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17/02/2009 - 00:01

Umbiguismo global

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De ontem para hoje, ocorreu uma conjunção astral rara e imprevista. O alto comando da Globo – do passado e do presente, da TV e do cinema – decidiu soltar o verbo. Falaram praticamente as mesmas coisas, no mesmo lugar: o caderno “Ilustrada”, da “Folha de S. Paulo”. Ontem, foi Daniel Filho, homem forte da Globo Filmes, falando de cinema comercial x cinema autoral (por falta de melhores termos):

“Eu sou o camarada que acredita no ditado: agrade a sua vila que você vai agradar ao mundo. Você tem que agradar aqui, no Brasil. O público quer ver esse filme? Ou é você que quer fazer esse filme? Queremos ser todos Godard e Glauber Rocha? A crítica aplaude esses filmes meio malditos, que têm pouco público. É uma dicotomia entre o que a crítica pensa e o que o público quer ver”.

Hoje foi a vez de Guel Arraes, o outro manda-chuva da Globo Filmes, dizer algo parecido:

“(A vereda popular) é fundamental para o cinema brasileiro continuar. Não se pode achar que esse é o único tipo de cinema que se deve ter, mas ter implicância com ele é um suicídio. Deveria haver mais diretores e autores preocupados em fazer esse tipo de coisa, senão vai acabar. Não vai ficar fazendo 60 filmes por ano para dar menos do que uma peça de teatro cada um”.

Ontem, Daniel Filho, ex-todo poderoso da Rede Globo, também falou de televisão:

“A TV já foi um “must” nosso e hoje não é mais. Ficou meio morninha. Não mexe mais com as pessoas, não vejo mais dizerem: “Eu preciso ver isso”. Não vejo ninguém discutindo o capítulo ou o programa exibido no dia anterior. Eu vejo isso com seriados americanos”.

Hoje, Boni, antiga personificação do padrão Globo de qualidade, também ecoou Filho:

“Além de “Big Brother Brasil”, nada de novo apareceu na televisão nos últimos anos”, alfineta. “A TV precisa de uma injeção de vida. Está faltando ar. Falta inconformismo”.

Sem entrar muito nos méritos das questões levantadas (grosso modo, discordo da pregação contra o cinema de exceção, concordo com o desgaste da televisão), o que impressiona nessas falas todas é o umbiguismo de seus autores, a incapacidade de reconhecer o outro.

Daniel Filho e Guel Arraes fazem cinema comercial. Para eles, outros filmes não se justificam hoje porque não são comerciais o suficiente.

Daniel Filho e Boni saíram da TV. A TV entrou em decadência (com exceção do programa dirigido pelo filho do Boni).

Há um tanto de desfaçatez nessas entrevistas todas. Sem falar que o Daniel Filho dedurou o Fernando Meirelles, ao dizer que seu colega confessou ter errado a mão em “Ensaio sobre a Cegueira”. Não era melhor que o próprio viesse a público dizer isso?

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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12 comentários para “Umbiguismo global”

  1. André Veiga disse:

    ok, mas será que pra fazer filmes populares, eles precisam ser tão ruins como os filmes do Daniel Filho e do Guel Arraes?
    E se a televisão está morna, por que é que eles não perdem o medo e aquecem essa porcaria?
    Eu sou do tempo em que a TV apresentava programas como o Documento Especial, Perdidos na Noite, e o Comando da Madrugada. Haveria alguém hoje com coragem pra botar esses programas no ar, sem medo do que os anunciantes vão pensar?
    Nem de longe,

  2. Eduardo Miranda disse:

    Fora as opiniões sobre cinema desses sujeitos, que eu nem vou comentar, ainda há o fato de que pra eles TV significa Rede Globo e nada mais. E não existe TV Cultura, por exemplo, não existe mais nada. O parâmetro é só a Rede Globo, porque a Rede Globo é quem leva a cultura para milhões de cidadãos em todo o Brasil. Ok Ok, Boni, Big Brother é a grande novidade da “TV brasileira”. Uhum. Ficamos assim, então.

  3. “discordo da pregação contra o cinema de exceção” – mas, provavelmente, não discorda da implicância contra o cinema comercial.

  4. Vinhal disse:

    Ótimo raciocínio, Calil.

    Quanto ao cinema, a fala que você citou do Arraes não me pareceu tão problemática. Me parece mais uma defesa do cinema que ele faz. Já a do Daniel Filho é triste.

    Quanto à tv, a impressão que dá é realmente a que você falou. Resta apenas uma dúvida: esses caras, quando estavam na tv, calavam por que lá estavam ou simplesmente acreditam que porque saíram a tv perdeu a vida?

    É de um egocentrismo ridículo, tudo isso.

  5. chico disse:

    “Daniel Filho e Guel Arraes fazem cinema comercial. Para eles, outros filmes não se justificam hoje porque não são comerciais o suficiente.”

    Calil, é bom notar que o Arraes não é contra o cinema de exceção, mas a favor de um cinema de comunicação popular concomitante a este, conforme o texto transcrito por você. A afirmação acima é de Daniel Filho somente.

    E a discussão é mais complexa que as afirmações transcritas – e a sua análise delas – levam a crer. O Auto da Compadecida e Houve uma Vez Dois Verões são filmes comerciais? Ou os traços autorais pesam mais? E O Céu de Suely e No Meu Lugar? Falta-lhes comunicação com o público? E quem define isso?

    No final, não existe discussão, mas cada um defendendo seu peixe a partir de rótulos que não dizem muita coisa. Aí sim, concordo com o umbiguismo que você ressalta.

  6. Drex disse:

    O umbiguismo é o ponto. E dá tristeza constatar cada vez mais que, aqueles que tem os recursos na mão, ficam com esse papo tipo vovô – “no meu tempo que era bom”, “vem cá que eu te ensino a fazer direitinho, do meu jeitinho”.

    Ninguém mais comenta TV, Daniel Filho? Nos últimos tempos vi muita gente comentando o que viu no “Pânico” ou no “CQC” no dia anterior. São programas que atingiram não só a massa mas também um público medianamente qualificado. Isso sem contar a TV paga e as séries americanas. Mas nada disso está na Globo, claro, e Boni só vê o BBB.

    Quanto ao Guel Arraes, penso que ele milita pelo estilo de cinema que faz, que é justamente aquele que acredita na ponte possível entre o criativo e o popular. Acho que ele está certo, e vejo nele uma postura menos sectária. Ou ao menos parece ser.

  7. Pedro de Oliveira disse:

    Tão confundindo indústria de entretenimento com filme. Que façam 300 por ano. É algo que é bom e consterna. Só não podem querer parte da fatia distrubuída pelo governo pra promover a cultura no país.

  8. Rai disse:

    Concordo com o André Veiga, nada contra cinema popular, mas contra as porcarias lançadas pela globo Filmes.

  9. zzzzz disse:

    Por que filmes que não se pagam devem ser produzidos com dinheiro público via incentivos fiscais? Filme autoral não interessa ao Estado produzir, muito menos com dinheiro público. Os autores precisam se organizar de outras formas, incoporando novas tecnologias de produção, e explorar nichos de mercado diferentes das multiplex e do próprio setor exibidor clássico. Tem que acabar essa história de filme autoral com orçamento de superprodução.

  10. zzzzz disse:

    Por que a Globofilmes, detentora dos principais títulos sucesso de bilheteria, faz filme com subsídio fiscal? Não tem que fazer, não. O fomento à produção independente se desvirtuou e, além do mais, desvia recursos que deviam ser coletados do setor de televisão aberta e não de quem paga imposto de renda. Os filmes comerciais não devem gozar de subsídios, mas sim de financiamentos. Cotas de televisão aberta, também, pois, afinal, não é concessão pública?

  11. zzzzz disse:

    E o governo, querendo agradar todo mundo, distribui nosso dinheiro para produção autoral e comercial. E, ainda mais, querem nos cobrar para assistí-los. É uma graça. Acho que se nós colocamos nosso dinheiro nessas produções, pela via indireta fiscal, deveríamos poder vê-las grátis…

  12. zzzzz disse:

    Afinal, se o objetivo é fomentar a indústria, financiamento e avaliação de rentabilidade neles, com recursos das milionárias redes de televisão aberta.

    Se o objetivo é democratizar a produção e circulação, todos têm direito de produzir e assistir. Foco em orçamentos razoáveis, com expectativa de retorno na casa dos 50-200 mil. E direitos autorais flexíveis, pois meu dinheiro está ali, sou sócio também.

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