05/11/2009 - 23:07
Se não contarmos a repescagem, a Mostra de São Paulo terminou nesta quinta-feira, o que significa que chegou a hora do balanço. O meu dificilmente poderia ser mais positivo. Vi mais bons filmes nessas duas últimas semanas do que em todo o resto do ano.
Para mim, foi uma Mostra ao estilo de Ronaldo em sua atual fase: só indo na boa, sem muita correria, sem desperdício de energia, mas com alta porcentagem de aproveitamento. Dos muitos chutes que dei, a maioria balançou a rede; alguns foram golaços, pouquíssimos erraram o alvo.
De canelada mesmo, só um: “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, filme de despedida de Heath Ledger, que não ficou à altura do talento do ator. No campo do não cheira e nem fede, “Distante Nós Vamos”, tentativa de Sam Mendes (“Beleza Americana”) parecer indie, e o superestimado “À Procura de Eric”, uma Sessão da Tarde à moda socialista de Ken Loach.
Daí em diante, minha lista só tem filmes que vão do bom à obra-prima. Nesta última categoria, estão “Vencer”, épico político que comprova que o italiano Marco Bellochio virou mestre, e “35 Doses de Rum”, em que a francesa Claire Denis mostra que se tornou uma das diretoras essenciais da atualidade.
Dos cineastas consagrados, vieram o delicioso “Singularidades de uma Rapariga Loira”, em que o centenário Manoel de Oliveira revela ainda ter fôlego de garoto, e “Abraços Partidos”, obra menor de Almodóvar, mas ainda assim muito acima da média.
A Mostra nos brindou ainda com os dois melhores filmes até aqui de cineastas que decidiram se arriscar fora de sua zona de conforto: “O Fantástico Sr. Raposo”, belo passeio do americano Wes Anderson pelo mundo da animação, e “Soul Kitchen”, incursão do alemão Fatih Akin pela comédia.
De novos cineastas, duas boas surpresas: “Dente Canino”, fábula de humor nonsense do grego Yorgos Lanthimos, e “Os Famosos e Duendes da Morte”, estreia muito promissora em longas do brasileiro Esmir Filho, diretor do curta “Tapa na Pantera”.
No final das contas, esta edição da Mostra me ajudou a recuperar um tanto da minha fé no cinema, que andava abalada por um ano muito fraco do circuito comercial.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
03/11/2009 - 22:44

É difícil falar de um filme sobre o universo da culinária sem recorrer a algum tipo de clichê: uma obra açucarada ou sem sal, para paladares finos ou de sabores exóticos, com receita bem temperada ou que desandou e assim por diante.
Mais difícil do que escrever a respeito, só mesmo filmar esse universo. O cinema gastronômico é um campo fértil para o estereótipo: a comida como fonte da sensualidade, como celebração do prazer, como bastião da identidade cultural.
Mesmo os filmes mais estimados sobre culinária são vítimas desse problema, como “A Festa de Babette” (1987), “Como Água para Chocolate” (2000), “Chocolate” (2000) e “Simplesmente Martha” (2002). E a grande virtude de uma animação como “Ratatouille” (2007) é justamente saber trabalhar bem com os clichês. É uma sina parecida com a do futebol: o cinema ainda não gerou produtos à altura do tema.
Nesse cenário, “Soul Kitchen” – que será exibido pela Mostra nesta quarta-feira, às 14h50, no Arteplex – é uma bem-vinda exceção. Uma rara comédia alemã que nos faz rir, dirigida por Fatih Akin, mais conhecido por seus dramas pesados (“Contra a Corrente”, “Do Outro Lado”). Um filme rock and roll sobre comida, estrelado por homens rudes e mulheres bravas.
O protagonista é o grego Zinos (Adam Bousdoukos), proprietário de um pé-sujo chamado Soul Kitchen, localizado em uma região decadente de Hamburgo. Ele está em uma fase negra: sua namorada decide morar um tempo em Xangai; seu irmão presidiário pede um emprego de fachada no restaurante para poder entrar em regime semi-aberto; um antigo amigo que virou corretor tenta sabotar o restaurante para comprá-lo por um preço baixo; e ele tem um problema nas costas que o impede de continuar cozinhando. A solução é contratar Shayn (Birol Ünel, de “Contra a Parede”), chef talentoso, mas totalmente casca-grossa, que ofende clientes e atira facas no dono do restaurante.
Shayn não lembra nenhum cozinheiro do cinema. Mas remete a chefs de programas de TV, como o escocês Gordan Ramsay (“Hell’s Kitchen”), e de livros, como o americano Anthony Bourdain (“Cozinha Confidencial”). Graças a ele, “Soul Kitchen” liberta o cinema de algumas das principais armadilhas dos filmes culinários, daquela velha combinação de elitismo e sentimentalismo, de frescura e convenção. Para não fugir ao clichê, um filme deveras saboroso.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
01/11/2009 - 21:44

Se você ainda não viu “A Vila” (2004), de M. Night Shyamalan, pode parar de ler agora, porque aqui vai um spoiler. Se já viu, sabe que o filme é sobre uma comunidade de pessoas que decide criar seus filhos isolados do resto do mundo, sem que estes saibam o que se passa lá fora.
O grego “Dente Canino” – que ganhou o prêmio de melhor filme na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e será exibido pela Mostra de São Paulo hoje, às 22h, no Cinemark Eldorado - tem trama bastante parecida. Mas, em vez do terror poético criado por Shyamalan, o cineasta Yorgos Lanthimos trata seu tema com um humor absurdo.
Nos arredores de uma grande cidade grega, um casal cria seus três filhos – duas mulheres e um homem, já adultos – totalmente isolados, sem permitir que eles jamais deixem os limites da casa ou que sejam expostos ao mundo externo, via TV ou internet. Os pais ainda dão significados novos para palavras de conotação sexual ou violenta. Zumbis, por exemplo, viram flores pequenas e amarelas. O resultado é que os filhos comportam-se como crianças grandes.
A única pessoa de fora que pode entrar na casa é Christina, segurança da fábrica do pai que de tempos em tempos satisfaz as necessidades do filho. É ela quem traz as influências do mundo exterior, como fitas de “Rocky, o Lutador” e “Flashdance”, que acabam provocando um curto-circuito na cabeça dos filhos.
A princípio, é difícil embarcar no humor nonsense de “Dente Canino”. Mas o filme acaba te ganhando ao final com um par de cenas memoráveis – como aquelas em que as filhas tentam reproduzir as principais cenas dos filmes recém-descobertos. Ao final, a produção grega é um ataque certeiro à educação politicamente correta, à ideia de que é melhor não expor os filhos aos males da linguagem chula e da cultura pop.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
30/10/2009 - 23:49

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, último filme de Heath Ledger e atração da Mostra de São Paulo, é uma tremenda bagunça. E isso não tem nada a ver com o fato de o ator australiano ter morrido antes de concluir sua participação no filme. Pelo contrário, a saída para compensar sua ausência – a utilização de três atores, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, para substituir Ledger em diferentes cenas – foi muito bem sacada e é um dos pontos altos da produção.
O problema de “Dr. Parnassus” é de outra ordem – e é recorrente na obra do diretor Terry Gilliam. Mais uma vez, ele concentra esforços no visual e descuida da narrativa. Já havia acontecido, por exemplo, com “As Aventuras do Barão de Munchhausen” – cuja estética rococó lembra bastante a de seu novo filme.
Dr. Parnassus (Christopher Plummer), dono e atração principal de uma companhia de teatro mambembe, esconde vários segredos. Um deles: por meio de um espelho mágico, é possível a qualquer um entrar dentro de sua imaginação. Outro: em uma aposta, perdeu sua filha (Lily Cole) para o diabo (Tom Waits), e este está prestes a cobrar o pagamento.
A única pessoa que parece capaz de ajudá-lo é um milionário desmemoriado que se integra à trupe, papel de Ledger. As sequencias em que ele é substituído por outros atores são aquelas em que o personagem entra no imaginário do dr. Parnassus. Como o tom dessas cenas é bem diferente das demais, a mudança de atores acaba soando natural.
O último papel de Ledger não está entre seus trabalhos mais memoráveis, como os de “O Segredo de Brokeback Mountain” ou último “Batman”. Mas o problema não é seu, mas da bagunça à sua volta. Gilliam cria um filme com alguns momentos de brilha, mas com uma narrativa frouxa, desconjuntada e monocórdia. Ledger merecia despedida melhor.
“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” será exibido neste sábado, às 21h50, no Unibanco Arteplex, e domingo, às 14h, no Unibanco Pompeia. Para informações sobre as outras exibições, confira o site oficial.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
28/10/2009 - 22:38

Aos 101 anos, Manoel de Oliveira continua um enigma. Os filmes do cineasta português, mais velho diretor em atividade na história do cinema, despertam sempre uma sensação de estranheza. “Singularidades de uma Rapariga Loura”, seu mais novo trabalho, atração da Mostra de São Paulo, não é exceção.
Que pessoas são aquelas que freqüentam o filme? Aliás, são mesmo pessoas ou são fantasmas? A que época elas pertencem, presente ou passado? Por que elas são tão sérias, tão formais? Oliveira as leva minimamente a sério ou só tira onda com elas? Ele fez cinema, teatro ou literatura?
“Singularidades de uma Rapariga Loura” é baseado em um conto de Eça de Queirós. Na história, Macário (Ricardo Trêpa) narra suas desventuras amorosas a uma desconhecida que viaja a seu lado no trem (Leonor Silveira). Contador na empresa de seu tio em Lisboa, ele se apaixona por uma moça loira (Catarina Wallenstein) que vê se abanando com um leque, na janela da casa do outro lado da rua.
Macário a conhece e a pede em casamento. Mas seu tio se opõe, por razões obscuras, e o expulsa de casa. Ele vai até Cabo Verde para juntar dinheiro, perde tudo em um golpe, mas seu tio acaba por recontratá-lo e por aceitar o casamento. Só que aí ele descobre uma certa singularidade da rapariga loura. E, então, a história termina, abruptamente, com uma hora de duração.
À lista de perguntas habituais despertadas pela obra de Oliviera, seu novo filme acrescenta outras mais específicas. Por que Macário decide contar sua história a uam desconhecida? O que faz Macário se apaixonar pela moça loura? Por que o tio é contra o casamento e depois a favor? Por que os personagens se preocupam tanto com as convenções sociais a essa altura do campeonato?
Oliveira continua recobrindo a realidade lusitana com uma leve pátina de ironia, continua se recusando a oferecer respostas prontas – o que só torna o enigma de sua obra mais fascinante. E “Singularidades”, pequeno grande filme, está entre os momentos mais felizes de sua longa carreira. Oliveira pode ter comemorado seu centenário, mas continua trabalhando com o vigor de um rapazote.
“Singularidades uma Rapariga Loura” será exibido nesta sexta-feira, às 22h50, no Reserva Cutural. Para mais informações sobre as outras sessões na Mostra, confira o site oficial.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
27/10/2009 - 10:34

De um lado, o cineasta americano Wes Anderson, idiossincrático cronista do desajuste social, de filmes como “Três é Demais”, “Os Excêntricos Tenembaums”, “A Vida Marinha com Steve Zissou” e “Viagem a Darjeeling”. Do outro, o escritor britânico Roald Dahl, autor de clássicos infantis como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “James e o Pêssego Gigante”.

Como seria o encontro cinematográfico entre esses dois universos tão ricos e tão marcados pela personalidade de seus criadores? Suas qualidades se somariam ou se anulariam? A resposta não poderia ser mais positiva. Com sua última exibição na Mostra marcada para sexta-feira (no Espaço Unibanco, às 19h30), mesmo dia em que estreia nos EUA, “O Fantástico Sr. Raposo” é uma encantadora animação em stop-motion, à qual Wes Anderson conseguiu imprimir todas suas marcas pessoais, sem trair a essência da obra de Dahl. Como Tim Burton em sua versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.
O material ajuda. Os protagonistas de “Fantástico Sr. Raposo” formam uma excêntrica família dominada pelo pai, prato cheio para Anderson. Depois de uma vida dedicada aos assaltos a galinheiros, o galante Sr. Raposo (voz de George Clooney) atende o pedido da Sra. Raposo (Meryl Streep) para sossegar quando esta lhe comunica que está grávida.
Muitos anos mais tarde, já transformado em colunista de jornal e com um desajeitado filho adolescente (Jason Schwartzman), ele se muda para uma árvore em frente aos maiores criadores de galinhas, perus e sidras da Inglaterra. O Sr. Raposo não resiste à tentação e arma um plano para roubar os três.
A questão central de “Fantástico Sr. Raposo’ é o velho confronto entre instinto e razão, entre o ser selvagem e o social. O subtexto “humano” é o conflito masculino entre a vida de predador solteiro e a de provedor casado. Outro tema do filme, ainda mais caro ao cineasta, é a relação entre a figura heroica do pai e a persona insegura, ainda em formação, do filho.
O fato de fazer uma animação protagonizada por raposas não intimida Anderson. Para começar, ele recorre à estética meio “vintage” do stop-motion, que parece mais um antigo desenho de TV do que as modernas animações em 3-D que acostumamos a nos ver no cinema.
A partir daí, o cineasta vai distribuindo suas assinaturas ao longo do filme. Ele chama novamente seus atores-fetiche para dar voz a alguns dos personagens, como Bill Murray, Schwartzman e Owen Wilson. Ele veste os animais com roupas que parecem saída de um brechó. Ele usa uma música dos Rolling Stones na trilha. Ele coloca em cena personagens que parecem anestesiados mesmo diante dos sentimentos mais dilacerantes.
Assim, cada vez que a raposa adolescente surge em crise existencial na tela, nós enxergamos não apenas o personagem criado por Roald Dahl, mas também Jason Schwartzman em “Três é Demais” ou “Viagem a Darjeeling”.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
27/10/2009 - 00:01

Longos planos sem corte. Câmera quase sempre estática. Silêncios intermináveis. Personagens que vagam em busca da própria identidade e que parecem carregar o peso da história sobre as costas. As características essenciais da obra do diretor grego Theo Angelopoulos são quase um “greatest hits” do que muitas pessoas enxergam, para o mal e para o bem, como um “filme de festival”.
Não é à toa, portanto, que ele seja um dos autores preferidos da Mostra de Cinema de São Paulo. Seis dos seus filmes já foram exibidos no evento paulistano, de “A Viagem de Cithera” (1983) a “O Vale dos Lamentos” (2004). Ele ganhou uma retrospectiva completa no 20ª Mostra, em 1996. E, nesta edição, será novamente homenageado com a exibição de 8 de seus 19 filmes.
Agora, pela primeira vez, o cineasta grego marcará presença no evento. Nesta terça-feira, ele participa de um debate logo após a exibição, às 19h30 no Cine Bombril, de seu novo filme, “Trilogia II – A Poeira do Tempo”. Será a cerimônia de casamento, depois de um longo namoro entre a Mostra e Angelopoulos.
O fato de a obra do cineasta grego se encaixar em certos estereótipos do filme de festival não significa que ele seja um arrivista do cinema de arte. Seu trabalho é fruto de um longo processo de depuração, de uma série de questionamentos sobre o papel do cinema.
Ele começa a fazer filmes em 1965, depois de perder, com o golpe militar em seu país, seu emprego como crítico de cinema em um jornal de esquerda. Seus primeiros filmes são paineis históricos e políticos que ainda refletem a crença na primazia do coletivo sobre o individual.
Gradualmente, a história vai para o pano de fundo, e os personagens ganham destaque. Em seus filmes mais recentes e conhecidos – “Paisagem na Neblina” (1988), “Um Olhar a Cada Dia” (1995) e “A Eternidade e um Dia (1998), Palma de Ouro em Cannes – , Angelopoulos submete seus protagonistas a longas viagens físicas e emocionais.
“A Poeira do Tempo”, segundo episódio de uma trilogia sobre as raízes da Grécia no século 20, parece sugerir um encontro entre a fase histórica e a existencial de sua obra. O protagonista (Willem Dafoe) é um cineasta americano de origem grega que decide contar a história de seus ancestrais – que passa por Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e EUA. Ao final, percebe-se que a jornada familiar do cineasta confunde-se com a história do século passado.
Como bom grego, Angelopoulos passou boa parte de sua obra refazendo o mito da “Odisseia”. E acabou transformando a própria carreira em um exemplar acabado de uma grande jornada geográfica e existencial.
Para mais informações sobre a retrospectiva de Theo Angelopoulos, confira o site oficial da Mostra.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
25/10/2009 - 22:05

Pedro Almodóvar é o pior inimigo de Pedro Almodóvar. O cineasta espanhol nos acostumou com um patamar de qualidade tão elevado que temos dificuldade de perdoar seus menores deslizes. Aconteceu com “Má Educação”. E agora, de novo, com “Abraços Partidos”.
Uma das atrações mais concorridas até aqui da Mostra de São Paulo, o filme saiu de mãos abanando no último Festival de Cannes e vem despertando uma certa frustração por onde passa. Injustiça. “Abraços Partidos” pode não estar entre os melhores trabalhos de Almodóvar, mas é uma bela obra, superior a 90% dos filmes em cartaz.
Como “Má Educação”, “Abraços Partidos” é um trabalho mais sombrio e mais seco, com menos elementos tipicamente “almodovarianos”, como o colorido e o humor. É também mais uma homenagem ao filme noir com trama passada no universo do cinema, que soa como um ajuste de contas do cineasta com seu passado.
O protagonista é o diretor Matteo Blanco (Lluís Homar) , que usa o pseudônimo Harry Caine em seus trabalhos de encomenda. A partir de um episódio traumático de sua vida, ele fica cego, desiste de seu trabalho autoral e decide se identificar apenas com o pseudônimo.
Em uma série de flashbacks, o episódio vai sendo esclarecido aos poucos e logo fica claro que tudo está ligado à paixão por Lena (Penélope Cruz), amante de um homem poderoso que se torna protagonista de um filme de Matteo.
Por uma hora e meia, Almodóvar parece estar na sua melhor forma, intercalando os dois tempos do filme com maestria, renovando clichês de gêneros como o suspense e o melodrama, criando um punhado de cenas memoráveis. Mas a coisa desanda na última meia hora. Almodóvar parece que não sabe muito bem como concluir seu filme, a ode final ao cinema soa um tanto frouxa e artificial.
O protagonista de “Abraços Partidos” é um autor em crise, um homem que renega seu passado de cineasta. Um tanto do drama do personagem passou para Almodóvar: “Abraços Partidos” é um filme de crise, um trabalho de um cineasta que não está totalmente seguro de suas decisões, que não está confortável na própria pele.
Essa é a má notícia. A boa é que Almodóvar não está acomodado. Ele não quis fazer mais uma vez a aposta segura de um filme “almodovariano” – como era “Volver”, um trabalho superior, mas menos arriscado.
“Abraços Partidos” pode até gerar alguma decepção, apenas porque se trata de um Almodóvar. Mas deixa a esperança de um novo e frutífero caminho na obra de um enorme cineasta.
A Mostra exibe “Abraços Partidos” nesta segunda-feira, às 18h45, no Cinesesc, e na sexta-feira, às 18h20, no Reserva Cultural. Para mais informações, confira o site oficial.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
23/10/2009 - 23:40

Escolher filmes da Mostra não é como apostar na MegaSena, puro exercício de sorte. Tem mais a ver com apostar na Loteria Esportiva: você conhece o retrospecto dos times e, portanto, tem mais probabilidades de acertar o desfecho de cada partida. Mas as chances de errar, claro, são sempre consideráveis.
A Mostra começou para mim como um bilhete premiado. Até aqui, foram várias apostar acertadas, incluindo o primeiro filme que eu vi nesta edição. Posso dizer sem medo de me enganhar: “35 Doses de Rum”, da francesa Claire Denis, é uma obra-prima – um termo que não gasto à toa.
Ex-assistente de Wim Wenders, diretora de grandes filmes como “Beau Travail” (1999) e “Desejo e Obsessão”, Denis é uma das mais fascinantes autoras do cinema contemporâneo – embora os brasileiros conheçam pouco sua obra, visto que poucos de seus filmes foram lançados em circuito comercial.
Seus filmes costumam oferecer viagens sensoriais poderosas, embaladas por narrativas descontínuas e trilhas sonoras oníricas. “35 Doses de Rum” é assim e é diferente: uma viagem mais plácida, mais linear, mais melancólica, criada sob o signo da delicadeza.
O filme é uma homenagem a Yasujiro Ozu, em particular a “Pai e Filha” (1949). Como no clássico do cineasta e japonês, o novo trabalho de Denis se concentra na relação entre uma jovem e seu pai viúvo, particularmente nos pequenos ritos do cotidiano. No lugar da antiga Tóquio, os subúrbios de Paris hoje.
Ali vivem o condutor de trem Lionel (Alex Descas) e sua filha Josephine (Mati Diop), que se protegem do sofrimento da perda respectivamente da mulher e mãe com uma relação ultraprotetora, que vêem o lar como um abrigo contra as agruras do mundo externo.
As únicas pessoas que eles aceitam em seu pequeno núcleo são os vizinhos Gabrielle (Nicole Dogue), ex-namorada de Lionel, e Noé (Gregoire Colin), apaixonado por Josephine. Ainda assim, eles o mantêm a uma distância segura, como se o afeto alheio pudesse ameaçar a harmonia de pai e filha.
Mas Lionel e Josephine sabem que mais cedo ou mais tarde vão ter que se abrir para o mundo, vão ter que afrouxar os laços que os unem. “35 Doses de Rum” é permeado pela tensão da quebra desse equilíbrio entre os protagonistas, uma tensão expressa não em palavras, mas em pequenos gestos.
Há pelo menos uma sequência antológica no filme, uma cena de dança em um bar, ao som de “Night Shift” dos Commodores, entre Lionel, Josephine, Gabrielle e Noé, em que os complexos sentimentos que unem os quatro são traduzidos apenas em olhares.
Com “35 Doses de Rum”, Claire Denis fez um dos mais belos filmes da história sobre as relações entre pais e filhos e confirmou ser uma mestra do cinema contemporâneo. Seu novo filme não fica devendo à obra de Ozu – e este é o melhor elogio que eu posso lhe dedicar.
“35 Doses de Rum” será exibido neste sábado, às 13h30, no Cinesesc, e domingo, às 22h10, no Cinema da Vila. Para conferir outros dias e locais de exibição, veja o site oficial da Mostra.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
21/10/2009 - 23:37
A julgar pelos seus filmes mais conhecidos, como “Terra e liberdade” (1995) e “O Vento nos Libertará” (2006), o cineasta inglês Ken Loach é daquele tipo que acha que o futebol é o ópio do povo. Socialista de carteirinha, ele dedicou boa parte de sua carreira a dramas sobre a classe operária inglesa ou a épicos sobre a revoluções populares.
Mas, na verdade, Loach é um fanático por futebol, que foi assunto coadjuvante em alguns de seus filmes menos conhecidos. Em “À Procura de Eric”, filme que abre nesta quinta-feira a Mostra de Cinema de São Paulo para convidados (mais informações no site oficial), o esporte é elevado a protagonista.
O Eric do título é Eric Cantona, o rebelde jogador francês que foi um dos grandes ídolos do time inglês Manchester United. Cantona é o grande heroi de outro Eric (Steve Avets), um carteiro em crise existencial, com problemas como o envolvimento de um enteado com uma gangue local e a dificuldade para se reaproximar de seu antigo amor.
Certo dia, quando fuma um baseado, o Eric carteiro recebe a visita imaginária do Eric jogador (interpretado pelo próprio Cantona), e este passa a atuar como conselheiro para resolver seus problemas pessoais. Em meio à história, são mostrados alguns dos melhores lances de Cantona com a camisa do Manchester United.
O resultado é o trabalho mais acessível da obra de Loach, mas ainda assim um típico produto do cineasta inglês, atento aos dramas cotidianos da classe operária e crente em uma solução coletiva para problemas individuais, Por outro lado, trata-se de um filme bastante digno sobre a paixão pelo futebol, que é uma das maiores caveiras de burro da história do cinema.
O mais popular esporte do mundo nunca ganhou um filme de ficção à sua altura. Nem mesmo no Brasil, onde os poucos bons exemplares bem-sucedidos são documentais, como “Futebol”, de João Moreira Salles e Arthur Fontes, “Todos os Corações do Mundo”, de Murilo Salles, e “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade.
“À Procura de Eric” não é o filme que irá saldar a dívida do cinema com o futebol, nem está entre os melhores trabalhos de Loach. Mas é um prazer ver que o cineasta socialista de 72 anos conseguiu valeu-se do esporte para dar um pouco de leveza a sua obra – ao mesmo tempo em que usou sua verve social para emprestar um pouco de gravidade ao tema.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
Voltar ao topo