O tamanho do desafio fiscal global
Temos acompanhado as discussões sobre os ajustes fiscais na periferia da Europa e nos EUA e os problemas enfrentados pelos políticos daquelas regiões em determinar a melhor forma de reduzir o endividamento público por lá. Todos já chegaram ao consenso que é preciso fazer algo para conter o aumento da dívida pública e para reduzir os déficits públicos. O problema é como fazê-lo.
Há quatro formas de se atingir tais objetivos:
A. aumentar impostos
B. reduzir gastos públicos
C. vender ativos em privatizações
D. acelerar o crescimento econômico
Todos obviamente preferem o caminho d, porém ele nem sempre é possível, pois isto depende de outras condições nem sempre presentes: crescimento da força de trabalho, aumento da produtividade geral da economia, elevação da taxa de investimento, juros baixos, taxa de câmbio, demanda externa, etc.
Aí a turma fala: então privatiza. Muitas vezes o estado não tem ativos em quantidade suficiente para reduzir seus rombos, em particular nas economias mais desenvolvidas.
Resta então reduzir o gasto público, o que implica em desemprego, na redução de benefícios sociais e na queda no investimento público. Ou aumentar impostos que implica em retirar renda da mão da população, forçando uma espécie de poupança compulsória a ser usada pelo estado para reduzir seus rombos e pagar sua enorme dívida. Na maioria dos casos é assim que se começa um ajuste fiscal. Isto acaba tendo um efeito inicial negativo na taxa de crescimento ao reduzir a demanda interna. Porém há um efeito secundário no aumento da confiança dos empresários, pois a redução da dívida pública reduz os riscos de um calote ou de uma aceleração da inflação. Este aumento de confiança pode resultar numa aceleração na taxa de investimento privado, compensando assim a queda do consumo interno. Este processo acaba por desvalorizar a moeda em relação a de seus parceiros comerciais e reduz os déficits externos. Para que isto ocorra é necessário que a demanda externa ajude a compensar a queda na demanda interna neste período de ajuste.
Consultei alguns dados fornecidos pelo banco Goldman Sachs sobre endividamento, PIB e crescimento de alguns países os quais sumarizei na tabela abaixo:
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Os dados são de 2011, ou seja, já passados três anos da crise. Os dados sobre China são de 2010 e foram retirados de um relatório do Deutsche Bank também muito interessante que irei comentar em breve.
O déficit público combinado dos países da Europa, EUA e Japão será de Us$ 2540 bi este ano, ou seja, será do tamanho do PIB brasileiro. A dívida pública destes países totaliza US$ 40 tri, ou seja, aproximadamente 120% do seu PIB combinado. Nos casos brasileiro e chinês tal relação é ao redor de 44% do PIB. Enfim, há uma necessidade evidente de ajuste fiscal em economias que representam mais de 50% do PIB nominal global.
Assumindo a taxa média de crescimento do PIB real global dos últimos 10 anos de 3,9%, podemos estimar que o produto global cresça aproximadamente US$ 2.5 tri / ano, ou seja, o crescimento total anual do PIB global é da mesma ordem de grandeza do déficit público anual dos gigantes!
Assim, esforços de redução de tais déficits terão impacto importante sobre a economia global. Um esforço fiscal relevante e sincronizado nestas economias pode levar a uma retração da economia global.
O que mais assusta, além da magnitude dos números, é que a taxa média de crescimento das regiões mais endividadas do planeta é da ordem de 2.2% AA, ou seja, pouco mais de 50% da taxa média de crescimento da economia global nos últimos 10 anos. Logo, mesmo no período de forte expansão dos gastos e do endividamento privado e público que tais países viveram durante os últimos 10 anos, tais economias tiveram taxas de crescimento muito baixas. Logo, é possível afirmar que, a luz da magnitude do ajuste fiscal necessário nestas mega economias, o crescimento marginal nestas regiões deva ser ainda menor.
Os mais otimistas acreditam que tal ajuste pode ser feito ao longo de vários anos, bem devagar, o que diluiria o seu efeito na contração da demanda interna. Eu acho que tal hipótese é bastante agressiva. Com uma dívida de 120% do PIB, e uma taxa pífia de crescimento, uma redução de 20% do déficit por ano (500 bi) geraria um aumento da ordem de 12% do PIB na relação dívida / PIB deste bloco nos próximos cinco anos, o que exigiria um esforço fiscal mais prolongado.Logo, acho improvável que o mercado venha a dar todo este tempo para tais economias se ajustarem. Os casos grego, espanhol, italiano e português mostram que a paciência está chegando ao fim. As agências de classificação de risco já estão sinalizando que está chegando a hora do ajuste.
Para piorar a situação, tais super economias sofrem um problema demográfico importante: sua população está envelhecendo, o que deverá gerar uma elevação dos gastos públicos com saúde e aposentadoria, aumentando assim as pressões sobre o deficit público futuro. E se as taxas de juros cobradas destes países pelos investidores globais subirem acima do crescimento nominal destas economias, seria preciso um esforço ainda maior de ajuste fiscal para simplesmente se manter estável a relação dívida/ PIB neste bloco. Para cada 1% de juros cobrados a mais, a conta anual sobe em US$400 bi, ou seja, o déficit aumenta em 16%!
Enfim, os números são gigantescos e os esforços necessários são maiores ainda. Vida dura.
SE você pensa que o problema fiscal global acaba com a ajuda a Grécia e com um eventual acordo no congresso sobre o limite de endividamento dos EUA, você está enganado. Estamos simplesmente ganhando tempo para implementar os ajustes necessários.
11 comentários | Comentar
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11 Brasil deve fechar 2011 como a sexta maior economia do mundo - Voz da Barra 31/10/2011 4:08
[...] O tamanho do desafio fiscal global [...]
10 Veja quais são os países mais endividados do mundo « Vítor Alberto Klein's Blog * O Portal * 04/10/2011 17:47
[...] O tamanho do desafio fiscal global [...]
9 Eduardo Pedreira Franco 28/09/2011 21:12
Galo,
Parabéns… Êste é o melhor comentário já publicado na nossa ATAVA IMPRENSA ECONÔMOCA.
Estou alegre em ver, que no BRASIL, existem os racionais com raciocínio espacial lógico e amplo, coisa mais próxima dos ENGENHEIROS. Não sei a sua formação acadêmica. Sou Engenheiro há 40 anos.
Tudo perfeito no seu comentário, porém em diversas inserções minhas em publicações de um número grande de outros comentaristas venho alertando para dois pontos importantes, que o ex-presidente ITAMAR FRANCO deixou legado ao FERNANDO HENRIQE CARDOSO, que seriam os pilares auxiliares do PLANO REAL. A REFORMA FISCAL E TRIBUTÁRIA. Ambas deveriam se somar, feitas em conjunto, fizemos a FISCAL (meia boca) e o que dependeu dos políticos e das CLASSES DOMINANTES, não fizemos a TRIBUTÁRIA. Perdemos 16 anos, pois o LULA também não teve AUTORIDADE para fazer.
Pensar em MERCADO INTERNO com a DISTRIBUIÇÃO DE RENDA, que temos é VEDAR OS OLHOS COM UMA PENEIRA. Vejo um SISTEMA FINANCEIRO GLOBAL, que entrou num regime de FALÊNCIA e mais na frente, cada NAÇÃO vai ter que se defender internamente e apesar de termos POPULAÇÃO, não teremos MERCADO para AUMENTAR A PRODUÇÃO. Como êsse povo, quebrado vai tentar sair da FALÊNCIA e o TEMPO será de longuíssimo prazo, talvez a nossa hora de reparar o não feito seja, já.
O que o Obama, quer fazer com taxação sôbre os RICOS é DRASTÍCO E RADICAL. Nos não, por enquanto, sermos radicais. A nossa solução pode ainda, ser de meio têrmo, que propicie uma melhor DISTRIBUIÇÃO DE RENDA para em paralelo alavancar o CRECIMENTO DA PRODÛÇÂO, criando um MERCADO INTERNO MAIS RBUSTO.
Mais uma vez parabéns.
Eduardo Pedreira Franco. Salvador – Bahia.
Ricardo Gallo 29/09/2011 15:08
engenheiro. poli 85. producao.
8 Pedro 28/09/2011 17:23
Três pontos: a) Se existe um PASSIVO, existe um ATIVO, resta saber nas mãos de quem; b) Para equalizar o ponto “a” é necessário um ajuste entre vários individuos (ou sociedades, ou países); c) o ajuste mais praticado até hoje, é a Guerra (vide filme JFK); Creio que o consenso no ajuste é o mais dificil pois cada país (ou agente) possui cada vez mais dependência de muitos outros agentes, que por sua vez, possuem interesses desiguais e conflitantes. Soma-se a isso, uma pitada de desequilibrio social, provocações religiosas e etc. Dificil dizer o caminho, mas o custo é cada vez maior. Estaria o copo meio cheio ou quase vazio?
7 Eu Mesmo 28/09/2011 9:42
Bom dia Sr. Gallo.
Você poderia comentar para mim estes dados levantados pelo IG sobre as dívidas dos países:
4º. Holanda – 376,3%
Dívida externa (como % do PIB): 376,3%
Dívida externa bruta: $2,55 trilhões
PIB de 2010 (est): $676,9 bilhões
Dívida externa per capita: $152.380
3º. Suíça – 401,9%
Dívida externa (como % do PIB): 401,9%
Dívida externa bruta: US$ 1,304 trilhão
PIB de 2010 (est): US$ 324,5 bilhões
Dívida externa per capita: $171.528
2º. Reino Unido – 413,3%
Dívida externa (como % do PIB): 413,3%
Dívida externa bruta:: US$ 8,981 trilhões
PIB de 2010 (est): US$ 2,173 trilhões
Dívida externa per capita: US$ 146.953
1º. Irlanda – 1.382%
Dívida externa (como % do PIB): 1.382%
Dívida externa bruta: US$ 2,38 trilhões
PIB de 2010 (est): US$ 172,3 bilhões
Dívida externa per capita: US$ 566.756
Confesso que eu não entendi nada (ou estou mal informado, ou foi erro de vocês – do IG -, ou o mundo econômico, da forma que conhecemos está perto do fim ?!)
Segue o link da notícia:
http://economia.ig.com.br/criseeconomica/veja-quais-sao-os-paises-mais-endividados-do-mundo/n1597244613617.html
p.s.: Onde se lê dívida externa, não se trataria de dívida pública
Pedro 28/09/2011 17:24
Excelente ponderação.
Ricardo Gallo 28/09/2011 13:22
vou pedir ao editor de economia que explique tais numeros.
6 JIL 28/07/2011 14:12
Ricardo,
Como você enxerga o futuro do Japão com uma divida dessas?
Tem jeito?
Ricardo Gallo 29/07/2011 15:12
sim…basta continuarem gerando poupanca liquida ( ou seja, superavit em c/c), e que o povo japones continue comprando divida japonesa. e que inflacao nao surja no radar e mantenha juros baixos…. porem em algum momento vao ter q ajustar…. o desafio fiscal do mundo meu caro,eh grotesco!!!!
5 Ladislau 25/07/2011 17:39
O problema todo é que apetar o cinto não é lá o jargão que político gosta… Político gosta mesmo é de gastar, de ter obra para inaugurar. Esta é uma verdade tanto no Brasil quanto em qualquer lugar do mundo.
Vai ser difícil os políticos manterem a linha da disciplina para colocar a casa em ordem novamente no primeiro mundo…
4 murilo 25/07/2011 14:45
pra deixar qq um BEM receoso qto ao futuro da economia lendo seu post. a pergunta entao eh… se vc tivesse posicao em bolsa aqui no brasil… vc realizaria tudo agora? ou.. manteria posicao pensando que no medio – longo prazo td vai “acalmar” ? ou esperaria o “sangue nas ruas” pra sair comprando na liquidacao?
abracos
Ricardo Gallo 25/07/2011 19:22
meu caro, depende da propensao marginal a risco de cada um…. prefiro nao dar estes conselhos…. fale com bancos e corretoras… eles podem te ajudar melhor.
3 Carlos Eduardo 25/07/2011 14:33
Ricardo esses números dão um pouco de medo não? Conforme eu ia lendo deu um comichão pra começar a juntar dinheiro em casa, pelo menos pra esperar até 2012 passar.
Ricardo Gallo 25/07/2011 14:42
hehehe. da medo sim. e imagine a força politica que serah demanda dos governantes para forçar esta reduçao de deficit.
2 Ricardo Lopes 24/07/2011 7:22
Em relação aos dados, a dívida pública do Brasil é de 40% do PIB em termos líquidos, mas a dívida bruta é de 70% do pIB (+ ou -) Em relação aos EUA: Descontado o problema político, que é quase tudo, o governo OBama deveria retirar o corte de imposto para os ricos que o governo Bush impkantou e que recentemente Obama deu continuidade. Não cortar o gasto com a saúde e a seguridade, como querem os republicanos, mas sim com gastos militares,entre os quais com o Afeganistão. Segundo pesquisa de opinião, divulgada pelo próprio IG, a maior parte dos norte-americanos desejam a reitrada das tropas. Não aumentar ou até cortar parte dos gastos militares e com armamentos. Por outro lado, o orçamento deveria ter sido (passar a ser) direcionado para objetivos que propiciem um maior crescimento, de modo a diminuir o desemprego e a própria relação dívida PIB. Por exemplo: auxílio desemprego, obras de infra-estrutura, que gerem demanda sem gerar oferta. Incentivo a ricos e empresários não geram maior consumo nem maior investimento pois a capacidade ociosa está elevada e a demanda baxa. Quanto a Grécia e outros paises do Euro. Não há dúvida, é necessário e já está havendo uma renegociação pois como estava era impagável. Por outro lado, a dívida se deveu muito mais a gastos indevidos do governo que não beneficiaram diretamente a população e a um endividamento criminoso por parte do governo. Há um movimento na Grécia pela auditoria de sua dívida, como aqui no Brasil, quase não comentado. Quanto ao Brasil, com o tamanho de sua dívida pública, em parte internacionalizada e rolada com derivativos, incusive, com o tamanho da taxa de juro e com os gastos com olimpiadas,copa, etc, se não se cuidar, será uma Grécia amanhã.
Ricardo Gallo 24/07/2011 22:24
duvido. nao somos grecia. se vendermos as reservas cambiais e chamarmos creditos do bndes, divivda cai para 50 % do pib…. nosso problema nao eh divida do estado. eh “farta” de produtividade…. crescemos 4% aa… poko paca pra emerging…