Sei que o ano ainda está pela metade, mas é difícil acreditar que “Vencer” não será um dos melhores filmes lançados em 2010 no Brasil. O filme de Marco Bellochio, que estreia nesta sexta-feira por aqui, resgata, ao mesmo tempo, o melhor do cinema épico/político e o melhor do cinema italiano.
Em 2003, o cineasta italiano já havia feito uma pequena obra-prima política, “Bom Dia, Noite”, sobre o sequestro do primeiro ministro italiano Aldo Moro pela Brigada Vermelha, visto pelos olhos da única mulher do grupo de sequestradores. Mas era um filme de câmara, centrado em um espaço e tempo delimitados.
Já “Vencer” é grandioso, em produção, ambição e significados. Não é cinemão, e sim cinema com “C” maiúsculo. Como “Bom Dia, Noite”, o filme joga luz sobre uma mulher que participou ativamente na história italiana recente: a amante do ditador Benito Mussolini, Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno, linda e excepcional).
Quando ela o conhece, Mussolini (Filippo Timi, igualmente brilhante) é apenas um militante socialista radical. Ilda patrocina a ciração do jornal “Il Popolo d’Italia” e a criação do Partido Fascista. Os dois têm um filho juntos, mas Mussolini se alista no exército durante a Primeira Guerra Mundial e desaparece por um tempo.
Quando Ida o reencontra ferido num leito de hospital, Mussolini está casado, prestes a começar sua escalada de poder e quer distância da ex-amante e do filho inconvenientes. Quando Ida exige reconhecimento do filho com Mussolini, o governo fascista a interna em um hospital e o garoto, em um orfanato.
Como em “Bom Dia, Noite”, mas com um escopo mais amplo de tempo e espaço na narrativa, Bellochio conjuga brilhantemente a história de um país e um drama individual, feminino. Se restavam dúvidas de que ele é um mestre, “Vencer” as dissipa.