelo mostrado no gráfico verde, eu projetei o que aconteceria com o emprego até 2016 e plotei no gráfico verde acima ( marquei em amarelo). Vemos que o emprego bate 98% no final de 2016. Ou seja, em 2016 haveria apenas 2% de desemprego no Brasil. E é possível também extrapolar que em 2018 teríamos uma taxa de desemprego negativa o que é impossível na prática….
Logo, dada a tendência dos últimos anos da relação emprego/ atividade e o crescimento da atividade desejado pelo governo, precisaríamos aumentar a taxa de participação de forma consistente nos próximos anos para equilibrar o emprego, o que me parece difícil a luz do que mostrei acima.
Como se explica isto? Numa economia é de esperar que a atividade ( PIB) cresça a uma taxa superior a taxa de crescimento do emprego, pois há um aumento da produtividade total dos fatores. O que temos vivido nos últimos anos é uma forte queda na taxa de crescimento de nossa produtividade, como já mencionei em outros posts. Assim quase todo nosso crescimento é traduzido em aumento de emprego. Isto é bom pois ajuda a distribuição de renda e melhora da qualidade de vida das pessoas, porém em economia, como na vida, tudo tem limites.
Trazer mais gente para o mercado de trabalho é sempre positivo, porém é razoável supor que a produtividade ( medida pelo valor agregado à produção e ao PIB através do trabalho ) destas pessoas seja inferior à produtividade atual média do trabalho, em virtude da sua menor qualificação, experiência e treinamento, como podemos ver no gráfico abaixo que estima a evoluçao da produtividade desde 2002:

O gráfico laranja mostra uma estimativa da produtividade do trabalho usando a relação entre o índice de atividade do BC e a população ocupada. Ou seja , ele estima a atividade por trabalhador empregado como um “proxy” para medida de produtividade. Vemos que tal produtividade se acelerou até meados de 2010, quando começou a se estabilizar. O gráfico azul mostra a evolução do desemprego no mesmo período. Ou seja, desde 2010 , quando o desemprego veio abaixo do 7%, a produtividade marginal da mão de obra vem caindo. Isto pode ser apenas uma consequência do ciclo econômico, da mesma forma que ocorreu em 2008 e 2009, porém a duração deste ciclo atual pode indicar que de fato estamos tendo um problema estrutural com a produtividade da mão de obra que está entrando no mercado de trabalho.
Assim, é provável que crescimentos marginais de atividade requeiram cada vez mais gente trabalhando, ou seja, é provável que precisemos de aumentos cada vez mais expressivos da taxa de participação [ ( número de pessoas a procura de trabalho + número de pessoas empregadas )/ número total de pessoas em idade de trabalho].
Em resumo, o mercado de trabalho tende a ficar aquecido por um bom tempo se crescermos na velocidade que o governo deseja.
Nesta linha, vou mostrar um outro gráfico que preocupa bastante o BC, como mostrei em post recente :
http://colunistas.ig.com.br/ricardogallo/2013/04/01/bc-comenta-sobre-a-produtividade-do-trabalho/
As barras vermelhas mostram a taxa real de crescimento da massa salarial desde 2007, no eixo da direita. Vemos que tal massa cresce, em termos reais ( além da inflação), a taxas superiores a 4% a.a. em média, e que nos últimos anos tal taxa esteve acima de 5%a.a. Ou seja, a massa de salários cresce acima do PIB. Isto cria uma pressão de custos na economia em função dos aumentos salariais reais, o que é natural de se esperar num mercado que absorve mão de obra na velocidade que vimos anteriormente ( no meu modelinho para cada 1% de pib adicional precisamos de mais 0,2% de emprego, além do crescimento vegetativo da população em idade para trabalhar).
De fato não há nada de errado em ter um aumento forte do emprego e da renda dos trabalhadores. Isto está 100% em linha com a agenda do governo.
Contudo, como falei mencionei acima, esta pressão de custo com a mão de obra reduz a margem de lucro das empresas, que muitas vezes são forçadas a repassar tais custos aos preços de seus produtos, se a demanda vier a subir com o reaquecimento da atividade.
Há algumas maneiras de endereçar este problema:
a. podemos aumentar o investimento em máquinas e automação em serviços, na construção, na indústria, e na infra, de tal forma que possamos crescer mais sem demandar tanta mão de obra qualificada. Com isto os salários poderiam continuar crescendo sem pressionar a margem de lucro dos empresários;
b. no médio prazo podemos promover um programa agressivo de qualificação de mão de obra visando aumentar o seu valor agregado na produção;
c. no longo prazo podemos induzir uma migração maior de mão de obra hoje alocada a atividades de baixa produtividade (exemplo: agricultura) para o setor de serviços e para a indústria, com uma urbanização de melhor qualidade e treinamento para este pessoal. Este movimento ajudou a sustentar o enorme crescimento Chinês na última década. O gráfico abaixo mostra que poucos países do mundo tem mais de 10% ( linha cinza vertical) de sua população trabalhando no setor agrícola ( barrinhas horizontais azul escuro):
No Brasil há mais de 15 % do pessoal ocupado trabalhando no setor agrícola ( em amarelo abaixo) e muito pouca gente trabalhando na indústria ( vermelho):

d. ajustar os programas sociais de forma a aumentar a atratividade do mercado de trabalho vis a vis os benefícios das transferências dos programas governamentais, como a bolsa família, previdência rural e seguro desemprego. Ou seja, é preciso estimular a entrada dos beneficiários destes programas no mercado de trabalho;
e. executar uma profunda cirurgia tributária visando desestimular o consumo de produtos e serviços que utilizem muita mão de obra, através de onerações tributárias, e estimular o investimento na produção, através de uma forte redução dos impostos cobrados sobre os lucros e receitas das empresas. Neste sentido também seria recomendável tributar os dividendos pagos pelas empresas, estimulando a retenção de seus lucros e o seu reinvestimento na produção;
f. estimular a previdência privada, aumentando o percentual máximo da renda individual que pode ser investido em produtos previdenciários de longo prazo com isenção total de imposto no seu resgate, visando gerar a poupança necessária para financiar o aumento de investimento;
g. como tudo isto demanda tempo, é preciso em paralelo comprar algum tempo elevando os juros básicos, para evitar que a inflação se espalhe ainda mais, caso o cenário de crescimento mais forte previsto pelo BC de fato se concretize.
Desta forma teríamos como gerenciar este gargalo da mão de obra de maneira não inflacionária, estimulando a oferta e não o consumo, sem prejudicar as conquistas dos trabalhadores.
Ou encaramos de frente que, além dos gargalos de infra, temos gargalos no mercado de trabalho, ou vamos começar uma corrida atrás do rabo que não vai nos levar a lugar nenhum.
Inflação crescente, economia patinando e deficit externo crescente são todos sinais que temos gargalos nos fatores de produção, na oferta…. na oferta.