Os mercados de risco começam a acreditar que as lideranças na Europa perceberam o tamanho da crise atual e que devem começar a atuar para estancar a crise ou pelo menos para tentar estabilizar o quadro clínico que ficou bastante sério.
Como disse em post recente, a crise européia que começou com problemas localizados na periferia, hoje atinge as economias do norte ou centrais. Tal contágio se manifesta no custo de captação dos principais bancos europeus, que subiram uma barbaridade recentemente, como vemos marcado em vermelho no gráfico abaixo que mostra o spread anual em centésimos de 1% desde 2007:

A taxa de risco destes bancos subiu bastante recentemente ( em vermelho) atingindo níveis muito superiores àqueles praticados no pior momento da crise de 2009, marcado em amarelo.
Tal taxa de risco eleva o custo de captação dos bancos em toda Europa o que reduz e encarece a oferta de crédito mesmo nas economias mais sólidas. Este aperto de crédito aliado à queda da confiança de empresários e consumidores na região do Euro deve colocar aquela economia em recessão nos próximos meses. Uma recessão piora o quadro político e dificulta muito os ajustes fiscais em andamento nas economias periféricas.
A boa notícia é que há indícios que os líderes europeus perceberam que a crise chegou a seu quintal. Isto deve levá-los a tomar atitudes mais decisivas no sentido de estancar a sangria.
Há sinais fortes vindo do BC Europeu e das principais lideranças políticas da Europa que se pretende usar o fundo de estabilização levantado junto aos países da região do Europeu para se capitalizar os bancos da periferia, mais expostos á crise em suas economias. Os bancos das economias centrais serão capitalizados pelos governos de seus próprios países. O caso do banco franco-belga Dexia é emblemático.
Uma rodada de capitalização pode aumentar a imunidade do sistema financeiro europeu diante desta metástase violenta que assola as economias da Europa. Com os bancos capitalizados será possível impor-lhes perdas maiores no processo de reestruturação voluntária da dívida grega que se iniciou há algumas semanas, quando da aprovação do segundo pacote de socorro a Grécia. Espera-se que os bancos e investidores que detenham cerca de Euro 140 bi de dívida grega que vencem nos próximos 10 anos estendam o prazo de vencimento de seus títulos por 30 anos a taxas de juros menores. Com isto Grécia teria mais tempo para tentar equacionar sua dívida. Contudo, dado o elevado endividamento do Estado Grego, é provável que haja mais uma rodada de redução de dívida, ou seja, teremos um calote nos próximos anos. Assim, o aumento de capital dos bancos os ajudaria a encarar prejuízos maiores sem terem o risco de quebrar.
Não acredito que um calote formal seja declarado neste momento, pois seria preciso que se blindassem as outras economias com problemas na Europa. Portugal e Irlanda também apresentam dívidas elevadas e poderiam também almejar uma redução em suas dívidas caso fosse concedido um desconto aos Gregos. Logo, é provável que a solução definitiva para a Grécia ainda demore um pouco. Além disto, Espanha e Itália estão tendo dificuldades em rolar suas dívidas. Uma quebra da Grécia poderia afetar ainda mais a rolagem daquelas dívidas. Portanto é preciso que se crie algum mecanismo para dar liquidez aos papéis da dívida Italiana e Espanhola.
O BC Europeu tem comprado títulos daqueles países no mercado, porém o montante de centenas de bilhões de Euro de dívidas destes países torna a tarefa de intervenção um jogo maior, para o qual o ECB não parece estar politicamente disposto a encarar. O BC Europeu é independente politicamente dos governos centrais e suas regras de funcionamento o impedem de entrar em operações explícitas de salvamento aos países. A situação é bem diferente em países que tenham BC´s sujeitos a dominância fiscal, ou seja, que sejam sujeitos a interferências do Tesouro Nacional na condução de suas políticas Nestes casos, o BC pode simplesmente emitir moeda local e comprar dívida pública no mercado. O Brasil usou tais mecanismos na década de 80, o que nos levou a uma hiperinflação. Os Europeus temem muito tal cenário e, portanto impuseram restrições ao ECB no que diz respeito à compra de títulos públicos dos países da região do Euro que não sejam feitas por razões estritamente de política monetária. O ritmo atual de compras pode ser justificado a luz dos problemas no mercado interbancário que estão afetando os mecanismos de transmissão da política monetária. Para que o BC Europeu possa expandir tais compras de títulos espanhóis e italianos, será preciso que a crise na Europa fique bem mais seria e que o espectro da recessão esteja bem mais presente.
Infelizmente tal impasse no que diz respeito a um calote definitivo da Grécia, que reduziria bastante as incertezas sobre a saúde dos bancos europeus, e a uma atuação mais decisiva do ECB na compra de papéis italianos e espanhóis deve fazer com que a crise européia demore a se dissipar. O caminho mais provável é um prolongamento da crise, porém evitando-se os desfechos mais dramáticos como a quebra desorganizada de algum país ou até mesmo a sua saída da região do Euro.
Podemos esperar outras medidas mais criativas no futuro, com o fundo de estabilização desempenhando um papel mais ativo na compra de papéis públicos nos mercados secundários de títulos ou até mesmo garantindo parcialmente o risco deste papéis. Porém dadas limitações de tamanho, capitalização e alavancagem do fundo, este não terá a dimensão necessária para reverter este quadro de crise ou para reduzir os juros de captação dos países com problemas. Não é possível se ter um suposto emprestador de última instância, vital numa crise de crédito como a que Europa vive, sem que este tenha o poder de emitir moeda. Contudo tais medidas ajudariam a ganhar algum tempo, evitando assim um colapso da região do euro que seria dramático para a economia global.
Mas ganhar tempo para que? Os problemas fundamentais da região do Euro não são financeiros, mas econômicos e estruturais. É preciso que as economias periféricas façam ajustes que vão além da esfera fiscal: suas economias são improdutivas, ineficientes e pouco competitivas. Para que tais economias cresçam sem elevar suas astronômicas dívidas pública e privada é preciso que elas se tornem mais produtivas, de tal forma que gerem assim mais renda e mais poupança. Seus déficits externos precisam se reduzir sem um ajuste cambial. Ou seja, precisarão reduzir seus custos de produção em termos nominais, em Euros. Caso contrário eles não conseguirão crescer, pois não mais terão acesso ao financiamento barato que vinha do norte. Precisarão gerar superávits orçamentários, sejam nas famílias ou no Estado. O endividamento público e privado passa de 300% do PIB nestes países, enquanto que nos EUA está abaixo de 240% do PIB, na China 180% e no Brasil ao redor de 100%%. Ou seja, sem espaço para elevar seu endividamento, precisarão poupar. Para poupar é preciso ter mais renda. Para ter mais renda é preciso produzir mais. Para produzir mais é preciso ser mais produtivo e reduzir os custos. Logo, se não forem aprovadas medidas de política econômica no sentido de aumentar competitividade e taxa de crescimento econômico, vai ser difícil imaginar que países com Espanha e Itália consigam reduzir suas dívidas. A Espanha já está se movendo neste sentido. A Itália continua apenas no bunga-bunga.
E como ficam os EUA nesta?
A economia dos EUA, embora tenha se desacelerado bastante quando comparamos com o início do ano, dá sinais que se estabilizou. É uma taxa baixa de crescimento, 1 a 1.5% AA, porém ainda não é uma recessão. Os dados recentes mostram que os economistas estão se surpreendendo positivamente com as notícias vis a vis suas expectativas, como vemos abaixo no gráfico do índice de surpresas, índice que avalia se os dados estão saindo melhor ou pior que as previsões dos analistas econômicos:

Vemos que depois da forte piora que ocorreu desde o início do ano (em vermelho), os dados recentes (em verde) trouxeram boas surpresas, ou pelo menos as notícias sobre economia não têm sido tão ruins como se esperava.
Contudo, o problema com os grandes bancos europeus se espalha pelo mundo. Como o sistema financeiro é bastante globalizado é impossível imaginar uma crise bancária na Europa sem que isto tenha repercussões no risco dos bancos americanos. O spread de risco destes bancos disparou recentemente (ver abaixo) em função da forte alta do spread de risco das suas contrapartes européias:

Esta elevação de seu risco eleva seu custo de captação, o que pode reduzir e encarecer a oferta de crédito nos EUA, que já anda mal das pernas, o levando-os a uma nova recessão.
O tumor europeu que se iniciou na Grécia, se espalhou para Portugal Irlanda, chegou à Espanha e pegou a Itália. Tal metástase chegou aos principais bancos da Europa e ameaça atingir os bancos americanos. Esta metástase se manifesta ao elevar o custo de captação dos bancos no mundo todo, o que reduz oferta de crédito, reduzindo assim o crescimento econômico. Este é o mecanismo de transmissão das crises no novo milênio: crises econômicas em certas regiões afetam a capacidade de pagamento de suas dívidas o que afeta a saúde dos bancos locais. Tais bancos têm seu risco elevado o que acaba elevando o risco dos bancos em outras regiões do globo graças à inter-conectividade dos mercados de capitais globais. É o lado ruim da globalização. O MESMO MECANISMO BENIGNO QUE PERMITE QUE A POUPANÇA FLUA DOS PAÍSES MAIS RICOS EM DIREÇÃO AOS MAIS POBRES, CARENTES E COM MAIOR DEMANDA POR CAPITAL, AJUDA A TRANSMITIR PROBLEMAS ALÉM DAS FRONTEIRAS DOS PAÍSES EM CRISE, POR MENORES QUE ELES SEJAM.
Outro mecanismo de contágio se dá através do fluxo de comércio. Economias mais abertas, com maior volume de exportações e com baixa dependência do mercado de consumo interno, também sentem os efeitos da crise. As economias emergentes dependem de suas exportações para crescer. Tais exportações dependem da saúde das economias desenvolvidas, pois elas são as grandes importadores de bens e serviços produzidos nos países emergentes. Com tais economias fragilizadas as exportações podem cair, o que acaba afetando a performance dos países exportadores. Veja abaixo o que ocorreu com a bolsa Chinesa este ano:

Temos visto uma queda consistente desde abril último, quando a crise Européia começou a se agravar ( me vermelho ), se aproximando do pior momento vivido em 2010 ( amarelo), porém ainda acima do que viveram em 2008 ( em lilás). Se a economia Chinesa se desaquecer ainda mais neste processo, a demanda por commodities pode cair, o que afetaria bastante nossa economia. A renda gerada pelo boom das commodities desapareceria, o crédito externo ficaria mais caro e poderíamos ter aqui a repetição do que ocorreu em 2008.
Não há como se proteger de uma metástase desta proporção. Porém há medidas que podem atenuar seus efeitos, ou medidas que não tornem os efeitos colaterais do combate a tal metástase pior do que a doença em si.