Amor de perdição, amor de salvação
Há dois anos, o cineasta francês Philippe Garrel tornou-se uma tardia revelação para o público brasileiro. Com uma carreira consistente desde os anos 60, ele só teve um filme lançado no país em 2006. Mas que filme: “Amantes Constantes”, rara obra-prima do cinema recente, contracampo de “Os Sonhadores” de Bertolucci, por ser uma revisita ao maio de 68 mais política, menos distanciada.
Neste ano, seu novo filme, “A Fronteira da Alvorada”, foi recebido com certa frieza em Cannes. Será que o entusiasmo despertado por Garrel foi exagerado? Nada disso. Selecionado para a Mostra de São Paulo deste ano (a primeira exibição é neste domingo, às 18h40, no Reserva Cultural; veja as outras aqui), “A Fronteira da Alvorada” é um belíssimo trabalho, com muitos pontos distintos em relação a “Amantes Constantes” e alguns poucos em comum – o que talvez explica a decepção em Cannes.
O protagonista é novamente um Louis Garrel (filho do cineasta, também ator de “Os Sonhadores”) às voltas com problemas amorosos, a fotografia é outra vez um preto-e-branco contrastado, a nouvelle vague continua sendo a principal referência estética. Mas a trama se situa no presente, e a política deixa de ser o pano de fundo central, abrindo espaço para o intimismo e, a partir de um certo ponto, para o espiritismo. Se fosse possível traçar um paralelo literário com o filme, seria o caso de dizer que “A Fronteira da Alvorada” é, em sua primeira parte, “Amor de Perdição” e, na segunda, “Amor de Salvação” – os livros do português Camilo Castelo que destrincham dois tipos contrastantes de relação afetiva.
No começo, o fotógrafo François (Louis Garrel) apaixona-se pela atriz Carole (Laura Smet), casada com um ator sempre ausente, mulher emocionalmente desequilibrada, que torna a vida de seu amante uma montanha-russa. Esse seria o amor de perdição de François. Quando a relação chega a um fim trágico, o fotógrafo envolve-se com a doce Eve (Clementine Podatz), que lhe oferece a possibilidade de um cotidiano estável. Amor de salvação, ora pois.
Seria simples assim se não fosse um filme de Garrel, cineasta de sutilezas dramáticas e visuais, capaz de colocar em cena um espírito no meio de uma trama realista sem jamais soar ridículo . O amor de Carole pode ser a salvação para a apatia de François diante do mundo, o de Eve, sua perdição para o tédio burguês.
Ao cabo, a essência de “A Fronteira da Alvorada” pode ser encontrada em uma frase dita por um dos coadjuvantes: o amor é como um pára-brisa; em um momento, uma lâmina foge da outra, para persegui-la no seguinte; sem que nunca se toquem, sem que cheguem a um equilíbrio. Ë preciso um grande artista como Garrel para transformar uma metáfora banal como essa em um grande filmes como “A Fronteira da Alvorada”.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Sem categoria Tags:
