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21/12/2008 - 00:45

O ano do cinema brasileiro não foi uma tragédia

Por um lado (o dos números), o ano do cinema brasileiro foi uma tragédia. Segundo dados preliminares do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro, que há 15 anos congrega os números do cinema no país, a participação dos filmes nacionais no total de espectadores deve ficar entre 9 e 10% em 2008, contra 11,5% no ano passado. A tragédia não está na queda em si, mas no fato de cair em relação a um número já ínfimo.

Por outro lado (o da qualidade), a coisa não foi tão ruim assim. O ano do cinema brasileiro contabiliza pelo menos uma obra-prima, o que é um dado a se comemorar em qualquer época. Trata-se de “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, um filme que ampliou não a discussão dos limites entre ficção e documentário, e sim as próprias fronteiras do cinema.

2008 já seria um bom ano só pelo fato de marcar o retorno de Tonacci ao circuito comercial, mas também registrou a volta de outro gigante à tela grande: José Mojica Marins com o seu “Encarnação do Demônio”, um filme de gênero sofisticado e ousado que me fez perguntar: como o cinema brasileiro conseguiu sobreviver sem Zé do Caixão?

Também neste ano tivemos obras fortes de outros três cineastas estabelecidos: “Linha de Passe”, o mais maduro filme de Walter Salles; “Nome Próprio”, o mais jovial de Murilo Salles; e “Falsa Loura”, o mais coeso de Carlos Reichenbach em muito tempo.

Entre os jovens cineastas, houve dois trabalhos excepcionais: “Pan-Cinema Permanente”, documentário de Carlos Nader que afastou a cinebiografia da mesmice com seu retrato estilhaçado de Waly Salomão; e “Meu Nome é Dindi”, promissora ficção de Bruno Safadi que aponta o surgimento de um novo autor.

De resto, viu-se um esgotamento da fórmula de comédia de costumes da Globo Filmes (alguém pode me dizer a diferença entre “Sexo com Amor?”, “Polaróides Urbanas”, “A Guerra dos Rocha”?), que não consegue o mesmo sucesso comercial de antes e já não parece mais interessada em buscar alguma credibilidade artística. Também desgastado se revelou o filão da tragédia social carioca (”Última Parada 174″ e “Era Uma Vez”).

E, se fosse possível escolher apenas uma grande decepção do cinema brasileiro no ano, esta seria “Ensaio sobre a Cegueira”, menos pelo resultado do filme em si e mais pela esperança frustrada de um novo grande trabalho de Meirelles, que deu aqui um passo atrás em sua carreira. Que ele e seus colegas dêem muitos outros à frente em 2009.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:

14 comentários para “O ano do cinema brasileiro não foi uma tragédia”

  1. antonio barbosa filho disse:

    Meirelles foi bem no filme, pelos comentários que tenho visto aqui na Europa, mas perdeu pontos com a mídia por sua atitude com o prêmio da revista Veja. Agora é preciso ver seus trabalhos para avaliar sem influências da mídia que estará pré-disposta contra ele.

  2. CARLO GAMBINO disse:

    deveriam fazer um acordo global pra determinar o seguinte:JAPONES NAO FAZ SAMBA ,ALEMAO NAO CANTA PAGODE ,AMERICANO NAO JOGA BOLA , CHINES NAO FAZ MACUMBA , ESPANHOL NAO FAZ FEIJOADA , PORTUGUES NAO FAZ CHURRASCO … E BRASILEIRO NAO FAZ FILME; E PRONTO TEMOS QUE ADMITIR QUE NAO TEMOS O DOM DA SETIMA ARTE, PODEM PARAR, HOJE SE FAZ FILMES PIORES DOS QUE FORAM FEITOS NA DECADA DE 50, CHEGA DE JOGAR $ FORA !!

  3. Bom, Ricardo … “Ensaio Sobre a Cegueira” está muito longe de ser um passo atrás na carreira de Meirelles ainda mais se você não estiver considerando os números de bilheteria, como deu a entender …

    Você lembrou de “Linha de Passe”, mas esqueceu de comentar sobre “Romance”, mais uma infalível parceria de Guel Arraes e Jorge Furtado e a estréia de Selton Mello com “Feliz Natal”.

    No mais concordo com você … se por um lado os números de bilheteria podem não ter sido nem um pouco animadores, mas em termos qualitativos, creio que 2008 foi um ano muito melhor se comparado a 2007. Uma pena que isso não tenha sido revertido em retorno.

    Vamos esperar para conferir qual será a tendência do cinema nacional para 2009.

  4. Heithmann disse:

    Ensaio sobre a cegueira nao eh um filme brasileiro!

  5. Gabriel disse:

    Calil, concordo com vc. “Ensaio sobre a cegueira” realmente decepcionou!

  6. Paulo Henrique disse:

    Caro Amigo

    Devo citar também o filme “Romance” de Guel Arraes, que apesar de ser da Globo Filmes, tem uma bela interpretação de seus protagonistas, Letícia Sabatella (uma linda e talentosa atriz) e Wagner Moura. Guel Arraes conseguiu conciliar sua veia cômica, com os encontros e desencontros das histórias de amor.
    E ainda criticar o seu “ninho”, que é a TV.

  7. castro disse:

    Ensaio sobre a cegueira foi um tiro no pé, roteiro fraco e fotografia inferior aos filmes do Meireles.

    e o Danny Glover ? desperdicio…

  8. Marcos disse:

    Caro Calil,

    Oportuníssima essa sua matéria. Tenho um blog de diário de filmagem do documentário que estou fazerndo sobre o samba em Belo Horizonte, http://muiraquitanblog.blogspot.com/.
    Te envio este para solicitar autorização sua para reproduzir ou, no mínimo, linkar essa matéria no blog. Se possível, dê uma olhada no blog e retorne. Muito grato!

  9. Marcos disse:

    Referente ao comentário anterior, e-mail para contato mvmaia@hotmail.com. Não achei um outro meio de entrar em contato com vc, além de postar esse comentário.
    Aproveitei sua dica e visitei o site do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro e baixei as duas pesquisas: isso que é serviço de utilidade pública, o seu e o do sindicato.

  10. Ju De Mari disse:

    Oi, Ricardo. Não vi Ensaio sobre a Cegueira ainda (bebê pequeno em casa não deixa!), mas gostei de reencontrar você e suas críticas.

  11. Te disse:

    Pelo visto você não gostou de Feliz Natal do Selton Mello, a ponto de sequer mencionar.
    Quanto a baixo público dos filmes nacionais, por que não fazem mais iniciativas como a do Ponto Cine de Guadalupe (subúrbio do Rio)? Lá passam filmes nacionais com ingresso a R$6 e as sessões lotam. E o dono do cinema respondeu ao Walter Salles, que reclamava que Nome próprio passava em poucas salas, que aguardava o envio de uma cópia para exibição lá. Mais informações:
    http://oglobo.globo.com/blogs/docblog/post.asp?cod_post=52757

  12. J.Ayres disse:

    Gostei muito do filme “ORQUESTRA DOS MENINOS”.
    Ficção baseada num fato verídico acontecido no interior
    de Pernambuco, c/ o músico MOZART VIEIRA e um grupo
    de meninos, meninas e adolescentes da área rural.

  13. J.Ayres disse:

    Considerando que 90% dos filmes produzidos nos EUA são lixo,
    e levando em conta a falta de recursos financeiros aqui no Brasil, posso afirmar que eles são muito fracos em filmagem.
    São excelentes em propaganda e marketing.
    Imaginem se tivessem apenas os recursos que nós temos aqui?
    E nós pudessemos usar esses milhões de dólares que eles usam?

  14. J.Ayres disse:

    A grande maioria das distribuidoras de filmes são dominadas pro empresas dos EUA e por isso os filmes daquele país passam em mais cinemas, em mais horários e durante mais tempo. O que facilita sua boa arrecadação.
    Ao contrário dos filmes nacionais que passam em pouquíssimas salas e por pouco tempo. As ‘porcarias’ feitas lá tem público cativo na maior parte do mundo, daí as bilheterias serem tão grandes, São os chamados filmes “comerciais” ou “pipoca”.
    pois há muita gente interessada nesse baixo nível de filme.
    Os filmes europeus e asiáticos são bem melhores que os dos EUA. Não se deve confundir extraordinaria bilheteria com filme de boa qualidade. O mesmo se vereifica nos programas de TV.

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