“Star wars” é uma balzaca
O filme não deveria fazer o que fez – nada deveria. Filmes são feitos para ficar na tela, planos e amplos e coloridos, seqüestrando você com seu arrastão de imagens e devolvendo-o para sua vida no final. Mas aquele filme comportou-se mal. ‘Star wars’ vazou para fora dos cinemas, transbordou das telas. Muitas pessoas foram profundamente afetadas por ele, exigindo talismãs e artefatos, merchandising e seqüências.
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A data oficial de estréia foi 25 de maio de 1977, mas os barulhos trovejantes da chegada do asteróide e da intervenção na Estrela da Morte começaram muitos dias antes. Não era como uma estréia de cinema; era como um terremoto. A cada dia que o lançamento se aproximava, um novo sinal aparecia: um apito de cachorro não-audível para o ouvido humano, mas que foi escutado por viciados em ficção-científica do mundo todo, gerando uma animação na atmosfera parecida com eletricidade. Ela crepitou perto dos cinemas. Zumbiu sobre minha cabeça. Não sei como começou; tudo que sei é que, de repente, estava em todo lugar. Foi percebida primeiro pela nova ordem de nerds, jovens entusiasmados com sacos de dormir. “A coisa” estava se aproximando, e eles queriam experimentá-la primeiro: sentar no escuro, com a sombra e a luz das batalhas espaciais iluminando seus rostos fascinados. E eles voltaram muitas e muitas vezes.
Assim Carrie Fischer, a Princesa Léa, descreveu algum tempo atrás a estréia de “Star wars” para uma reportagem especial da revista “Time” sobre os “80 dias que mudaram o mundo”. Daqui a duas semanas, aquele dia completa 30 anos. E todos nós sabemos o que aconteceu nesse meio tempo: para o bem e para o mal, “Star wars” redefiniu o negócio do cinema e deixou-o com a cara que ele tem hoje.
Está tudo lá em uma matéria da “Variety”: George Lucas criou o conceito do “blockbuster” de verão (e suas seqüências); enxergou a mina de ouro do merchandising de produtos (que, no caso da franquia, já rendeu US$ 20 bilhões de faturamento); inventou o marketing direcionado a um público-alvo (ao mostrar slides do primeiro filme em convenções de quadrinhos); tornou o cinema americano um entretenimento essencialmente juvenil; iniciou a explosão dos filmes de ficção-científica dos anos 80; levou os efeitos especiais e sonoros a um novo patamar de qualidade e assim por diante.
Mais importante que tudo isso, “Star wars” tornou-se uma subcultura de enorme impacto e influência, com personagens e arquétipos, armas e expressões que ficaram entranhados no imaginário coletivo mundial. A maior prova é o fato de a série ter uma enciclopédia online própria: o Wookieepedia, com a espantosa quantidade de 48 mil artigos (um quinto do total de verbetes em português da Wikipedia).
Agora vem a grande questão: como “Star wars”, o original, resiste à prova do tempo, agora que se tornou uma balzaquiana? Em termos tecnológicos, a produção até que se segura bem. De resto, é curioso notar como esse filme – que, para muitos, é o símbolo mais nocivo do lixo hollywoodiano – parece hoje um entretenimento tão inofensivo quanto um “Flash Gordon” ou um “Buck Rogers” deviam soar em 77.
