O Globo de Ouro vai premiar “Avatar” como melhor filme e reconhecer James Cameron por sua inovação tecnológica e sua supremacia nas bilheterias? Ou irá fazer justiça à maturidade artística de Quentin Tarantino e seus “Bastardos Inglórios”? Sandra Bullock vai fazer uma dobradinha como melhor atriz de drama por “The Blind Side” e de comédia por “A Proposta”? George Clooney vai provar de vez que é um bom ator levando para casa uma estatueta por “Amor sem Escalas”?
Todas essas perguntas serão respondidas neste domingo. Menos uma, a mais essencial: por que, afinal, nos importamos com tudo isso? Dá para entender a importância dada ao Oscar e ao festival de Cannes, por exemplo. São, respectivamente e grosso modo, as mais tradicionais premiações do cinema “comercial” e do cinema “de arte”.
E o Globo de Ouro? É a principal prévia do Oscar, o prêmio pequeno que permite prever o que irá acontecer com o prêmio maior? Cada vez mais isso parece ser menos verdade. Em 2006, por exemplo, “Crash” ganhou o Oscar sem nem ter sido indicado ao Globo de Ouro como melhor filme dramático. No ano passado, o Globo de Ouro não “acertou” o prêmio de melhor ator, de melhor atriz coadjuvante, de melhor filme estrangeiro. Ou seja, um desempenho abaixo da média dos apostadores bem informados.
Mas é uma premiação representativa de uma classe cinematográfica? Não, certamente não. O Globo de Ouro é o prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, que tem exatamente 86 membros votantes. Para comparar, o Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cujos integrantes votam no Oscar, tem em torno de 6 mil integrantes – número próximo ao dos sindicatos dos produtores, dos roteiristas e dos escritores de Hollywood.
Se alguém tem menos de 100 amigos no Facebook ou no Orkut, começa a se perguntar se está sendo muito anti-social. A Associação dos Correspondentes não tem preocupação semelhante.
Talvez isso signifique que eles sejam um grupo muito seletivo, certo? Errado. As regras da Associação são confusas. Jornalistas de publicações respeitadas, como o “Times” de Londres e o Le Monde” de Paris, têm credenciais recusadas. Já alguns frilas que não sobrevivem no jornalismo, de países sem grande tradição cinematográfica, têm status de membro fixo.
Mas ao menos o Globo de Ouro é um prêmio acima de qualquer suspeita? Não. Em sua história, há vários registros de jabás dados por concorrentes aos membros da Associação. Em 2000, o representante de Sharon Stone mandou relógios de ouro para todos os votantes do grupo. Só depois que a história veio a público é que eles acharam que seria mais adequado devolver a lembrancinha. Ainda assim, Stone recebeu uma indicação de melhor atriz pelo medíocre “A Musa”.
Então, no final das contas, por que nos importamos com o Globo de Ouro? Bom, a premiação atende a diversos interesses. Os estúdios de cinema garantem publicidade gratuita para seus filmes. As emissoras de televisão aumentam sua audiência com a reunião de um número respeitável de celebridades. Os atores aparecem na TV e, de quebra, ganham prêmios.
Faltou o público nessa equação. Nesse caso, acho que a explicação para o interesse é prosaica: a bebida é liberada na festa. O que leva à esperança de satisfazer um dos grandes fetiches da vida moderna: flagrar um ator famoso em uma situação mais relaxada, talvez até mesmo levemente embaraçosa. Algo que o Oscar, com sua pompa e artificialidade, nunca permite.
É pouco, muito pouco. De qualquer forma, estarei diante da TV no domingo e resistirei ao sono para contar aqui o que vi.