Qual é o segredo do sucesso de “Crepúsculo”?
O sucesso de “Crepúsculo” sempre foi, para mim, um mistério. Os dois primeiros episódios me pareceram mais pobres, na estética e no conteúdo, do que qualquer série mediana da TV. Também não consegui encontrar neles nenhum acréscimo relevante à história de seu gênero, o dos filmes de vampiro. Mas ao ver “Eclipse”, o terceiro e melhor filme da franquia, as razões do fenômeno começaram a ficar mais claras.
Acho que o segredo central é o ultraromantismo da série. Já não se encontram por aí muitos filmes românticos “puros”, não contaminados por ao menos uma pitada de cinismo. Pelo visto, existe uma parcela significativa de espectadores jovens que busca esse tipo de entretenimento com valores antiquados, regressivos (e não há julgamento de valor no emprego desses adjetivos). “Crepúsculo” supre essa demanda, com seus vampiros emos.
A série defende, de maneira não muito dissimulada, a abstinência sexual, simbolizada pelo vampiro Edward (Robert Pattinson), que prefere não fazer sexo com sua amada Bella (Kristen Stewart), com medo de despertar perigosos instintos animalescos. Ele quer se casar antes de consumar o ato. Em um cinema e um mundo hiperssexualizados, “Crepúsculo” oferece uma alternativa de castidade.
Neste terceiro episódio, a pureza de Bella é colocada à prova, seus hormônios são despertados pelo anabolizado lobo Jacob (Taylor Lautner). As decisões tomadas pela protagonista vem reforçar o caráter conservador da série.
Acho que outro segredo importante da série é a capacidade de metaforizar, dentro das convenções do filme de gênero, questões relevantes da adolescência – em particular a tensão entre deslocamento e pertencimento. Bella é uma adolescente desajustada, que não sabe seu lugar no mundo – até encontrar não apenas o amor de Edward, como também o acolhimento do grupo de vampiros dele.
Para os fãs, “Crepúsculo” também oferece a sensação de pertencimento, ao entregar um repertório comum de expressões, de valores e até de ídolos para ilustrar seus fichários. Os admiradores da série podem ser românticos, sensíveis, castos e conservadores sem se envergonhar do mundo libertino à sua volta, porque agora eles encontraram seus pares.






