As mulheres definem “Gainsbourg”
Há um mistério em “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres”: o filme tem vários grandes momentos, mas a soma deles não resulta em um grande filme. Embora tenha decidido narrar a vida do compositor francês Serge Gainsbourg em ordem cronológica, o diretor Joann Sfar adotou uma estrutura episódica, em que cada sequência parece ter vida própria, sem ligação imediata com aquela que veio antes ou a que vem depois. É como se fossem vários curtas sobre a vida de Gainsbourg, alguns realistas, outros fantásticos, alguns com atores, outros em animação.
E, como quase todo filme com essa estrutura, existe uma evidente irregularidade entre os episódios. Mas, a meu ver, há uma espécie de padrão nessa instabilidade – um padrão que ajuda a explicar o mistério citado acima. Os episódios mais fortes do filme são aqueles com a presença das mulheres de Gainsbourg. E os mais frágeis, por supuesto, são aqueles em que elas não estão (ainda que o protagonista Eric Elmosnino esteja brilhante): Gainsbourg e a família, Gainsbourg e o antissemitismo, Gainsbourg e seu alter ego sombrio e até mesmo Gainsbourg e a música, um aspecto estranhamento insatisfatório da produção.
Mas o filme brilha sempre que enfoca as relações amorosas de Gainsbourg com mulheres célebres como Juliette Greco, Brigitte Bardot e Jane Birkin. E era uma tarefa difícil, porque permitia a comparação com figuras não apenas muito carismáticas, como ainda muito presentes na memória coletiva de parte dos espectadores. Mas Sfar foi muito feliz na escolha das atrizes – respectivamente, a classuda Anna Mouglalis, a exuberante Laetita Casta e graciosa Lucy Gordon, que infelizmente se matou pouco depois de fazer o filme. E, sobretudo, o cineasta foi muito eficaz ao reinventar o clima desses encontros, entre a insegurança e a malícia, o pavor e o erotismo.
Talvez o gosto por essas partes do filme tenha uma explicação pessoal: Gainsbourg seria o vingador da nossa classe, a dos homens feios, o herói que oferece a outros como ele a possibilidade da fantasia de seduzir as mais belas mulheres. Mas não se pode tirar o mérito de Sfar de capturar a essência do homem que retratou: se Gainsbourg era um homem que amava as mulheres – e, mais do que isso, era um homem definido pelo encontro com elas –, é justo que elas sejam as protagonistas dos melhores momentos de um filme sobre sua vida.
