Emprego e inadimplência: um diminuindo, o outro aparecendo | Ricardo Gallo

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quarta-feira, 20 de junho de 2012 Bancos, Brasil, Crise global, Politica Economica, bizarro | 17:30

Emprego e inadimplência: um diminuindo, o outro aparecendo

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Achei que poderia ser interessante pesquisar a relação entre emprego e inadimplência nos últimos 10 anos. Minha vida ficou difícil, pois como o desemprego medido pelo IBGE só caiu neste período, fica fácil chegar a conclusão óbvia de que se o desemprego subir, inadimplência também subirá. Porém queria ir mais longe.

Decidi assim analisar o comportamento do emprego formal e da taxa de inadimplência acima de 90 dias de pessoas físicas nos empréstimos bancários a taxas livres (série 7938 do site de séries temporais do BC).  Calculei a média de tal inadimplência desde Jan 2004, e avaliei o  quanto a média móvel de tal inadimplência nos últimos 12 meses se desviava, para cima ou para baixo, desta média histórica desde então. Coloquei a evolução de tal desvio desde 2005 num gráfico ( vermelho, que segue abaixo ). Quando tal gráfico está acima de zero indica que a inadimplência está acima de sua média histórica, e vice versa.

Do mesmo site, peguei a série 1586, que mostra a evolução do nível do emprego FORMAL DESDE 2004, e apurei a média móvel mensal dos últimos 12 meses do emprego formal desde então, para eliminar os efeitos sazonais.  Calculei a partir disto a tendência de crescimento do nível do emprego médio dos últimos 12 meses ( filtro HP) neste período. Com isto consegui avaliar quanto o nível do emprego formal dos últimos 12 meses estava abaixo ou acima da sua tendência. Este desvio do nível de emprego formal de sua tendência está plotado no gráfico verde claro também abaixo desde 2005. Quando o gráfico está abaixo de zero indica que nível de emprego formal está abaixo da sua tendência , e vice versa.

Vemos que há ciclos nos dois gráficos, e que os picos do nível do emprego sobre sua tendência ( gráfico verde)  coincidem com os vales dos desvios da inadimplência de sua média histórica ( vermelho).

Por exemplo,  com a seta amarela marquei o pico do emprego de Julho 2005 e o vale da inadimplência na mesma época.

Em Fevereiro de 2007 o emprego estava abaixo de sua tendência , o que elevou a inadimplência, como marquei com as setas lilás.

Em 2008, apesar do elevado nível do emprego ( seta azul no topo), vimos que a inadimplência começou a subir em Outubro, interrompendo sua tendência de queda que ocorria desde fevereiro de 2007. Isto se deve ao impacto da crise financeira nos EUA. Os bancos reduziram sua oferta de crédito por causa da crise, o que dificultou a rolagem das dívidas por parte das pessoas físicas mais endividadas. O consumo caiu por escassez de  crédito, enfraquecendo a economia, com a consequente queda no emprego, que teve seu vale no final de 2009 ( seta verde claro), exatamente quando inadimplência bateu seu pico.

A retomada da economia em 2010 levou o emprego a seu pico em Junho de 2011 ( seta marrom) , ao mesmo tempo que a inadimplência chegava a  outro vale.

De lá para cá o emprego formal se desacelerou ( seta preta) , e a inadimplência voltou a subir da mesma forma que nos ciclos anteriores ( seta cinza).

Agora vejam no gráfico azul claro abaixo o comportamento do desvio da atividade econômica calculada pelo BC ( média móveldos últimos 12 meses da série 17632 do BC)  vis a vis a sua tendência histórica. Quando tal gráfico fica acima de zero significa que a atividade nos últimos 12 meses está acima da sua tendência histórica. Coloquei no mesmo gráfico o desvio do nível de emprego nos últimos 12 meses vis a vis sua tendência histórica (gráfico em vermelho):

Novamente não há surpresa aqui: quando a linha azul está acima de zero, isto é,  quando o nível de atividade está acima de sua tendência histórica, o nível do emprego sobe acima de sua tendência com uma defasagem de alguns meses apenas.

Marquei em preto os últimos dados. A atividade bateu seu último pico  acima da  sua tendência histórica em março de 2011, enquanto o nível de emprego formal bateu seu último pico de desvio de sua tendência histórica em agosto último.

De lá para cá vemos que atividade se desacelerou bastante e está andando abaixo de sua tendência . Se o passado se repetir, teremos uma queda continuada na velocidade de geração de novos empregos, o que deve levar o gráfico vermelho para  região negativa em breve.  Este cenário, como mostrei mais acima,  pode levar a uma elevação da inadimplência.

O que tento mostrar é que, embora o desemprego esteja baixo e estejamos tendo uma geração de novos empregos formais todos os meses, o que importaria para o comportamento da inadimplência é se tal nível de emprego está acima ou abaixo da sua tendência histórica. Sei que é uma hipótese agressiva e que não a testei com o rigor necessário ( deixo este exercício para os econometristas de plantão). Contudo, os gráficos indicam que tal hipótese parece funcionar.

Logo, eu me atrevo a dizer que ainda não chegamos ao vale deste ciclo negativo. E que as coisas ainda podem piorar no que diz respeito a emprego e, portanto, para a  inadimplência.

O gráfico abaixo mostra o desvio % da tendência histórica da média dos últimos 12 meses do número total de anotações de dívidas em atraso de consumidores no Serasa , desde 2004:

Nota-se que a inadimplência desviou-se bastante de sua tendência histórica recentemente ( em vermelho), e não dá sinais que vá arrefecer.

As recentes medidas do governo visam reverter este quadro, impedindo uma piora do emprego, algo que poderia levar a uma inadimplência maior, com mais esfriamento da atividade.

Vamos torcer para que:

  • o dólar mais alto
  • os juros básicos menores e caindo
  • a queda nos spreads bancários
  • a maior oferta de recursos pelo BNDES
  • a redução de alguns impostos para produção

façam efeito logo e impeçam a piora do quadro, pois  ele é preocupante, como disse a Presidenta.

E olha que Grécia nem saiu do Euro…

Autor: Ricardo Gallo Tags:

9 comentários | Comentar

  1. 9 Ricardo Ferreira 05/07/2012 20:21

    Excelente análise, irretocável a conjugação dos gráficos e da argumentação.
    Se a inadimplência sobe com o emprego em baixa, imagine o que vai acontecer quando o desemprego vier.

    Responder
    • Ricardo Gallo 08/07/2012 0:19

      Obrigado. Torco para que emprego nao piore. Torco mesmo.

  2. 8 Eduardo de Faria Carvalho 22/06/2012 12:54

    Grande Gallo, lembra de mim, o ex economista-chefe do Safra? Grande abraço para você.
    Muito bom seu texto. Essa é uma grande preocupação minha, pois se ocorrer uma inversão na tendência de emprego – e renda, consequentemente – vamos começar a tremer com os balanços dos bancos, principalmente os públicos. Talvez sejamos chamados para pagar essa conta.
    Ademais, depois de um crise nababesca gerada por excesso de endividamento nas nações desenvolvidas, fico arrepiado vendo nossas autoridades, o Mantega particularmente, conclamando o povo a se endividar ainda mais para que a economia se recupere.
    Espero que seja tudo um sonho.

    Um grande abraço para vc

    Responder
    • Ricardo Gallo 22/06/2012 15:02

      nao soh lembro, como respeito e muito!!!!vem me visitar algum dia destes!!!

      otimos pontos….

  3. 7 Marconi 22/06/2012 9:15

    Legal os gráficos!

    Em relação a inadimplência, uma dívida de 1 real e outra de 1 milhão entram no gráfico da mesma forma? Porque seria interessante que tivesse mais uma linha no gráfico, indicando também o volume total da dívidas.

    Responder
    • Ricardo Gallo 22/06/2012 15:04

      sim sao os eventos de credito. porem como se ttrata de pessoa fisica, podemos assumir que sao dividas de centenas de reais.

  4. 6 José Humberto Alves dos Santos 21/06/2012 18:23

    Boa noite Ricardo
    Novamente leio seu post e vejo-o impregnado de inconformismo.
    Ora, o nosso desemprego sempre esteve entre 10 e 15% “naqueles tempos”
    Hoje estamos abaixo de 6% e voce sugere que só está assim porque as pessoas desistiram de procurar emprego.
    Não sei tbém porque voce está preocupado c/ a inadimplência: ela já está coberta pelas altas taxas de juros que ainda permeiam o nosso mercado.
    Existem milhares de exemplos de acordos entre bancos e clientes em atraso que fazem acordo por 10, 20 ou 30% do débito total.
    Voce, que trabalhou em banco sabe que um financiamento a tais taxas de juros astronomicas tem o retorno do capital quando o cliente paga de 30 a 40% do total das parcelas.
    Agora, o que existe, é uma permissividade por parte dos bancos, que aumentam suas exposições sobre aqueles incautos (os antigos sem-conta bancária)
    Considero que qualquer distorção está muito mais ligada a irresponsabilidade dos concedentes de crédito e não dos tomadores, que mais uma vez estão sendo ludibriados pelos bem informados.
    Devagar com andor
    E, finalmente….voce é palmeirense? xiiiiiiiii
    Nós estamos preocupados com os torneios internacionais, e que venha o BOCA

    Responder
    • Ricardo Gallo 22/06/2012 15:11

      bem, deixe-me explicar ao nobre colega que irah fazer sua estreia numa final de torneio internacional:

      a. em nenhum momento eu acusei os tomadores ou emprestadores de irresponsabilidade;
      b. nao estou inconformado com nada: simplesmente eu mostrei uma relacao historica entre emprego e inadimplencia;
      c. quanto as perdas estarem cobertas, ja postei algo sobre lucro de bancos que vale a sua leitura pois explica a dinamica de rentabilidade dos bancos brasileiros;
      d. minha experiencia diz que se inadimplencia aumenta oferta de credito cai, o que esfria economia.

      companheiro, nao leia criticas ao governo nestes meus posts…mostro uma realidade do dia a dia das pessoas…..

  5. 5 Pablo 21/06/2012 17:24

    Ricardo;

    Tem um fator importante a ser considerado: A qualidade do Emprego.
    Em outras palavras vemos o rendimento médio caindo -0,1% em relação à abril.(http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2163&id_pagina=1).

    Não estariamos trocando empregos na industria(mais qualificado = salário maior) por empregos no setor de comércio/serviços(menos qualificado = salário menor)?

    Responder
    • Ricardo Gallo 21/06/2012 17:34

      sim. porem produtividade na industria nao cresce ha 10 anos…. e em servicos sobe….

  6. 4 Felipe 21/06/2012 16:45

    Qual a sua sugestão para nos protegermos ? ouro? dólar ?

    Responder
    • Ricardo Gallo 21/06/2012 16:48

      proteger da inadimplencia? venda a vista.

  7. 3 Ricardo 21/06/2012 15:52

    Gallo, belo post.

    A inadimplência está alta mesmo. O brasileiro está endividado . Se o emprego cair um pouco, aumentando-se a inadimplência, como os bancos irão se comportar?
    Vc acha que terá efeito no valor dos aluguéis e preços de imóveis? Motivo: os aluguéis dependem da renda do povo, teremos entrada de novos imóveis, principalmente de investidores, será que não teremos queda?

    Boa sorte ao seu “Parmeiras” contra o Grêmio.

    Responder
    • Ricardo Gallo 21/06/2012 16:16

      a. vao cortar o credito ainda mais. eh assim… banco eh prociclico sempre…
      b. sim…. aluguel deve cair. preco de imovel? depende onde….

      VERDAO!!!!!!!!!!!!!!! é hje…. vamos ver se vai….

  8. 2 Borges 21/06/2012 14:36

    Essse novo dado do desemprego de maio de 5,8 será uma um desvio ou o pior já passou?

    Responder
    • Ricardo Gallo 21/06/2012 14:59

      de fato os dados de desemprego sao impressionantes. porisso que eu preferi usar emprego formal e sua tendencia de crescimento para explicar relacaoi emprego vs inadimplencia. se alguem desiste de procurar em[prego, desemprego cai, sabia?

  9. 1 Cahlsilva 20/06/2012 20:00

    …e você se regozija com isso, não é mesmo?

    Responder
    • Ricardo Gallo 21/06/2012 10:55

      ? nao entendi? voce acha que eu sinto prazer em reportar um problema? ou voce espera que eu venha aqui e finja que nada disto esteja ocorrendo? ou eh melhor ignorar tudo isto e continuar a se endividar?

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