Mais uma vez, peço perdão pela ausência de um par de dias. Days of being wild. Volto a aparecer por aqui para recomendar muitíssimo “Medos privados em lugares públicos”, o novo filme do mestre francês Alain Resnais, que estreou no Rio na semana passada e chega a São Paulo nesta sexta. Abaixo, reproduzo minha crítica do filme para a revista “Bravo!”:
Para quem associa o nome de Alain Resnais aos inovadores e intrincados experimentos narrativos de “Hiroshima, meu amor” (1959) e “O ano passado em Marienbad” (1961), o novo filme do mestre francês será uma surpresa. À primeira vista, “Medos privados em lugares públicos” (2006) é um trabalho acessível e até mesmo despretensioso, na linha dos mais recentes “Smoking/ No smoking” (1993) e “Amores Parisienses” (1997). Se levarmos em conta apenas a sinopse, estamos no confortável território da comédia romântica. Mas o filme é muito mais que isso.
“Medos privados” acompanha seis personagens à procura de um amor no inverno de Paris, com histórias afetivas que se entrelaçam como no poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. Charlotte cuida do pai doente do barman Lionel, que tem como cliente mais assíduo o ex-militar Dan, que vive uma crise em seu relacionamento com a namorada Nicole, que procura um apartamento com o agente imobiliário Thierry, que tem como irmã a solitária Gaëlle e sente-se atraído por sua colega Charlotte. E, assim, está fechada a ciranda amorosa do filme. Nos papéis principais, estão os atores preferidos de Resnais em sua fase mais recente: a sempre encantadora Sabine Azéma, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Laura Morante, André Dussollier e Isabelle Carré.
Como se trata de uma obra de Resnais, o cineasta substitui o otimismo primaveril da comédia romântica por um fatalismo invernal, em que as relações estão fadadas ao desencontro. Até mesmo o humor do filme está impregnado de uma certa melancolia, representada pela neve que cai constantemente sobre Paris e que aparece como uma espécie de vinheta em todas as transições de cena. Além disso, o filme tem uma sofisticação visual e uma qualidade geral de interpretação que o distanciam das comédias descartáveis recentes.
Ao final, descobre-se que a simplicidade de “Medos privados em lugares públicos” é ilusória e que o filme não está assim tão distante de “Hiroshima” ou “Marienbad”. Como naqueles clássicos, os personagens são assombrados por relações do passado e se revelam incapazes de se conectar por completo. Resnais apenas retoma seus temas preferenciais (o tempo, a memória, as relações amorosas) com ousadias formais mais discretas (que podem ser observadas, por exemplo, na linda cena em que parece nevar dentro do apartamento de Lionel). Como os personagens de “Medos privados”, os filmes de Resnais também formam uma ciranda. Aos 85 anos, o cineasta continua não apenas lúcido e coerente. Ele ainda é moderno.