Chegou finalmente aquele momento fatídico do ano, em que fazemos as apostas para o Oscar. Mesmo que os filmes não sejam muito animadores neste ano, é quase inevitável olhar para a lista de candidatos e pensar que tal filme vai levar a estatueta, que outro não deveria estar ali e assim por diante. Acho que é exatamente esse caráter de quermesse global que mantém o interesse num prêmio que luta para não perder relevância. Portanto, aí vão as minhas apostas para as principais categorias, divididas entre os que devem ganhar o prêmio, os que mereciam ganhar entre os indicados e os que mereciam ganhar e nem foram indicados:
MELHOR FILME
Quem deve ganhar: “Quem Quer Ser um Milionário?”. A parada está entre o filme de Danny Boyle e “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Mas o primeiro tomou embalo nas últimas semanas com vários prêmios de sindicatos.
Quem deveria ganhar entre os indicados: “O Curioso Caso de Benjamim Button”. Está longe de ser um grande filme, mas seus concorrentes têm limitações ainda maiores. Então vamos no mais correto.
Quem deveria ganhar e não foi indicado: “Wall-E”. O último desenho da Pixar é a única obra-prima produzida por Hollywood no último ano. Mas esbarrou no preconceito da Academia com animações. “O Luador” e “A Troca” também poderiam estar tranquilamente entre os indicados; são melhores que todos os finalistas.
MELHOR DIRETOR
Quem deve ganhar: Danny Boyle. Deve pegar o vácuo da badalação em torno de “Quem Quer Ser um Milionário?”. Mas não é impossível que a Academia faça uma divisão das estatuetas principais e dê o prêmio para David Fincher por “O Curioso Caso de Benjamin Button”.
Quem deveria ganhar entre os indicados: David Fincher. Os principais diretores da categoria já fizeram filmes melhores antes: Fincher (“Zodíaco”), Boyle (“Trainspotting”), Gus Van Sant (“Gerry”, “Elefante”, “Últimos Dias”, “Paranoid Park” e outros). Mas Fincher foi o que errou menos a mão.
Quem deveria ganhar e não foi indicado: Andrew Stanton. O diretor de “Wall-E” também esbarrou na negligência do Oscar com os desenhos animados. Nenhum dos concorrentes teve uma direção mais segura e criativa.
MELHOR ATOR
Quem deve ganhar: Sean Penn. Disputa equilibrada entre ele e Mickey Rourke. Mas Penn leva uma pequena vantagem porque sua figura e seu personagem são mais palatáveis.
Quem deveria ganhar entre os indicados: Mickey Rourke. A entrega física e psicológica do ator a seu personagem em “O Lutador” é comovente. O desempenho de Penn também é excepcional, mas seu papel é menos arriscado que o de seu concorrente.
Quem deveria ganhar e não foi indicado: Clint Eastwood. Ninguém pode dizer que a Academia ignora o cineasta. Mas ela faz pouco caso com o ator. E Clint está superbo em “Gran Torino”, talvez o melhor desempenho de sua carreira. Mas vamos combinar: o Oscar não errou tanto; a melhor atuação do ano é mesmo de Rourke.
MELHOR ATRIZ
Quem deve ganhar: Kate Winslet. A disputa com Anne Hathaway também é boa. Mas Winslet já perdeu a estatueta seis vezes, Hathaway terá outras oportunidades. Contra Winslet, pesa apenas o fato de fazer um retrato generoso de uma nazista.
Quem deveria ganhar entre as indicadas: Angelina Jolie. Sem cair no overacting, ela está superba em “A Troca”. Mas o fato de ser uma sex symbol e uma marqueteira social por vezes obscurece o fato de que ela é não só uma estrela, como uma grande atriz.
Quem deveria ganhar e não foi indicada: Arta Dobroshi. A atriz de Kosovo tem a melhor interpretação do ano, em um papel dificílimo no filme belga “O Silêncio de Lorna”. Mas tem pouco nome e pouco glamour para chamar a atenção do Oscar.
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Quem deve ganhar: Heath Ledger. A barbada do ano. O nome do Coringa de “Batman”, morto em uma overdose, foi tão onipresente na mídia em 2008 que os membros da Academia não devem nem se lembrar que há outros candidatos. Não tem pra ninguém.
Quem deveria ganhar entre os indicados: Robert Downey Jr. O prêmio a Heath Ledger não será injusto. Ele conseguiu criou um Coringa radicalmente novo. Mas o barulho em torno da sua morte foi tão grande que fica difícil ter uma opinião mais isenta sobre seu trabalho. Assim, seria bacana premiar Robert Downey Jr., porque ele está ótimo em “Trovão Tropical”, porque ajudaria a quebra um preconceito contra comédias e porque ele merecia também uma indicação a melhor ator por “Homem de Ferro”.
Quem deveria ganhar e não foi indicado: Jérémie Renier. Como sua colega Arta Dobroshi, o ator belga tem um desempenho excepcional em “O Silêncio de Lorna”, em um papel de drogado que poderia facilmente cair no clichê. Não é à toa que ele é o muso dos irmãos Dardenne.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Quem deve ganhar: Penélope Cruz. É a categoria mais em aberto entre as principais do Oscar. Mas o desempenho da espanhola foi o mais comentado do ano, e sua vitória seria o toque exótico de uma festa que está muito anglo-saxônica (se levarmos em conta que “Quem Quer Ser um Milionário” é uma produção EUA/Grã-Bretanha).
Quem deveria ganhar entre as indicadas: Marisa Tomei. O Oscar de coadjuvante para a atriz por “Meu Primo Vinny” é considerado uma das grandes bizarrices da história do prêmio. Mas Tomei prova em “O Lutador” que é uma grande atriz – e que talvez a Academia não estivesse tão errada sobre ela.
Quem deveria ganhar e não foi indicada: Sandra Corveloni. Momento protecionista desta relação. Brasileiro é fogo. Até hoje não se conforma com a derrota de Fernanda Montenegro para Gwyneth Paltrow. Um Oscar para Corveloni por seu trabalho em “Linha de Passe” seria nossa vingança. Mas daí você talvez diga: em Cannes, ela ganhou prêmio de melhor atriz. Ao que eu respondo: não há protagonista no filme de Walter Salles. Então uma estatueta de atriz coadjuvante já seria justo.