E o Oscar de melhor sushi vai para…
Aqui e ali pintam exemplos de uma nova moda: criar obras de arte com comida em caixinhas bento, uma espécie de marmita japonesa. Nenhuma me pareceu tão sofistacada quanto esta do ”Wall-E”. Merece o Oscar do sushi.
Aqui e ali pintam exemplos de uma nova moda: criar obras de arte com comida em caixinhas bento, uma espécie de marmita japonesa. Nenhuma me pareceu tão sofistacada quanto esta do ”Wall-E”. Merece o Oscar do sushi.
Se a história for verdadeira (e tem tudo para ser), me parece um pequeno, mas significativo, sinal de como a tecnologia mudou a indústria do entretenimento.
Em março passado, Jeremy Keith recebeu um email pedindo autorização para usar em um longa-metragem uma foto que ele postou no Flickr. A imagem não tinha nada demais: era apenas o retrato de um amigo em um prédio da Nasa de Cabo Canaveral. Keith nem se deu ao trabalho de responder.
Alguns dias depois, ele recebeu um segundo email, com mais detalhes: “A fotografia seria cortada de forma a não mostrar nenhuma pessoa. Nós estamos interessados em usar a imagem como um cenário para inserir nosso protagonista numa cena em que ele recebe um prêmio”. Preocupado com outros assuntos, Keith não respondeu de novo.
Outros dias se passaram até que Keith recebeu um telefonema da mulher que enviou os emails. Só então ele teve a curiosidade de perguntar do que se tratava. “É para um filme que está em produção chamado ‘Homem de Ferro’, estrelando Robert Downey Jr.”, ela respondeu. Depois de alguns entreveros tecnológicos, ele assinou a autorização, sem cobrar nada.
Keith não foi ao cinema para ver a produção, lançada apenas algumas semanas depois da ligação. Mas há poucos dias pegou um vôo em que “Homem de Ferro” era uma das opções de filmes para os passageiros. Com três minutos de exibição, encontrou sua foto, com Robert Downey Jr. e Jeff Bridges no cenário.
À primeira vista, parece impossível dizer que uma foto surgiu da outra. Mas olha só:
Resumindo: um estúdio de Hollywood faz um filme de mais de cem milhões de dólares e, em vez de produzir uma imagem na locação, pega uma foto qualquer no Flickr, recorta e cola os atores com Photoshop e não paga nada por isso. É ou não é um símbolo perfeito de um admirável mundo novo?
Não convém dar muito bola para listas, e eu já chamei atenção para uma (a dos 100 melhores personagens do cinema) alguns posts abaixo. Mas acho há uma nova no pedaço que merece atenção, pelo entidade por trás dela: a dos 100 melhores filmes da “Cahiers du Cinéma”.
A mítica revista francesa, considerada a Bíblia da cinefilia, lançou neste mês o livro “100 Filmes para uma Cinemateca Ideal”. Os dez primeiros são os seguintes:
1. “Cidadão Kane”, de Orson Welles
2. “O Mensageiro do Diabo”, de Charles Laughton
3. “As Regras do Jogo”, de Jean Renoir
4. “Aurora”, de F.W. Murnau
5. “O Atalante”, de Jean Vigo
6. “M”, de Fritz Lang
7. “Cantando na Chuva”, de Stanley Donen e Gene Kelly
8. “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock
9. “O Boulevard do Crime”, de Marcel Carné”
10. “Rastros de Ódio”, de John Ford
O resto da lista você encontra aqui. O que chama atenção é o conservadorismo e a mesmice da relação, surpreendentes no caso de uma revista que (quase) sempre primou por uma visão de ponta do cinema. Alguém ainda agüenta uma lista de melhores filmes encabeçada por “Cidadão Kane” (que nem é o melhor filme de Welles, posto ocupado por “A Marca da Maldade”)? E quanto a “Regras do Jogo”, “Um Corpo que Cai” e “Rastros de Ódio”… quanto falta de imaginação.
Talvez a explicação esteja no processo de seleção: a lista surgiu dos votos de 76 críticos e historiadores de cinema convidados pela revista. Se fosse feita pela redação, é possível supor que surgiria uma relação mais original. Mas o fato é que o livro tem a chancela da “Cahiers”.
Na Grã-Bretanha, a lista pegou mal: reclamaram que não havia nenhum filme do país, nem “Lawrence da Arábia”. Ao que Jean-Michel Frodon, diretor da revista, respondeu: “Isso não reflete um sentimento anti-britânico. É o simples resultado das escolhas individuais de 76 pessoas na indústria francesa. Há outras cinematografias faltando. Não há filmes brasileiros, por exemplo.”