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03/11/2011 - 07:47

Dois filmes para fechar a Mostra

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A Mostra de São Paulo vai chegando a seu fim e, com ele, vem a inevitável sensação de que muita coisa boa foi perdida em meio a mais uma maratona de filmes.

Mas hoje ainda dá para tirar o atraso com dois filmes que oferecem uma satisfação quase garantida. O primeiro deles é “Os Contos da Noite”, novo trabalho do mestre da animação francês Michel Ocelot, o mesmo de “Kirikou e a Feiticeira” e “As Aventuras de Azur e Asmar”.

Ocelot volta a trabalhar com a tradicional técnica chinesa do teatro de sombras, em que as figuras aparecem como silhuetas negras sobre cenários coloridos – a mesma que havia empregado em “Príncipes e Princesas” (2000) e na série para a TV francesa “Dragões e Princesas” (2010).

“Os Contos da Noite” é derivado justamente dessa série. Na TV, eram dez episódios que reinventavam antigas lendas de diferentes países – a especialidade do animador francês. Para o cinema, Ocelot manteve seis deles.

O elo de ligação entre esses seis curtas é uma conversa entre um animador (possível alter ego de Ocelot) e seus dois ajudantes. Eles discutem qual o desenho que farão juntos a seguir, lembram de antigas lendas, debatem sobre diferentes técnicas e aí surgem na tela cada um dos episódios.

Para as crianças, é uma aula sobre diferentes culturas e tipos de animação. Para os adultos, uma garantia de deslumbramento estético com a obra de um dos últimos grandes mestres de desenho artesanal, ao lado do japonês Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”).

O segundo filme a ser visto hoje na Mostra é “Che – Um Novo Homem”, do argentino Tristán Bauer, que oferece um tipo de fruição muito diferente do de “Os Contos da Noite”. É um documentário convencional, sem novidades estéticas, mas absolutamente completo sobre Che Guevara, com suas mais de duas horas de duração.

Depois de alguns filmes importantes sobre o revolucionário argentino – como “Diários da Motocicleta”, de Walter Salles, e o “Che” de Steven Soderbergh –, agora surge a chance de comparar sua versão ficcional com a figura real.

E “Um Novo Homem” não economiza nos detalhes, oferecendo o mais amplo material já reunido sobre Che, incluindo algumas raridades como fotos da infância na Argentina, um filmete sobre uma passagem por Punta del Este logo após a Revolução Cubana e uma emocionante carta para sua mulher. Tudo amarrado por uma narrativa em off tradicional, mas dentro do possível objetiva.

“Che” não quer ser um documentário revolucionário. Para ele, basta ser sobre um revolucionário. Nesse sentido, é um documento histórico precioso. Neste momento em que revoluções jovens pipocam pelo mundo todo, nada como voltar um pouco ao revolucionário essencial.

“Os Contos da Noite”: hoje, às 16h50, na Cinemateca. “Che – Um Novo Homem”: hoje, ás 17h30, no MIS. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/11/2011 - 22:22

George Clooney faz filme político adulto

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As virtudes exibidas por George Clooney até aqui como diretor são antes as de um técnico de futebol do que as de um grande cineasta.

Em seu novo filme, “Tudo pelo Poder”, ele repete a estratégia de “Boa Noite e Boa Sorte” (2005), sua obra política anterior: pega um belo material de origem (no caso, a peça “Farragut North”, de Beau Willimon), escala os melhores jogadores em atividade (os veteranos Phillip Seymour Hoffman e Paul Giamatti, os jovens Ryan Gosling e Evan Rachel Wood, além do próprio Clooney) e os deixa livres para jogar. Mas não há, ainda, uma estratégia definida como cineasta, um estilo distinto.

É uma característica semelhante ao que ocorre com o ator Clooney: sem ser brilhante, ele sabe escolher os filmes, sabe trabalhar com suas limtações dramáticas, sabe a hora de sorrir para parecer charmoso.

Em vez de voltar ao passado para falar do presente, como em “Boa Noite e Boa Sorte”, agora Clooney vai direto ao ponto e mostra os bastidores das primárias para escolher o candidato democrata a presidente, em um filme sobre o momento atual da política americana e repleto de referências a nomes reais.

O protagonista é o idealista assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling), braço-direito de Paul Zara (Hoffman), pragmático coordenador de campanha do candidato Mike Morris (Clooney), governador aparentemente bem-intencionado.

Em meio à campanha, Meyers tromba com um dilema ético e outro moral. O primeiro surge com um convite para trabalhar para o rival de Morris, feito por Tom Duffy (Giamatti), cínico coordenador do outro candidato democrata.

Já a questão moral vem com a descoberta de que uma estagiária da campanha de Morris (Evan Rachel Wood), com quem Meyers inicia um caso, está grávida do governador.

De um lado, “Tudo pelo Poder” pode ser encara do como uma crítica – ou, talvez melhor, um aviso – ao Partido Democrata, com o qual o próprio Clooney tem ligações históricas. Clooney parece dar um alerta: se os democratas trocarem o idealismo pelo cinismo, eles em breve não se distinguirão dos republicanos.

Mas há uma leitura mais pessoal, menos política do filme. Nela, Meyers seria uma nova versão do mito de Fausto, o homem que vendeu sua alma a Mefistófeles em troca do sucesso. E aí Clooney estaria dizendo que a concessão e a corrupção não são problemas partidários, mas antes de tudo humanas.

O ator pode ainda não ter estilo como diretor, mas ele nos oferece novamente uma visão adulta sobre a política americana – o que é bem mais do que Hollywood costuma oferecer.

“Cisne”: dia 2, às 20h20, no Unibanco Pompeia; dia 3, às 22h20, no Unibanco Frei Caneca. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2011 - 13:58

“Cisne” reúne tiques do cinema de arte

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De todos os filmes vistos na Mostra de São Paulo nesta edição, “Cisne”, da portuguesa Teresa Villaverde, foi a maior decepção.

Ainda tinha uma boa, embora longínqua, lembrança de “Os Mutantes” (1998), da mesma diretora – o que me fez colocar “Cisne” como uma das prioridades da Mostra neste ano. Mas ou a memória me traiu ou Villaverde se tornou uma cineasta menos interessante com o passar de tempo.

“Cisne” é um filme sobre o encontro de duas figuras de universos distintos: a cantora Vera (Beatriz Batarda) e o jovem Pablo (Miguel Nunes), que ela contrata como motorista e ajudante pessoal ao chegar a Lisboa para o final de uma turnê.

Ao longo do filme, cada um deles vai revelar ao outro as cicatrizes emocionais que guardam do resto do mundo: Vera tem um amor não-correspondido por um homem perturbado; Pablo é um órfão abandonado pela mãe e criado em um abrigo para menores que esconde um terrível segredo.

Villaverde filma essa história com alguns dos principais tiques do cinema de arte: diálogos obscuros intercalados por longos silêncios, closes de rostos sofridos, coadjuvantes excêntricos, incluindo uma anã em cena.

Há vastas emoções no filme, mas pensamentos quase inexistentes – e essa falta de ideias faz com que os sentimentos se tornem ralos, sem consistência. Um caso de filme em que o conflito dos personagens parece interessar apenas à diretora.

Houve outra frustração na Mostra causada por “Hanezu”, o filme da japonesa Naomi Kawase. Mas o talento visual da cineasta ficava evidente plano após plano, ainda que seu emprego não fosse muito inspirado.

“Cisne” é uma decepção de outro tipo, que faz questionar se sua diretora merece o destaque que já teve um dia. Nem a beleza de “Nina”, canção de Chico Buarque usada no desfecho, consegue salvar o resultado final.

“Cisne”: dia 3, às 17h40, na Cinemateca. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/10/2011 - 21:38

Diretor sul-coreano chega ao auge de sua forma

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As virtudes de um cineasta como o sul-coreano Hong Sangsoo demoram a ser reconhecidas. Ele não faz o tipo que ostenta as marcas de um estilo como se fossem trofeus, ele não tenta impressionar com virtuosismos visuais, como tantos colegas de profissão.

Diretor de filmes como “Mulher na Praia” e “Noite e Dia”, Sangsoo faz um tipo de cinema fundado na palavra, com longas conversas de personagens intelectualizados, em especial sobre relações amorosos, e com especial atenção a pequenos acasos do cotidiano.

Por causa dessas características, ele costuma ser definido como um Woody Allen ou um Eric Rohmer sul-coreano – que faz sentido. Mas, com oito longas no currículo, suas discretas virtudes já ficaram suficientemente evidentes para que as comparações se tornem desnecessárias.

“O Dia em que Ele Chegar”, seu novo filme, exibido na Mostra de São Paulo deste ano, mostra um autor com pleno domínio de suas ferramentas narrativas.

A princípio, uma história simples: um cineasta que interrompeu sua carreira e se estabeleceu no interior vai até a capital Seul para reencontrar um antigo professor de cinema e grande amigo.

Em meio a longas conversas e bebedeiras, eles encontram mulheres que os seduzem, os aborrecem, os entretém – e perturbam, de alguma forma, a rotina de companheirismo masculino estabelecida pelos dois. Um tema recorrente na obra de Sangsoo.

Mas o cineasta sul-coreano introduz uma pequena novidade em seu tradicional repertório: as situações vividas pelo protagonista se repetem com pequenas variações, como se um pequeno acaso tivesse criado uma realidade alternativa.

É um procedimento que revigora o projeto cinematográfico do sul-coreano e que o leva ao melhor de sua forma. Agora o negócio é descobrir quem será o Sangsoo francês ou americano.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/10/2011 - 10:47

Jonas Mekas e seu reality show poético

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Em “Histórias da Insônia”, o cineasta Jonas Mekas – lituano radicado em Nova York e mestra do cinema de vanguarda americano – não consegue dormir, pega sua câmera digital e sai por aí filmando encontros com amigos, artistas, familiares e desconhecidos.

Nesses encontros, eles bebem, ouvem música, discutem a importância de Amy Winehouse e filosofam sobre assuntos como a eternidade da alma – todas essas coisas “não-importantes” que o cinema narrativo costuma relegar e que em geral ocupam as transmissões ao vivo, não-editadas, dos reality shows.

Mas por que, então, o resultado de “Histórias da Insônia” é tão mais fascinante que, por exemplo, um “Big Brother” (mesmo acreditando que o programa de TV, em momentos inspirados, também possa produzir seus momentos de brilho)?

Pode-se argumentar que é uma questão de casting. Entre as pessoas filmadas por Mekas, estão as cantoras Patti Smith, Yoko Ono e Björk, o cineasta Harmony Korine, o ator francês Louis Garrel, entre muitos outros.

Mas acho que o essencial é a “gratuidade” daqueles encontros; ou seja, eles não estão ali para vender nada ou para cumprir uma função dentro de um jogo.

Mekas anuncia seu objetivo no início do filme: “eu não vou dormir até ouvir alguma coisa bonita”. Ou seja, há uma troca de um olhar mercantil por outro poético, da visão da máquina pela individual.

E, a partir dessa decisão, Mekas realiza uma inspirada aplicação do chamado “filme-diário”, em que a câmera é usada como uma caneta de anotações pessoais. O resultado é tocante, engraçado, de enorme frescor e originalidade. Nada mau para um cineasta de 88 anos.

“Histórias da Insônia”: hoje, às 16h, no Cine Livraria Cultura; dia 30, às 20h30, e dia 1/11, às 19h50, no Unibanco Frei Caneca; e dia 3/11, às 14h, no Unibanco Augusta. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/10/2011 - 19:28

O cinema não foi o mesmo depois de Elia Kazan

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Em uma entrevista para a revista “Trip” deste mês, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, do grupo Oficina, conta que sua vida mudou depois de ver “Um Bonde Chamado Desejo” (1951), também conhecido no Brasil como “Uma Rua Chamada Pecado”: “Até então achava que as pessoas não tinham ‘por dentro’, que só eu tinha subjetividade. E as outras pessoas eram de papelão. Quando vi a Vivien Leigh, o Marlon Brando… foi o Elia Kazan quem me revelou a intersubjetividade”.

Zé Celso conseguiu resumiu, de forma pessoal, o enorme impacto causado pela obra de Elia Kazan (1909-2003) – tema de retrospectiva na Mostra de São Paulo, com nove filmes em cópias restauradas, do período mais fértil de sua carreira, de 1945 a 1962. O cineasta americano, filho de gregos nascido na Turquia, deu uma densidade e profundidade psicológica ao cinema até então inédita. Como se os pensamentos e emoções dos personagens tivessem se tornado, de repente, palpáveis, concretos – algo que Doistoiévski, por exemplo, fez com a literatura.

Mas em um livro há sempre o recurso da descrição do fluxo de pensamento. Kazan preferia não recorrer a seu equivalente cinematográfico, a narração em off. Inspirado pelo russo Stanislavski e ao lado do diretor Lee Strasberg, ele ajudou a criar um método – aliás, o Método – de interpretação baseado na memória emocional dos atores; grosso modo, eles precisavam acessar a lembrança de uma experiência pessoal para reutilizar aquele sentimento na representação.

Pelo Actors Studio, a escola de Strasberg e Kazan, foram lapidados atores como Marlon Brando, James Dean, Paul Newman, Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman e Jack Nicholson, entre muitos outros. De acordo com o gosto, pode-se dizer que há melhores diretores, mas não conheço nenhum que seja melhor como diretor de atores. Como bem colocou Zé Celso, nos filmes de Kazan eles tinham um “por dentro”, uma alma que raramente conseguiam exibir em outros trabalhos.

Kazan arrancou de vários atores os melhores desempenhos de sua carreira – por exemplo, Brando em “Sindicato dos Ladrões”, James Dean em “Vidas Amargas”, Vivan Leigh em “Um Bonde Chamado Desejo”, Natalie Wood em “Clamor do Sexo” e assim por diante. Todos esses clássicos estão na retrospectiva da mostra e merecem ser vistos e revistos no cinema, mas também há filmes que circulam menos, como “Laços Humanos”, “O Justiceiro”, “Um Rosto na Multidão”, “Rio Violento” e “Terra de um Sonho Distante”; além de “Uma Carta para Elia”, documentário de Martin Scorsese sobre um dos cineastas que mais o influenciaram.

Sempre que se fala em Kazan, é impossível escapar da passagem mais sombria de sua vida: ex-comunista, o cineasta denunciou colegas ao Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, no período macartista de caça às bruxas nos EUA – um episódio que ele metaforizou em “Sindicato dos Ladrões”. A viúva de Kazan, Frances, veio ao Brasil para prestigiar a Mostra e não conseguiu escapar de perguntas sobre a fama de traidor que perseguiu o cineasta até sua morte.

Se objeções podem ser feitas ao homem, não se pode reclamar do cineasta. Ou melhor, é possível fazer um pequeno protesto: ao trazer a psicologia para o cinema, ele acabou abrindo a porteira para outros diretores tentarem fazer o mesmo e fracassarem completamente. O psicologismo – ou seja, a tentativa de reduzir o comportamento humano a alguns tiques psicológicos – acabou se tornando uma das maiores pragas do cinema. Mas, para ser justo, a culpa não é de Kazan, mas da falta de talento de alguns de seus seguidores.

Retrospectiva Elia Kazan: Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/10/2011 - 19:13

“Era uma Vez na Anatólia” traz experiência essencial

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É uma das cenas mais bonitas do cinema recente. Um bando de homens dorme improvisadamente na sala de uma casa do interior da Turquia, depois de uma exaustiva jornada madrugada adentro, uma investigação policial para descobrir onde está enterrado o corpo de uma vítima de assassinato.

De repente, surge diante de cada um deles um lindo rosto feminino iluminado apenas por um lampião, com uma bandeja de chá nas mãos. Os homens despertam entre atordoados e encantados, como se estivessem presenciando a aparição de um anjo, depois de horas de tédio, cansaço, brutalidade.

Depois de mais de uma hora de projeção, é a primeira vez que uma mulher aparece em cena em “Era uma Vez na Anatólia”, filme do turco Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Grande Prêmio no Festival de Cannes e que será exibido na Mostra de São Paulo pela última vez nesta terça-feira.

Trata-se, portanto, de uma obra essencialmente masculina, que trabalha na borda entre dois gêneros tradicionais, o policial e o western, mas oferece um olhar novo para ambos.

Do western, o filme traz a ideia de desbravamento de um território inóspito e dos laços, de confronto ou companheirismo, que se estabelecem entre os homens que o empreendem.

Do policial, vem a própria trama sobre a investigação de um crime, em que um grupo formado por policiais, soldados, um promotor e um médico leva dois suspeitos de assassinato para localizar o cadáver da vítima.

Mas não espere nada parecido à série “CSI”, àquela rotina de causa e consequência, de crime e castigo. Ceylan não está interessado em descobrir culpados ou motivações. Ele pretende apenas revelar os dramas individuais daqueles homens em meio a procedimentos policiais descritos com a frieza de um BO. O cineasta tampouco parece disposto a seguir o ritmo acelerado típico de hollywood; seu policial é rarefeito, lento e longo (são mais de duas horas e meia de duração), com poucos diálogos e ainda menos ação.

Se em sua obra anterior (“Uzak”, “Climas”, “3 Macacos”, entre outros), Ceylan parecia destinado a empregar seu talento visual em filmes cada vez mais afetados e maneiristas, em “Era uma Vez na Anatólia” ele reaproxima seu cinema do essencial.

“Era uma Vez na Anatólia”: terça-feira, às 15h50, no Reserva Cultural. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/10/2011 - 07:58

Magia de Naomi Kawase não se repete em “Hanezu”

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Se fosse possível resumir o cinema da japonesa Naomi Kawase a uma única palavra – correndo o risco de um reducionismo vulgar -, essa palavra seria “mistério”. Cada uma das imagens de seus filmes, em especial os de ficção, parece envolta nessa bruma do inexplicável, do indecifrável. O real é visto como milagre; a natureza, como espelho e abrigo da aventura humana; o cinema, como experiência metafísica, transcendente.

Como mostrou uma recente retrospectiva no festival Indie em São Paulo, a capacidade para depurar, filme após filme, uma visão do mundo e um estilo de cinema muito particulares a levaram a criar uma das obras mais interessantes e originais da atualidade, com destaque para os excepcionais “Shara” (2003) e “Floresta dos Lamentos” (2007).

Mas seu novo filme – que a Mostra de São Paulo exibe em quatro sessões, a partir deste sábado -, traz um mistério de outra ordem: por que os elementos que marcam a obra de Kawase não surtem o mesmo efeito quando repetidos e reelaborados em “Hanezu”? Talvez porque o mistério do filme seja mais decifrável, talvez porque a poética de seu estilo soe mecânica pela primeira vez em sua obra.

“Hanezu” se passa na região de Asuka, considerado o berço do Japão. Como diz uma narração em off no início do filme, ali foi criada uma lenda de que os deuses vivem em três montes, Unebi, Miminashi e Kagu – dois deles masculinos em luta pelo amor do feminino. No presente, essa lenda se reflete, como um carma, na vida de três habitantes da região: uma mulher dividida entre o marido e o amante que fica grávida e determina um fim trágico para o triângulo amoroso.

Embora a beleza do estilo sensorial e contemplativo de Kawase esteja novamente presente em “Hanezu”, a magia parece nunca se concretizar aqui. Porque o paralelo entre natureza e homem, passado e presente, mito e realidade está explícito desde o princípio. Porque um momento de desespero da protagonista é sucedido por imagens de uma tempestade. Ou, ainda, por uma razão que tem algo a ver com a subjetividade do crítico. Uma razão misteriosa.

“Hanezu”: hoje, às 14h, no Unibanco Arteplex; dias 23, às 15h20, no Cine Livraria Cultura; dia 25, às 14h, no Reserva Cultural; dia 28, às 15h, na Faap. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/10/2011 - 12:00

Dardennes acertam em novo melodrama minimalista

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Olhe o pôster aí do lado. Se os nomes de Jean-Pierre e Luc Dardenne não estivessem em destaque, você nunca diria que se trata do novo filme dos irmãos belgas. Eles são conhecidos por estudos de personagens com profundas feridas emocionais causadas por uma família disfuncional, histórias ambientadas nas classes baixas da Bélgica, filmadas em chave realista com grande rigor estético. Obras excepcionais como “Rosetta”, “A Criança” ou “O Silêncio de Lorna”.

Mas o pôster de “O Garoto de Bicicleta”, que abriu ontem a Mostra de São Paulo e terá outra exibição na próxima segunda-feira, indica um filme solar, leve, esperançoso. Talvez sobre a relação maternal entre uma linda mulher (Cecile de France) e seu filho (Thomas Doret). Na verdade, é apenas um momento feliz em uma relação tumultada, com muitos baixos e poucos altos, entre um garoto de 11 anos que foi abandonado pelo pai em um abrigo de crianças e uma cabeleireira que aceita cuidar dele nos finais de semana.

A imagem do pôster é praticamente um spoiler do filme - que eu só confirmo aqui porque está em todas as críticas desde que o trabalho foi lançado em Cannes. “O Garoto da Bicicleta” não é um Dardenne alegre, mais livre e menos rigoroso. É um Dardenne clássico, com todas as marcas que fizeram a fama dos irmãos belgas. A grande virtude do filme não é abrir as portas da esperança ao final, mas conseguir criar uma obra de grande frescor sobre o perdão e a compaixão trabalhando com os mesmos elementos essenciais de sempre; conseguir despertar a emoção do espectador sem recorrer ao sentimentalismo. Mais um belo melodrama minimalista de dois autores fundamentais.

“O Garoto da Bicicleta”: dia 24/10, às 21h50, no Reserva Cultural. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/10/2011 - 11:29

Minhas dez apostas para a Mostra

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Ainda que a maratona da Mostra de Cinema de São Paulo tenha sido encurtada consideravelmente neste ano, com a decisão de trazer apenas filmes estrangeiros inéditos, a tarefa do cinéfilo de escolher suas apostas continua árdua.

Abaixo, eu listo os dez filmes estrangeiros contemporâneos que irei priorizar durante o evento, que começa hoje com a exibição de “O Garoto de Bicicleta”, dos irmãos Dardenne. Nas próximas duas semanas, acompanhe a cobertura aqui e no especial do iG sobre a Mostra.

“The Day He Arrives”
Desprezado por nosso circuito comercial, o sul-coreano Hong Sang-soo tem influências de Woody Allen e Eric Rohmer, mas consegue sempre um olhar original para as relações humanas, desta vez focado na amizade entre um professor e um crítico de cinema.

“Era uma vez na Anatólia”
Mesmo quem não gostou de “3 Macacos”, o filme anterior de Nuri Bilge Ceylan, tirou o chapeu para esse novo trabalho do cineasta turco sobre um grupo de homens procurando o corpo de um morto nas estepes da Anatólia, que ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes.

“Sorelle Mai”
Um dos mestres do cinema contemporâneo, o italiano Marco Bellochio (“Vincere”) realiza um trabalho ao mesmo tempo íntimo e experimental, escalando os membros de sua família como atores para reencenar dramas reais e utilizando imagens colhidas ao longo de dez anos.

“Cisne”
Da sempre interessante cineasta portuguesa Teresa Villaverde (“Os Mutantes”), a Mostra traz este filme sobre uma cantora que regressa a Lisboa depois de uma turnê internacional; como atrativo extra, traz a canção “Nina”, de Chico Buarque, na trilha sonora.

“Hanezu no Tsuki”
Uma retrospectiva recente em São Paulo mostrou por que a japonesa Naomi Kawase é considerada uma das grandes autores do cinema contemporâneo; seu novo filme é um mergulho sensorial na relação dos japoneses com a natureza e no choque entre presente e passado do país.

“Habemus Papam”D
epois de atacar Berlusconi e a política italiana, Nanni Moretti volta suas armas para o papa e a religião, com a história de um cardeal que se recusa a se tornar o sumo pontífice (o grande Michel Piccoli) e que precisa se consultar com um psicanalista (o próprio Moretti).

“Histórias da Insônia”Aos 88 anos, Jonas Mekas, lendário guru do cinema independente nova-iorquino, mostra que frescor não é uma questão de idade, com um filme-diário sobre suas andanças, encontros, conversas e brindes com amigos e familiares em noites insones.

“Project Nim”
O documentário colheu elogios e causou barulho nos EUA resgatando a história de um chimpanzé que foi criado como um bebê humano por uma família na Nova York dos anos 70 – um experimento que revelou mais sobre a natureza humana do que sobre a selvagem.

“Fausto”
Mais do que a chancela do Leão de Ouro do Festival de Veneza, o grande crédito do filme é assinatura do russo Aleksandr Sokurov, um dos cineastas mais inquietos do cinema contemporâneo. Aqui ele fecha sua tetralogia sobre a natureza do poder com um trabalho livremente inspirado no “Fausto” de Goethe.

“O Futuro”
A artista plástica Miranda July se tornou a sensação do cinema independente americano alguns anos atrás com seu filme de estreia, “Eu, Você e Todos Nós”. Apesar de seu segundo longa não ter sido recebido com o mesmo entusiasmo, a curiosidade é grande para saber se seu trabalho pode sobreviver ao hype.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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