De todos os espectadores de cinema, os mais fundamentalistas são os fãs de quadrinhos. Eles exigem total fidelidade às HQs nas quais os filmes se baseiam, como se fossem fieis lidando com a Bíblia. E, pior, raramente têm senso de humor. Lembro de uma vez em que publiquei uma nota sobre uma matéria gringa levantando a hipótese de que a perseguição aos X-Men seria uma metáfora do preconceito contra os homossexuais. Houve uma chuva de comentários irados, como se eu estivesse chamando cada fã de gay (como se isso, aliás, fosse uma ofensa).
Outro comportamento estranho dos fãs de quadrinhos é a propensão para gostar ou não de uma adaptação com antecedência. Aconteceu, por exemplo, com os dois primeiros Batmans, por causa da escolha de Michael Keaton para o papel principal. E agora rolou de novo com “Watchmen”, nem tanto pela escolha de Zack Snyder (“300″) como diretor e mais pelo simples fato de a “graphic novel” ser considerada uma obra-prima infilmável, um “Em Busca do Tempo Perdido” dos quadrinhos. E daí quem é fã já vai com a predisposição de achar que o filme é infinitamente inferior ao original ou que faltaram tais e tais partes fundamentais.
Eu, que não li “Watchmen”, achei o filme bastante digno, apesar de limitações um tanto óbvias. A primeira vantagem do filme é que ele não é “300″. Ou seja, não é cinema de chroma key, com atores interpretando diante de uma tela verde e com cenários acrescentados mais tarde por computador. Na verdade, é um velho e bom filme de estúdio, com todos os cenários construídos pela produção. O que dá uma medida justa, não exagerada, para seu artificialismo.
Também me parece que Snyder teve o cuidado de apresentar com algum tempo e cuidado cada um dos protagonistas – e são muitos; ou seja, era parte do pacote – e nos fazer interessar por suas histórias. Para isso, ele teve que sacrificar a trama, que ficou um tanto banal. Mas era isso ou um filme de cinco horas (o que o próprio Moore achava necessário).
Por outro lado, talvez o defeito principal do filme seja a reverência excessiva ao original. Faltou a coragem de dizer que certas platitudes do Dr. Manhattan e algumas frases de efeito de Rorschach são literatura barata e simplesmente cortá-las dos diálogos. Mas isso seria o equivalente a dizer que Moore talvez não seja um gênio intocável – o que, para os fãs, seria um blasfêmia.