Tiradentes vira epicentro do cinema de invenção
“Os Residentes”, do mineiro Tiago Mata Machado, foi o grande vencedor da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, levando os prêmios do júri da crítica e do júri jovem como melhor filme da Mostra Aurora.
Em termos relativos, não posso dizer se é uma vitória justa, já que não vi todos os filmes em competição. Em termos absolutos, dá para cravar: “Os Residentes” merece. É um filme sem (quase nenhuma) medida, mas com (um imenso e evidente) talento.
Dá vontade de cortar meia hora de duração, limpar os excessos da trilha sonora. Por outro lado, o filme tem muitos momentos muito fortes, em especial aqueles em que Machado trabalha com poucos elementos, como a longa discussão de um casal. Um homem, uma mulher, um quarto são suficientes para a melhor cena que vi em um longa de ficção brasileiro recente.
Mas a vitória de “Os Residentes” é um detalhe. O que importa mesmo é a confirmação de que existe um futuro para o cinema brasileiro de invenção, ousadia e experimentação; de que a exceção está ficando mais numerosa para se tornar uma alternativa real à regra. E o epicentro desse tremor é aqui, em Tiradentes.
Como eu disse no debate com os realizadores do belo longa cearense “Os Monstros”, eu sempre volto de Tiradentes esperançoso com esse futuro. Dessa vez, não faz mais sentido falar em esperança. É uma realidade concreta, palpável.
Para mim, isso ficou patente no dia em que foram exibidos, na sequência, “Os Residentes”, “Os Monstros” e “Santos Dumont: Pré-Cineasta?”. Era um dia tenso, porque se tratava de três filmes que poderiam ser classificados rapidamente como “difíceis”. Mas os espectadores não desistiram de nenhum deles. Ficaram firmes, aplaudiram ao final. Uma noite que deixou a clara sensação de que houve um momento de comunhão entre público e crítica, entre curadores e realizadores para todos se abrirem ao diferente. Em Tiradentes, não existe mais filme difícil.
Nesta edição específica, houve também a comunhão entre o velho e o novo, entre realizadores e críticos veteranos e iniciantes. Em anos passados, parecia haver uma tensão no ar entre esses dois pólos. Agora ela parece ter se dissipado na busca por um terreno comum. Ok, o relato soa meio hippie. Mas – apesar do stress velado e natural da competição, do encontro de egos – foi assim. Por alguns dias, Tiradentes foi uma pequena Woodstock da cinefilia, com cachaça mineira em vez de LSD.
