Juros No Brasil | Ricardo Gallo - Part 2

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Arquivo da Categoria Juros no Brasil

quinta-feira, 4 de abril de 2013 Juros no Brasil | 05:56

Outra boa razão para não subir o juro?

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Mais um dado mostra que economia está sem folego. A pesquisa PMI do HSBC indica que atividade está dando uma esfriada:

Eu acho que as projeções do BC para o crescimento podem estar otimistas demais…. Aí ficaria explicada a relutância do BC do B  em subir o juro….

SE SE SE este for o fato,  é muito muito muito importante que BC venha a público e deixe isto claro para evitar a ambiguidade ….

EU TENHO DITO E REPITO: ASSUMINDO  QUE O CENÁRIO DE CRESCIMENTO PREVISTO PELO BC DE FATO SE CONCRETIZE, É PRECISO SUBIR JURO E RÁPIDO…PORÉM HÁ UM GRANDE “SE” AÍ…GRANDE MESMO, SR PRESIDENTE. DUAS LETRAS QUE FAZEM UMA ENORME DIFERENÇA…


Autor: Ricardo Gallo Tags:

quarta-feira, 3 de abril de 2013 Câmbio, Juros no Brasil | 19:15

Mais uma boa razão para não subir o juro?

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O gráfico abaixo mostra a evolução do saldo da balança comercial:

Gráfico azul mostra a evolução das exportações mensais: caindo….

Gráfico laranja mostra que importações estão estáveis….

E o gráfico verde mostra que saldo está caindo…

Como:

Produto = consumo + investimento + exportação – importação

Tudo indica que do lado externo há mais pressão para baixo no PIB…. ou seja, forte indício que retomada do crescimento será fraca…

Difícil imaginar que dólar caia em cenário de :

  • PIB fraco
  • juro baixo
  • inflação alta
  • déficit externo crescente…
Autor: Ricardo Gallo Tags:

Juros no Brasil | 12:49

Uma boa razão para não subir o juro?

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Veja abaixo o comentário do Itau sobre os dados da produção industrial:

BRASIL – Produção industrial cai em fevereiro e reverte a forte alta de janeiro – Itaú

A produção industrial devolveu, em fevereiro, a forte alta de janeiro. A queda, liderada pelo recuo da produção de veículos automotores, reforça que a tendência de recuperação da produção industrial é gradual. Entre as categorias de uso, destaca-se a queda da produção de bens de consumo duráveis (influenciada pelo setor automobilístico), e a alta da produção de bens de capital. De fato, os dados de investimento em geral foram positivos em fevereiro e indicam expansão da formação bruta de capital fixo pelo terceiro mês consecutivo. Para março, os sinais são de aumento da atividade na indústria, o que é compatível com um crescimento moderado do setor no primeiro trimestre. O resultado da produção industrial de fevereiro não altera a nossa projeção para o PIB do primeiro trimestre, de 1,2% ante o quarto do ano passado, embora aumente a chance de um crescimento um pouco menor.

Produção industrial em fevereiro

A produção industrial caiu 2,5% em fevereiro na comparação com janeiro, após ajuste sazonal, e ficou 3,2% abaixo do patamar de fevereiro do ano passado. O resultado ficou abaixo da nossa expectativa (-1,9% e -2,2%, respectivamente) e do consenso de mercado (-2,0% e -2,4%). Houve revisão da variação do resultado de janeiro em relação a dezembro, que passou de 2,5% para 2,6%.

A variação do índice de média móvel de três meses da produção industrial passou de 0,4% em janeiro para 0% em fevereiro. No acumulado em 12 meses, a variação passou de -2,0% em janeiro para -1,9% em fevereiro.

Entre as categorias de uso, o destaque do lado negativo foi a queda de 6,8% da produção de bens de consumo duráveis. O recuo de 9,1% na produção de veículos automotores liderou a fraqueza da produção de bens de consumo em fevereiro. Do lado positivo, a alta da produção de bens de capital foi uma boa surpresa. Após subir 9,2% em janeiro, a alta de 1,6% da produção de bens ligados ao investimento em fevereiro reforça os sinais de retomada da ampliação da capacidade produtiva.

As outras categorias de uso tiveram as seguintes variações: bens intermediários -1,3%; e bens de consumo semi e não duráveis -2,1%. O índice de difusão (% de setores com aumento na comparação com o mês anterior, após ajuste sazonal) caiu de 81,5% em janeiro para 44,4% em fevereiro.

A tendência para a atividade industrial é de expansão, mas em ritmo moderado. A queda em fevereiro, após a forte alta de janeiro, reforça esta avaliação. A retomada da confiança do empresário industrial tem sido lenta. A queda de 1,5% em março, após dois meses de estabilidade, mostra que o crescimento da atividade industrial tende a ser gradual, e que os investimentos também devem desacelerar após este ímpeto do primeiro trimestre.

Investimentos em alta nos últimos meses

O consumo aparente de máquinas e equipamentos avançou em fevereiro. A alta de 2,9% em relação a janeiro, após ajuste sazonal, foi a terceira consecutiva. O outro componente do investimento, a construção civil, recuou 1,1% no mesmo tipo de comparação.

Com estes resultados, o nosso índice mensal da formação bruta de capital fixo avançou 2,1%, também a terceira alta consecutiva na margem. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior o investimento cresceu 5,2%. Os dados mensais de investimento fecharam o trimestre encerrado em fevereiro com expansão de 7,0% na comparação com o trimestre anterior, acelerando em relação à alta de 1,6% observada no trimestre terminado em janeiro.

Impactos no cenário de atividade econômica

A queda da produção industrial reforça o cenário de acomodação da atividade em fevereiro após um janeiro forte. Isso indica que há uma retomada da economia, mas em um ritmo que tende a ser moderado. O resultado abaixo da nossa expectativa não altera a nossa projeção de crescimento de 1,2% para o PIB do primeiro trimestre deste ano. No entanto, aumenta a chance de um crescimento um pouco mais baixo.

Aurélio Bicalho
Economista


Pesquisa macroeconômica no Itaú

Ilan Goldfajn – Economista-Chefe

E veja agora o gráfico que mostra o % de setores que estão tendo alta na produção industrial:

Veja que a coisa vem fraca desde 2010 e continua fraca…

Autor: Ricardo Gallo Tags:

Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 00:40

Presidente Tombini no Senado: ” Estamos atentos…”

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Veja como o presidente do BC do B terminou sua apresentação no Senado:

http://www.bcb.gov.br/pec/appron/apres/Apresenta%C3%A7%C3%A3o%20-%20CAE%20-%20VF.pdf


Minha leitura: Economia vai crescer mais forte…. E inflação mais persistente…. Logo, os juros vão ter que subir.

Só não sabemos quando, como e quanto…

Se de fato eu estiver correto, usando um pouco da teoria dos jogos, é melhor :

  • iniciar o processo de alta o mais cedo possível, para evitar que a inflação se espalhe ainda mais…
  • executá-lo durante o menor prazo possível, para minimizar o impacto negativo no investimento e o ruído na imprensa…
  • e com um orçamento para elevação de juros mais conservador, para evitar que sejam NECESSÁRIAS novas altas dos juros no futuro, pois ano que vem tem eleição…

Se  tudo der certo, até junho do ano que vem o BC poderá baixar o juro de novo, para menos dos 7% aa atuais…

Agora, o que ele vai fazer? Só saberemos daqui algumas semanas…. mas não é fácil não… vida dura.


Autor: Ricardo Gallo Tags:

sábado, 30 de março de 2013 Câmbio, Juros no Brasil, Politica Economica | 11:32

Relatório de inflação: previsão do BC sobe

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Veja o comentário do economista Marcelo Cypriano, simples e direto ao ponto:

O Relatório Trimestral de Inflação possui duas informações relevantes.

A primeira é o aumento da previsão de inflação nos modelos do Bacen.

De fato, as previsões subiram para 5,8% (de 4,9%) em 2013 e para 5,1% (de 4,8%) no ano que vem.

Como detalhe, toda a alta da previsão 2013 aconteceu no 1º semestre. A previsão para o 2º semestre continuou a mesma a 2,6%.

Outro detalhe importante ficou prejudicado, pois a diferença de previsão entre o cenário de referência e o de mercado (que considera alta da Selic para 8,25%) permite avaliar se a expectativa de alta de juros do mercado está bem calibrada. Como a taxa de câmbio ficou muito diferente entre elas (R$ 1,95 no referência e R$ 2,05 no mercado), a comparação ficou mais difícil.

Uma comparação menor pode ser feita: a alta de 1 ponto na Selic com o cambio a 2,05 é mais ou menos equivalente a manter o cambio estável a R$ 1,95.

Na verdade, a alta de 1 ponto na Selic com o cambio a 2,05 produz IPCA menor em 2014 (cai de 5,8 para 5,1) do que cambio estável a R$ 1,95 sem alta de juros (cai de 5,7 para 5,3).

A previsão de inflação do Bacen é das mais altas em relação a meta. Quando se considera a previsão 4 e 8 trimestres a frente, nunca houve desvio tão grande (veja os gráficos abaixo). O Bacen citou considerar os efeitos da desoneração da cesta básica (sem especificar o montante).



Por último, o acerto da previsão de inflação para o 1º trimestre depende de uma surpresa muito grande na divulgação da inflação de março. Provavelmente a previsão para 2013 já começa com um aumento em torno de 0,10-0,15 pelo acumulo de mais inflação no primeiro trimestre.

A segunda informação se refere ao cenário que aconselha a cautela nas decisões de política monetária.

O Bacen mais uma vez descreveu as dificuldades da economia europeia voltar a crescer, assim como citou a incerteza com a redução do gasto público nos EUA. Sobre o maior crescimento emergente, citou o menor crescimento do comércio mundial como fator de risco.

Porém, outra justificativa importante é a possibilidade da inflação desacelerar nos próximos trimestres (cenário dele, inclusive, visto as previsões).

Citou para isso a ausência de pressões de alta das commodities e o menor reajuste do salário mínimo neste e no próximo ano, assim como o acordo salarial no setor público que definiu o reajuste entre 2013 e 2015.

Deu destaque também para a condição do cumprimento da meta fiscal este ano (3,1% do PIB) e no próximo, “não obstante iniciativas recentes apontarem o balanço do setor público em posição expansionista” disse.

O relatório manteve também as ressalvas de sempre sobre a experiência internacional apontar para a necessidade de inflação baixa para crescer mais, etc.

Em suma, o Relatório trouxe uma previsão de inflação que ficou (pela primeira vez) alinhada com o mercado. O risco continua sendo a sequência de taxas de inflação acima do esperado mostrar que as previsões continuam muito baixas.

Outra informação interessante é a equivalência entre a estabilidade cambial a R$ 1,95 e a alta de juros. Um cálculo aproximado diria que o câmbio a R$ 1,95 (na média daqui ao final de 2014) valeria um 75 pontos de alta de juros.

Por outro lado, uma taxa de câmbio pouco acima de R$ 2,00 necessita de mais que 1 ponto na Selic para trazer a inflação abaixo de 5% no horizonte de 8 trimestres publicado hoje.

Meu pitaco[ Gallo]:

1. BC subiu expectativa de inflação para 2013 e 2014, e ambas estão bem acima da meta … ou seja acabou tal da convergência… a mesma que não ocorreu em 2011 e 2012, não deve ocorrer 2013 e pelo visto nem vai ocorrer em 2014. Veja nosso track record recente e as projeções:

IPCA 2010: 5,91%

IPCA 2011: 6,5-%

IPCA 2012: 5,84%

IPCA 2013: 5,80 % ( BC)

IPCA 2014 : 5,10% ( BC)

Média de 5 anos:  5.83%…. ou seja 30% acima da meta… haja choque…

2. os números mostram que manter o Real valorizado em termos reais ( ou seja, manter taxa de câmbio estável enquanto a inflação corre solta) ajuda bastante…  este pode ser o instrumento de politica ”monetária” para os próximos  meses, o que certamente evitaria uma elevação maior dos juros… o problema é que o déficit externo está piorando na margem… podemos esperar uma frequência maior nas intervenções do BC no mercado de câmbio, vendendo US$ , como ocorreu ontem.

Agora, para não dizer que não falei da flores, veja abaixo a entrevista  do Economista Luiz G. Beluzzo, um dos principais interlocutores da equipe econômica do governo , que foi publicada no site de clipping do ministério do planejamento no dia 28 de fevereiro:

http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2013/2/28/dosar-juros-e-ajustar-cambio-sao-os-desafios-diz-belluzzo

Valor: No ano passado, o governo estimulou a economia, reduziu impostos, baixou juros, mas a economia cresceu muito pouco. O que deu errado?

Luiz Gonzaga Belluzzo: Você tem que explicar o conjunto das circunstâncias que levaram a isso. O Brasil se saiu muito bem do impacto da crise. O governo reagiu corretamente, dando estímulos ao consumo, estimulando a compra de carteira dos bancos menores pelos bancos maiores, utilizando o Fundo Garantidor de Crédito. Conseguiu crescimento expressivo em 2010. Os estímulos, sobretudo porque estavam muito concentrados no consumo, foram perdendo força. O investimento começou a retroceder muito rápido, depois de ter ido muito bem. Você tem o encerramento de um ciclo, que teve uma interrupção em 2008, mas que se renovou em 2010, e esse ciclo se esgotou, até porque houve os efeitos negativos sobre a indústria da longa valorização do câmbio. Esses efeitos agora estão ficando muito claros. O que marcou a economia nesses anos foi o desempenho ruim do setor industrial. O investimento industrial foi muito baixo.

Valor: Houve em 2012 discrepância muito grande entre a alta de 8,4% do varejo e a retração de 2,7% na indústria. Como o sr. explica esse hiato?

Belluzzo: Esse hiato, que Yoshiaki Nakano chama de “boca do jacaré”, é muito expressivo e mostra a dinâmica que está movendo a economia brasileira hoje. Houve sustentação do emprego, da renda e, portanto, da demanda, que se abasteceu basicamente de importações. Todos os setores industriais, inclusive aqueles mais intensivos em mão de obra, têm déficit na balança comercial. Você tem baixo crescimento e uma importante mudança da composição da demanda. Aqueles que subiram, a chamada nova classe média, passaram a adquirir bens duráveis muito baratos, que são o efeito-China, e a cesta de consumo deles se moveu para os serviços. Se você olhar a composição da inflação dos serviços, vai notar que é muito mais alta, na média dos dois anos, do que nos outros setores. Começou a subir a remuneração daqueles que prestam serviços pessoais, isso denota mudança também nos preços relativos. Às vezes os economistas confundem mudança de preços relativos com inflação.

Valor: É uma mudança de patamar definitiva, ou ao menos um pouco mais duradoura?

Belluzzo: Talvez um pouco mais duradoura, dependendo de qual vai ser a continuidade do crescimento. As deficiências estão na taxa de investimento. Tanto no investimento público quanto no investimento privado, sobretudo na indústria. O governo se moveu para rearranjar as relações com o setor privado e fazer com que o investimento público seja capaz de impulsionar o investimento privado, inclusive na indústria. O investimento público em logística, portos, ferrovias, pode ter impacto sobre a indústria nacional, assim como os investimentos da Petrobras no pré-sal, que também sofreram uma dissolução de continuidade por conta dos problemas que a empresa viveu.

“Os monetaristas começam a cacarejar de novo, dizendo que, nos EUA, o quantitative easing vai gerar inflação”

Valor: E qual é a perspectiva para o investimento?

Belluzzo: O Brasil está vivendo esse momento de transição. Você tem um conjunto de projetos razoavelmente atraentes, o governo está trabalhando para que isso logo se transforme em gastos, formação da renda e crescimento um pouco maior. Você tem um hiato.

Eu dei uma entrevista há um tempo sobre a necessidade de se estabelecer um diálogo com o setor privado. É preciso haver coordenação. Eu não disse que falta coordenação em todo o governo, disse que faltava coordenação na área de infraestrutura, para atrair o setor privado para participar dos empreendimentos. Acho que isso agora está caminhando nessa direção e espero que ano que vem a gente assista essa mudança.

Valor: Há críticas de que o governo está errando a mão na hora de se comunicar com o setor privado, tanto para atrair investimento, quanto na flexibilização da política fiscal e monetária. O sr. vê isso?

Belluzzo: Essa questão tem a ver com a arte da comunicação, de você estabelecer laços de confiança com o setor privado. Ninguém constrói isso da noite para o dia. Quando se começou a baixar a taxa de juros, e acho que nesse caso a comunicação foi muito bem feita, tinha gente que dizia que ia ser um desastre, e não aconteceu nada disso. Quem é que se retrata do que falou? Ninguém. E é um processo de autogeração de informações: um diz uma coisa, o outro repete, e se forma um consenso. O BC está o tempo todo lidando com isso. No caso da inflação hoje, o BC tem que olhar para frente. Não pode tomar uma decisão porque teve um choque de oferta e, de repente, você sobe a taxa de juros. Tem que olhar depois daquele primeiro momento em que a inflação subiu, e está ficando claro que talvez ela vá arrefecer, porque a safra entra e existem outros fatores favoráveis. Isso é um jogo de administração de expectativas, isso é o que diz fundamentalmente a teoria de metas de inflação. Quem é que diz que o BC não vai usar a taxa de juros? O que interessa dizer que o BC abandonou o tripé? O tripé não é um dogma, é uma boa combinação, mas não existiu sempre. Não existe nenhum dogma, existem certos princípios de funcionamento da economia que você tem que respeitar.

Valor: Olhando as causas que derrubaram o crescimento em 2012, o investimento atrasado é uma delas?

Belluzzo: Não é que o consumo se esvaiu. Desacelerou o efeito que tem sobre o crescimento da economia. Houve o agravante desse hiato, dessa boca do jacaré. Boa parte da demanda vazou para o exterior, você perdeu o estímulo para o investimento industrial. É claro que ficou muito baixo, eu diria ridiculamente baixo. Tem gente que diz: “se o câmbio está valorizado, as importações de bens de capital são baratas, seria um estímulo para investir”. Isso é outra tolice. O cara não compra o bem de capital porque ele é barato. Você pode comprar uma televisão, porque ela é barata, mas o bem de capital você vai olhar o rendimento que vai te dar na operação em que vai ser usado, no retorno. E a taxa de câmbio e a taxa de juros afetam a taxa interna de retorno dos empreendimentos.

Valor: Há também o dado de que a indústria fechou 2012 com a maior taxa de ociosidade em três anos…

Belluzzo: A ociosidade é um bloqueio também ao investimento. Se você está com capacidade ociosa, tem que digerir essa capacidade para começar a investir.

Valor: Se a economia cresce tão pouco, por que há inflação? O sr. vê estagflação?

Belluzzo: Isso tem a ver um pouco com a herança do período de indexação. Ainda que tenhamos vencido a ameaça de hiperinflação, a gente mantém um sistema de indexação. É um risco muito grande deixar a inflação sair do controle, porque rapidamente você tem indexação. É um esforço de anos para limpar essa memória. Agora, por exemplo, a presidente fez esse esforço com a energia elétrica. O cálculo da energia elétrica era um absurdo de indexação. Se você tem um choque de oferta, como o que houve aqui, a tendência dos formadores de preços é reagir rapidamente para acompanhar esse choque de preços, quando na verdade isso deveria ser uma coisa passageira. Por isso o cuidado com a inflação aqui tem que ser maior que no resto do mundo. Os monetaristas já estão começando a cacarejar de novo, dizendo que o quantitative easing nos EUA vai produzir inflação. Só com a dança da chuva, porque a economia americana está devagar, com o mercado de trabalho frouxo. Aqui, o mercado de trabalho está relativamente pressionado. Sobretudo o setor de serviços, onde os índices de inflação foram maiores. É um fenômeno que tem um lado bom, porque está melhorando o rendimento das pessoas. Mas para que houvesse estabilidade na taxa de inflação, seria preciso que os outros preços tivessem comportamento mais favorável. O governo tem que olhar para frente, não pode se afobar. Você não precisa dar um choque de juros, pode dar um sinal, ou pode esperar mais um pouco para ver como vai se comportar, e daí sim, agir em função daquilo que, prospectivamente, você está avaliando. Como as pessoas insistem para que você fale em números, falei em 0,5 ponto, mas isso depende do julgamento do Banco Central.

Valor: O sr. considera perigosa a tolerância com a inflação acima do centro da meta?

Belluzzo: É bom ter a meta como orientação, e tentar manter a inflação dentro do intervalo. Mas não pode transformar isso em um ordálio [vontade divina], você tem que saber que isso não é assim. Tem gente que propõe reduzir a meta, como se fosse só definir e a inflação cai. Não é assim, é um jogo de informações e contrainformações entre o BC e o mercado, e é isso que tem que ser levado a sério. Você não pode dar o sinal de que a inflação pode ser qual for, mas não há nenhum indício de que seja assim.

Valor: A manutenção da inflação acima do centro da meta não é preocupante?

Belluzzo: Você tem que procurar trabalhar para que ela caminhe na direção do centro da meta. Mas, e se o BC resolvesse subir de 7,5% para 9% a taxa de juros, para botar a inflação no centro da meta? Você bota a inflação no centro da meta e bota um monte de gente fora do mercado.

“O câmbio não é um preço qualquer. Não é igual o preço da banana, como disse um ex-presidente do Banco Central”

Valor: O alarme toca quando? Quando começa a chegar mais perto do teto da meta?

Belluzzo: Sim, claro. E veja que se você olha as discussões – é claro que as situações são diferentes – sobre os mandatos de bancos centrais, sobretudo nos EUA, mas também na Europa, o mandato do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) é um mandato dual, que tem a ver com o crescimento da economia e tem a ver com a inflação. Hoje, a discussão está em torno disso. O Bernanke disse que, agora, a preocupação dele é com a taxa de desemprego. A meta é de inflação? Não, a meta dele é da taxa de desemprego. Ele está abandonando a política de metas? Não, porque não há essa prisão dentro de um objetivo só, o Banco Central lida com a estabilidade monetária, mas a estabilidade monetária lida também com as condições de equilíbrio dos mercados financeiros, coisa que eles não cuidaram no passado e deu no que deu. E lida também com a questão do emprego. Você pode dizer que não, mas lida sim.

Valor: Mas o sr. vê estagflação no Brasil? A economia cresceu muito pouco no ano passado, e a inflação ganhou força…

Belluzzo: Se você definir dessa maneira, e você está definindo corretamente, a situação é de estagflação. Você precisa romper isso de alguma maneira.

Valor: E qual a perspectiva para a inflação em 2013?

Belluzzo: Acho que o governo agora tem que se preocupar muito mais com o trade off entre inflação e crescimento. Não adianta dizer “não, vou me preocupar só com a inflação”. Tem que se preocupar com a inflação, e tem que arrumar esses elementos, sobretudo do deslanche do investimento público, para fazer com que a economia cresça com maior estabilidade. Aí é um problema quase de cozinheiro, de saber dosar os condimentos.

Valor: O sr. falou que o juro poderia subir 0,5 ponto ainda no primeiro semestre…

Belluzzo: Acho que o BC tem que esperar para ver o que vai acontecer nos próximos meses. Não pode tomar uma decisão por um mês só [janeiro, quando a inflação subiu ]. Vamos ver o que vai acontecer. Se for o caso, o BC tem que agir.

Valor: Se o BC decidir aumentar o juro, por exemplo, em 0,5 ponto para sinalizar que está de olho na inflação, uma dose já seria suficiente? Ou poderia ser o início de novo ciclo de aperto monetário?

Belluzzo: Depende da reação da inflação. É sempre uma conjectura que o BC faz. Ele pode avaliar que são necessários dois aumentos. Acho que agora não dá para ficar dizendo números. É uma coisa que tem que ser observada quase no dia a dia. O boletim Focus é uma orientação. Às vezes, ouço alguns economistas e tenho a impressão que eles são como o Demônio de Laplace [entidade imaginária sugerida pelo astrônomo e matemático Pierre Simon Laplace (1749-1827], que sabe tudo sobre tudo, em todos os momentos, no passado, no presente e no futuro.

Valor: Qual o papel do câmbio na economia brasileira? Atrair investimentos, ajudar o exportador? No cenário atual, como o câmbio ajudaria mais?

Belluzzo: Estamos vivendo um momento muito delicado. Você pode cometer dois erros. Usar o câmbio de novo para combater a inflação, como fizemos por muito tempo, com prejuízo gravíssimo para a indústria, ou deixar o câmbio disparar. Acho que temos reservas e condições de impedir que as duas coisas aconteçam. O problema maior é que, se você deixou valorizar, a desvalorização depois é muito dolorosa.

Valor: Em que sentido?

Belluzzo: Se você deixa valorizar, você muda, por exemplo, o fornecimento de componentes para as empresas, que reestruturam seus fornecedores por causa da mudança de preço relativo. Você passa para fora. Quando o câmbio se desvaloriza, você dá um choque inflacionário. O câmbio valorizado para um país que ainda está em processo de desenvolvimento e industrialização é mortal. Nos últimos 20 anos, a maior parte do tempo passamos com o câmbio valorizado. O resultado está aí na cara das pessoas. Se você sentar com qualquer industrial, ele vai te dizer que o problema é o câmbio.

Valor: Então o câmbio agora está fora do lugar?

Belluzzo: O governo na verdade foi saindo daquele perto de R$ 1,76, e foi subindo, e botou em R$ 2. A desvalorização real foi muito menor, por causa da inflação. Agora, a pior coisa que você pode fazer é tentar dar um choque para cima no câmbio, você tem que ir administrando isso com muito cuidado, dando sinais de que você não vai permitir que ele se valorize mais. A autoridade econômica tem que pensar no longo prazo, é claro que o mercado pensa no curto. É claro que não faz sentido agora, no momento que você tem esse choque inflacionário, chutar o câmbio, desvalorizar agressivamente. Mas tampouco faz sentido você valorizar e prejudicar muita gente que estava exportando e parou de exportar.

Valor: No nível em que está agora, o sr. acredita que existe equilíbrio?

Belluzzo: Eles não deviam ter deixado ir a R$ 1,95. Por quê? Não precisava. Eles deviam ter mantido em R$ 2, segurado o câmbio lá. Não era difícil fazer. Se fosse o caso, esperar um pouquinho e mover para R$ 2,10. Infelizmente, não existe solução mágica nesses casos. Você vai ter que administrar o conflito entre objetivos. Um objetivo é do câmbio enquanto categoria monetária, o outro enquanto categoria real. O câmbio não é um preço como outro qualquer. Não é igual o preço da banana, como disse outro dia um ex-presidente do Banco Central. O preço da banana afeta os consumidores de banana. Já o preço do câmbio afeta os produtores e os consumidores de tudo. Seria mais fácil administrar esses conflitos com o câmbio perto de R$ 2, R$ 2,10. Acho que estava indo bem com R$ 2, R$ 2,10.

Valor: E dá para consertar agora?

Belluzzo: Agora tem que consertar, né? O que você não pode deixar é a indústria exposta a isso. Não devia ter deixado valorizar. Devia ter mantido ali. Porque vem um cara e diz que tem câmbio fixo. Não é câmbio fixo, tem uma flutuação administrada. Como se o câmbio flutuante fosse uma coisa não problemática. É problemático sim, para países que têm moeda não conversível, porque fica sujeito a movimentos de valorização e desvalorização, que são movimentos tipicamente especulativos. Tem sim que intervir no mercado de câmbio, é normal que intervenha.

E veja agora outro comentário dele sobre regime de metas:

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos principais conselheiros informais da presidente Dilma Rousseff para a política econômica, sugeriu hoje que o Conselho Monetário Nacional altere, para cima, a atual meta de inflação de 4,5 %.

- Talvez seja mais apropriado rediscutir a meta de inflação para cima. Isso aconteceu na administração de Armínio Fraga, e essa decisão não foi vista como um pecado mortal, lembrou o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987), referindo ao presidente do Banco Central no segundo governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

E veja também o que ele disse em  abril de 2012:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ninguem-mais-acredita-em-metas-de-inflacao-,856745,0.htm

O senhor vê uma alta dos juros até o final de 2013?

Não vejo. Atualmente, qualquer previsão sobre alta de juros é temerária. Quem pensa assim está com um modelo de metas de inflação de quinta categoria. Vamos falar a verdade: ninguém mais acredita no sistema de metas de inflação, que se baseia num único objetivo (combate a inflação) e num único instrumento (taxa de juros). O Olivier Blanchard (economista-chefe do FMI) não acredita e ele é de longe o melhor de todos os especialistas que abordaram este tema com inteligência. É que alguns economistas (de mercado) ficam com essa avaliação, pois dizem que o PIB potencial é de 4%, 4,5%. Mas isso é curioso, pois só eles e Jeová sabem quanto é o PIB potencial do Brasil. Eles não avaliam como vai ser o desempenho dos EUA e da China neste e no próximo ano. O Federal Reserve informou que o crescimento americano será baixo até 2014, inclusive com desemprego elevado e taxas de juros perto de zero. Então, eu acredito que quem tem razão é o Banco Central no Brasil. O BC disse no último relatório de inflação de março que a inflação em 2012 ficará em 4,4% e que em 2013 terá boas chances de ficar abaixo da sua projeção de 5,2%, dado o cenário de fraqueza estrutural da economia mundial, que vai apresentar um longo processo desinflacionário.

Ou seja, basta ler o relatório de inflação e os comentários do Beluzzo para entender o que a Presidenta quis dizer ontem.

RESUMO: As coisas mudaram…. não adianta espernear, reclamar, gritar. Mudaram. E acho recomendável e extremamente educativo ler e analisar os comentários do Beluzzo:

Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990).

Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp.

Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros.

Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).

Autor: Ricardo Gallo Tags:

quarta-feira, 27 de março de 2013 Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica | 14:56

Presidente do BC do B Tombini reage…

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O Presidente do BC do B tenta esclarecer declarações da Presidenta:

TOMBINI: NÃO VOU FAZER JULGAMENTOS SOBRE INFLAÇÃO

TOMBINI: DILMA PEDE QUE MAL ENTENDIDO SEJA DESFEITO; NÃO HÁ TOLERÂNCIA EM RELAÇÃO À INFLAÇÃO

TOMBINI: DILMA PEDIU PARA ESCLARECER NO BROADCAST QUE LEITURA SOBRE INFLAÇÃO FOI EQUIVOCADA

TOMBINI: O BC, SEMPRE QUANDO HOUVER NECESSIDADE DE USAR OS SEUS INSTRUMENTOS, ASSIM O FARÁ

TOMBINI: DE INFLAÇÃO FALA A EQUIPE ECONÔMICA; EM RELAÇÃO A POLÍTICA DE JUROS, FALA O BC

TOMBINI: DILMA DISSE QUE NÃO SACRIFICARÁ CRESCIMENTO POR INFLAÇÃO POIS ISSO NÃO É NECESSÁRIO

TOMBINI: SE E QUANDO FOR PRECISO USAR INSTRUMENTO DE POLÍTICA MONETÁRIA, ISSO OCORRERÁ

TOMBINI: DILMA PEDIU PARA REFORÇAR QUE INTERPRETAÇÃO DE TOLERÂNCIA COM INFLAÇÃO É EQUIVOCADA

SR Presidente:

Eu respeitosamente acho que já está na hora de agir…. aí estas dúvidas se dissipam….


Autor: Ricardo Gallo Tags:

Juros no Brasil, Politica Economica | 12:16

Pres. Tombini, às armas!

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Segue abaixo discurso recente do  Presidente do BC do B Sr Alexandre Tombini. Respeitosamente eu o transcrevo aqui.

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São Paulo, 22 de março de 2013.

Discurso do presidente, Alexandre Tombini, no almoço da Câmara de Comércio França-Brasil, em São Paulo.

Senhoras e senhores

É com grande satisfação que participo desse almoço da Câmara de Comércio França-Brasil.

Há mais de um século esta Câmara de Comércio tem sido um importante elo das relações entre o Brasil e a França, promovendo o intercâmbio comercial, a cooperação científico-tecnológica, industrial e cultural entre essas duas grandes nações.

Tem tido um papel relevante na articulação de interesses comuns, fomentando a troca de experiências, o estabelecimento de parcerias e o desenvolvimento de novos negócios.

Várias empresas francesas estão estabelecidas diretamente no Brasil, desempenhando atividades em diversos segmentos econômicos, como o automobilístico, o aeronáutico, a indústria química, o setor da construção civil e o setor financeiro. Algumas dessas empresas já estão aqui presentes há mais de cem anos, e suas histórias, de certa forma, já fazem parte da história econômica, social e cultural do Brasil.

A França é o sexto país com maior investimento direto no Brasil, com estoque de investimentos superior a US$ 30 bilhões.

E as inversões da França no Brasil superam os aportes franceses nos demais países que compõem o BRICS – Rússia, Índia, China e África do Sul.

A presença de empresas brasileiras na França é mais modesta. Mas tem crescido, acompanhando o processo de internacionalização da economia brasileira observado nos últimos anos.

O Brasil é o principal parceiro comercial da França na América Latina. A corrente de comércio Brasil-França vem apresentando expressivo incremento nos últimos anos, superando a cifra de US$ 10 bilhões em 2012.

Esses números refletem, em parte, o esforço e o papel desempenhado pela Câmara ao longo de sua história. E eventos como o de hoje, patrocinados pela Câmara de Comércio França-Brasil, contribuem para reforçar um ambiente propício à maior cooperação e integração entre os dois países.

Nesse contexto, antes de falar sobre as perspectivas da economia brasileira, gostaria de agradecer o convite e parabenizar o Louis Bazire pelo seu trabalho à frente desse importante fórum franco-brasileiro. Acredito que durante o seu mandato, que se encerra na próxima semana, foram reforçados os laços comerciais e culturais entre o Brasil e a França.

Senhoras e senhores

Em junho de 2011 tive a oportunidade de participar de um evento, semelhante a este, também promovido pela Câmara de Comércio França-Brasil aqui em São Paulo.

À época, o cenário internacional apresentava um nível de incerteza elevado, com relevante probabilidade de ocorrência de eventos extremos nos mercados financeiros internacionais.

Alguns meses depois, precisamente em agosto de 2011, houve uma substancial deterioração das perspectivas de crescimento da economia global.

Intensificaram-se os questionamentos sobre as condições fiscais das economias avançadas e sobre a solvência de economias da periferia da Zona do Euro. E mais tarde, de economias de maior porte da própria região.

Os mercados ficaram mais voláteis e o crescimento mundial, de fato, frustrou as expectativas em 2011 e 2012.

Atualmente, o ambiente externo permanece complexo. Mas é baixa a probabilidade de ocorrência de eventos extremos nos mercados financeiros internacionais, dada as ações promovidas pelos bancos centrais nos últimos dois anos.

No entanto, episódios como o que estamos observando atualmente no Chipre, e as respectivas repercussões nos mercados financeiros globais, reforçam a percepção que o cenário externo ainda é complexo, e que ainda há vulnerabilidades.

A perspectiva continua sendo de baixo crescimento econômico por um período prolongado para a economia global. Nas economias maduras o espaço para utilização de política monetária continua limitado e prevalecem restrições fiscais neste e nos próximos anos.

Já em importantes economias emergentes, o ritmo de atividade tem se intensificado, amparado pela resiliência da demanda doméstica.

No Brasil, temos observado uma recuperação gradual do ritmo de crescimento econômico.

No setor industrial, o sentimento do empresário melhorou e a produção tem mostrado tendência de crescimento nos últimos meses. Estamos observando um processo que tem se disseminado gradualmente entre os segmentos industriais.

No setor agrícola, a produção de grãos deverá bater novo recorde em 2013. E essa boa perspectiva tem contaminado positivamente segmentos econômicos correlatos.

O setor de serviços, por sua vez, continua se expandindo, porém em um ritmo mais moderado.

Em linhas gerais, a demanda doméstica continua sendo o principal suporte da economia. A expansão moderada do crédito, a geração de empregos e a ampliação da renda continuam estimulando o consumo das famílias. Esse ambiente tende a prevalecer neste e nos próximos semestres, quando a demanda doméstica será impactada pelos efeitos das ações de política recentemente adotadas, que são defasados e cumulativos.

Outra notícia promissora vem pelo lado do investimento, que voltou a apresentar taxa positiva de crescimento no último trimestre de 2012, após quatro trimestres consecutivos de retração. E pelas informações disponíveis, o investimento também

cresceu no primeiro trimestre de 2013, somando-se assim dois trimestres consecutivos de expansão.

Essa recuperação do investimento é explicada, em parte, pela própria perspectiva de retomada do crescimento econômico, que já está em curso. Mas também reflete o empenho do Governo em criar condições para ampliar os investimentos em nossa economia.

Nesse sentido, ressalto que o Governo já adotou medidas para simplificar o sistema tributário e para reduzir impostos e custos incidentes sobre os investimentos e a produção. Adotou medidas também para aumentar a produtividade e a competitividade de nossa economia. E lançou um amplo conjunto de concessões ao setor privado nos segmentos de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias.

Em resumo, está em curso um processo de retomada do crescimento econômico no Brasil. Nesse primeiro trimestre provavelmente crescemos ao ritmo de 4% ao ano. E a expectativa do mercado aponta um crescimento em 2013 ao redor de 3%.

Senhoras e senhores

Observamos nos últimos anos avanços estruturais significativos em nosso País.

A consolidação da estabilidade macroeconômica, com o cumprimento da meta para a inflação por nove anos consecutivos, combinada a importantes avanços institucionais, permitiu a redução significativa dos prêmios de risco no Brasil.

As mudanças observadas na estrutura dos mercados financeiros e de capitais, o aprofundamento do mercado de crédito e a geração de superávits primários consistentes com a manutenção de tendência decrescente para a relação entre dívida pública e o PIB, favoreceram o processo de redução das taxas de juros domésticas.

Some-se a isso o aumento na oferta de poupança externa e a redução no seu custo de captação.

Essas transformações caracterizam-se por elevado grau de perenidade e contribuem para que a economia brasileira apresente hoje sólidos indicadores de solvência e de liquidez.

O controle da inflação, conduzido no bojo de um sistema de metas já consolidado, insere-se nesse contexto de transformações virtuosas em nossa economia.

E não poderia ser diferente. A sociedade brasileira sabe que taxas de inflação elevadas geram distorções na economia, levam a aumentos dos prêmios de risco, deprimem os investimentos, subtraem o poder de compra de salários e reduzem o potencial de crescimento da economia.

Todas essas e outras transformações permitiram que alcançássemos um novo patamar para as taxas de juros em geral.

Mas isso não significa que os ciclos monetários foram abolidos.

Nesse sentido, quero deixar claro que o foco da política monetária tem sido e continuará a ser exclusivamente a manutenção da estabilidade de preços.

A propósito, o Banco Central tem comunicado à sociedade sua preocupação com o nível e a resistência da inflação nos últimos meses.

A maior dispersão recentemente observada de aumentos de preços ao consumidor, pressões sazonais e pressões localizadas, entre outros fatores, contribuem para esse quadro de maior resistência.

Não obstante, dadas às incertezas remanescentes o Banco Central tem atuado com cautela.

Não resta dúvida, porém, de que a comunicação é parte importante do processo de condução da política monetária. O ajuste na mensagem do Banco Central, por si só, já determinou mudança relevante nas condições financeiras de modo geral.

Nesse sentido, ações foram tomadas, mas é plausível afirmar que outras poderão ser necessárias. Para decidir sobre isso, o Banco Central irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico.

Senhoras e senhores

O Brasil e a França apresentam importantes laços históricos, nos segmentos comercial, financeiro, social e cultural.

Nos últimos anos esforços foram empenhados para intensificar esse intercâmbio.

No âmbito econômico-financeiro progressos foram observados. Um bom exemplo é o desempenho das nossas relações comerciais, cuja corrente de comércio praticamente dobrou nos últimos sete anos. E com o aumento do fluxo comercial, o intercâmbio nos demais segmentos provavelmente também se intensificou.

Mas acredito que ainda há muito espaço para ampliarmos nossas relações. E tenho convicção de que a Câmara de Comércio França-Brasil tem um papel crucial para que isso se materialize.

Nesse sentido, encerro o meu pronunciamento de hoje agradecendo mais uma vez à Câmara de Comércio França-Brasil, em especial ao seu Presidente Louis Bazire, pela oportunidade de participar desse evento com esse seleto grupo de empresários.

Muito obrigado e boa tarde a todos.

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Muito bom texto. Marquei em negrito as passagens que achei mais relevantes para o tema inflação.

O QUE EU [ GALLO]entendi do  texto:

  • o desconforto do BC com a inflação atual, não só quanto ao nível, mas também quanto à dispersão;
  • o BC não está seguro do vigor e da sustentabilidade da retomada da economia aqui;
  • o BC está preferindo usar palavras e não ações para combater a inflação por cautela;
  • contudo ele sabe que há risco de perda de credibilidade o que o força a repetir o mantra de compromisso com o combate à inflação;
  • nesta linha ele ameaça com uma possível alta de juros, se  a inflação não moderar ou se as expectativas subirem ainda mais;
  • BC menciona os pacotes do governo para ampliação do investimento, porém nada fala sobre os pacotes de desonerações que visam apenas a redução de preços, ou seja, ele sabe que este tipo de medida é inócua no combate a inflação no médio prazo.

Respeitosamente, aqui ficam minhas perguntas:

1.a luz disto tudo, quando teremos convicção que a retomada da economia é sólida o suficiente?

2.quando isto ocorrer não será tarde, o que irá demandar um ciclo bem mais forte de alta dos juros?

3.os remédios paliativos, como as desonerações tributárias, não agravam ainda mais a situação ao represar alguns preços e criar mais demanda lá na frente, além de pouco contribuir  para a redução das expectativas de inflação de médio prazo?

Veja abaixo o que está acontecendo com a inflação ( gráfico verde) e seus componentes. Veja que os preços livres estão andando a 8% a.a. É muito.

O outro lado desta história  de inflação e emprego está no gráfico abaixo:

O gráfico vermelho mostra  quanto a taxa de desemprego média dos últimos 12 meses está acima ou abaixo de sua tendencia de queda desde 2002. O gráfico azul mostra o quanto a inflação dos últimos 12 meses está acima ou abaixo de sua média desde 2002.

Notamos 3 picos no desemprego acima de sua tendencia dos últimos 10 anos:

  • meados de 2004
  • meados de 2007
  • início de 2010

Notamos que tais picos do desemprego coincidiram com os vales da inflação ( gráfico azul ).

Agora, pela primeira vez desde 2002, temos a inflação ( gráfico azul) subindo enquanto o desemprego, teoricamente, estaria andando acima de sua tendência.

Para tentar explicar este paradoxo , veja o gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de desemprego desde 2002 ( azul) e sua tendencia ( vermelho):

Fica evidente as oscilações da taxa de desemprego ao redor de sua reta de tendência, como mencionei acima.  As vezes o desemprego está abaixo do potencial de emprego da economia ( linha vermelha). Nestes casos, há uma falta de oferta de mão de obra.

Contudo, eu tomei a liberdade poética de calcular uma nova curva de tendencia ( verde claro) que reflete a evolução dos ( LOG) dados de desemprego de 2012 para cá apenas. Vamos assumir por um momento que esta seja a nova tendência de queda do desemprego. Ou seja, pode ser que a velocidade de queda do desemprego estrutural esteja caindo na margem, na medida em que surgem gargalos na oferta de mão de obra em vários setores da economia.

Isto explicaria muitas coisas:

- a persistência inflacionária mencionada pelo BC do B;

- os aumentos reais de salário concedidos a vários setores do mercado de trabalho, apesar da fraqueza da economia;

- persistência dos níveis de emprego apesar do esfriamento da economia ( a chamada “estocagem de mão de obra”)

- estagnação da produtividade do trabalho já apontada aqui em alguns posts.

Com isto, podemos ver no mesmo gráfico que a linha azul do desemprego continuaria andando abaixo de sua nova tendência, ou seja, estaríamos com o emprego acima do potencial de oferta de recursos humanos no mercado de trabalho desde meados de 2010.

Se isto for verdade, o gráfico que mostra o comportamento do desemprego e da inflação ficaria assim:

Ou seja, ciclicamente falando, se as minhas hipóteses estiverem corretas, estaríamos com um nível muito baixo de desemprego. Eu sei que isto soa horroroso, porém existe uma capacidade disponível de capital humano na economia , assim como há uma capacidade disponível de capital físico. O fato de termos gente trabalhando em empregos pouco remunerados não quer dizer que falta emprego. Quer dizer apenas que os empresários não conseguem pagar mais a seus funcionários e ainda se manterem rentáveis.

Existe um nível mínimo de desemprego na economia que é função da rotatividade normal entre empregos e dos atritos existentes no mercado de trabalho. Uma vez atingido tal nível fica difícil expandir a economia sem causar fortes aumentos de salários.  Para contornar tal situação é preciso que pessoas que estejam fora do mercado de trabalho voltem a procurar emprego aumentando assim oferta de mão de obra. Outra forma de se contornar tais restrições de oferta de mão de obra é através do aumento da qualificação da mão de obra. Na medida em que os trabalhadores ficam mais qualificados, eles produzem mais, o que permite um aumento da produção com o mesmo contingente de pessoas empregadas.  Também é possível  aumentar a intensidade de capital na economia, ou seja, aumentar o investimento em máquinas e em tecnologia, automatizando algumas atividades hoje desempenhadas por pessoas, liberando recursos humanos para atividades de maior qualificação e melhor remuneradas.

Enfim tudo isto é especulação. Só saberemos se de fato chegamos ao limite de extração de capital humano da população economicamente ativa daqui a alguns anos.

Agora, a Presidenta tem uma visão completamente diferente do problema:

DILMA: RECEITUÁRIO DE DERRUBAR CRESCIMENTO PARA COMBATER A INFLAÇÃO ESTÁ DATADO

DILMA: NÃO ACHAMOS QUE INFLAÇÃO ESTÁ CONTROLADA

DILMA: ESTAMOS VENDO PROGRESSIVO REPASSE AOS PREÇOS

DILMA: NÃO CONCORDO COM MEDIDAS QUE REDUZEM CRESCIMENTO

DILMA SOBRE PRESSÃO INFLACIONÁRIA: NÃO COSTUMO COMENTAR, DEIXO PARA MINISTRO DA FAZENDA

DILMA: AUMENTO DE INFLAÇÃO NO BRASIL FOI CHOQUE EXTERNO

Bom, eu não consigo entender a que choque externo ela se refere, pois:

a. inflação na China em Julho de 2011 estava em 6% e hoje está em 3% aa.

b. a inflação core nos EUA estava 2% aa no começo do ano passado e está hoje em 1,3% aa.

c. a inflação core na Europa estava 1,6% aano ano passado e está em 1,3% aa agora.

d. os preços dos bens comercializáveis no exteriores estão subindo menos do que os preços de serviços e preços livres no Brasil, como podemos no gráfico abaixo:

e. apesar das medidas tomadas a inflação está espalhada como há muito não se via, como vemos no gráfico abaixo:

Ou seja, não dá apara afirmar que inflação está alta aqui por que algo lá fora está puxando os preços para cima… E além disto, os argumentos do BC do B para não subir os juros se centram nos possíveis efeitos deflacionários de um possível choque externo…ou seja, o BC também não concorda com isto…  ele de fato pensa que o risco é exatamente o contrário…

Se a Presidenta de fato acredita nisto e não concorda com “medidas que reduzem crescimento”, como uma elevação dos juros, o BC está de fato numa situação bem difícil…. [ ou de fato a Presidenta percebe que a atual recuperação econômica é frágil?]

Porém como eu ainda acredito nas projeções do BC para a atividade econômica, creio que o gráfico vermelho irá reverter sua tendência de alta nos próximos meses, e o desemprego irá voltar a cair….

Aí ficará claro que era preciso subir o juro….

Enfim, não seria o caso do BC subir o juro 50 bp já na próxima reunião em Abril e  mais 50 bp em Maio? Que tal um tiro mais forte e pesado na frente para evitar uma campanha longa e exaustiva? Não seria o caso de explicar os motivos para  a Presidenta e assumir o custo visando a manutenção de uma credibilidade construída ao longo dos últimos 10 anos?

Momentos difíceis ….

PS: Em homenagem aos franceses segue abaixo um trecho de  La Marseillaise, que no dia 25 de abril,ou seja, nove dias após o COPOM,completa 221 anos.

Que nos sirva de inspiração:

Allons enfants de la Patrie, Avante, filhos da Pátria,
Le jour de gloire est arrivé! O dia da Glória chegou!
Contre nous de la tyrannie, Contra nós da tirania,
L’étendard sanglant est levé, (bis) O estandarte ensanguentado se ergueu.(bis)
Entendez-vous dans les campagnes Ouvis nos campos
Mugir ces féroces soldats? Rugir esses ferozes soldados?
Ils viennent jusque dans vos bras Vêm eles até os vossos braços
Égorger vos fils, vos compagnes! Degolar vossos filhos, vossas mulheres!
Aux armes, citoyens, Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons, Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons! Marchemos, marchemos!
Qu’un sang impur Que um sangue impuro
Abreunos sillons!

http://letras.mus.br/edith-piaf/541362/

Banhe o nosso solo!


Autor: Ricardo Gallo Tags:

sexta-feira, 22 de março de 2013 Inflação, Juros no Brasil | 10:50

Inflação se espalha rápido

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O gráfico abaixo mostra a evolução do índice de difusão do IPCA desde 1999. Este número mostra o porcentual dos itens que compõem o índice de inflação que estão subindo de preços. Ou seja, ele dá uma boa indicação se o processo inflacionário está espalhado ou está restrito a alguns itens apenas:

Vemos(em vermelho) que a inflação não esteve assim tão espalhada desde 2003....

Feio.

Haja desoneração…..

Autor: Ricardo Gallo Tags:

quinta-feira, 14 de março de 2013 Câmbio, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 12:46

A política da âncora “isentomonetária”

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Sou de uma geração que sentiu na pele o sofrimento de viver em uma hiperinflação. Preços que subiam em média 2 ou 3% ao dia. Salários eram reajustados mensalmente com base na inflação passada, mas que não conseguiam acompanhar a aceleração dos preços. Imaginar hoje em dia uma situação destas é como criar uma experiência surreal, algo muito fora do alcance das mentes das novas gerações, que sempre viveram numa economia onde tais fatos não povoam nem os mais tenebrosos pesadelos. Estamos hoje muito, mas muito longe disto. Ainda bem.

Eu também me recordo dos inúmeros esforços heroicos e criativos tentados ao longo de vários anos visando combater a inflação cronica que nos assombrava:

. congelamento de preços

. prisão de especuladores

. confiscos monetários

. ancoras cambiais

. mudanças de moeda

. contingenciamento na oferta de crédito

. depósitos compulsórios sobre bancos

e por a foi…

Em todas estas tentativas  tinha-se como objetivo reduzir a inflação, porém minimizando o custo social que é natural em tais batalhas. Um objetivo bastante justo.

Porém, na  medida em que o custo social de se combater a inflação subia, o governo perdia sustentação política e afrouxava seus esforços,  o que acabava frustrando a tentativa de debelar a dita, que voltava cada vez mais forte depois de cada fracasso.

A coisa foi assim até que,  através de um sequenciamento correto de medidas tomadas durante vários anos e por três presidentes de diferentes partidos, a inflação foi finalmente domada  e estabilizada. Foi um processo longo e  doloroso, porém os resultados estão aí. São mais de 15 anos com uma inflação civilizada.

Aprendemos muito com isto tudo e este conhecimento é um patrimônio de nossa sociedade que precisa ser usado e resgatado sempre que necessário.

Pois bem, eu acho que  é momento de pelo menos refletir um pouco sobre algumas ações do governo atual no que diz respeito ao combate à inflação.

O governo Dilma decidiu adotar uma política mais intervencionista visando reduzir os preços de alguns produtos e serviços que pesam bastante no IPCA através de medidas administrativas e tributárias. Tais medidas visam reduzir o custo dos produtos consumidos  e produzidos no país, o que é algo louvável. Este tipo de medidas se tornou mais frequente assim que a inflação tomou um trajetória ascendente no final de 2012. O governo atua visando reduzir a aceleração dos índices de preços. Com isto a inflação medida pelo IBGE ficaria contida o que retardaria ou até mesmo eliminaria a necessidade de uma elevação dos juros pelo BC do B.

Até aqui tudo isto faz enorme sentido. Juros maiores geram um custo maior na rolagem da dívida pública e uma redução na taxa de investimentos, tão necessários neste momento. Como um amigo me diz, é um objetivo bacana, porém a questão reside em sua viabilidade no mundo real…

Eu apelidei está política de isentomonetária, já que nesta política:

a. o governo aumenta seu déficit, reduzindo a arrecadação de impostos sem uma contrapartida de redução de despesas;

b.o governo espera que tais desonerações sejam repassadas para os preços praticados, implicando em queda temporária dos índices de inflação;

c. aí ele espera que tais quedas temporárias reduzam as expectativas com relação a inflação futura, ajudando na convergência da dita para a meta, ou melhor, evitando que tal inflação fique acima do que foi em 2012, que parece ser a novo objetivo do BC de acordo com entrevista do Presidente do BC do B.

Enfim, é uma maneria bastante criativa de atuar no canal das expectativas, pois na forma tradicional de política monetária praticada há anos pelos inflation targeters, como menciona o Mr Bernanke no texto http://www.federalreserve.gov/Boarddocs/Speeches/2003/20030325/default.htm , utiliza-se  mudanças nas taxas básicas de juros para ajustar as expectativas de inflação e com isto induzir os agentes econômicos a praticar preços condizentes com as metas de inflação do BC. A ideia é simples: se a inflação dá sinais de baixa, o BC antecipa tais movimentos e reduz os juros, sinalizando que não pretende tolerar uma inflação abaixo do target por muito tempo, e vice versa. Com o tempo,  o BC ganha credibilidade e são precisos movimentos cada vez menores das taxas de juros para trazer as expectativas e a inflação corrente para dentro do alvo, reduzindo assim o impacto desta flutuação dos juros na atividade econômica. Foi adotando esta visão que fomos capazes de manter a inflação estável nos últimos 12 anos.

Parece que o governo está inovando mais uma vez neste front adotando as “ancoras desonerantes” para os preços.

Não creio que isto tenha sido testado com sucesso em nenhum lugar do mundo,  em particular quando:

a. há um quadro clássico de falta de oferta na economia e não de falta de demanda. O BC reconhece isto na Ata de sua última reunião;

b. há um quadro de aceleração forte nas expectativas de inflação e da inflação prevista nos modelos do próprio BC do B, tanto para 2013, como também para 2014, quando os efeitos diretos dos choque positivos de preço desonerados acabam;

c. o BC trabalha com uma recuperação forte da economia para segundo semestre, o que traz mais demanda e, portanto, uma maior probabilidade de que tais desonerações não sejam repassadas aos preços praticado, como mostra a tal da lei da procura e da oferta;

d. a suposta economia gerada pela redução dos gastos com os itens desonerados não irá ser poupada necessariamente, algo que reduziria a demanda agregada. Tal economia de gastos pode liberar espaço no orçamento das famílias para gastos adicionais em  outros itens, como serviços, cujos preços estão disparando e pressionando o mercado de trabalho. O próprio BC reconhece em sua ata no parágrafo 28 que a inflação está espalhada em vários itens. E o próprio BC atesta em sua ata que o mercado de trabalho está com pouca ociosidade;

e.  há sinais que a utilização da capacidade ociosa na industria esteja subindo ( gráfico abaixo marcado em vermelho)  e entrando em níveis onde há uma tendencia de recuperação de margens por parte dos empresários, apesar do BC não reconhecer o fato mostrado no gráfico abaixo:

f. o próprio BC afirma em sua ata no importante parágrafo 27 que precisa do dólar baixo ( os tais dos ativos reais e financeiros) pois ele ajuda a segurar a inflação. OU seja, nem o BC acredita na ancora desonerante..

g. há uma questão de consistência aqui: quando o preço de alimentos sobe por que um fator externo anormal e não recorrente faz com que a inflação suba  ( devido a secas ou chuvas excessivas ), o BC tende a ignorar a alta e trata-la como choque temporário, certo? Por que não tratar tais desonerações da mesma forma, uma vez que não dá para ficar desonerando tudo todos os anos sem cortar gasto público??

Enfim, acho que o experimento isentomonetário apresenta um elevado risco a esta altura. Elevadíssimo.

Como não sou economista, apenas observador, peço ajuda aos Universitários, como naquele programa de TV.

Autor: Ricardo Gallo Tags:

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Juros no Brasil, Politica Economica | 14:09

A retórica monetária do BC do B

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Recebi o texto abaixo com uma excelente análise do que podemos esperar da próxima reunião do COPOM, texto preparado pelo pessoal do Banco Original:

Uma opinião sobre a provável decisão do Copom na semana que vem seria facilitada pelo comunicado das últimas três decisões, segundo o qual a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. Como se entende por período prolongado mais que quatro meses e meio, a afirmação levaria a crer na manutenção da taxa e na repetição do comunicado pela quarta vez.

Ocorre que o balanço de riscos para a inflação alterou-se significativamente, ao ponto do comunicado de janeiro reconhecer que o balanço apresentou piora no curto prazo e a comunicação posterior, por meio de discursos e entrevistas, sinalizar que a inflação continuará pressionada por todo o primeiro semestre.

A ata da última reunião em janeiro também promoveu outra mudança ao afirmar que a recuperação menos intensa da atividade se deve essencialmente a limitações no campo da oferta e, por essa razão, não podem ser endereçadas por mais estímulos da política monetária à demanda.

Os últimos dias viram também uma sinalização forte, quando o presidente do Banco Central disse – provavelmente pela primeira vez desde o início dos cortes em 2011, que o seu objetivo é a inflação e não o crescimento.

Todo esse esforço para alterar o discurso aponta, portanto, para a manutenção da taxa Selic em 7,25%, porém acompanhada de algum ajuste no comunicado da decisão. Um ajuste óbvio seria reconhecer que a piora da inflação irá além do curto prazo, o que já foi feito em declarações. Porém, o ajuste mais importante seria retirar a menção ao período prolongado, ou condicionar a estratégia da estabilidade do juro à evolução da inflação.

Uma razão para esse ajuste é a constatação que a manutenção do juro por um período prolongado deixará de ser a estratégia mais adequada caso a inflação suba muito além do previsto. Uma pista para a possibilidade de alguma condicionalidade da estratégia ao cenário é a (falta de) reação à alta contínua das taxas de juros de 1 e 2 anos, pois os membros do Copom continuaram afirmando ao longo de fevereiro a sua preocupação com a inflação, o que mostra conforto com a alta das taxas de juros mais relevantes para a política monetária e uma provável disposição de sustentá-las mais elevadas através do comunicado da decisão semana que vem.

A magnitude do ajuste no comunicado ao ponto de apenas abrir novas possibilidades de política, além da atual estabilidade prolongada, ou chegar ao ponto de sinalizar uma alteração mais iminente de política, encontra-se numa zona de difícil avaliação.

O motivo principal é a necessidade de ajustar tão rapidamente uma estratégia pensada para um período prolongado, exatamente num momento tão esperado pelo governo como um todo.

Como se sabe, o Banco Central desistiu de estabilizar a inflação em agosto de 2011 quando realizou um corte surpresa e passou a destacar o risco de desaceleração do crescimento. Os membros do Copom também aceleraram o ritmo de corte e estenderam o ciclo até outubro  passado, sempre na justificativa que o baixo crescimento da economia global iria ter impactos sobre a inflação brasileira, assim como as medidas de redução de impostos e preços específicos iriam contribuir para a convergência da inflação de volta a meta.

O principal evento da estratégia para administrar a inflação se dá justamente agora. A redução de 18% na energia elétrica para o consumidor desconta diretamente 0,6 ponto percentual da inflação, ao mesmo tempo em que a redução de até 32% na energia elétrica para uso industrial, associada à transferência dos encargos sociais sobre a folha para o faturamento, cria a expectativa (especialmente para o governo) que a redução dos custos industriais terá impactos deflacionários para os preços industrializados.

A necessidade de tempo para a observação dos possíveis efeitos indiretos da queda da energia sugere que o comunicado pode apenas aumentar a flexibilidade para decisões futuras, uma forma de ganhar tempo e manter a expectativa de elevação da taxa Selic embutida na curva futura, o que cria um ligeiro aperto monetário enquanto se observa os preços (e o ritmo de recuperação do crescimento).

O aumento da flexibilidade é possível mesmo com a manutenção da sinalização que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada. Basta que esta mensagem seja combinada a uma alteração que sinalize que o Banco Central está acompanhando a evolução da inflação.

Esta linguagem, no passado, permitiu sinalizar o período de manutenção e evoluir do acompanhamento para o monitoramento da inflação quando se tornou necessário sinalizar que a mudança das condições monetárias é iminente. Esta simples mudança já é suficiente para mostrar uma alteração da estratégia da política monetária, pois o período prolongado vai se tornar condicionado à evolução da inflação (e ao ritmo de atividade).

Outro aspecto que sugere que o Banco Central ainda prefere ganhar tempo é a insistência com que a comunicação por declarações públicas afirma que a inflação recua no segundo semestre. A insistência e o prazo mostram exatamente o desejo e a necessidade de tempo para se avaliar o efeito deflacionário das medidas.

A combinação desta comunicação com a necessidade de tempo para se avaliar os efeitos da redução da energia elétrica (e da alta da gasolina) aponta para uma alteração marginal no comunicado da manutenção da taxa Selic em 7,25%, no qual a mensagem do período prolongado apareceria junto com o acompanhamento do cenário. Este será o primeiro passo até o momento em que a taxa Selic será novamente elevada para um nível, no mínimo, semelhante ao neutro.

Sem a pretensão de acertar o texto do anúncio da decisão, uma combinação de textos passados mostra abaixo a possível alteração do comunicado na semana que vem. Caso a opção seja pela retirada completa do período prolongado e a adoção somente doacompanhamento do cenário para definir os próximos passos, neste caso, estaremos muito próximos de uma alta de juros.

Último Comunicado

16/Jan/2013: O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 7,25% a.a., sem viés. Considerando o balanço de riscos para a inflação, que apresentou piora no curto prazo, a recuperação da atividade doméstica, menos intensa do que o esperado, e a complexidade que ainda envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta.

Possível alteração

6/Março/2013: ” O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 7,25% a.a., sem viés.   Considerando o balanço de riscos para a inflação, a recuperação da atividade doméstica, e a complexidade que ainda envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.

Reuniões seguintes do Copom:     17/abril;  29/maio;  10/julho;  28/agosto;  9/outubro;  27/novembro.

Marcelo Petersen Cypriano

Pitaco do Gallo:

Concordo com a análise no geral.  Faz todo sentido.

Além disto acho que BC está bem inseguro com relação a velocidade  e a sustentabilidade da retomada da economia.

Veja nos gráficos abaixo a razão:

O gráfico acima mostra a evolução do  ( LOG) PIB mensal dessazonalizado , estimado pelo time de economistas do Banco Itau, desde 2004.  Destaquei os 3 últimos ciclos de alta. Em verde escuro a aceleração entre 2004 e 2008, que foi interrompida pela crise nos EUA. Em verde claro temos a retomada desde 2009 até 2011, que, como vemos na reta verde claro, teve uma aceleração similar à ocorrida no ciclo anterior ( reta verde escuro). Porém vemos que o crescimento desde o início de 2011 vem com intensidade menor ( reta amarela) e menos vigor.

O mesmo pode ser visto no gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de crescimento das vendas no varejo e a sua média móvel de 6 meses em vermelho:

Notamos que a taxa de crescimento tem mostrado uma certa tendência de queda ( em amarelo), embora ainda esteja andando acima da taxa média do período ( reta fina horizontal no meio do gráfico) mas abaixo dos picos de 2010 e 2008.

Enfim é cedo para afirmar que a retomada da atividade esteja perdendo gás na margem, porém também é cedo para afirmar que ela será vigorosa e sustentável.

Portanto dá para entender o medo do BC em subir os juros…. imagina abortar a retomada justamente agora?

Ps: gostaria de destacar uma coisa interessante levantada pelo Marcelo: pode ser que o BC do B esteja tentando subir o juro na retórica apenas, ou seja, ao adotar um discurso mais agressivo no combate a inflação recentemente, ele causou uma elevação dos juros de 2 anos, que saíram de 7,8% a.a. em meados de Janeiro ( marcado em verde) , para cerca de de 8,4% a.a. ( em amarelo), como vemos no gráfico abaixo:

De fato, falar custa menos politicamente do que subir os juros, pois o mercado acaba fazendo o serviço sujo por algum tempo. Porém o mesmo mercado pode vir a derrubar os juros caso perceba que o BC do B não pretenda de fato elevar juros…. Ou seja, não dá para terceirizar a execução da política monetária por muito tempo, pois esta estratégia de retórica tem prazo de validade. Torçamos para que até lá a inflação tenha caído…

Autor: Ricardo Gallo Tags:

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