Theo Angelopoulos, deus da Mostra, está entre nós

Longos planos sem corte. Câmera quase sempre estática. Silêncios intermináveis. Personagens que vagam em busca da própria identidade e que parecem carregar o peso da história sobre as costas. As características essenciais da obra do diretor grego Theo Angelopoulos são quase um “greatest hits” do que muitas pessoas enxergam, para o mal e para o bem, como um “filme de festival”.
Não é à toa, portanto, que ele seja um dos autores preferidos da Mostra de Cinema de São Paulo. Seis dos seus filmes já foram exibidos no evento paulistano, de “A Viagem de Cithera” (1983) a “O Vale dos Lamentos” (2004). Ele ganhou uma retrospectiva completa no 20ª Mostra, em 1996. E, nesta edição, será novamente homenageado com a exibição de 8 de seus 19 filmes.
Agora, pela primeira vez, o cineasta grego marcará presença no evento. Nesta terça-feira, ele participa de um debate logo após a exibição, às 19h30 no Cine Bombril, de seu novo filme, “Trilogia II – A Poeira do Tempo”. Será a cerimônia de casamento, depois de um longo namoro entre a Mostra e Angelopoulos.
O fato de a obra do cineasta grego se encaixar em certos estereótipos do filme de festival não significa que ele seja um arrivista do cinema de arte. Seu trabalho é fruto de um longo processo de depuração, de uma série de questionamentos sobre o papel do cinema.
Ele começa a fazer filmes em 1965, depois de perder, com o golpe militar em seu país, seu emprego como crítico de cinema em um jornal de esquerda. Seus primeiros filmes são paineis históricos e políticos que ainda refletem a crença na primazia do coletivo sobre o individual.
Gradualmente, a história vai para o pano de fundo, e os personagens ganham destaque. Em seus filmes mais recentes e conhecidos – “Paisagem na Neblina” (1988), “Um Olhar a Cada Dia” (1995) e “A Eternidade e um Dia (1998), Palma de Ouro em Cannes – , Angelopoulos submete seus protagonistas a longas viagens físicas e emocionais.
“A Poeira do Tempo”, segundo episódio de uma trilogia sobre as raízes da Grécia no século 20, parece sugerir um encontro entre a fase histórica e a existencial de sua obra. O protagonista (Willem Dafoe) é um cineasta americano de origem grega que decide contar a história de seus ancestrais – que passa por Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e EUA. Ao final, percebe-se que a jornada familiar do cineasta confunde-se com a história do século passado.
Como bom grego, Angelopoulos passou boa parte de sua obra refazendo o mito da “Odisseia”. E acabou transformando a própria carreira em um exemplar acabado de uma grande jornada geográfica e existencial.
Para mais informações sobre a retrospectiva de Theo Angelopoulos, confira o site oficial da Mostra.

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