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23/10/2009 - 23:40

“35 Doses de Rum”, primeira obra-prima da Mostra

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Escolher filmes da Mostra não é como apostar na MegaSena, puro exercício de sorte. Tem mais a ver com apostar na Loteria Esportiva: você conhece o retrospecto dos times e, portanto, tem mais probabilidades de acertar o desfecho de cada partida. Mas as chances de errar, claro, são sempre consideráveis.

selo_mostraA Mostra começou para mim como um bilhete premiado. Até aqui, foram várias apostar acertadas, incluindo o primeiro filme que eu vi nesta edição. Posso dizer sem medo de me enganhar: “35 Doses de Rum”, da francesa Claire Denis, é uma obra-prima – um termo que não gasto à toa.

Ex-assistente de Wim Wenders, diretora de grandes filmes como “Beau Travail” (1999) e “Desejo e Obsessão”, Denis é uma das mais fascinantes autoras do cinema contemporâneo – embora os brasileiros conheçam pouco sua obra, visto que poucos de seus filmes foram lançados em circuito comercial.

Seus filmes costumam oferecer viagens sensoriais poderosas, embaladas por narrativas descontínuas e trilhas sonoras oníricas. “35 Doses de Rum” é assim e é diferente: uma viagem mais plácida, mais linear, mais melancólica, criada sob o signo da delicadeza.

O filme é uma homenagem a Yasujiro Ozu, em particular a “Pai e Filha” (1949). Como no clássico do cineasta e japonês, o novo trabalho de Denis se concentra na relação entre uma jovem e seu pai viúvo, particularmente nos pequenos ritos do cotidiano. No lugar da antiga Tóquio, os subúrbios de Paris hoje.

Ali vivem o condutor de trem Lionel (Alex Descas) e sua filha Josephine (Mati Diop), que se protegem do sofrimento da perda respectivamente da mulher e mãe com uma relação ultraprotetora, que vêem o lar como um abrigo contra as agruras do mundo externo.

As únicas pessoas que eles aceitam em seu pequeno núcleo são os vizinhos Gabrielle (Nicole Dogue), ex-namorada de Lionel, e Noé (Gregoire Colin), apaixonado por Josephine. Ainda assim, eles o mantêm a uma distância segura, como se o afeto alheio pudesse ameaçar a harmonia de pai e filha.

Mas Lionel e Josephine sabem que mais cedo ou mais tarde vão ter que se abrir para o mundo, vão ter que afrouxar os laços que os unem. “35 Doses de Rum” é permeado pela tensão da quebra desse equilíbrio entre os protagonistas, uma tensão expressa não em palavras, mas em pequenos gestos.

Há pelo menos uma sequência antológica no filme, uma cena de dança em um bar, ao som de “Night Shift” dos Commodores, entre Lionel, Josephine, Gabrielle e Noé, em que os complexos sentimentos que unem os quatro são traduzidos apenas em olhares.

Com “35 Doses de Rum”, Claire Denis fez um dos mais belos filmes da história sobre as relações entre pais e filhos e confirmou ser uma mestra do cinema contemporâneo. Seu novo filme não fica devendo à obra de Ozu – e este é o melhor elogio que eu posso lhe dedicar.

“35 Doses de Rum” será exibido neste sábado, às 13h30, no Cinesesc, e domingo, às 22h10, no Cinema da Vila. Para conferir outros dias e locais de exibição, veja o site oficial da Mostra.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/10/2009 - 23:37

Mostra começa com raro filme digno sobre futebol

selo_mostraA julgar pelos seus filmes mais conhecidos, como “Terra e liberdade” (1995) e “O Vento nos Libertará” (2006), o cineasta inglês Ken Loach é daquele tipo que acha que o futebol é o ópio do povo. Socialista de carteirinha, ele dedicou boa parte de sua carreira a dramas sobre a classe operária inglesa ou a épicos sobre a revoluções populares.

Mas, na verdade, Loach é um fanático por futebol, que foi assunto coadjuvante em alguns de seus filmes menos conhecidos. Em “À Procura de Eric”, filme que abre nesta quinta-feira a Mostra de Cinema de São Paulo para convidados (mais informações no site oficial), o esporte é elevado a protagonista.

O Eric do título é Eric Cantona, o rebelde jogador francês que foi um dos grandes ídolos do time inglês Manchester United. Cantona é o grande heroi de outro Eric (Steve Avets), um carteiro em crise existencial, com problemas como o envolvimento de um enteado com uma gangue local e a dificuldade para se reaproximar de seu antigo amor.

Certo dia, quando fuma um baseado, o Eric carteiro recebe a visita imaginária do Eric jogador (interpretado pelo próprio Cantona), e este passa a atuar como conselheiro para resolver seus problemas pessoais. Em meio à história, são mostrados alguns dos melhores lances de Cantona com a camisa do Manchester United.

O resultado é o trabalho mais acessível da obra de Loach, mas ainda assim um típico produto do cineasta inglês, atento aos dramas cotidianos da classe operária e crente em uma solução coletiva para problemas individuais, Por outro lado, trata-se de um filme bastante digno sobre a paixão pelo futebol, que é uma das maiores caveiras de burro da história do cinema.

O mais popular esporte do mundo nunca ganhou um filme de ficção à sua altura. Nem mesmo no Brasil, onde os poucos bons exemplares bem-sucedidos são documentais, como “Futebol”, de João Moreira Salles e Arthur Fontes, “Todos os Corações do Mundo”, de Murilo Salles, e “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade.

“À Procura de Eric” não é o filme que irá saldar a dívida do cinema com o futebol, nem está entre os melhores trabalhos de Loach. Mas é um prazer ver que o cineasta socialista de 72 anos conseguiu valeu-se do esporte para dar um pouco de leveza a sua obra – ao mesmo tempo em que usou sua verve social para emprestar um pouco de gravidade ao tema.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/10/2009 - 16:01

Dez caminhos para percorrer a Mostra

 

Os premiados

O caminho mais curto. Para quem prioriza os filmes já consagrados nos maiores festivais mundiais. De Cannes, vêm “A Fita Branca”, do austríaco Michael Haneke (Palma de Ouro); “Dente Canino”, selo mostrado grego Yorgos Lanthimos (vencedor da mostra Un Certain Regard); “Sanson & Delilah”, do australiano Warwick Thornton (vencedor da Camera D’Or); e “Lost Persons Area”, da belga Caroline Strubbe (melhor filme da Semana da Crítica). De Berlim, “Everyone Else”, do alemão Maren Ade (Urso de Prata), e “London River”, Urso de Prata de melhor ator para Sotigui Kowjaté. De Veneza, “Lebanon”, do israelense Samul Maoz (Leão de Ouro). De Locarno, “Ela, uma Chinesa”, de Xiaolu Guo (Leopardo de Ouro).

As retrospectivas

O caminho vertical. Para quem gosta de se aprofundar na obra de uma só pessoa. Neste ano, são três as opções: o cineasta grego Theo Angelopoulos, dos já conhecidos “Paisagem na Neblina” e “ A Eternidade e um Dia” e do inédito “Dust of Time”; a musa francesa Fanny Ardant, de “A Mulher do Lado” e “De Repente, num Domingo”, que vem apresentar sua estreia na direção, “Cinza Sangue”; e o diretor e produtor italiano Gian Vittorio Baldi, conhecido por suas parcerias com Pier Paolo Pasolini, como “Appunti per un’Orestiade Africana” e “Porcile”.

Os mestres

O caminho garantido. Para quem quer ver o novo trabalho de seus cineastas preferidos. Nesta edição, as opções são fartas: “Singularidades de uma Rapariga Loura”, do português e centenário Manoel de Oliveira; “A Vida é um Romance”, do francês Alain Resnais; “Aquiles e a Tartaruga”, do japonês Takeshi Kitano; “Shirin”, de Abbas Kiarostami; “Carmel” e “A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas”.

Ficções brasileiras

O caminho nacionalista. Para quem aposta no cinema brasileiro. A Mostra vinha perdendo terreno para o Festival do Rio como grande vitrine dos filmes nacionais. Mas a seleção deste ano prova que o evento paulista recuperou o fôlego: “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, diretor do fenômeno “Tapa Na Pantera”, que aliás venceu o Festival do Rio; “Cabeça a Prêmio”, estreia na direção do ator Marco Ricca; “Os Inquilinos”, de Sergio Bianchi; “O Amor Segundo B. Schianberg”, de Beto Brant; “Insolação”, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas; “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes; “Natimorto”, de Paulo Machline.

Docs nacionais

O caminho do real. Para quem quer comprovar a bela fase dos documentários brasileiros, uma bela selação: “Pixo”, de João Wainer; “27 Cenas sobre Jorgen Leth”, de Amir Labaki; “Domingos”, de Maria Ribeiro; “BR-3”, de Evaldo Mocarzel; “Dzi Croquetes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez; “Belair”, de Noa Bressane e Bruno Safadi; “Beyond Ipanema”, de Guto Barra.

Antes da estreia

O caminho dos apressados. Para aqueles que não aguentam esperar a chegada ao circuito comercial de um filme muito aguardado. Anote aí alguns dos filmes que já tem data de estreia marcada: “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee (que deve estrear em 13 de novembro); “500 Dias com Ela”, de Marc Webb (13 de novembro); “Abraços Partidos”, de Pedro Almodovar (20 de novembro); “Julie & Julia”, de Nora Ephron ( 27 de novembro), “Distante Nós Vamos”, de Sam Mendes (18 de dezembro).

As apostas

O caminho arriscado. Para quem gosta de ir ao cinema no escuro, conhecer um diretor do qual nunca viu um filme. As minhas são: “A Religiosa Portuguesa”, de Eugene Green (Portugal); “Amreeka”, de Cherien Dabis (EUA); “Daniel & Ana”, de Michel Franco (México/Espanha); “Eastern Plays”, de Kamen Kalev (Bulgária); “Food Inc.”, de Rebert Kenner (EUA); “Go Get Some Rosemary”, de Joshua e Ben Salfdie (EUA); “Humpday”, de Lynn Shelton (EUA); “Katalin Varga”, de Peter Strickland (Romênia); “La Pivellina”, de Rainer Frimmel e Tizza Covi (Áustria, Itália); “Polytechnique”, de Denis Villeneuve (Canadá); “Sex Volunteer”, de Kyeong-duck Cho (Coreia); “The Misfortunates”, de Felix van Groeningen (Bélgica); “The Wolberg Family”, de Axelle Ropert (França); e “Tsar”, de Pavel Luguin (Rússia).

Os clássicos

O caminho nostálgico. Para quem acha que o cinema já foi bem melhor ou pelo menos tem interessa em conhecer mais sua história, uma oportunidade única de ver em tela grande alguns dos maiores filmes da história. Em diferentes mostras, estão programados: “Inferno”, do francês Henri-Georges Clouzot; “Gabrielle” e “Girl with Hyacinths”, do sueco Hasse Ekman; “Terra em Transe”, de Glauber Rocha; e “O Despertar da Besta”, de José Mojica Marins.

Rebeldes do esporte

O caminho polêmico. Para quem gosta de esporte ou de biografia de figuras idiossincráticas, a Mostra tem três opções excelentes: “À Procura de Eric”, do inglês Ken Loach, estrelado pelo jogador de futebol francês Eric Cantona, no papel dele mesmo; e os documentários “Tyson”, do americano James Toback; “Maradona”, do sérvio Emir Kusturica; “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo”, de Victor Cesar Bota.

Obras-primas

Meu caminho. Para os poucos que confiam no meu gosto, os dois melhores filmes que vi nas sessões de imprensa até aqui foram: “Vencer”, do italiano Marco Bellochio, brilhante cinebiografia da amante de Mussolini; e “35 Doses de Rum”, mais um belíssimo exemplar do cinema impressionista da francesa Clare Denis.

Se você quer mais detalhes sobre os filmes citados e saber quando eles serão exibidos, confira o site oficial da Mostra.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/10/2009 - 16:14

Estou de TPM. Tensão Pré-Mostra

selo mostraEstou de TPM. Tensão Pré-Mostra. Um período fértil e estressante que se repete a cada 12 meses e que se iniciou, para mim, há 23 anos. A Mostra de Cinema de São Paulo só começa oficialmente na próxima quinta-feira (confira o site oficial aqui), mas, como vi um bom punhado de filmes nas sessões para imprensa, os sintomas desencontrados já começaram a me atacar: expectativa, euforia, frustração, cansaço… E eles só tendem a piorar nas próximas duas semanas, até desaparecer repentinamente, para voltar só no ano seguinte.

Tudo, claro, começou na adolescência. Era um garoto tranqüilo, que se contentava apenas com as preliminares: uns filmões hollywoodianos no cinema, um clássico ou outro na TV e no VHS. Então uma garota do colégio, uma coreana irmã mais nova da então organizadora da Mostra, surgiu com uma proposta indecente: ingressos grátis para dois filmes do evento.

Tirei a sorte grande. O primeiro era “Daubainló” (1986), a sensacional comédia de Jim Jarmusch com Roberto Benigni e Tom Waits. O outro era um filme húngaro sem legendas, lentíssimo, do qual não lembro o nome, nem o enredo – quase um clichê do que as pessoas chamam desdenhosamente de “filme da Mostra”. Meus amigos foram embora no meio, mas eu resisti bravamente. Não por abnegação, mas pelo prazer do estranhamento mesmo, que talvez alguns classifiquem como masoquista.

Aquela Mostra serviu para revelar duas coisas fundamentais para o resto da minha vida. Primeiro, que eu seria capaz de gostar de qualquer variação dentro da minha segunda atividade preferida – das mais banais, como um pastelão americano, às mais áridas, como um drama iraniano. Segundo, que eu não estava sozinho. Havia uma irmandade silenciosa de pessoas com as mesmas perversões, que eu iria reencontrar muitas vezes nas filas do evento e que iria crescer ao longo dos anos.

Depois de pouco tempo e centenas de filmes, em mais um lance de sorte, eu já estava cobrindo a Mostra para um grande jornal. Era tudo que eu queria desde a adolescência: ser pago para ver filmes. Foi uma orgia cinematográfica. Coisa de três, quatro vezes por dia. Mas logo ficou claro que eu não estava preparado física e psicologicamente para a tarefa. Meu então editor me passou meu primeiro filé mignon: “O Reino”, série de TV dirigida por Lars von Trier. Eu sabia que eram mais de cinco horas, que eu estava no meu limite, mas naquela época eu não sabia dizer não. Resultado: dormi com meia hora de projeção e fui acordado por meu editor, que havia chegado na metade do filme. Esperei um esporro, ele me pagou uma cerveja. Era um dos meus.

Algumas Mostras depois, fui morar fora de São Paulo. Foram três anos cobrindo o Festival de Nova York, outros cinco no Festival do Rio. A experiência me levou a outra descoberta essencial: as pessoas da minha raça são iguais em qualquer parte do mundo. Um cinéfilo de Perdizes é mais parecido com um cinéfilo nova-iorquino ou carioca do que um não-cinéfilo da Pompeia. A temporada desses festivais era a época em que eu me sentia mais em casa no “exterior”.

De volta a São Paulo há dois anos, eu retornei também à Mostra. Mas o peso da idade bateu. Nada mais de bacanais. Fiquei mais seletivo com os filmes, mais intransigente com as filas, mais desconfiado com os colegas pervertidos. Agora vai ser uma vez por dia, duas com algum esforço. Depois, o negócio é torcer para que a minha menopausa cinematográfica chegue e eu possa atravessar essa época sem TPM.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/10/2009 - 22:43

Nunca houve alienígenas favelados como os de “Distrito 9″

Pense em uma mistura de “Aliens, o Oitavo Passageiro”, “Cidade de Deus” e a série “The Office”. Parece improvável, não? Mas deu certo. O resultado se chama “Distrito 9”, um bizarro encontro entre ficção científica, filme de favela e falso documentário cômico, que estreia nesta sexta-feira no Brasil e tem produção de Peter Jackson (”O Senhor dos Aneis”). De partes díspares de vários filmes, o diretor sul-africano Neill Blomkamp faz uma obra coesa, única, original.

Tudo começa como uma falsa reportagem sobre a chegada de uma nave alienígena a Johannesburgo, na África do Sul. Subnutridos e submissos, os ETs são instalados pelo governo em um campo de refugiados, que logo se transforma em uma enorme favela. Maltratados pela polícia e por gangues locais, eles começam a promover protestos e assustam a população. Uma corporação é convocada para remover favela a um local distante e encarrega um de seus funcionários da tarefa. Mas esse empregado é contaminado pelos aliens e aos poucos se torna um deles.

A metáfora com o apartheid sul-africano é bastante óbvia, a trama vai perdendo um pouco de fôlego na segunda metade, mas a premissa do filme é forte o suficiente para ver chegar com prazer até o final. Não se deve esperar uma reflexão muito profunda sobre preconceito. Blomkamp não é George Romero, que fez grande crítica social no terror de “A Noite dos Mortos Vivos” (1968). Mas pode ter certeza que esta é a melhor alegoria sobre alienígenas favelados da história do cinema. O fato de ser também a única é apenas um detalhe.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/10/2009 - 22:04

Vale a pena viver para ver os filmes de Tarantino

Há quem ache que vale a pena viver para acompanhar os filhos crescendo. Outros querem continuar vivos para ver as próximas Copas do Mundo. Os dois motivos me parecem justíssimos, e eu me confraternizo com a maioria das pessoas nesse desejo.

Mas eu acrescentaria à minha lista mais uma razão fundamental para permanecer sobre a Terra nos próximos anos: assistir aos filmes de Tarantino. É um privilégio pensar que eu ainda verei um punhado de filmes inéditos do cineasta nesta encarnação – se o mundo não acabar, se a vida permitir, claro.

Depois de rever “Kill Bill 2” na TV e ver “Bastardos Inglórios”, duas obras-primas no espaço de uma semana, cheguei a uma conclusão talvez tardia, mas definitiva: Tarantino é meu cineasta de estimação. E acho que não estou sozinho nessa escolha.

Seria possível marcar as várias fases da minha vida adulta com os os filmes de Tarantino: revelação (“Cães de Aluguel”), deslumbramento (“Pulp Fiction”), desconfiança (“Jackie Brown”), desilusão (“Kill Bill 1”), conciliação (“Kill Bill 2”), maturidade (“Bastardos Inglórios”).

Tarantino é o diretor que mais se aproxima da minha visão de mundo: uma atitude desconfiada em relação às pessoas, uma crença inabalável nos filmes. E “Bastardos Inglórios” é sua maior profissão de fé no cinema como local de resistência, com sua história de perseguidos do nazismo que planejam um atentado contra Hitler em uma sala de Paris.

Tarantino é também, e agora me arrisco a falar não apenas por mim, o cineasta que melhor traduz o modus operandi de uma geração, com sua obra baseada no conceito de remixagem de influências para criar um produto original.

“Bastardos Inglórios” é o ponto mais maduro desse processo, uma sucessão de cenas brilhantes que remete a tantos outras da história do cinema, mas é, ao mesmo tempo, puro, clássico, inegável Tarantino.

A maturidade do cineasta, graças a Deus, não tem nada de sisuda, circunspecta. Pelo contrário, é uma celebração irreverente e iconoclasta do prazer de fazer filmes, de estar vivo.

O que me leva de volta ao início deste texto: se Tarantino fez 7 longas em seus primeiros 17 anos de carreira e se eu espero viver mais umas quatro décadas, acho que devo ver mais 15 filmes do meu cineasta de estimação. Vale a pena insistir.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/10/2009 - 21:44

“Viver a Vida” passa por processo de gloriaperização

O pessoal reclamava que todo mundo saía dançando à toa em “Caminho das Índias”. E dizia que a aquela pouca vergonha tinha data para acabar, que as coisas iam mudar quando chegasse a novela do Manoel Carlos. E não é que eu ligo a TV duas vezes em “Viver a Vida”, e os personagens estão dançando salsa na sala de casa? Empregada, patrão, drunkoréxica, filha da Vera Fischer, gêmeo malvado… todo mundo se acabando na mansão, como se não houvesse amanhã. Sem falar que estpa pintando uma ponte aérea Búzios-Paris sem escalas. Será que Maneco está passando por um processo de gloriaperização?

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/10/2009 - 22:21

Nós, do Terceiro Mundo, somos todos iguais

O jornalista Peter Bradshaw, do jornal britânico “The Guardian”, foi ao Rio para cobrir o festival de cinema. E acabou nas areias de Copacabana durante a comemoração da vitória da candidatura brasileira às Olimpíadas de 2016. No texto que escreveu para o blog do jornal, há uma comparação curiosa: “Um amigo brasileiro que trabalha com cinema explodiu de alegria: ‘É como ‘Quem Quer Ser um Milionário’ ganhando o Oscar’.”

É impressão minha ou a comparação carrega um preconceito ou pelo menos uma certa condescendência? Algo na linha: esses terceiro-mundistas deslumbrados fazem festa para qualquer coisa. Tudo bem, a comparação foi feita por um brasileiro, mas endossada pelo inglês.

Ou será que, na verdade, o preconceito é meu, ao me sentir incomodado com a comparação com os indianos que comemoraram o Oscar?

O texto continua assim: “Num país do Primeiro Mundo, o medo tradicional é que a chegada das Olimpíadas seja uma senha para o desperdício, o caos e outros problemas. Mas tal cinismo é evidentemente uma das muitas coisas que o Rio de Janeiro não se permite.”

Se tivesse lido a imprensa brasileira no dia seguinte ao anúncio, Bradshaw teria visto que os brasileiros têm o mesmo tipo de preocupação.

Na mesma nota do blog, há a confirmação de uma boa notícia: existem boas chances de que Woody Allen realize um filme no Rio, ou em São Paulo, no futuro próximo. A irmã e produtora do cineasta, Letty Aronson, está aqui justamente para discutir essa possibilidade.

Bom… eu estava criticando a comparação com os indianos que comemoraram o Oscar e lá vou eu festejar o Woody Allen filmando no Brasil. Bradshaw tem razão: somos mesmos uns terceiro-mundistas deslumbrados.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/10/2009 - 22:59

“Terror na Antártida” desperdiça ideia fantástica

O escuro sempre foi o melhor amigo do filme de terror. Não existe um psicopata, um monstro, um animal que consigam ser mais assustadores que uma tela preta e um grito de medo.

“Terror na Antártida”, que estreou no Brasil nesta sexta-feira, tinha um ponto de partida sensacional: um filme de horror em que o negrume é substituído pela branquidão, em que a “cegueira” do espectador é provocada não pela noite, mas por uma tempestade de neve que preenche de branco a tela.

Baseado na graphic novel de Greg Rucka e Steve Lieber, o filme começa com a descoberta do primeiro assassinato na Antártica. Quem irá investigá-lo é a agente federal interpretada por Kate Beckinsale, que estava prestes a deixar o continente gelado antes do inverno, que torna a região inabitável. Mas, para usar um trocadilho besta, o crime é apenas a ponta do iceberg.

Nas mãos de um cineasta criativo, que soubesse explorar o cenário para criar suspense, “Terror na Antártida” poderia ser um grande filme. Mas ele foi cair no colo do limitado Dominic Sena (“60 Segundos”, “A Senha”). O roteiro também não ajuda muito. Com 5 minutos de filme, é possível identificar o assassino, sem muito medo de errar. Por fim, existe a atuação preguiçosa de Beckinsale, recém-eleita mulher mais sexy do mundo, que é tão convincente como uma agente federal quanto Vera Fischer seria no papel de Madre Teresa de Calcutá.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/10/2009 - 00:06

“Salve Geral” tenta explicar um país inexplicável

“Salve Geral” foi acusado por alguns críticos de fazer apologia do PCC. Para outros, “Tropa de Elite” era fascista. Já “Cidade de Deus”, “Ônibus 174” e “O Prisioneiro da Grade de Ferro” tomavam o partido dos marginais. A crítica de cinema foi substituída pelo julgamento ideológico. Não se discute mais os filmes, mas a suposta posição política dos diretores.

No caso de “Salve Geral”, filme que estreia nesta sexta-feira e que foi escolhido como candidato brasileiro a uma vaga no Oscar de produção estrangeira, o problema não é tomar uma posição a favor do PCC. Mas não ter um ponto de vista muito claro.

“Tropa de Elite” não era um filme fascista. Mas era uma tentativa de mostrar a violência pelo olhar da polícia. Já em “Salve Geral”, o foco nunca se define. Ora se trata de um filme sobre a relação de uma mãe (Andréa Beltrão) com seu filho (Lee Thalor) preso. Ora sobre a amizade dela com uma advogada do PCC (Denise Weinberg) ou sobre sua paixão pelo líder da organização. Ou ainda um filme sobre o funcionamento interno do PCC, sobre a briga contra o poder que levou ao fatídico dia em que seus integrantes aterrorizaram São Paulo em 2006.

O filme de Sergio Rezende quer dar conta de tudo isso ao mesmo tempo, do drama materno e da questão da segurança pública, de um romance improvável e da falência do sistema carcerário… E, claro, acaba não dando conta completamente de nenhum desses filmes dentro do filme. “Salve Geral” é vítima daquela velha mania do cinema brasileiro de querer explicar um país inexplicável.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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