Ang Lee é um clássico
Com atraso, fui ver “Desejo e Perigo”, de Ang Lee. O filme reforçou uma ideia deixada por “O Segredo de Brokeback Mountain”: Lee tornou-se um grande cineasta clássico. Fora o tratamento do sexo, seus filmes poderiam ter sido feitos num passado longínquo, com seu artesanato perfeito de roteiro, direção e atuações e seu aparente desinteresse por ousadias formais e desconstruções de linguagem.
Em “Desejo e Perigo”, ainda há um certo jogo entre realidade e representação: a protagonista (Wei Tang) é uma atriz amadora que seduz um político chinês que colabora com os japoneses (Tony Leung), como parte de um plano da resistência para matá-lo. Em um dado momento, não se sabe se ela está apenas fingindo paixão ou realmente apaixonada e se ele sabe da traição, mas não quer perdê-la.
Mas Lee é um cineasta límpido, pouco afeito à ambiguidade. Logo fica claro que ele está filmando uma história de amor, não uma intriga de espionagem. Como ficou evidente que “Brokeback Mountain” era um melodrama clássico de amor impossível, não um romance gay com uma postura política.
Por fim, é preciso dizer que Tony Leung – de “Amor à Flor da Pele”, “Herói” e tantos outros – é um dos maiores atores do nosso tempo, um Mastroianni chinês, mas ainda não devidamente reconhecido.


