Veja texto extraído da última ata do COPOM e meus pitacos em itálico. Eu irei focar em dois pontos:
a. em entender a expectativa do BC com relação à evolução da demanda interna nos próximos meses;
b. em entender o racional por trás dos votos contra ao aumento dos juros, pois pode haver alguma informação importante aí.
Implementação da política monetária
20. O Copom avalia que a política monetária deve contribuir para a consolidação de um ambiente macroeconômico favorável em horizontes mais longos. Nesse sentido, reitera que, no regime de metas para a inflação, orienta suas decisões de acordo com os valores projetados para a inflação pelo Banco Central e com base na análise de cenários alternativos para a evolução das principais variáveis que determinam a dinâmica dos preços. O Comitê entende, também, que riscos baixos para a inflação subjacente no curto prazo tendem a reduzir incertezas em relação ao comportamento futuro da inflação plena, facilitam a avaliação de cenários por parte da autoridade monetária, assim como auxiliam no processo de coordenação de expectativas dos agentes econômicos, em particular, dos formadores de preços. Note-se, adicionalmente, que riscos baixos para a inflação subjacente no curto prazo tendem a potencializar os efeitos das ações de política monetária, fazendo com que elas possam afetar de forma mais duradoura a dinâmica da inflação plena no futuro. Embora reconheça que outras ações de política macroeconômica podem influenciar a trajetória dos preços, o Copom reafirma sua visão de que cabe especificamente à política monetária manter-se especialmente vigilante, para garantir que pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para horizontes mais longos.
21. O Copom entende que ocorreram mudanças estruturais significativas na economia brasileira, as quais determinaram recuo nas taxas de juros em geral e, em particular, na taxa neutra. Apoia essa visão, entre outros fatores, a redução dos prêmios de risco, consequência direta do cumprimento da meta de inflação pelo nono ano consecutivo, da estabilidade macroeconômica e de avanços institucionais. Além disso, o processo de redução dos juros foi favorecido por mudanças na estrutura dos mercados financeiros e de capitais, pelo aprofundamento do mercado de crédito bem como pela geração de superávit primários consistentes com a manutenção de tendência decrescente para a relação entre dívida pública e PIB. Para o Comitê, todas essas transformações caracterizam-se por elevado grau de perenidade – embora, em virtude dos próprios ciclos econômicos, reversões pontuais e temporárias possam ocorrer – e contribuem para que a economia brasileira hoje apresente sólidos indicadores de solvência e de liquidez.
22. O Copom também pondera que têm contribuído para a redução das taxas de juros domésticas, inclusive da taxa neutra, o aumento na oferta de poupança externa e a redução no seu custo de captação, os quais, na avaliação do Comitê, em grande parte, são desenvolvimentos de caráter permanente.
23. O Copom considera que, desde sua última reunião, os riscos para a estabilidade financeira global permaneceram elevados, em particular os derivados do processo de desalavancagem em curso nos principais blocos econômicos. Nesse contexto, apesar de identificar baixa probabilidade de ocorrência de eventos extremos nos mercados financeiros internacionais, o Comitê pondera que o ambiente externo permanece complexo. O Comitê avalia que, de modo geral, mantiveram-se inalteradas as perspectivas de atividade global moderada, com tendência de intensificação ao longo do horizonte relevante. Nesse contexto, há avanços localizados nas economias maduras, não obstante permanecer limitado o espaço para utilização de política monetária e prevalecer cenário de restrição fiscal neste e nos próximos anos. Já em importantes economias emergentes, o ritmo de atividade tem se intensificado, amparado pela resiliência da demanda doméstica. O Comitê destaca, ainda, evidências de acomodação dos preços nos mercados internacionais de commodities.
[Aqui ele volta a insistir nas incertezas externas e menciona um canal de contágio: preços das commodities começam a cair, o que alivia pressões sobre alimentos, além de causar um choque negativo na renda interna através das exportações mais baratas como temos visto nos saldos externos e na piora do déficit em conta corrente. Ele também menciona que os riscos para a estabilidade financeira permanecem elevados, porém os spreads de risco soberano na Europa estão bastante estáveis. Enfim, tenho um enorme problema com adjetivos como elevado, moderado ou baixo, pois sempre penso em termos relativos...].
24. O Copom pondera que, a despeito de limitações no campo da oferta, o ritmo da atividade doméstica se intensificou no primeiro trimestre. Além disso, destaca que informações recentes apontam para a retomada do investimento e para uma trajetória de crescimento, no horizonte relevante, mais alinhada com o crescimento potencial. O Comitê nota que a demanda doméstica continuará a ser impulsionada pelos efeitos defasados de ações de política monetária implementadas recentemente, bem como pela expansão moderada da oferta de crédito, tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas. Adicionalmente, a atividade doméstica continuará a ser favorecida pelas transferências públicas, bem como pelo vigor do mercado de trabalho, que se reflete em taxas de desemprego historicamente baixas e em crescimento dos salários, apesar de certa acomodação na margem.
[Apesar dos dados recentes que mostram certa moderação no ritmo de crescimento do emprego e do varejo, o BC se mostra otimista quanto à atividade no futuro. Ou seja, está tranquilo no front interno.].
25. O Copom observa que o cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais, não obstante iniciativas recentes apontarem o balanço do setor público em posição expansionista. O Comitê nota que a geração de superávit primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidifica a tendência de redução da razão dívida pública sobre produto e a percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo.
[Reconhece a forte expansão fiscal através das desonerações recentes promovidas pelo governo.].
26. O Copom destaca que o cenário central também contempla expansão moderada do crédito. Ainda sobre esse mercado, o Comitê considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito.
27. O Copom ressalta que o cenário central contempla ritmo de atividade doméstica mais intenso neste e no próximo ano. Nesse contexto, o Comitê destaca a estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho, apesar dos sinais de moderação nesse mercado, e pondera que, em tais circunstâncias, um risco significativo reside na possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade e suas repercussões negativas sobre a dinâmica da inflação. Importa destacar a moderação recentemente observada na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros, que, na hipótese de permanecerem nos atuais níveis, constituirão força desinflacionária.
[Ele mais uma vez reforça a mensagem que a economia interna vem forte.... e que o dólar baixo ajuda a combater a inflação...].
28. O Copom avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma resposta da política monetária. Por outro lado, o Comitê pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela.
[Aqui eu me perdi. Ele até aqui estava bem convicto de que:
a. inflação está elevada demais, o que enseja resposta da política monetária;
b. a atividade interna vai se recuperar
c. há pouca capacidade ociosa na economia.
Aí ele vem dizer que há incertezas internas?? Incerteza com relação ao que? Está claro para mim que ele vê riscos externos, cuja intensidade eu questiono. [Porém eu não entendi o que ele quis dizer com incerteza interna.].
29. O julgamento de todos os membros do Copom é convergente no que se refere à necessidade de uma ação de política monetária destinada a neutralizar riscos que se apresentam no cenário prospectivo para a inflação, notadamente para o próximo ano. Parte do Comitê, entretanto, pondera que está em curso uma reavaliação do crescimento global e que esse processo, a depender de sua intensidade e duração, poderá ter repercussões favoráveis sobre a dinâmica dos preços domésticos. Para esses membros do Comitê, não seria recomendável uma ação imediata da política monetária, entretanto, essa visão não foi respaldada pela maioria do Colegiado.
[Bem, aqui ele abandona as incertezas internas e foca nas externas. Ainda bem, pois aí eu volto a me encontrar... Porém não entendi alguns pontos:
- quer dizer que é bom mesmo a gente desencanar com a inflação deste ano, pois, mais uma vez ficaremos bem acima do centro da meta? E, portanto devemos somente nos preocupar com inflação do ano que vem? Pergunto: em qual momento iremos desencanar também da inflação de 2014?
- se for consenso que economia interna aqui está quente, e é consenso que inflação está alta e há consenso que há risco de alta para a inflação do ano que vem, mas ainda há dúvidas sobre um possível (porém improvável na visão deles) recrudescimento da crise na Europa ou algo similar, é preciso esperar? Ou seja, só podemos subir o juro quando tivermos certeza de tudo? Não estariam estes membros do Copom mostrando que têm um viés mais tolerante com inflação? Não há uma assimetria de comportamento? Há também o risco das coisas lá fora melhorarem mais rápido do que imaginamos. E aí? Sobe quanto o juro??]
30. Diante disso, o Copom decidiu elevar a taxa Selic para 7,50% a.a., sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela manutenção da taxa Selic em 7,25% a.a.
31. Votaram pela elevação da taxa Selic para 7,50% a.a. os seguintes membros do Comitê: Alexandre Antonio Tombini (Presidente), Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques. Votaram pela manutenção da taxa Selic em 7,25% a.a. os seguintes membros do Comitê: Aldo Luiz Mendes e Luiz Awazu Pereira da Silva.
32. O Copom avalia que a demanda doméstica tende a se apresentar robusta, especialmente o consumo das famílias, em grande parte devido aos efeitos de fatores de estímulo, como o crescimento da renda e a expansão moderada do crédito. Esse ambiente tende a prevalecer neste e nos próximos semestres, quando a demanda doméstica será impactada pelos efeitos das ações de política recentemente implementadas, que, de resto, são defasados e cumulativos. Para o Comitê, esses efeitos, os programas de concessão de serviços públicos, os estoques em níveis ajustados e a gradual recuperação da confiança dos empresários criam perspectivas de intensificação dos investimentos e da recuperação da produção industrial. O Comitê pondera que iniciativas recentes apontam o balanço do setor público em posição expansionista. Por outro lado, o Comitê nota que ainda se apresenta como fator de contenção da demanda agregada o frágil cenário internacional. Esses elementos e os desenvolvimentos no âmbito parafiscal e no mercado de ativos são partes importantes do contexto no qual decisões futuras de política monetária serão tomadas, com vistas a assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas.
[De novo o Copom está otimista com demanda interna, com o consumo e com o investimento, tanto público como privado. Isto já não é suficiente para todos votarem no aumento? Ou a probabilidade associada há um esfriamento externo na avaliação do BC é muito grande, algo que as bolsas no exterior não apontam, tampouco outros indicadores de risco. E novamente ele menciona o dólar como importante componente para segurar a inflação.]
33. O Copom ressalta que a evidência internacional, no que é ratificada pela experiência brasileira, indica que taxas de inflação elevadas geram distorções que levam a aumentos dos riscos e deprimem os investimentos. Essas distorções se manifestam, por exemplo, no encurtamento dos horizontes de planejamento das famílias, empresas e governos, bem como na deterioração da confiança de empresários. O Comitê enfatiza, também, que taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra de salários e de transferências, com repercussões negativas sobre a confiança e o consumo das famílias. Por conseguinte, taxas de inflação elevadas reduzem o potencial de crescimento da economia, bem como de geração de empregos e de renda.
34. O Copom destaca que, em momentos como o atual, a política monetária deve se manter especialmente vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação como o observado nos últimos doze meses persistam no horizonte relevante para a política monetária.
[Bem, tudo indica que na próxima reunião teremos mais 0,25% de elevação, e com unanimidade....].
35. Ao final da reunião, foi registrado que o Comitê voltará a se reunir em 28 de maio de 2013, para as apresentações técnicas, e no dia seguinte, para deliberar sobre a política monetária, conforme estabelecido pelo Comunicado nº 22.665, de 27 de junho de 2012.
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Agora segue o discurso do diretor de Política Monetária do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, em evento desta quinta, com meus comentários em itálico:
“A todos aqui presentes, meu cordial boa tarde.
Quero inicialmente agradecer aos organizadores – especialmente ao Ilan Goldfajn – pelo convite para participar dessa conferência.
Meu plano para hoje é fazer breves considerações sobre alguns aspectos da conjuntura, com foco na economia brasileira.
Nesse sentido, vou explorar quatro dimensões: condições de oferta; condições de demanda; ambiente externo; e inflação.
Condições de Oferta
A trajetória do PIB em 2012 indica uma economia paulatinamente se fortalecendo. Iniciou o ano passado com crescimento de 0,1% no primeiro trimestre, e encerrou com crescimento de 0,6% no quarto trimestre (acumulando expansão de 0,9% no ano).
Hoje ainda prevalece um ambiente de recuperação da confiança, mas, o ponto de vista dominante (com o qual eu compartilho) é de que a economia tende a crescer em 2013 a uma taxa mais próxima daquela que se acredita ser o crescimento potencial do Brasil, com perspectiva de aceleração no horizonte relevante para a política monetária.
[Opa: Ele afirma aqui que o crescimento do PIB potencial brasileiro é ao redor de 3% a.a., não 4 ou 5% como alguns ministros propagam.].
Dentre outros, quatro aspectos apoiam essa visão: (1) estímulos fiscais, monetários, creditícios e cambiais introduzidos na economia (admitindo-se a validade da condição de Marshall-Lerner); (2) perspectivas de que 2013 tende a ser um ano melhor para a economia global do que 2012, e de que o ano de 2014 tende a ser melhor do que 2013; (3) no Brasil, eventos isolados como secas no Nordeste e no Sul, bem como mudanças regulatórias como a que impactou o mercado de caminhões e de ônibus, provavelmente não se repetirão este ano; e (4) está em discussão (parte já em implementação) um programa de concessão de serviços públicos, que pode ser importante catalisador da recuperação da confiança dos agentes e, por conseguinte, dos investimentos.
Indicadores coincidentes sugerem que o crescimento no primeiro trimestre de 2013 foi ainda mais forte do que no quarto trimestre do ano passado, em torno de 1% (4% em termos anualizados). Caso seja confirmada, uma taxa com essa magnitude seria a maior desde o segundo trimestre de 2010.
De um lado, uma leitura com tal dimensão seria positiva porque colocaria a economia crescendo a taxas superiores ao que se estima ser o crescimento potencial; de outro, pode gerar ansiedade em certos segmentos porque muitas instituições avaliam que um crescimento anualizado de 4% no primeiro trimestre tenderia a ser o teto, ou seja, no restante de 2013 as leituras trimestrais seriam menores.
O Banco Central estima, para 2013, uma taxa de crescimento de 3,1%.Levadas em conta as evidências e respeitado o princípio da razoabilidade, emerge a ideia de que o ritmo sustentável de crescimento para o Brasil de hoje não se distancia muito dessa estimativa. E por que, para uma economia no estágio de desenvolvimento como a brasileira, o crescimento potencial não seria muito diferente de 3,1%? Minha resposta, de certo, está entre as menos sofisticadas: essencialmente, porque nossa taxa de investimento é baixa (deixo as razões para essa baixa taxa de investimentos para outra oportunidade).
[Aqui ele ratifica que o PIB potencial é baixo, pois temos pouco investimento.... e confirma os 3,1% como PIB potencial.].
Quais as implicações desse quadro de crescimento potencial para a formulação da política monetária? De modo geral, pode-se afirmar que uma demanda crescendo sistematicamente muito acima de 3,1% ao ano tenderia a gerar pressões inflacionárias.
Há exceções. No médio e longo prazo, um cenário em que essa regra geral não se aplicaria contempla crescimento moderado do consumo e forte recuperação dos investimentos, tendo como contrapartida a absorção de poupança externa (neste caso, restaria saber que trajetória das transações correntes seria sustentável). Neste ponto, gostaria de lembrar que o Banco Central tem comunicado seu entendimento de que limitações no campo da oferta – ora presentes na economia brasileira – não podem ser endereçadas por ações de política monetária, que são, por excelência, instrumentos de controle da demanda.
[Bom, aqui ele tenta justificar a parcimônia de alguns colegas: ele acredita que o crescimento virá principalmente pelo investimento e não pelo consumo, o que cria condições para aumentar crescimento futuro. E que esta demanda adicional vai ser acomodada pela absorção de poupança externa, ou seja, através de déficits em conta corrente crescentes. Isto faz sentido, se e somente se o BC abandonar a ideia de desvalorizar o Real como vinha fazendo em 2012. Ou seja, estamos adotando um modelo de política monetária mais similar à usado por alguns países asiáticos que usam o câmbio, em combinação com os juros, para controlar inflação. Porém ele lembra que não dá para ficar expandindo o déficit em conta corrente indefinidamente e que esta situação pode levar a indústria à lona de vez. Ou seja, parece que alguns diretores dentro do BC pretendem mesmo usar o câmbio como uma âncora, algo que ele sabe que tem limites.].
Por outro lado, também gostaria de destacar que é compartilhado pelos banqueiros centrais - no que são acompanhados pelos teóricos em política monetária - o entendimento de que a política monetária pode, sim, contribuir para que a economia obtenha taxas mais elevadas de crescimento no médio e longo prazo (além, claro, de poder contribuir para suavizar o ciclo no curto prazo).
[Ser monetarista está virando politicamente incorreto.].
Como se daria essa contribuição então? Com a garantia de estabilidade de preços, com inflação baixa e estável (e a meu ver existe só, e somente só, esse caminho). Isso equivale a dizer que, por si só, o controle da inflação é uma panaceia? Não. Quer dizer apenas que é uma condição necessária, sobretudo em países com um histórico inflacionário como o Brasil. Dito de outra forma: a experiência internacional e a teoria econômica apontam inflação baixa e estável como pré-condição para o crescimento sustentável.
Condições de Demanda
Sobre condições de demanda, vale destacar inicialmente que a demanda doméstica tem sido o grande suporte da economia brasileira.
Em 2012, o consumo das famílias cresceu 3,1% e o do governo 3,2%, sendo o recuo de 4% do investimento a nota negativa. Mesmo assim, a taxa de expansão da demanda doméstica igualou-se à do PIB (0,9%). O Banco Central estima crescimento de 3,5% da demanda doméstica este ano – consumo das famílias (3,5%), consumo do governo (2,8%) e investimento (4%) – ante 3,1% de crescimento do PIB.
Olhando à frente, embora com alguma moderação, os principais fatores de sustentação do consumo das famílias continuam presentes: emprego e salários em alta, bem como as transferências de renda; e a expansão do crédito.
[Aqui ele volta afirmar que consumo deve continuar a crescer, embora a taxas mais moderadas.].
O investimento, tipicamente a parcela mais volátil da demanda doméstica, ultimamente também tem sido a mais frágil, mas pode reagir rápida e fortemente ainda este ano. Os sinais recentes são positivos, com recuperação da produção e da absorção de bens de capital.
[Quanto ao Investimento, ele está mais otimista.].
Em termos do consumo do governo, a política fiscal tem se posicionado no campo expansionista, e não são desprezíveis as chances de que esse quadro persista no horizonte relevante para a política monetária.
[Quanto ao lado fiscal ele acredita que vem mais expansão, ou seja, saldo primário menor.].
[Resumo: vai haver demanda sim, pois tanto o consumo, como o investimento e o governo estarão contribuindo para a festa. Ou seja, ele está bem confiante com relação a demanda interna e não mostra nenhuma " incerteza".]
Ambiente Externo
No front externo, os riscos para a estabilidade financeira global continuam elevados, haja vista que está em curso processo de desalavancagem - de famílias, bancos e governos – nos principais blocos econômicos. Neste ponto, cabe destacar que, no horizonte relevante para a política monetária, poderemos testemunhar o início (ou iminência de sua ocorrência) do processo de normalização das condições monetárias nos Estados Unidos, evento este que tende a gerar volatilidade nos preços dos ativos.
[Opa, já está de olho numa possível elevação dos juros nos EUA que elevaria o dólar. Eu também... e daí viria mais pressão na inflação.]
A volatilidade observada nos últimos dias, semanas, serve para lembrar que o ambiente global permanece complexo, muito embora o entendimento majoritário (com o qual compartilho) seja o de que o pior momento para a atividade global, no período pós-crise, tenha ficado para trás. Dito de outra forma, há uma percepção de que 2013 tende a ser um ano melhor para a economia global do que 2012, e de que o ano de 2014 tende a ser melhor do que 2013.
[Aqui ele afirma que ele vê as incertezas externas se reduzindo... ou seja, atividade deve melhorar em função dos ventos externos, e não piorar.]
Como esse cenário global pode se manifestar no cenário prospectivo para a inflação doméstica?
Em se concretizando um ritmo de crescimento global mais robusto no horizonte relevante para a política monetária, a tendência é de que isso se traduza em expansão da demanda agregada doméstica, bem como em pressões altistas nas cotações das commodities nos mercados internacionais.
[Ele conclui que do front externo pode vir mais pressão sobre os preços mais a frente, seja por causa do dólar mais forte ou por causa das commodites mais elevadas, algo bem diferente do que a ata fala.]
Inflação
Nos últimos três anos, a inflação média foi de 6,1%, portanto, 1,6 p.p. acima da meta de 4,5%. Encerramos 2012 com inflação de 5,84%, iniciamos 2013 com 6,15% e ultrapassamos o limite de 6,5% antes do que indicavam as projeções.
Algumas estatísticas complementam esse quadro: (1) a inflação de preços livres, que responde mais direta e rapidamente às ações de política (monetária e fiscal), encerrou 2012 em 6,6% e se deslocou para 8,2% em março; (2) a média do índice de difusão no primeiro trimestre alcançou 72%; (3) nos últimos doze meses, metade dos 365 subitens que compõem a cesta do IPCA tiveram seus preços majorados em mais de 6,5%, e um terço, em mais de 9%; e (4) nos doze meses encerrados em março, os 52 itens que compõem o IPCA tiveram, em bases mensais, os respectivos subíndices de preços majorados em média 9,5 vezes (ou seja, em 9,5 meses houve aumento nos preços desses grupamentos).
Dentre outros, cinco desenvolvimentos ajudam a entender a evolução recente da inflação: (1) os choques desfavoráveis, domésticos e externos, no segmento de alimentação; (2) a depreciação do real ocorrida ano passado; (3) as repercussões diretas, bem como sobre a dinâmica da curva de salários, do aumento de 14,3% do salário mínimo; (4) política fiscal e parafiscal expansionista; e (5) política monetária expansionista.
Cabe destacar que, atualmente, as duas últimas condições ainda prevalecem.
Além disso, importantes fontes de riscos desfavoráveis se mostram no cenário prospectivo, por exemplo: (1) Indexação, que pereniza níveis elevados de inflação; (2) concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade; (3) crescimento das projeções (expectativas) de inflação dos participantes de mercado, e, numa dimensão mais abrangente de expectativas, crescimento da percepção dos agentes em geral (consumidores e investidores) de que inflação está elevada; e (4) as commodites tendem a responder à eventual intensificação do ritmo de atividade global.
Por outro lado, identificam-se algumas fontes de riscos favoráveis: (1) a taxa de câmbio tem mostrado certa estabilidade; (2) o indicativo de uma safra recorde de grãos; e (3) o arrefecimento dos preços de imóveis. Em termos líquidos, entendo que o balanço de riscos é desfavorável.
[Está preocupado com inflação e acha que o viés é para cima... como eu.]
Ainda sobre inflação, as projeções do Banco Central indicam inflação de 5,7% em 2013; de 5,3% em 2014; e de 5,4% no primeiro trimestre de 2015, conforme o cenário de referência constante do último Relatório de Inflação.
[Aqui está uma mensagem importante: no horizonte de 3 anos, o BC não vê inflação indo para o centro da meta! Não acho que ele esteja nada satisfeito com isto.]
Conclusão
No horizonte relevante para a política monetária, o cenário base que acabo de esboçar, não obstante limitações ora presentes no campo da oferta, sugere que a recuperação da atividade se consolida e que a economia tende a crescer mais em linha com o que se acreditar ser o crescimento potencial; contempla uma demanda doméstica robusta, com retomada dos investimentos; contempla um ambiente global complexo e com riscos ainda elevados para a estabilidade financeira global (com 2013 tendendo a ser melhor do que 2012 e 2014 tendendo a ser melhor do que 2013); e contempla projeções de inflação elevadas, assim como um balanço de riscos desfavorável (que, em parte, refletem o fato de a inflação corrente se mostrar elevada, disseminada e resistente).
[Aqui ele repete a frase que me deixou perdido: ele espera um crescimento mais forte lá fora, este ano e no ano que vem, e ainda assim fala em riscos para estabilidade financeira?? Enfim, não me parece consistente com o resto do discurso, porém lembra a ata... mas ele repete que está muito desconfortável com a inflação. Ou seja, embora haja "incertezas" por parte de alguns membros do Copom, ele coloca claramente que a prioridade é o combate a inflação.]
É plausível afirmar que o contexto acima não é dos mais simples, de modo que alguém pode ter a impressão de que há mais problemas a serem resolvidos do que soluções à vista (a demanda por soluções é maior do que a oferta). Dado esse desequilíbrio então, se esse alguém se dispuser a enfrentar um dos problemas, em princípio, pode escolher um (ou mais de um), mas correndo o risco de fazer escolhas erradas.
Esse definitivamente não é o caso do Copom, pois a escolha do Comitê é o combate à inflação. Essa escolha deriva de seu compromisso com o Regime de Metas e do fato de o Banco Central ter como missão manter a estabilidade do poder de compra da moeda.
Neste ponto, embora reconheça que a inflação corrente e as projeções de inflação estejam elevadas, bem como que o balanço de riscos no horizonte relevante se apresenta desfavorável, vou discordar daqueles que argumentam que a inflação no Brasil está fora do controle.
[Ele reforça compromisso com combate a inflação, com muita firmeza. OU SEJA, NÃO HÁ ESCOLHAS: O BC PRECISA COMBATER INFLAÇÃO. MESMO COM AS INCERTEZAS LÁ DE FORA.]
Não está. Não está e nem estará. Quero lembrar que o Banco Central dispõe – e está fazendo uso – do instrumento de política (a taxa Selic), que, por excelência, destina-se a combater a inflação e o faz com eficácia.
[Ele afirma que inflação não está nem estará fora do controle pois ele vai usar o Selic para controla-la. Ou seja, ele não vai deixar A coisa escapar, porém não fica claro QUANDO ele pretende trazer inflação para o centro da meta. Dá a sensação que eles simplesmente não querem que ela saia do controle. E A ATA NÃO AJUDA NESTE SENTIDO.]
E como última palavra, gostaria de registrar que cresce em mim a convicção de que o Copom poderá ser instado a refletir sobre a possibilidade de intensificar o uso do instrumento de política monetária (da taxa Selic).”
[Opa, aqui ele afirma que vem mais alta dos juros.].
[Resumo: o diretor mostra mais determinação, e menos incerteza, do que a Ata. Ou seja, provavelmente seus colegas estão com uma visão diferente. Eu concordo mais com a "Ata" do Diretor do BC do que com a Ata do COPOM.].