Saudades do Imperial
Aqui vai uma boa recomendação de leitura, para um livro injustamente pouco comentado: “Dez! Nota Dez! – Eu Sou Carlos Imperial”, de Denilson Monteiro. É a biografia do autodenominado “rei da pilantragem”, um dos personagens mais infames e fascinantes da vida cultural brasileira entre os anos 60 e 90. Ele foi letristas e compositor (de “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”, “A Praça” e outros sucessos), empresário de artistas, apresentador de TV, colunista de jornal, vereador e candidato a prefeito do Rio. Contribuiu, direta ou indiretamente, para o início da carreira de artistas como Roberto Carlos e Elis Regina, Tim Maia e Wilson Simonal, Clara Nunes e Gretchen, entre muitos outros.
Imperial (1935-1992) é pouco lembrado por seu trabalho como ator, diretor e produtor cinematográfico. Como em todas as suas atividades, ele tinha métodos polêmicos e sensacionalistas de promoção de um trabalho – o que rendeu uma das melhores passagens do livro, sobre sua campanha de lançamento do filme erótico “As Delícias do Sexo” (1980). Denilson conta que o próprio Imperial criou a Liga da Moral e da Decência, alugou duas Kombis e enfiou nelas 20 senhoras que foram para a porta de um cinema carioca prostestar com cartazes contra a estreia do filme.
“Além disso, arranjou um jovem negro anatomicamente privilegiado, batizado de ‘Geraldão do Peru Grandão’, para correr nu no meio da primeira exibição. (…) Na mesma hora, o rebuliço foi noticiado nas rádios. As pessoas ouviam e iam ao cinema para conferir o tal filme mais pesado que ‘O Império dos Sentidos’. A bilheteria de estreia de ‘Delícias’ foi suficiente para pagar todos os custos. Quando acabou a última sessão, Imperial, em estado de êxtase, imitava o barulho das roletas:
- Catraque, catraque, catraque!”.
Abalado não apenas por mais uma queda na bilheteria, mas principalmente por uma terrível sensação de pasmaceira, o cinema brasileiro talvez precise de um novo Imperial. Quem se habilita?
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
já li o livro, é ótimo. Recomendadíssimo.
Esse sim era o verdadeiro agitador cultural. Não esses chupadores de dinheiro público de hoje em dia
Ricardo, muito obrigado pelo belo comentário sobre o livro. Olha lá, a Trip não vai falar do livro não? Eu dou entrevista que é uma beleza.
Ainda não tive a oportunidade de ler o livro, entretanto pertenço a geração do Carlos Imperial e acompanhei um pouco a trajetória de sua vida. Vivia no fiel da balança entre o ser amado e odiado, contudo, não se pode negar a genialidade do Imperial para impactar a mídia. Com as devidas proporcionalidades ele era uma espécie de Glauber Rocha mal acabado. O Imperial sempre causava notícia sobre tudo o que fazia e por onde passava. Pena que não existam mais figuras como essa na nossa paisagem cultural, substituída por crew’s e mulheres frutas. Amaral
É verdade. Carlos Imperial estava muito à frente de seu tempo. Apesar de muito menina lembro ( e acredito que tenha sido) de uma de suas últimas incursões regulares na televisão, lá em 1978, na antiga tevê Tupi. O programa trazia cantores e personagens que ele apresentava de forma peculiar: “vem aí Emílio Santiago (naquela época) , o Rei da Salsa” ou quando falava de suas bailarinas “Fernanda Terremoto, abalando as estruturas”.
Imperial fez escola para muitos profissionais de hoje nem sequer citam seu nome. Em marketing cultural, era de uma inteligência privilegiada.
Bom, o Zé Padilha taí, juntando PM em porta de cinema…