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13/01/2009 - 16:41

Por dentro da Hollywood negra

Não quero puxar a sardinha para a minha brasa, mas a revista “Trip”, onde eu trabalho, publicou nesta edição uma reportagem imperdível sobre “Nollywood”, como é conhecida a indústria cinematográfica da Nigéria, que tem a maior produção do mundo, com cerca de mil filmes lançados em 2008.

O Ocidente ouviu falar de Nollywood pela primeira vez em 2004, quando a revista francesa “Cahiers du Cinéma” apontou a Nigéria como maior produtor mundial daquele ano. Mas só agora uma equipe de reportagem brasileira conheceu a realidade do cinema nigeriano in loco. O repórter Lino Bocchini e o fotógrafo João Wainer foram a Lagos, acompanharam um dia de filmagem com dois dos maiores astros nollywoodianos, entrevistaram diretores e produtores, passaram por diversos perrengues, mas sobreviveram à aventura para jogar um pouco de luz sobre o funcionamento de Nollywood. Aqui vão alguns dos destaques da reportagem:

“O boom começou em 1993, quando ‘Living in Bondage’ estourou, vendendo milhares de cópias em VHS. A chegada da tecnologia digital deu uma turbinada na produção, e hoje fitas gravadas em menos de um mês a um custo que dificilmente passa dos US$ 30 mil são vistas por até 20 milhões de pessoas.”

(…)

“Nollywood é um fenômeno cultural único no mundo não apenas pelo volume alucinante, mas também pela forma com que o povo consome esses filmes. Em todo o país quase não há cinemas. Como então a turma assiste à maior produção de filmes do mundo? Comprando DVDs aos milhares. Quatro mercados recebem os lançamentos, onde vendedores de rua compram os filmes e os distribuem. Assim as fitas chegam também a Gana, ali do lado, que tem uma legião de fãs consumidores, e também ao restante da África e até para a Europa, onde fazem a alegria de imigrantes. É um modelo capilarizado de distribuição baseado em camelôs e lojinhas que funciona incrivelmente bem há mais de uma década. Tanto que a indústria cinematográfica hoje é a terceira economia do país, atrás apenas do petróleo e da agricultura.”

(…)

“Quando vemos tais números é preciso lembrar que falamos de 140 milhões de habitantes, o que faz da Nigéria não só o país mais populoso da África, como também a maior nação negra do mundo. Negra mesmo, 100% black. Em uma semana por lá, os únicos brancos que vimos circulando pela rua (além de nós mesmos) foram dois albinos. Juro.”

Vale muito a pena ler a íntegra da reportagem aqui.

Também vale refletir um pouco para saber se algo do modelo nollywoodiano pode ser importado para o Brasil. Embora as realidades sejam completamente distintas, há uma ou outra lição a ser tomada, como a idéia de filmes de baixo custo distribuídos diretamente para os vendedores de DVD, lojas ou camelôs. É exatamente o mesmo modelo independente que já funciona muito bem na música com o tecnobrega paraense do Calypso. Seria como fazer um “Tropa de Elite” dentro da lei, com um preço baixo por cópia para combater a pirataria. Há pirataria em Nollywood? Claro, ela é quase inevitável. Mas, ainda assim, um blockbuster local pode vender até 700 mil cópias oficiais.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:

5 comentários para “Por dentro da Hollywood negra”

  1. Radical Livre disse:

    Este modelo não é mais ou menos o mesmo do brega do Pará? Farta distribuição via camelos, capilaridade etc. funciona para música, será que funcionaria para vídeo e cinema?

    O problema aqui é que qualquer mané quer fazer um filme de 2 milhões de reais. e ser distribuído em cem salas. quando não consegue, fica reclamando dos distribuidores e da invasão americana. se ao menos os filmes fossem divertidos…

    quem paga o pato é a gente, via renúncia fiscal.

  2. Fabio Negro disse:

    Caceta, uma das melhores reportagens

  3. Fabio Negro disse:

    Caceta, uma das melhores reportagens QUE EU LI NA MINHA VIDA!

    Tô meio sem ter o que comentar, por enquanto…

  4. Lino disse:

    Radical Livre, é mais ou menos o mesmo modelo do Tecnobrega paraense sim. O engraçado é que quando um diretor nigeriano soube que aqui a maioria dos nossos filmes são bancados pelo governo (via incentivo fical etc), ele não conseguia entender porque então as fitas não eram depois distribuídas à população, ou então vendidas em DVDs a baixíssimo custo –”Mas se já está pago mesmo, e com dinheiro público…”. Claro que as realidades são bem distintas, mas faz pensar.
    Fábio, obrigado pelo comentário

  5. [...] como exemplo, a Nigéria. Hoje, o país africano possui uma indústria de cinema, apelidada de Nollywood, baseada em tecnologia digital, que coloca o país entre os maiores produtores mundiais, com mais [...]

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