“Confiar” explora horror à pedofilia
Segundo longa-metragem dirigido pelo ator David Schwimmer (mais conhecido como o Ross da série “Friends”), “Confiar” é uma peça de alarmismo disfarçada de drama sóbrio.
A premissa do filme, que estreou na última sexta-feira no Brasil, é pegar um tema da moda, a pedofilia online, e explorar o temor dos pais de terem seus filhos assediados sexualmente pela internet.
Na primeira parte do filme, Annie (Liana Liberato), de 14 anos, conhece em um site de bate-papo Charlie, que se apresenta como um garoto de 16. Enquanto seus pais Will e Lynn (Clive Owen e Catherine Keener) se ocupam com o trabalho e com o filho mais velho que vai para a faculdade, Annie se apaixona virtualmente por Charlie e cede à ideia de conhecê-lo ao vivo. Quando surge diante da garota, Charlie (Chris Henry Coffey) é, na verdade, um homem de 30 e tantos anos. Apesar da hesitação da garota, ele a convence a ir até um hotel, onde a estupra.
A segunda parte do filme se concentra no desmoronamento familiar: a perplexidade da mãe, o desejo de vingança do pai, os sentimentos ambíguos da garota (que, apesar da violência, continua enamorada pelo algoz).
Em geral, Schwimmer tenta abordar o tema difícil com a sobriedade que ele exige. Mas certas cenas traem sua proposta, em especial a do estupro – que não evita uma certa fetichização da imagem da adolescente de calcinha e sutiã, intercalada pelo take de um vibrador.
Há uma linha de raciocínio interessante no filme: Will é um publicitário que cria campanhas que apelam para a erotização de adolescentes; ou seja, apesar de sua revolta com o crime contra sua filha, o pai também daria sua contribuição para a o problema.
Mas essa linha é completamente abandonada no meio do filme. Talvez porque “Confiar” também tenha rabo preso: ao mesmo tempo que explora o horror do abuso de adolescentes, o filme recorre a imagens que, em última instância, poderiam ser classificadas como pedófilas – e acaba se tornando parte do problema que denuncia.
Mas ninguém pedirá a censura de “Confiar”, como ocorreu com “Um Filme Sérvio”, porque a produção americana sabe se disfarçar de drama de “bom gosto”.
