Mito desconstruído
Por um lado, “Controle – A História de Ian Curtis”, que estréia nesta quinta-feira, segue a tendência hegemônica de cinebiografias recentes: a do mimetismo, ou tentativa de cópia, da realidade. Como aconteceu com “Ray” ou “Johnny & June”, o filme esforça-se por xerocar em película a estampa e a vida do biografado.
Para tanto, o diretor neozelandês Anton Corbjin escolheu um ator (Sam Riley) que não apenas se parece fisicamente com o vocalista da banda Joy Division, como também imita sua voz, tiques e trejeitos à perfeição. É como se, numa era em que as imagens originais são cada vez mais acessíveis, o público não pudesse aceitar como crível nada que não seja uma cópia perfeita.
Por outro lado, “Controle” vai na contracorrente da cinebiografia tradicional. Se a maioria delas tenta reforçar o mito do artista retratado, o filme de Corbjin faz de tudo para desconstruí-lo. Evita as armadilhas comuns ao gênero, como o trauma de infância, o vício em drogas, a redenção pelo amor – vide novamente “Ray” e “Johnny & June”.
Apesar de a vida de Curtis ser um prato cheio para o clichê do artista que brilha intensamente e apaga precocemente (ele se matou em 1980, com apenas 23 anos, no auge da curta carreira), Corbjin prefere mostrá-lo como um jovem comum, talvez apenas mais melancólico e talentoso que a média. Um sujeito que se casou, teve uma filha e foi obrigado a sustentar a família cedo demais, que sofria com ataques de epilepsia, que apaixonou-se por outra mulher, que traduziu a sensação de isolamento por meio da música com rara sensibilidade e que não conseguiu segurar a onda quando a barra pesou demais.
Uma pessoa especial, mas comum, é muito mais difícil de ser retratada do que um grande mito – e Corbjin se vira muito bem nessa tarefa. Sem contar que, com a prática de diretor de clipes, ele cria alguns dos números musicais mais empolgantes do cinema recente.





