Bianchi vê o Brasil como filme de terror psicológico
Uma das grandes alegrias do cinema é ser surpreendido por um diretor que você julgava incapaz de surpreender. Foi o que aconteceu ao ver “Os Inquilinos”, o novo filme de Sergio Bianchi, que estreou nesta sexta-feira.
Eu julgava saber o que esperar de um filme de Bianchi: um veredicto didático e condenatório sobre as mazelas sociais brasileiras, em que qualquer ambigüidade era sacrificada em nome da contundência, em que o cuidado com o artesanato do roteiro e direção era visto como uma frescura desnecessária diante da relevância das acusações e das polêmicas. Foi assim em “A Causa Secreta” (1994), “Cronicamente Inviável” (2000) e “Quanto Vale ou é por Quilo?” (2005).
Mas “Os Inquilinos” é outra coisa. Um trabalho em que Bianchi se permite ser sutil, ser ambíguo, não explicar aquilo que quer demonstrar. Sua primeira providência foi desistir de abordar um país inteiro no filme, de catalogar todas as mazelas possíveis em um mínimo de tempo. Não, “Os Inquilinos” é um filme sobre pessoas específicas – uma família de classe média-baixa –, sobre um lugar específico – um bairro da periferia paulista –, sobre um tempo específico – a época dos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital.
A rotina pacata de Valter (Marat Descartes), de sua mulher Iara (Ana Carbatti) e de seus dois filhos é abalada pela mudança para a casa ao lado de três jovens ruidosos e agressivos, supostamente ligados ao crime. Valter vê os novos vizinhos como uma ameaça não apenas à segurança de sua família, mas também à própria masculinidade – porque eles são mais jovens e atléticos, porque não tem coragem de confrontá-los.
Em vez de buscar a polêmica fácil, Bianchi prefere trabalhar a atmosfera de tensão crescente trazida pela presença dos três. É como se ele dissesse que viver no Brasil é habitar um filme de terror psicológico, em que a violência mora ao lado, sempre prestes a explodir. A sutileza acaba por multiplicar a contundência da sua denúncia, em vez de anulá-la.
Além disso, de uma forma inédita em sua carreira, o cineasta demonstra algum carinho não exatamente por seus personagens, mas pela composição dos personagens, numa bem-sucedida tentativa de afastá-los das caricaturas de filmes anteriores.
Bianchi continua desconfiado da humanidade, continua inconformado com o sistema social brasileiro. Mas ele descobriu que a melhor maneira de demonstrar seu descontentamento era apenas… fazer um bom filme.

