Eu, Serginho Chulapa
Quando me convidei para escrever os primeiros textos sobre cinema para o NoMínimo nos idos de 2002 (sim, este é um texto confessional e laudatório; pode parar por aqui se o seu estômago ficou embrulhado), eu nunca tinha visto, ao vivo pelo menos, a cara de nenhuma das pessoas do site. Não tinha participado da experiência seminal do No. na época da bolha. Não havia freqüentado a histórica redação do “JB” dos 80. Nem do Rio, caramba, eu era, embora estivesse morando na cidade havia alguns meses. E, mesmo assim, fui chamado para me tornar colunista fixo, em um par de semanas. Até hoje, essa ainda é a maior prova, para mim, do espírito inclusivo, democrático, anti-panela e não-aristocrático do NoMínimo.
O convite fez bem a um ego combalido e deu prumo a uma carreira desnorteada. Eu decidi me reinventar como crítico de cinema – algo que já tinha experimentado em outras publicações, mas de forma pouco sistemática, quase diletante. Muita gente boa caiu no truque, dos editores aos leitores (nem todos: o Fabio Negro sempre soube que eu era um impostor; vocês deveriam ter dado mais atenção a ele, agora talvez seja tarde).
Sob o risco de ser acusado de falsa modéstia pelos desinformados, sempre tive plena consciência de qual foi meu grande trunfo no NoMínimo: a companhia dos outros colunistas me fez parecer melhor do que eu era. Se considerarmos apenas os Ricardos do site, fui o medalha de bronze – com o alto do pódio dividido pelo Kotscho e o Setti. Para uma metáfora esportiva mais precisa, diria que me senti como o Serginho Chulapa na seleção de 1982. Peladeiro deslocado em meio aos craques. Um jogador que fazia gols de canela, distribuía carrinhos e brigava com o juiz, na afobada tentativa de justificar sua presença em campo. Nem por isso fui recriminado pelos técnicos, jamais.
Os editores do NoMínimo trabalham com uma estranha premissa: se confiam no seu taco, eles te remuneram para escrever o que quiser (o que significa que os erros aqui cometidos foram só meus). Isso vai na contramão da média do jornalismo brasileiro atual – que acredita que um salário menor compensa um talento menor, que os profissionais devem seguir o padrão e a ideologia da casa. Aqui, mais de uma vez descobri que havia escrito algo negativo sobre um amigo dos editores. Meses mais tarde. E da boca de alguém de fora do site. Onde mais isso é possível?
Se você viu alguns filmes sobre jornalismo, deve imaginar como é uma redação: uma tensão constante no ar, jornalistas sempre em busca de um furo. A realidade é bem menos interessante: há gente enfadada por todos os lados, reclamando da profissão e da chefia em tempo quase integral. A redação do NoMínimo na ladeira da Glória, que freqüentei por um período curto, era diferente: quase não havia estresse ou tédio. Sou obrigado a confessar que muitas vezes eu me sentia contente de ir ao trabalho – o que é quase um pecado nessa profissão.
A razão era, claro, a turma do site. O NoMínimo era único por não haver ali naquela salinha uma só pessoa que não fosse especial, interessante, inteligente. E não estou falando apenas do “núcleo duro” da edição (Alfredo, Xico, Sérgio, Pedro, Ryff), mas também do grupo que nos dava sossego e estrutura para escrever (Anita, Elisângela, PA, Marcello, Paulinho). Se estes últimos botassem no ar metade das tiradas que soltavam ao longo do dia, o resultado seria tão saboroso quanto qualquer blog ou coluna do site. Além de tudo, todos sempre se mostraram muito compreensivos com minhas esquisitices: paulistano, vegetariano, meio caladão e admirador de filmes obscuros.
Se eu tivesse de destacar uma só pessoa nessa trajetória, mesmo correndo o risco de cometer uma injustiça com um projeto coletivo, teria que ser o Alfredo Ribeiro, o sujeito que me chamou para trabalhar aqui. Figura curiosíssima – ex-hippie de gostos sofisticados, bon vivant workaholic –, ele me ajudou a entender finalmente a hospitalidade do carioca e me fez gostar ainda mais do Rio no tempo que passei lá. Hoje o cara e a cidade se confundem um pouco na minha cabeça. Eu só me permito puxar o saco do patrão assim descaradamente porque ele deixará de sê-lo em alguns dias – e também porque nunca o enxerguei apenas como um chefe.
Por alguns anos, Alfredo e a turma do NoMínimo me permitiram fazer algo cada vez mais raro: ser feliz na profissão e pagar as contas – ao mesmo tempo! E o pior é que a experiência me deixou mimado, com vontade de prolongar esse luxo para o resto da minha carreira. Se possível, na companhia dos amigos do site. Espero, torço e até tramo para que as pessoas daqui continuem trabalhando juntas. E também para que eu seja novamente convocado, apesar das caneladas. Até o Serginho Chulapa merece uma segunda chance.

Grande Calil,
Se você é o Chulapa, eu sou o Perivaldo.
Abs
p.s. O Sérgio é o Careca! ;-)
Calil. Boa Sorte.
Não conhecia o teu trabalho antes do No Mínimo, mas achei que tu fosse um dos “cobras” mais conhecidos do site, a julgar pelo tua coluna. Bom, continuo achando.
chulapa? para ficar na posição tá mais para Jairzinho ou Careca, que droga que este se contundiu e não estava no time de 82…Publicou textos e praticou uma ética e sentido na critica fundamental nestes tempos, Calil. Esta história não para aqui não, renho certeza…
Ei, vamos combinar?:
Acho que você tem todo o direito de gostar do que você diz gostar e não gostar das coisas que você diz não gostar.
Mas não parece que você sente tesão e pior, não parece que você pensa o que diz. Em vez de dar a sua opinião você monta um cenário de conjunturas e conjecturas e antes de dar uma opinião pessoal ou uma conclusão… vem o ponto final.
Esse JEITO de (não) dizer me aperta os bagos.
Como disse Jesus: “vomitar-te-ei da minha boca porquê não és nem frio nem quente, mas morno”
Admito que você se empolga e “aquece” a sua escrita quando fala de televisão, assunto que não me interessa por qualquer que seja a razão, mas que a quantidade de comentários construtivos mostra agradar bastante..
Invista nisso, Calil!
Mas eu digo que espero que você tenha sucesso verdadeiro, prazer verdadeiro e reconhecimento verdadeiro nas coisas que você tem feito e vai fazer.
Vamos apertar as mãos?
(Alugue o box Duro de Matar e tenha a coragem de gostar pelo menos da incrível persona criada pelo Bruce Willis. não há personagem semelhante a surgir antes dele)
qua bacana, cara
De todas a minha favorita sempre foi a sua, seguida da do Xico Sá, figura!
Sentirei muita falta, não acredito que está acabando.
Odeio fins. Odeio!!
Pra “Sewer-rat” vc é bom… Belo texto e parabéns.
Saga mallfadada de ter que na última semana de no mínimo, sair poraí lendo os caras que por bons anos narraram (jornalisticamente, literariamente, cinefolamente) o cotidiano da vida desse mundiculo, se debruçando em tons confessionais.
eu que espreitava vocês no silêncio, agora me sinto na obrigação do “inté”.
tem quem aguente, eu não!
não some, cara!
Calil é um tremendo mentiroso.
“Decidi me reinventar como crítico de cinema” uma pinóia. O cara já era crítico de cinema, dos bons, há muito tempo.
O que não quer dizer que em No Mínimo não tenha crescido pra burro. “O Calii tá escrevendo cada vez melhor” era uma frase que aparecia em toda conversa que eu tenho tido nos últimos anos com o amigo em comum Armando.
Boa sorte rapá, pra vc por Ryff e para todo o pessoal do site. Ouvi dizer por aí que parece ter pintado uma luz no fim do túnel. Espero ser verdade.
Abração,
Murilo
Nos últimos (não sei quantos) anos, vinha quase que diariamente ao saite de Nominimo para ler, nesta ordem, os posts de Tutty Vasques, Ricardo Calil, Paulo Roberto Pires, Luiz Antonio Ryff, Pedro Doria, Sergio Rodrigues e Zuenir Ventura. Nunca gostei dos textos de Xico Sá, sempre inflamados como um líder estudantil de 2º grau que vota (ou votaria, se tivesse mais de 16 anos) em Heloísa Helena. De qualquer forma, este longo post é para declarar minha tristeza e desilusão de saber que o nomínimo deixará de existir dentro de tão pouco tempo. Pra mim, este site corresponde(u?) ao que de melhor a imprensa (em papel ou não) produziu nos últimos tempos. Certamente ficarei menos informado a partir de agora e terei que apelar para a leitura de Veja e de outras fontes de informação menos divertidas, menos críticas e mais viciadas. Obrigado!
Calil, sei que o post sobre grandes finais era o anterior. Mas, pq acho que tem a ver, lembro os meus aqui.
Vc falou do antes do pôr-do-sol. Prefiro o de antes do amanhecer. Partiram os amantes, e a câmera registra os locais, agora desertos, pelos quais eles passaram a noite. A sensação é ambígua. O espaço é o mesmo, belo, intocado. MAs o tempo já é outro. Já pertence ao campo do que foi, do que poderia ter sido. Não mais do que é. Acho que me tocou muito pois é exatamente como me sinto quando revisito os locais em que fui feliz. Parece-me quase indecente sua existência continuada, pq pra mim eles já não são mais.
Foi anos depois que assisti ao último filme do Ozu. O pai viúvo se recolhe para o quarto depois de ter casado a filha única. E a câmera, aí também, passeia pelos cômodos vazios (numa sucessão de planos estáticos) em tom de despedida.
Bacana o texto.
Quando o Serginho Chulapa chutou o juiz eu briguei com deus e todo mundo, afirmando que ele não tinha chutado, não. Até meu pai, mais sãopaulino do que eu, disse que eu estava errada, que ele tinha chutado, sim. Briguei com meu pai.
É o seguinte: você não sai, não. Senta aí e continua escrevendo. Você se finge de morto e eu finjo que não tô vendo. Fica quieto aí.
É! Parece-me uma boa notícia para quem quer tornar possíveis certas utopias utópicas.
Esse foi o melhor texto que você já escreveu! Ok, não sei bem se isso é um elogio, mas gostei muito de saber mais sobre o que você pensa além de filmes…
Calil, um crítico que não critica a si mesmo é um idiota. Por isso tu ainda é um bom crítico. E esse texto é a prova disso: que você tem seus momentos de vigor literário, e o crítico deveria ser apenas um cronista que se inspira na cinematografia.
Eu acho que tu teve alguns momentos fracos, mas eu ainda te devo uma. Decidi assistir “O Céu de Suely” depois de ter lido seu texto, e quando tive a chance de fazê-lo, valeu a pena cada segundo.
Calil, acalme-se! Vocês todos escrevem coisas deliciosas de serem lidas. Eu não conheço pessoalmente os ‘integrantes’ do site, exceto o Marcello, que realmente dá muito sossego a qualquer um! Mas se são todos maravilhosos – como você diz e eu acredito -, não há motivos para seus “sonhos” não se realizarem… afinal, por mais que a vida nos pregue peças, coisas bacanas sempre acontecem com pessoas bacanas! ;o)
Calil, acalme-se! Vocês todos escrevem coisas deliciosas de serem lidas. Eu não conheço pessoalmente os ‘integrantes’ do site, exceto o Marcello, que realmente dá muito sossego a qualquer um! Mas se são todos maravilhosos – como você diz e eu acredito -, não há motivos para seus “sonhos” não se realizarem… afinal, por mais que a vida nos pregue peças, coisas bacanas sempre acontecem com pessoas bacanas! ;o)
Calil, depois te tentar acompanhar o trabalho de vários críticos de cinema (até para os críticos aqui de brasília eu dei chance!) eu só consegui ter uma compatibilidade de opiniões aqui na sua coluna. E isso já muita coisa pra mim.
Parabéns pelo trabalho
um abraço