Não dá para fazer sociologia com o “Big Brother”
No ano passado, Marcelo Dourado ganhou o “BBB 10”, e decretou-se que o Brasil era um país homofóbico e misógino. Já no “BBB 11” que termina amanhã, estão na final um gay, uma garota que pegou fama de ser “de programa” e um garoto que não tem nada de homofóbico – e dizem que o país está mudando, que agora a coisa vai.
Para mim, essa mudança do perfil do vencedor de um ano para outro diz outra coisa: não dá para fazer sociologia a partir do “Big Brother”. Quer dizer, até dá para fazer sociologia de botequim, só não dá para levar a sério.
A divisão dos concorrentes por “tipos” sociais é algo que pode fazer muito sentido para a produção do programa (que precisa de polêmica), para os jornalistas “especializados” em BBB (que, a exemplo do “ex-BBB”, se tornou uma nova categoria profissional e precisa de “notícias”), mas eu me arrisco a afirmar que não tem a mínima importância para a absoluta maioria do público.
Se isso fizesse diferença para os espectadores, não seria possível Dourado ganhar num ano e Daniel estar na final no ano seguinte. Porque só na sociologia de boteco um país muda de um ano para o outro. Se o público votasse em tipos sociais ou em padrões de comportamento, “o gay intelectual” Jean Willys e “o macho alfa” Alemão não seriam premiados pelo mesmo programa, ou “a remediada” Cida e o “mauricinho” Max, ou “o correto” Rodrigo Caubói e “o malandro” Dhomini.
Há outros dados que contam mais que os tipos. Alguns são insondáveis, como o carisma (Daniel tem, Lucival não, Diana tem, Ariadna não, e a sexualidade de cada um deles não tem nada a ver com isso) e o acaso (um candidato pode quase sair num primeiro paredão, mas vencer com folga no último, como aconteceu com Jean no “BBB 5”).
Outro dado me parece possível decifrar: a influência da telenovela, do folhetim no “Big Brother”. Para mim, a explicação do sucesso e da longevidade do “BBB” no Brasil – que é maior do que em qualquer outro país – passa pela capacidade de sua edição transformar aquela massa amorfa de “reality” e de “show” em novelinhas.
Vamos pegar o caso do “BBB 11”: o programa só emplacou a partir do momento em que foram criados ou identificados um triângulo amoroso (entre Maria, Mau Mau e Wesley) e um grupo de vilões (Diogo, Mau Mau e os garotos). Amor e ódio, o bem e o mal – o velho sistema binário do folhetim aplicado ao reality show.
Se houve um movimento que gerou vencedores ao longo da história do “Big Brother Brasil”, foi a união de um grupo contra um indivíduo. Assim Kleber Bam Bam, Dhomini, Jean, Alemão e Dourado ganharam suas edições – porque as telenovelas nos ensinaram a gostar das vítimas, sejam elas caipiras ou cosmopolitas, homossexuais ou homofóbicas.
Se Daniel ganhar nesta terça-feira, não vai ser uma vitória do movimento gay. Se Maria vencer, não vai haver um levante feminista. Se Wesley for o escolhido, não vai ser a consagração do bom-mocismo. Vai ser simplesmente a vitória do Daniel ou da Maria o dos Wesley. Vai ser uma vitória não do tipo, mas do personagem. E, não, não vai ser o “Big Brother” quer nos dirá que o país mudou.
