O site Slash Film tem a prova definitiva da falta de originalidade de Hollywood nos últimos anos. A partir de uma lista da Wikipedia com os filmes de maior bilheteria desta década até aqui, eles chegaram à seguinte conclusão: apenas duas das 30 produções de maior sucesso dos últimos anos eram de material 100% original – ou seja, não eram remakes de filmes ou adaptações de livros, programas de TV, atrações da Disneylândia e assim por diante. Sâo elas: “Procurando Nemo” (15 lugar na lista) e “Kung Fu Panda” (30 lugar).
Se a contagem for estendida às 50 maiores bilheterias, a lista de filmes originais sobre para 9 – sendo 5 deles produzidos pela Pixar. O que confirma outra tese sobre Hollywood: a produtora de desenhos é hoje a maior reserva de originalidade de Hollywood.
Quer ainda outra prova da previsibilidade de Hollywood? O mesmo site traz outra contagem reveladora: dos indicados ao Oscar de melhor filme desta década, apenas oito são trabalhos originais.
O cineasta Carlos Reichenbach (”Falsa Loura”, “Bens Confiscados”, “Garotas do ABC”, para ficar nos mais recentes) andou vendo “Viver a Vida” acidentalmente e soltou algumas frases impagáveis sobre a novela em seu blog:
“Depois de duas semanas, ficou impossível conter a angústia e a perplexidade que me incomodavam. Desabafei com Lygia, minha mulher: ‘Tô ficando louco ou nessa sua novela que você assiste com tanto interesse (e que, aparentemente, dá uma audiência danada) não acontece nada?’.”
“Cáspite, será que a franquia “Gente Como a Gente” não acaba nunca?”
“Leio pasmo a mídia saudando com adjetivos superlativos o naturalismo tacanho de uma atriz/personagem que previu o acidente da filha. Devo estar ficando insensível porque não vi nada demais (a não ser o uso irritante da música de efeito).”
“Se há algum ponto alto a destacar no elenco é – sem nenhuma dúvida – o esforço hercúleo da atriz principal Thaís Araújo em extrair dignidade de seu personagem inócuo. Aliás, se há uma atriz no país que vem afinando seu talento e sensibilidade (ano após ano) é esta moça.”
“Ainda a respeito do ritmo YANNI (leia-se ‘chove não molha’) da trama, esse mesma enorme audiência da novela das oito me pareceu preparadíssima para degustar qualquer Tarkóvski no Tela Quente das segundas feiras. Quem diria: o minimalismo chegou à novela das oito!”
Ele vai me odiar pela sugestão. Mas seria ótimo se Carlão, que escreve sobre cineam como poucos, se tornasse também crítico de novela. Nós, leitores, agradeceríamos muito.
Depois de “4 Anos, 3 Meses, 2 Dias”, “Como Festejei o Fim do Mundo”, “A Leste de Bucareste” e “A Morte do Sr. Lazarescu”, mais um pequeno grande filme romeno chega ao Brasil. “Polícia, Adjetivo”, de Corneliu Porumboiu, tem muitas das características associadas frequentemente com aquela cinematografia: o realismo seco, pontuado por um senso de humor ácido; os longos e estáticos planos; a investigação da herança maldita da ditadura Ceausescu.
No caso de “Polícia, Adjetivo”, essa herança se manifesta na atuação burocrática e autoritária da força policial. Contra ela, se insurge silenciosamente o policial Cristi (Dragos Bucur). Ele é designado para investigar uma denúncia contra um adolescente que fuma haxixe e oferece a droga com frequência a dois amigos. Na Romênia, é o suficiente para levá-lo à cadeia.
Cristi passa oito dias seguindo o jovem, buscando provas para inocentá-lo e pedindo mais tempo a seus superiores para que possa encontrar os traficantes. Ele argumenta que a prisão arruinaria a vida do adolescente e que a Romênia irá se adaptar em breve à legislação da União Europeia, que não prevê punição aos consumidores.
O conflito do filme é esse impasse entre a Romênia do passado e a do futuro, que deixa o protagonista imobilizado do país do presente. É um conflito passado nas entrelinhas, em um filme dedicado mais à reflexão do que à ação, interessado mais nos substantivos do que nos verbos. Em um certo sentido, é um anti-filme policial, que mostra uma investigação como um processo tedioso e arbritrário.
Para se ter uma ideia, o clímax é uma discussão semântica entre Cristi e seu chefe, sobre palavras como consciência, lei, moral e policial. È uma sequencia simples, construída com o mínimo de recursos, e ao mesmo tempo extremamente complexa, por tudo que revela sobre o teatro absurdo do poder.
A ideia do The Auteurs, um dos meus sites de cinema preferidos atualmente, é fantástica. Uma Copa do Mundo de filmes, com disputas entre diferentes cinematografias. O modelo adotado é o mesmo do mundial de futebol: 32 países, divididos em 8 grupos de 4 na primeira fase; os dois primeiros colocados de cada grupo vão às oitavas de final; aí começam os mata-matas, que vão até a finalíssima.
Cada partida entre dois países é um embate entre três filmes, escolhidos por “técnicos” ligados ao fórum do site. O The Auteurs anuncia os filmes, dá um tempo para que seus leitores assistam a cada um deles e depois votem em seus preferidos em cada disputa. O objetivo é estimular os participantes do fórum a ver filmes pouco conhecidos de cinematografias variadas.
Até aí, tudo bem. Agora vai a má notícia para os ufanistas: o Brasil foi desclassificado logo na primeira fase. Mas nós demos azar: caímos no “grupo da morte”, composto ainda por Alemanha, Espanha e Canadá. Foram três jogos e três derrotas. Aí vão os resultados de cada partida:
Canadá 2 x Brasil 1
(”Terra em Transe” ganhou de “Spider” por 11 a 3; “Lavoura Arcaica” perdeu de “Calendar” por 4 a 5; “Pixote” perdeu de “Léolo” por 5 a 7)
Alemanha 3 x Brasil 0
(”Cidade de Deus” perdeu de “Ninotchka” por 6 a 13; “O Beijo da Mulher Aranha” perdeu de “Tabu” por 6 a 10; “Como era Gostoso o meu Francês” perdeu de “Asas do Desejo” por 5 a 7)
Espanha 2 x Brasil 1
(”Vidas Secas” ganhou de “Lúcia e o Sexo” por 10 a 4; “Deus e o Diabo na Terra do Sol” perdeu do “Cria Cuervos” por 7 a 11; “Carandiru” perdeu para “Um Cão Andaluz” por 3 a 10)
Como se vê, o pior jogador brasileiro foi Hector Babenco, cujos filmes apanharam nas três disputas de que participou. Mas a participação do Brasil não chega a ser uma vergonha. Com toda sua tradição, os Estados Unidos também dançaram na primeira fase.
O que menos importa no projeto do The Auteurs é a vitória ou a derrota. Todos as cinematografias saem ganhando, porque seus filmes são vistos e debatidos por mais espectadores. É uma das ideias mais interessantes que vi nos últimos tempos para estimular as pessoas a ir atrás de obras pouco conhecidas. Se dez estrangeiros se dispuseram a ver “Vidas ou Secas” ou “Deus e o Diabo na Terra do Sol” por conta da Copa do Mundo, a participação brasileira já valeu a pena.
Para quem está interessado em saber quais são os 16 países que chegaram às oitavas de final, clique aqui para conferir a tabela do The Auteurs.
“Fama” (1980), de Alan Parker, foi o primeiro musical a que assisti, ainda no começo da adolescência. Mesmo sabendo hoje que não se trata de um grande filme, ainda guardo por ele algum carinho, por ter me apresentado a um gênero novo. Só muito tempo depois eu descobriria que “Fama” era apontado justamente como um dos principais sintomas da decadência do musical.
Apesar de não ter muitas expectativas, a decepção com o remake que estreou na semana passada foi inevitável. O novo “Fama”, dirigido por Kevin Tancharoen, passou por um processo de higienização.
Grosso modo, foi mantida a história original, sobre a luta de um grupo de jovens para entrar e se formar numa escola de artes performáticas de Nova York e encontrar um lugar ao sol na indústria cultural americana. Mas todas as partes adultas e sujas foram eliminadas.
Ainda existe um personagem gay, mas ele nunca sai do armário. Ainda há um assédio sexual, mas, tal como mostrado, ele parece uma brincadeira de criança. Ainda há jovens com problemas sociais – desta vez, nada a ver com drogas e gangues; é só o papai e a mamãe que não querem que eles cantem e dancem.
É um “Fama” que parece mais o “Fama” da Angélica do que o “Fama” do Alan Parker. Feito para espectadores de “High School Musical” ou do “American Idol”. Com personagens que cantam com a vozinha de Justin Timberlake ou o vozeirão de Jennifer Hudson.
De certa forma, o novo “Fama” também é um sintoma – não apenas de mais um momento difícil para o musical, como também da infantilização de uma certa produção hollywoodiana.
Em meio a estreias espetaculosas, como “2012″ e “Aconteceu em Woodstock”, a modesta produção espanhola “De Profundis” vai provavelmente passar despercebida. Mas é um filme que merece um pouco de atenção, por ter uma proposta radicalmente artesanal, que remete aos primórdios da animação.
Seu diretor é Miguelanxo Prado, um dos principais ilustradores e autores de graphic novels da Espanha. Ao longo de cinco anos, ele criou 10 mil pinturas e desenhos e uniu-os para criar “De Profundis”. É um filme de enorme beleza, de ritmo lento, de efeito quase hipnótico.
A trama gira em torno da história de amor entre uma violoncelista, que vive em uma casa cercada pela água, e um pintor, que decide embarcar em um navio pesqueiro para melhor desenhar o habitat marinho. Quando o barco naufraga, ele é resgatado por uma sereia e inicia uma jornada mar adentro.
“De Profundis” lembra vagamente a obra do mestre japonês Hayao Miyazaki, em sua construção de um universo onírico particular e em seu método artesanal de produção. Mas o filme de Prado talvez seja ainda mais radical na decisão de priorizar a experiência sensorial do que a narrativa.
Se você gosta de animação, mas quer descansar os olhos da hiperatividade infanto-juvenil da maioria dos desenhos atuais, “De Profundis” é uma bela pedida.
A Criterion Collection é a Bíblia dos selos de DVD. Tem os melhores filmes, os melhores extras, a melhor qualidade de imagem e som. E também as capas mais classudas. Elas são tão emblemáticas, têm um estilo tão particular, que naturalmente viraram alvo de plágios e homenagens. A mais interessante delas surgiu em um fórum do site The Auteurs, em que vários participantes criaram suas capas fake de DVDs do selo. Conseguiram fazer até um “Transformers” à moda Criterion. Minhas preferidas estão aí abaixo.
Pela ordem, “Caché”, “Danton”, “Juventude em Marcha”, “Cidade dos Sonhos”, “Norbit”, “Taxi Driver”, “Transformers”, “Twin Peaks” e “Z”.
Apagão na vida real é uma tragédia. Mas no cinema funciona que é uma beleza. Como eu já disse certa vez, o escuro é o melhor amigo do filme de terror. E o apagão é uma garantia de escuridão total, que não pode ser revogada por um interruptor inconveniente.
O site Homem Etc. fez uma boa seleção de filmes sobre blecautes. Ok, não são obras-primas do cinema. Mas trabalham basicamente essa ideia da pane elétrica como elemento de terror – como num país nada distante.
1) “Where Were You When the Lights Went Out?” (1968)
Estrelado por Doris Day, o filme é sobre o grande apagão americano de 1965. O YouTube desativou a incorporação, mas você pode ver o começo neste link.
2) Efeito Dominó (1996)
Com Elisabeth Shue, Kyle MacLachlan e Dermot Mulroney, o filme mostra como um blecaute leva uma metrópole a uma pane social.
3) “O Verão de Sam” (1999)
Dirigido por Spike Lee, este talvez seja o melhor filme sobre um blecaute real, o de Nova York em 1977. Mas o apagão é apenas o pano de fundo para a história de um serial killer, também real, que assolou a cidade no verão daquele ano.
4) “Blackout” (2007)
Este não está na lista da Homem Etc., tem aquela cara de “direto pra DVD” e é sobre o grande blecaute de 2003, o maior da história americana. No geral, foi um apagão pacífico, mas o bicho pegou no Brookly nova-iorquino, onde se passa a ação.
5) “The Blackout” (2009)
Ainda inédito, o filme com jeitão de produção B mistura blecaute e aliens em um condomínio de uma pequena cidade americana.
6) “Blackouts”
O pessoal do Homem Etc. conseguiu encontrar este curta brasileiro ainda inédito, com quatro histórias que se passam no apagão de 2003 que atingiu a ilha de Santa Catarina.
E aí, esquecemos algum apagão cinematográfico nesta lista?
Ao se assistir a “Besouro”, fica logo claro por que o filme é um fenômeno no YouTube, mas um fracasso como cinema. A produção é feita de alguns bons momentos que duram 30 segundos, 1 minuto, em particular as cenas de lutas. Mas é incapaz de uni-las para formar uma narrativa fluida e coerente. É um filme truncado, desconjuntado, sem jogo de cintura – de certa forma, a antítese de seu assunto, a capoeira.
Seu diretor é João Paulo Tikhomiroff, que já ganhou trocentos Leões de Ouro em Cannes por suas propagandas, mas só agora estreia em um longa de ficção. Esse currículo fica claro ao longo da projeção: é um filme veloz e de fôlego curto, bom para os 100 metros rasos, não para a prova de fundo. Nesse sentido, é um filme que reforça certos preconceitos muito comuns sobre cinema feito por publicitários.
A assessoria de imprensa do filme foi muito competente para vender o filme como um fenômeno da nova era do audiovisual e conseguiu emplacar longas matérias sobre o filme na imprensa. Mas a decepção ao vê-lo na tela grande é quase inevitável. “Besouro” é um triunfo da propaganda, não do cinema.
É crítico de cinema, redator-chefe da revista “Trip” e colaborador da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sobre filmes e outros assuntos para o site NoMínimo, a revista “Bravo” e os jornais “Gazeta Mercantil” e “Jornal da Tarde”, entre outros.