
A maioria das séries de TV segue fórmulas bastante básicas e rígidas. Mas algumas deixam seus mecanismos internos ainda mais evidentes. “Sex and the City” era uma delas. O tema central (o mesmo da coluna da protagonista Carrie Bradshaw) mudava ligeiramente a cada episódio, mas as situações sempre se repetiam: garotas falam e consomem, se apaixonam por e se desiludem com os homens, brigam entre si e se reconciliam para concluir que o mais importante é o companheirismo feminino.
Em geral, o sucesso de uma série (como a de uma novela) depende da repetição, não da novidade. Por isso, talvez seja ingenuidade exigir algo realmente original da adaptação cinematográfica de uma série como “Sex and the City – O Filme”, que estréia nesta sexta-feira no Brasil. Como estamos falando de comércio, não de arte, não há muito sentido em pedir para Hollywood jogar fora o livro de receitas, mexer em time que está ganhando.
Então a pergunta essencial passa a ser: a fórmula continua eficiente quando a duração passa dos menos de 30 minutos de um episódio para as quase duas horas e meia do filme, quando a tela vai da estreiteza da TV para a amplidão do multiplex? A resposta – deste blogueiro, pelo menos – é sim, a receita não desandou. O filme demora um tanto a engatar, é verdade, mas em pouco tempo as qualidades da série garantem um mínimo de interesse ao filme: a esperteza dos diálogos, o carisma das atrizes, a mensagem (pós? pseudo?) feminista, a discussão de assuntos sentimentais e sexuais pertinentes (em meio a futilidades, preconceitos e o incentivo brutal do consumo de luxo).
A opção pela continuidade, a recusa pela ruptura, fica evidente logo na abertura do filme, quando são relembradas como as quatro personagens principais (Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda) terminaram a série. E as situações essenciais da série estão todas lá no filme – a ponto de o site ReelzChannel fazer uma linha do tempo indicando em quais minutos elas aparecem. Segundo o site, a lista funciona como uma espécie de guia de sobrevivência para os homens que assistirem ao filme com as namoradas – que podem usar esses momentos para ir ao banheiro, por exemplo. As situações são divididas em quatro categorias principais: Conversa de Garotas, Momento de União Feminina, Momento de “Empoderamento” Feminino e Montagem. Mas há também categorias menores, como Reconciliação Dramática, Briga Sentimental e Nudez (Masculina ou Feminina).
Mas, afinal, não há nada de novo no filme além da série? Claro, alguma coisa há de existir para justificar um longa-metragem, em vez de uma nova temporada da série. Primeiro, há um novo personagem – Louise (Jennifer Hudson), assistente de Carrie - que traz momentos reais de frescor ao filme, com o diferencial de sua origem proletária, mas com dramas parecidos com os das protagonistas (sua realização se dá por uma proposta de casamento… e uma bolsa Louis Vitton ganha de presente).
Depois, o filme lança um olhar mais compreensivo para o sexo masculino. Afinal, as quatro entenderam que os homens são mesmo umas crianças inconseqüentes, que não conseguem evitar de enfiar o dedo na tomada dos relacionamentos de vez em quando; então melhor perdoá-los, porque eles não sabem o que fazem - atitude condescendente que inclui até Mr. Big.
Por fim, e mais importante, “Sex and the City – O Filme” é, de forma mais acentuada do que a série, um filme sobre a passagem do tempo. Isso fica patente de duas maneiras: na própria trama, que lida diretamente com a chegada de Carrie aos 40 e de Samantha aos 50; e na imagem das atrizes, com as marcas do tempo ampliadas pela tela grande. Como a série, o filme tem a virtude de encarar a questão de frente, seja nas conversas honestas sobre os conflitos da maturidade ou nas piadas sobre Botox. É por causa da franqueza e da auto-ironia que essas garotas continuam fabulosas.